28 de janeiro de 2008

Luzes de ontem e de hoje




Silêncio.

Como quando falha a electricidade e tudo se cala, e se procuram as velas para que não caia tudo na escuridão. Não se ouve a energia a correr pelas artérias da casa. Não se ouve a televisão, o frigorífico. O que ouço é aquele wíííííííím que permanece nos ouvidos. Ou talvez seja um som que os cérebros citadinos imaginam para preencher o vazio inesperado. Para evitar o pavor de termos de nos ouvir de repente a nós próprios.

Calma.

Como quando a respiração abranda tanto que nem se dá por ela, como se se tornasse dispensável. Os movimentos tornam-se lentos, harmoniosos, e apenas para realizar objectivos prementes, que não os há. Nada digo, porque não é preciso, e na verdade ninguém estaria para escutar. Como na história da árvore que cai no meio da floresta e não posso garantir que fez estrondo porque não estava lá para ouvir. Porquê? Não o sei.

Penso nas estrelas do meu céu. Luzes que já se apagaram lá no sítio que ocupavam. Já brilharam, já ofuscaram, e acabaram por explodir. Ou então, contrariando a lógica científica que aprendi, foram morar para outro lado. Não sei... não estava lá para ver. Porquê? Também não sei.
E também não sei o que deixaram nos seus lugares. É muito menos do que nada, com certeza. O nada é o zero, não aquece nem arrefece. Mas são lugares cuja simples recordação traz gelo e corta a respiração. Aperta o peito. Faz crescer uma bola no fundo da garganta.
São buracos mais escuros do que o simples negro. São faróis de breu que atraem os barcos para as rochas.

Essas estrelas reluzem em mim e reluzirão por muito tempo, porque a luz é muito veloz, mas as distâncias a percorrer são enormes. Elas já se foram embora, mas continuam a ser o referencial porque a luz continua a vir. Luz do passado.
O aqui e o aí são tão longe um do outro que acabam por viver em diferentes coordenadas espaço/tempo. E afastam-se à deriva enquanto estou calmo e em silêncio, sem nada poder fazer para o impedir.
*

Sou mais um gato pardo que quebra o silêncio
de alguém diferente em cada noite escura
Até que os pés cheguem ao chão
Sou a corda que segura
Sou aquele que vai à frente e alumia duas vezes
só até à primeira encruzilhada.
Sou o outro
O que relembra a pessoa realmente amada
Sou um tudo de segundos, dispersos
No desde sempre de quase nada
Do cântaro que se partirá, sou a asa
Já esquecida ao pé da fonte
Sou o filho pródigo que não volta a casa
O bandido que anda a monte
Sou um papel dobrado em 8 debaixo da mesa
Para que não fique bamba
Sou a lamparina que, no meio do túnel, ainda acesa
dá luz a outra lamparina qualquer
mesmo antes de se apagar...

11 de janeiro de 2008

Realidade em dois tempos

Bati de contra a espuma. Arrastei-me por ali. Àquela mistura de água do mar e gás dá a natureza o nome de espuma e os garotos o nome de leite. Escorre por detrás das orelhas e enche o ouvido. Os dois.Tento não a deixar entrar pelas narinas, pois não sou eu que vou contrariar milhões de anos de evolução. Se escolhemos que fossem trocas gasosas, eu alinho! Levanto lentamente a cabeça e o leite vai desaparecendo. Leite mágico. Tenho de tentar compreender isto pois agora só água vejo.

Aqui e ali exespero por explicações simples, daquelas que convençam uma criança. Se conseguirmos convencer uma criança, então por certo acertámos. Dizem que as crianças não mentem. A pessoa com mais poder neste mundo talvez seja aquele senhor que consegue explicar a uma determinada criança o porque daquele brinquedo ser melhor.

Cara criança, analisando de perto as suas necessidades, concluo que o dinossauro mega blástico ser-lhe-à mais útil que a gárgula alada. O dinossauro mega blástico pelo sua disponibilidade de cores e funções adicionais será uma escolha mais inteligente, mesmo tendo em conta o maior esforço financeiro inicial com a sua aquisição.

O seu pai, na esperança de lhe proporcinar uma maior segurança em viagem, comprou uma super auto van especial, com 300 cavalos e com tudo o que há de mais inovador em segurança passiva e activa. A escolha entre uma condução mais atenta e as suas exigências em chegar o mais depressa possível ao destino foi óbvia. O seu pai obviamente preocupa-se consigo, pois em situação de acidente, tem ao dispor tudo o que a nossa tecnologia tem de melhor. Também não servirá de mortal projéctil em caso de embate pois está confortavelmente acomudado na mais segura cadeirinha de bébé. Esta cadeirinha resistiu a testes na lua e nos anéis exteriores de saturno. Mais uma vez, estas escolhas pediram por um maior esforço por parte dos seus pais mas, um dia, dar-lhes-à razão.

Ao celebrar o seu 3º aniversário, os seus pais proporcionam-lhe o necessário espaço para evoluir. Por certo estará feliz. Agora só tem de perder uns instantes antes de disfrutar deste telemóvel. Pré-programado com 10 números de amiguinhos seus, e quem sabe a sua mais que tudo, este aparelho permite-lhe fazer filmes em alta definição e tirar cerca de 200 fotos em formato perfeito. Já não vai mais ter de pedir à educadora para que ligue para que o seu pai o venha buscar. Será popular na sala dos 4 anos mesmo antes de lá chegar.

Este tipo sim. Ele proporciona bem estar, ele emancipa, ele sabe. Numa palavra só, ele é feliz. Estas etapas vão estar escritas, impressas como linhas guia da nossa vida. A evolução será o neo natal. Esse será o próximo mercado, proporcionar o bem estar mesmo antes de se ter nascido, programando tudo, para que não tenhamos de escolher.

Vamos ter um GOLD standart social, um APACHE de conduta e um TIMI da evolução. Como facilmente se percebe, não cumprindo estas linhas orientadoras, a sobrevivência está comprometida. A vivência vai ser feita em resevas, para pessoas que insistem em que a espuma do mar sempre é leite. Vivem, mas não são felizes.


*

Finalmente anoitece. Antes que me aperceba já tenho mesmo de me ir embora. Já saí. Comprei algumas coisas muito ao acaso que estavam pelas parteleiras do supermercado. Não sei se este acaso me proporciona uma refeição mas, como os grandes inventos, também o meu jantar será fenomenal. Eu até te queria era pedir para não ir, hoje preciso de mim. Venho exausto e preciso de descansar. Preciso de saber que entre o melhor dos dois mundos que não posso ter, hoje escolho aquele que nunca tenho. Amanhã já saberá melhor. Chego cansado, com aquele suor desconfortável de quem se agasalhou mais do que devia e com um saco de banda, pois a alsa não aguentou a minha escolha perfeitamente aleatória. Queria-me dizer o quanto estou bem agora a roer uma bolacha Maria e sentindo uns leves espasmos nas costas.
Ah, este maldito hábito de ligar a televisão logo que se chega a casa não tem de acabar. Não acendo um cigarro. Não bebo um copo, talvez um whisky com 2 pedras de gelo. A minha escolha recai por uma lata de cajus, de abertura fácil, não estou para grandes aventuras! Depois duma bolacha Maria o que me apetece são uns cajus. Penso mais uma vez naquilo que tenho para fazer amanhã e não vou fazer. Riu baixinho e rápido, com um estalar de dedos: que se lixe! Há tanta coisa que ainda vou fazer e que o mundo não sabe.
Volto-me para o lado. Entornei os cajus. Assim não corro o risco de me curtar na lata, não estando eu hoje para aventuras. À porta de mim hoje está um sinal de não incomodar, pintadinho de fresco. Oiço o serviço de quartos da minha vida a mandar vir porque queria entrar para fazer a cama. Riu-me baixinho e rápido estalando os dedos. Que se lixe mesmo, hoje não vou abrir.
Esfrego os pés no cobertor com vigor. Penso na quantidade de energia que perco na forma de calor e em toda a energia potêncial que não vai por certo se transformar em cinética. Ah, se ao ao menos estivesse num sistema fechado!

28 de novembro de 2007

Perturbação Humorística #2



IRC mode on

[STP] - Nem tudo o que parece é, não é Rui? É sempre melhor olhar duas vezes para uma banana inofensiva!

[Hartman] - Para isso e para as atitudes e gestos que as mulheres possam ter, pois nem sempre são o que parecem à primeira vista... e por falar em olhar duas vezes, se o corpo for agradável é de facto uma acção a tomar!

[STP] - Pfff... mesmo que não seja agradável olha-se duas vezes. O que não quer dizer que não se leve uma facada à mesma!

[Hartman] - Bah. Menino. Lá porque já só tens um dos intestinos e metade do fígado...

[STP] - Cicatrizes de guerra sempre deram charme. Fuckin' vietcongs!

[Hartman] - Por entre mortos e feridos, alguma há de se papar


[STP] - LOOOOOOL!


[STP] -
Subscreve-se a visita ao seguinte link:
http://lawboyucp.deviantart.com/journal/15683824/#journal
Implicações do texto do link ao presente post ficam por vossa própria conta e risco!



IRC mode off




20 de novembro de 2007

Tetris 8 - Tão a Solo...


Não podia ter escolhido pior dia para dar um passeio à noite. O barulho que a chuva fazia na clarabóia do meu prédio não ficaria nada a dever ao ruído de uma enorme cascata. Ainda assim, achei que os ares da noite me haviam de fazer bem; não conseguia dormir com o som da chuva lá fora, e por isso decidi ir ter com ela. Nem sempre estou de acordo convosco, que acham que é a melhor música para adormecer. Não hoje. Não às duas e tal da manhã.
A luz amarela dos candeeiros empasta os prédios, os carros, os contentores do lixo... e cria uma atmosfera de solidão cinematográfica. Aqui e ali ouve-se, vez ou outra, o patinhar encharcado de algum cão que ainda não encontrara abrigo. Quanto a mim, mantenho-me na esquina de um prédio, com a protecção da varanda de um primeiro andar, e uma fila ininterrupta de gotas gordas cai lá de cima, passa a menos de meio centímetro do meu nariz - sinto-lhe o vento nos lábios... - e vai explodir nas pedras da calçada, humedecendo aos poucos as baínhas mal feitas das minhas calças de ganga. Poderia dizer que são umas jeans, dando aqueles ares de escritor maduro que teve as primeiras calças de ganga aos 18 anos. São bonitas, as minhas jeans. Talvez as tenha comprado para disfarçar de mim mesmo o que quer que haja dentro de mim que não sinta que é tão bonito assim. É uma frase complicada.
E este fumo que sai da minha boca e que invade a noite que chora, podia ser de um cigarro. Mas é apenas vapor de água que não se consegue esconder no ar saturado de humidade. Mesmo assim, junto aos meus pés, junto à explosão das gotas gordas que vêm do prédio que me abriga, encontram-se dezenas, talvez centenas de beatas. Deixaram-nas ali abandonadas quando perderam a luz, e como se deus quisesse ter a certeza de que não se tornavam a acender, fez-lhes desabar mesmo em cima uma enorme torrente de água.

Talvez já alguém ali tivesse estado antes de mim.
Talvez me fizesse bem avançar uns passos para o meio da rua e ser atingido em cheio na cara pela água fragmentada que cai lá de cima. Seria uma novidade se a água caísse de baixo ... Seja como for, estou demasiado apático para tal, e deixo-me estar bem seguro debaixo do meu abrigo.
Lembro-me que há uns bons 15 anos passei nesta mesma rua - no meio da estrada - por volta das 16h, vindo de uma aula qualquer, e começou a desabar a maior tempestade de granizo que já vi até hoje. Mas vinha armado em triste, numa daquelas alturas em que, na adolescência, temos a mania que somos melancólicos e resolvemos dar uma de auto-castigadores, quando na verdade somos muito felizes e nem o sabemos. E como vinha armado em auto-castigador, resolvi não me abrigar do granizo, e até me dei ao luxo de abrandar o passo, apesar de qualquer um dos fragmentos que caiam ter o potencial de me abrir a cabeça, ou, como se diz na gíria, de causar um traumatismo craniano. Cheguei a casa com as orelhas avermelhadas e a arder, com o raspar das pedras de gelo que me pouparam a cabeça propriamente dita. Só me lembrei disto muito mais tarde, quando já estava convencido há muito tempo de que tinha uma fada madrinha que olhava por mim, e quando o fiz, tal recordação tão só se me afigurou como mais uma prova que apoia a sua existência.
Mas hoje não me apetece dar trabalho à minha fada madrinha.
O cheiro que emana dos caixotes do lixo empresta à noite um hálito adocicado de cascas de laranja, arrancadas do fruto há algumas horas. É interessante... os cheiros nunca são dados, apenas emprestados. Até o cheiro de alguém de quem gostamos muito só é nosso enquanto esse alguém não se vai embora - só enquando o sentimos. Depois, esse alguém vai-se embora, e o cheiro fica emprestado apenas durante algum tempo. Pode ficar mais uns dias na nossa roupa, ou duas ou três noites mais na nossa cama se não mudarmos os lençóis; mas vai desvanecendo devagarinho, vai-se transformando numa nuvenzinha cada vez mais fininha que entra pelo nosso nariz e se entranha nas profundezas do nosso cérebro como quem não quer a coisa, e ali fica, bem enquistado o cheirinho num qualquer centro nervoso de memória olfactiva, conseguindo até que finjamos que nos esqueçamos dele. E quando menos esperarmos, sentimos de novo esse perfume na rua, numa casa, nas roupas de alguém, nem que seja só uma miragem olfactiva ou uma alucinação, e eis que essa nuvenzinha enquistada rebenta com o nosso cérebro, inundando-nos de todas as saudades e sensações dolorosas que lhe vieram pegadas. Porque os cheiros também podem ter destas coisas: são pegajosos - como algodão doce - a tudo o que é memória relacionada, e são autênticas bombas relógio sem ponteiros nem dígitos. É como quando abrimos aquelas caixas de onde salta uma mola com um palhaço e faz BOOOINGGG! e mesmo estando fartos de saber o que vai acontecer, assustamo-nos sempre com uma vertigem na barriga e um suster de respiração. Pode até acontecer que essa bomba só rebente quando o relógio já nem tiver ponteiros nem dígitos, mas uns símbolos quaisquer que marquem o tempo no futuro, numa altura em que somos velhinhos e nem o nosso próprio cheiro é o mesmo, nem o da pessoa de que gostamos, que se deita todas as noites ao nosso lado desde o momento em que voltou após se ter ido embora daquela vez e apenas ter deixado a memória do seu cheiro.

Agora aparecem no meio da chuva e do hálito nocturno a cascas de laranja os homens do lixo.
Há duas noites estava parado no meio do trânsito, porque lá à frente estavam os homens do lixo a despejar aqueles contentores subterrâneos com um camião que tinha uma enorme grua. A tarefa demorou alguns minutos, tantos que rodei a chave e desliguei o motor. Na altura não chovia, e portanto os homens demoraram o tempo que quiseram; e eu estava acompanhado - havia alguém ao meu lado - mas ambos ficámos calados à espera que a fila de automóveis com os seus stops vermelhos, explosivos, se pusesse finalmente em movimento. Havia um silêncio muito intenso naquele carro, tão alto que quase não me deixava ouvir os guinchos da grua, lá à frente, a sacudir os contentores do lixo para dentro do camião. Desejei que a grua viesse e despejasse também a minha cabeça de todo o lixo que cá tem, e que já não cheira a laranja descascada há algumas horas. Apesar de acompanhado, acho que nunca na vida me senti tão a solo.

Mas hoje os homens do lixo vêm a correr por causa da chuva. Ouve-se uma travagem algo brusca que separa da estrada uma onda de partículas de água mesmo à minha frente, mas antes disso já os homens saltaram da parte de trás do camião e se precipitaram para os contentores do lixo. A rua é invadida por uma rave de luz laranja intermitente; e como a pressa é inimiga da perfeição, salta um saco - do Pingo Doce - cheio de lixo de um dos contentores, e vem a rebolar até mim até descruzar as suas asas e se abrir a meio metro dos meus pés, enquanto os homens assobiaram, as suas mãos se agarraram aos varões, e o camião já arrancou para esvaziar a vila do resto da sua podridão.
Vejo agora, no meio de uma poça de água no chão, um monte de cascas de laranja, duas embalagens de iogurte Yoplait, e aquilo que parecia ser um embrulho de pastelaria com dois ou três bolos bolorentos, entre outras coisas. Aquelas cascas de laranja podiam ter sido aproveitadas para fazer fruta cristalizada, para pôr num bolo rei. O Natal até está à porta...
E talvez alguma criança conseguisse construir um telefone artesanal com as embalagens de iogurte e com o cordel do embrulho.
Mas isto é a minha alma de eterno reparador de causas perdidas a falar. Na verdade, é apenas lixo.
Lixo que nem os homens do lixo quiseram.

5 de novembro de 2007

Perturbação humorística - 1



A pedido de algumas famílias, decidi publicar esta tira de comics. Ri-me imenso com ela quando a vi a primeira vez, há já muitos meses, e hoje revi-a por culpa do meu amigo Rui. Só para que não digam que agora só me debruço sobre temáticas tristes e filosofias deprimentes de vida.

31 de outubro de 2007

Colisões


Como chocolate tal como os meus dentes me permitem. Fecho o maxilar só até metade e, mal os dentes tocam no meio quadradinho que pus na boca, parece que desisto, e torno a abri-lo. Depois insisto repetidamente, devagar, como se fossem ondas pequeninas que batem num pontão, devagar, devagar. Entretanto, vou destruindo os bocadinhos que se desprendem, empurrando-os com a ponta da língua contra o céu da boca. Estes actos demoram eternidades; e tudo isto tem o sentido de breves segundos de sabor doce.

Quando como chocolate, dá-me para pensar em coisas profundas que, como profundas que são, não têm qualquer interesse prático. São apenas sínteses de sínteses já feitas por toda a gente no mundo, e que de tão escoadas e escorridas e decantadas, tomam a forma de provérbios ou frases feitas. Faz-me lembrar aquelas essências de frutas dos iorgurtes ou dos gelados, que de tão essenciais que são, não trazem os complementos, os acessórios, enfim, tudo aquilo que dá contexto e propósito de existência, e que à primeira vista não tem qualquer relação.

Estive a pensar nos átomos, tão pequeninos, e na forma como se relacionam uns com os outros. Andam na sua vidinha atarefada de cirandar de um lado para o outro, velozes relativamente ao seu tamanho. Uns são maiores que outros, e uns movem-se mais devagar que outros. Alguns têm muita energia e uma enorme vontade de interagir, outros são praticamente inertes. E depois chocam uns com os outros do nada. Apenas porque o tempo e o espaço coincidem, ou então porque Deus quis; permito que escolham a concepção que mais vos aprouver. Chocam, e depois normalmente vão cada um para seu lado. Ou então têm a energia, velocidade, trajectória e reactividade certas, e estabelecem uma ligação mais ou menos forte, mais ou menos estável, mais ou menos duradoura. Até que venha um outro átomo mais afoito que choque contra essa irmandade e teste a sua segurança. Pode até dar-se o caso de haver uma substituição de um átomo por outro. Ou talvez não. Mas haverá sempre mais e mais choques, até porque os átomos são muitos e vivem para sempre.

Na vida humana macroscópica, entre tantos e tantos milhões de pessoas que existem, também há choques, uniões e rupturas. E eu até dava muita importância ao facto de achar que havia factores específicos que determinavam quais os encontros que podiam haver entre as pessoas. Acho que agora penso que são tantas as variáveis, e as pessoas andam tão depressa e em raios de movimento tão grandes, que fui obrigado a concordar que o acaso tem uma grande palavra a dizer. Uma assim com muitas letras, bem profunda. Talvez esses factores sejam então importantes para definir qual o outcome dessas colisões. Ou então nem isso.
No caso dos átomos, muito depende da energia, da trajectória, mas essencialmente, de "quem" são esses átomos. E no caso das pessoas não é assim? A diferença está talvez no tempo. Os átomos chocam, e passado pequeníssimas fracções de segundo ficamos a saber se se ligam ou não. Na verdade, uma análise à tabela periódica pode ajudar a saber com antecedência se eles realmente casam ou não. No caso das pessoas, só se lermos as revistas é que sabemos se nas novelas elas casam ou se separam, e se os encontros são produtivos ou não. Não acredito nos signos, nos horóscopos, nas pessoas que predizem o futuro. Não acredito nas poções de amor, que dobram as leis da física, de Deus, da sociologia ou sei lá mais o quê, a nosso favor. Também não há tabela periódica que nos ajude, porque só há perto de duas centenas de átomos diferentes, mas no caso das pessoas nem vale a pena pensar em classificações.
Se juntarmos uns átomozinhos de Oxigénio com uns de Hidrogénio e aproximarmos uma faísca, sabemos de certeza que o resultado é água. No caso dos humanos, talvez prever situação semelhante só seja possível no caso de eliminarmos alguns graus de liberdade, como o caso de juntarmos algumas pessoas numa casa durante muito tempo, até que algumas delas se liguem, a la Big Brother, com faísca ou sem faísca metida ao barulho. Talvez porque não tenham outra escolha. As pessoas conseguem ser ao mesmo tempo imprevisíveis, e todas iguais.

Nos últimos tempos, cheguei a uma conclusão que considero surpreendente, dada a minha personalidade tendencialmente vocacionada para a ciência. Não tenho convicção religiosa, nem acredito no destino... mas às vezes parece que há coisas que acontecem, que não estão directamente relacionadas com nada, mas que se pensar bem, até consigo perceber que me podem ajudar a tomar decisões em relação às minhas "colisões". Como se fossem indícios que empurrassem gentilmente, docemente, a minha trajectória, para que não vá colidir com alguém, ou para que vá colidir com outra pessoa. Claro que esses indícios só o são se a minha interpretação fortemente imaginativa assim o decidir. Mas ainda assim, creio que que ela faz parte de Deus - do Meu Deus.

Nas minhas colisões por esse mundo fora, aprendi a dar tanta importância aos pormenores do que à essência. É importante não estreitar a visão apenas para o que está à minha frente. Se o fizer, poderei transformar-me num cavalo, com 3 ou 4 pessoas em cima de mim, e olhar apenas para uma cenoura pendurada no extremo da linha de uma cana de pesca. E também acho que a variável tempo, nessas colisões, está muito sobrevalorizada. Já percebi que a energia das uniões não é directamente proporcional ao tempo decorrido, e, em boa verdade, não tenho paciência para esperar. É preciso estar também atento à faísca. Talvez ela não seja só um pormenor.
*

Vou comendo mais chocolate, esquecendo-me do quão precários estão os meus dentes. Os movimentos vão-se tornando mais amplos, mais fortes, e as colisões mais violentas, e sinto uma enorme vontade de ser bruto para obter um sabor mais intenso, mais enérgico, instantâneo. Pena que dure pouco tempo e acabe por doer bastante.

24 de outubro de 2007

Oferece-me um Presente!


Cada dia se apresenta à meia noite escondido num belo papel de embrulho, cheio de bonequinhos, promessas e potencialidades.

Quando eu era mais novinho sentia-me mal a rasgar o papel das prendas; acho que era porque pensava que se o fizesse estaria a mostrar à pessoa que me ofereceu a prenda que não ligava muito ao gesto; ou então era mesmo porque tinha pena do papel. Os outros miúdos rasgavam as prendas, eu retirava-as dos embrulhos.

Cada dia demora em média 18 horas a desembrulhar e viver. O período de sono REM aproveito-o para sonhar, que é como quem diz, imaginar o que o dia a seguir - que é uma dádiva - me trará. É como um agitar do presente ainda encarcerado, encostado à cabeça, para tentar ouvir o que está lá dentro. Imagino o que as pessoas me dirão, ou então reescrevo os diálogos e as cenas do enredo do dia seguinte para que me sejam mais agradáveis. Mais favoráveis. Memoráveis. É meter dentro do embrulho, com a imaginação, aquilo que queria que o futuro me oferecesse, sem rasgar o papel. Às vezes sonho com presentes que ainda estão muito no futuro, mas que ainda não chegou o dia deles. Às vezes isso não é bom, porque quando chegam raramente podem competir com o sonho.
E também às vezes sonho com presentes que já lá vão há muito. Gostava de poder dizer que é muito melhor quando isso acontece. Apetece dizer que é como vasculhar no caixote do lixo, onde está o papel todo rasgado, à procura do presente que perdi para sempre para o passado.

O sono não REM, esse, passo-o a recuperar do dia que passou. Do presente que abri e que, regra geral, não me satisfez completamente. Muito, pouco, ou nada? Nunca tudo. Também era complicado agradar-me, confesso. Por um lado, desculpa que te diga, Futuro, mas que belas prendas me têm saído! Já vi melhores dias! E por outro é difícil apreciá-los com todo este papel rasgado a prender-me os pés - estes bocadinhos de desilusão que escondiam uma ilusão qualquer. Mesmo assim agradeço-te que continues a tentar.
O Futuro que me desculpe se eu rasgo o papel de embrulho. É que cresci um bocado entretanto.

O presente do amanhã eclodirá como um ovo de tartaruga, e depois caminhará instintivamente até se extinguir num segundo abraço dos ponteiros do relógio. Mas nunca na mesma praia, e nem a horas certas: às vezes é às 7, outras às 9, outras à hora do almoço, seja lá o que isso for. Daqui se percebe que às vezes demoro muito a abrir o papel de embrulho - não que o tempo do desembrulho seja proporcional ao tamanho do embrulho - e depois restam-me poucas horas para sonhar com o próximo, que não se vai fazer esperar.

Todo eu estou coberto de bocados de fita-cola, e os meus passos têm o som de cascas de ovos partidas.

1 de outubro de 2007

Killing Me Softly - parte 2

Não há ses
"O passado é o que foi, com comos, quandos e porquês. Os ses são no presente, com vista ao futuro."
Já sei que me vais dizer que o bom bagaço é difícil de encontrar, e que as ginjas garrafais só estão à venda durante aquela meia dúzia de dias, naquela semana específica, naquele sítio certo. Mas hoje quis conversar um pouco contigo e celebrar o teu aniversário. Então, subi para cima da cadeira da sala, para chegar ao cimo do móvel e alcançar aquele enorme frasco que contém habitualmente a ginjinha caseira. Já só há meia dúzia de ginjas no fundo… líquido, nem vê-lo. Há uns anos, dir-te-ia que é preciso fazer mais, quando o garrafão chegasse a um terço do fim. E tu vinhas-me com a tal conversa da dificuldade de comprar bom bagaço, e de como as ginjas garrafais só aparecem no mercado como as flores no deserto.
Mas a culpa é toda tua. Durante anos a fio te ouvi a gabar a ginja feita em nossa casa. Dizias que é mais forte, não demasiado doce, e que era muito melhor se fosse bebida gelada. Falava-se também de como o tio x ou o amigo y tinham bebido um cálice de um trago só, contra todas as advertências, como animais de taberna donos de uma rodagem de experiência feita, e que tinham ido a cambalear para casa.

Toda esta história terá, porventura, começado em Alpiarça. Lembro-me daquelas embalagens de plástico translúcido, maleáveis, que se podiam amarrotar e dobrar, mas que podiam conter não sei quantos litros de vinho ou bagaço. E nós íamos a Alpiarça comprar vinho e aguardente, e comer sopa da pedra. E eu ficava muito confuso porque não conseguia perceber como é que se comia uma pedra. E com colher, ainda por cima. Diziam-me que se pegasse numa pedra da rua, polida, e a lavasse muito bem, podia fazer uma sopa deliciosa com ela.
Dessa vez, fomos nós cá de casa, e mais não sei quantos tios e primos. E entre os tais vinhos que trouxeram, lembro-me muito bem de um vinho abafado, de uma cor entre o dourado e o castanho, que era muito doce. Sei que fiquei para trás, e quando vieste à minha procura eu estava a escarafunchar com os dedos e com a boca na torneira de uma pipa de vinho abafado, e aquilo estava-me a saber que nem ginjas. Pegaste-me em peso e tiraste-me muito depressa dali – “é maluco o gajo! apanhas uma piela!”. Eu não sabia o que era ficar bêbado.
Quando chegámos a casa, fiquei maravilhado com a forma como chupavas o vinho por uma espécie de palhinha muito comprida, mergulhada na tal embalagem de plástico que estava no chão, e depois punhas muito depressa essa ponta por onde chupaste nos gargalos das garrafas, em cima do balcão da cozinha. Era assim que engarrafavas o vinho. Na altura eu não tinha quaisquer conhecimentos de Física, mas sabia irracionalmente que as coisas só sobem se as atirarmos, portanto não percebia como é que o vinho conseguia subir para as garrafas sozinho. Mais tarde julguei que tinha descoberto mais uma pista para o enigma, quando percebi que em todos os aniversários, quando se faziam brindes, alguém dizia “Vai acima! Vai abaixo!” com os copos de vinho na mão, ou quando se dizia de alguém que “O vinho subiu-lhe à cabeça”. Entretanto, na primária, aprendi que o Guadiana e o Mira eram dos poucos rios que iam de Sul para Norte, e porque quando somos pequeninos achamos que o Norte fica mais alto do que o Sul, fazia-me sentido que o vinho pudesse subir do chão para a bancada da cozinha. Só muito mais tarde estudei as propriedades de capilaridade de certos líquidos, nas aulas do curso de bioquímica.

Mas é mesmo verdade que esta ginjinha não tem igual para mim. Lembro-me de uma vez ter levado alguma para Aljezur, nas férias do verão; e estávamos no fim de um jantar, eu, amigos, colegas, e outras pessoas que se quiseram juntar, ao ar livre, junto aos fogareiros que tinha estado a usar para grelhar toda a espécie de carnes. De resto, também foi a ver-te e a “ajudar-te”, desde pequeno, que fiquei com o gosto por fazer grelhados. E aprendi que só se põe sal na carne depois de estar meia grelhada, e que se mexe o menos possível com o garfo para não moer a carne ou o peixe. És muito perfeccionista nessas coisas, não és? E há já pelo menos doze anos que sou o encarregado por fazer grelhados para toda a gente no campismo.
Então, apareceram lá os pais de um grande amigo meu do Porto, que só vejo nas férias do verão, e naquele sítio específico. Sempre que me vêem, dão-me cerveja ou aguardente daquela amarelada dos barris de carvalho, de tal forma que venho sempre a cambalear da tenda deles. Portanto, saquei da minha garrafa de 33 cl de água do luso, cheia da nossa ginjinha. Muita gente se riu da pequenez da amostra, mas eu garanti que chegava bem. Portanto, os pais desse meu amigo, já velhos lobos-do-mar da bebida, ingeriram à confiança o conteúdo dos copinhos que lhes ofereci. Passado pouco tempo, foram eles a cambalear para a tenda.

Aljezur sempre teve destas coisas mágicas, que acontecem sem se perceber porquê. É um sítio estranho, igual a nenhum outro que conheça, e por mais anos de férias que lá passe há sempre coisas que me surpreendem. As pessoas falam de maneira diferente, contam histórias e comportam-se de maneira diferente. Eu sei que gostas de acampar, mas nunca acampaste lá comigo. No entanto, durante anos a fio, levavas-me lá de carro e voltavas logo de seguida, e depois no fim das férias ias lá buscar-me, tudo isto porque eu queria levar a minha bicicleta, e indo de autocarro isso era impossível. Não conheço outra pessoa que todos os anos faça duas vezes 600 km só para ir levar e buscar o filho para e do sítio onde ele acampa.

Agora sou eu a pessoa que mais conduz o teu carro. Antigamente conduzia o velhinho Renault 9, que subia montanhas em ponto-morto, que não tinha travões, que não tinha pneu sobressalente, que estava sempre com a luz da reserva acesa e com os pneus carecas. Mas nada disso me preocupava, porque sabia que se acontecesse alguma coisa, eu mandava-te um kolmi e tu me ligavas a perguntar o que se passava, e vinhas-me ajudar. Confesso que não percebo nada de seguros contra terceiros, de colisões, acidentes, acordos amigáveis entre acidentados, chamar a polícia ou não, falar com seguradoras… nunca tive nenhum acidente! E apesar de admitir que não saberia o que fazer se algum dia batesse com o carro, a verdade é que essa sensação de segurança não me abandonou, porque quando eu conduzo nem penso nessa possibilidade. Se algum dia bater, ligo-te e pronto. Mas esse dia ainda não chegou. A coisa mais próxima disso que me aconteceu foi num dia em que estava a conduzir numa estrada muito estreitinha, numa curva manhosa entre casas, e de repente o sol projectou-se através do pára-brisas, arranhado por dentro pelos anéis de uma suposta senhora que limpava o embaciado com as costas da mão, e que tinha sido a dona anterior do carro. E a difracção da luz do sol nos riscos do vidro encandeou-me completamente. Ou isso, ou então parou-me o cérebro; desta vez não foi culpa da ginja. A verdade é que embati com o lado direito do carro numa antiga coluna de pedra, colada a uma esquina de uma vivenda, ligeiramente disposta para dentro da estrada. Parti o eixo da direcção, rebentei um pneu, parti o farol, mas o pisca ainda funcionava. Ainda hoje me posso gabar de só ter batido contra uma pedra. As pedras não se mexem, é mais fácil acertar-lhes.
Claro que telefonei para ti, e vieste ajudar-me. Isto aconteceu em Julho de 2006, e a última viagem que o Renault fez foi dali daquela curva para casa. Mas só consegui mandá-lo para a sucata um ano depois.
*
Sempre que me dá uma daquelas brancas de não saber como se escreve determinada coisa, o meu primeiro impulso é perguntar-te. Não é ir ao dicionário, ou escrever essa palavra no Google para ver quantos resultados dá. Sempre fizeste força para que escrevesse bem as coisas, e de cada vez que te perguntava como se escrevia qualquer coisa, tu franzias o sobrolho e dizias: “Como é que achas tu que se escreve?”.
Essas brancas têm-me acontecido com mais frequência ultimamente, por isso tenho experimentado esse primeiro impulso irracional de te perguntar como se escreve. Até quando sonho isso acontece. Fico sempre com uma sensação esquisita. Tal como quando vou na estrada e um otário qualquer num carro à minha frente faz uma coisa idiota, e eu evito o acidente por sorte ou por reflexos, e depois penso no que faria da minha vida se batesse com o carro, e me lembro que agora sou eu que ando com o teu número de telemóvel porque me roubaram o meu e ainda não me apeteceu pedir segunda via.

*

Uma das centenas de histórias que me contaste e repetiste inúmeras vezes, passou-se em Angola, quando andaste lá na guerra. Não falas muito nesses tempos. Descreveste-me o calor insuportavelmente abafado que te atingiu quando a porta do avião se abriu em Angola; contaste-me como lá é que valiam a pena as frutas tropicais, e que as mangas que comemos cá não valem nada – tu gostas muito de mangas; e as viagens intermináveis em carrinhas de caixa aberta, por entre carreiros mal abertos no mato, em que chegava a ficar a doer-te na testa, de a franja andar a bater tanto tempo com o vento. Contaste-me que houve um dia de viagem em que não pararam, e mesmo assim não chegou para percorrer na totalidade uma das propriedades de um homem muito rico lá de Angola; essa propriedade era três vezes maior do que Portugal.
Falaste de como apenas andavas armado com a tua máquina fotográfica, e foi provavelmente por isso que a população local e aqueles que Portugal considerava como inimigos te viram de maneira diferente. E talvez tenha sido por isso que um dia eles te avisaram para sair o mais depressa possível de uma vila onde estavas instalado, e então apanhaste o comboio e só mais tarde soubeste que meia hora depois essa vila foi arrasada e ninguém escapou com vida.
*
Lembras-te daquela vez em que te fui ajudar a carregar o material de fotografia, para ires fazer um trabalho a Sintra? Recordo que, quando chegámos à casa, não me pareceu nada de especial vista por fora. Mas quando entrámos, pareceu-me um palácio ricamente decorado à antiga, com cortinas de veludo e talhas douradas e bibelots de porcelana. Falaste-me das pessoas para quem ias fazer o tal trabalho. Ias fotografar as jóias de uma senhora já de idade, que era uma importante desenhadora de jóias, com joalherias em Nova Yorque, e dona de minas de diamantes, algures pela África do Sul, se não me engano. De resto, essa senhora só falava inglês, e era de tratos muito finos e doces, muito educada, e gostei mesmo dela. Também lá estava o assistente ou secretário (?) dela, português, impecavelmente vestido com um fato, mas com uma cara e penteado de tal forma suspeito que me levou a perguntar-te: “Oh pai, mas é um homem ou uma mulher?”. E tu riste-te e disseste que era um homem. Mas foi muito correcto connosco, e tratou-nos muito atenciosamente; nada, para além da cara estranha e do penteado escorrido, nos faria desconfiar dele, e deixou-nos sozinhos numa das metades da casa, para fotografarmos umas jóias que, qualquer uma delas, isolada, valia mais do que o nosso quarteirão.
As fotografias eram para um catálogo de jóias, e ao que parece ficaram muito bem, de tal forma que a senhora só te queria a ti como fotógrafo cá em Portugal. Por várias e desconhecidas razões, não fizeste muitos mais trabalhos com ela.

Passados uns bons anos, quando vi a senhora que falava inglês, mais o secretário, na televisão, como marido e mulher, perguntaste-me se sabia quem eram. Eu disse que sim, que era o maricas, o José Castelo Branco… e a Betty. E tu relembraste-me desse tal trabalho que tínhamos feito.
Esta história faz-me lembrar de como o mundo é pequeno, e de como as pessoas mudam. Ou, por outro, de como as pessoas podem ser diferentes em privado e na vida pública. Ou de como as doenças psiquiátricas se podem desenvolver ao longo do tempo. Vou deixar que tu escolhas. A verdade é que nunca me pareceste surpreendido com o desenlace desse tal casal.

*
O mito da ginjinha que eu te ajudava a fazer cá em casa foi crescendo, e desenvolvendo-se à medida que eu a partilhava com amigos em sítios e situações completamente insólitas. Lembro-me de uma vez, na praia de Algés, à noite, em que estive com uns amigos a beber dela, e a comer barrinhas de chocolate Kinder ao mesmo tempo. Em outras ocasiões, trouxe balões de laboratório lá da Faculdade de Ciências, e cheguei a enchê-los com ginjinha e a ir para festas com os meus colegas, de tal forma que ainda hoje eles se lembram disso.
Também a forma como eu saí dessa faculdade, após três anos no curso de bioquímica, teve a tua influência pessoal. No segundo semestre do terceiro ano do curso, decidi mandar aquela faculdade às urtigas. Não gostava do curso, as coisas não corriam bem, mas continuei a ir às aulas práticas de laboratório para poder ajudar os meus colegas de grupo. Simultaneamente, comecei a estudar para os exames nacionais, para mudar de curso. Naturalmente, não vos disse nada, nem a ti nem à mãe, porque achava que esses exames iam correr bem, e quando vos contasse já tinha mudado para medicina, e achei que iam ficar contentes. Mas tal não aconteceu. Quando fiz os exames, percebi logo que tinham corrido bastante mal. E como eu não tencionava voltar para a faculdade de ciências, tive que ter uma conversa contigo a explicar-te o que tinha decidido.

Quando te convidei para uma cerveja e para conversar, na rua, de certeza que achaste estranho, porque não era nosso hábito. Mas aceitaste sem pestanejar e sem fazer grandes perguntas. Então, com duas Carlsberg à nossa frente, lá contei o que se tinha passado. Pedi desculpa por não ter dito nada, mas não ia voltar para bioquímica. Ia sair da faculdade, estar um ano fora do ensino superior, trabalhar, dar explicações, e estudar para os exames do ano a seguir, e entrar em medicina, que era o curso que eu sempre tinha querido tirar.
A tua reacção não foi nada dura. Surpreendeste-me mesmo, porque a conversa foi toda em tom de conselho por experiência própria. Não me repreendeste por não ter dito nada, nem sequer me disseste algo como “Então e porque é que não terminas primeiro esse curso?” ou então “E se para o ano os exames correrem mal outra vez?”, que eram frases que provavelmente qualquer outro pai diria ao seu filho. Na verdade, pelo menos no que toca aos exames do ano a seguir correrem bem ou mal, se o tivesses dito terias toda a razão. E eu nem tinha pensado na possibilidade de tornarem a correr mal. Foi, provavelmente, o maior risco que corri.

O que me disseste foi que existe uma idade em que é mais fácil estudar, e que por outro lado não sabias se ia haver dinheiro para me manter na faculdade por todos esses anos. Eu disse que ainda era novo, e que ia conseguir fazer o curso, e que o dinheiro ia-se vendo, que eu podia trabalhar e estudar. E para além disso, em bioquímica, estavam sempre a dizer-nos que não íamos ter emprego, e a minha namorada também era do mesmo curso, e eu achava que se fosse médico, para além de ser mais feliz, ia conseguir fazer com que tivéssemos uma vida um pouco mais fácil.
Disseste-me então, que 6 anos de curso, mais este que ia perder, eram muito tempo. E que a minha namorada entretanto ia começar a trabalhar, e que eu ia andar com os livros atrás. E as coisas iam mudar, que isto do amor e uma cabana não existe. Naquele dia de sol, com as imperiais à nossa frente, tu foste o meu Grilo Falante, e eu fui o teu Pinóquio.
Avisaste-me de forma meiga, e eu, claro, não prestei atenção. Fiz o que queria, o que me apeteceu. Estive um ano a trabalhar, voltei para a escola, para o 12º, para o pé dos miúdos – senti-me como se fosse a conduzir um carro em 5ª e reduzisse de repente para 2ª – depois repeti os exames, tirei dois 20 e entrei. Era um tiro que não podia falhar, e não falhei. E não vou dizer que foi só porque estudei muito – o que é verdade – mas também foi precisa muita sorte. Confiei que estava a arriscar, mas estava a fazer tudo em prol da minha futura vida profissional, da minha realização pessoal, e dos planos que tinha feito para mim e para a pessoa de quem gostava.

Mas no fim, quem tinha razão eras mesmo tu. Fazemos planos e castelos de cartas no ar, mesmo sabendo que é o vento que derruba as cartas. Tomamos certas coisas como garantidas, defendemos o que pensamos com unhas e dentes e raramente prestamos atenção ao que as pessoas mais velhas nos dizem. Avisaste-me da melhor forma que sabias que isso da namorada ia ser um grande problema, e foi mesmo, e muito pelas razões que apontaste: eu, qual Pinóquio, fui mesmo parar à barriga da baleia. Quando somos muito novos pensamos que podemos controlar as variáveis todas e que as coisas só podem correr bem, e correr bem da maneira como as planeámos. Mas às vezes também fazemos coisas certas pelas razões erradas.
Confesso que quando tomei aquela enorme decisão não medi nem metade dos riscos que corria. Quanto ao dinheiro, aí eu tinha razão. Por uma razão ou por outra, nunca tive que abandonar a faculdade, embora em determinadas alturas tenha custado bastante a estabilizar o barco. Foi na base do vamos vendo, devagarinho… e quase sem dar por isso já estou quase no fim do curso. E não me arrependo nem um bocadinho. Mesmo que me arrependesse... ter saudades do passado é correr atrás do vento, como diz um provérbio russo.

Apesar de saber que detestas médicos, nunca me disseste nada sobre isso. Talvez tenha sido por saber disso que só me viste uma vez de bata e estetoscópio.

23 de setembro de 2007

Porquê colar, se se vai partir pelo mesmo sítio?



Queres que te traga alguma coisa? Um carioca de limão, uma água? Não? Está bem, bebo eu uma bica.
Ontem fui lá ao tal jantar com aqueles meus ex-colegas. Havias de ter visto a casa deles. Tantos quartos, e a menor das casas de banho é maior do que o meu quarto! Bem, é verdade que ainda precisa de uns acabamentos, mas a casa é fantástica. Que pena que não vieste ao jantar comigo.
Comemos um arroz de pato bastante bom, regado com um belo vinho tinto, e depois à sobremesa houve uns pedaços de melão, manga e ananás, que mergulhávamos numa espécie de fondue de chocolate. E houve torta de maçã.
Os meus amigos eram três casais. Todos eles com a minha idade. Felizes, mais ou menos arrumados na vida. Os pratos eram bonitos, e os talheres estavam muito bem colocados. Antes disso tinhamos estado a falar sobre a nossa vida, visto que não nos viamos há muito e era preciso pôr alguma conversa em dia. Fiquei a saber algumas coisas sobre os seus empregos, sobre os seus projectos... notei o entusiasmo deles a falar das suas coisas, do que pensam fazer e do que já conseguiram, mas também a sua preocupação com o futuro e com o que há de vir. Depois, bom, depois perguntaram-me quando é que acabo o curso, quando é que sou médico, que especialidade vou seguir... enfim, as perguntas do costume, e para as quais já tenho respostas mecanizadas, como uma mola na ponta da lingua.

Mas não utilizei a mola com eles, não. Eles são meus amigos, merecem que os factos sejam adornados com uma dose extra de entusiasmo, e outras tantas doses de humor. Afinal de contas eu faço rir as pessoas. É o que eu faço de melhor! Rir é o melhor remédio, não é o que dizem? Não te faço rir a ti? Pois faço!
De certeza que não queres nada? Está-me a fazer confusão, vê lá bem se queres um carioca de limão e não te lembras.
Bem, onde é que eu ia? Sim, o curso. Lá lhes disse o que ia acontecer nos próximos meses, sobre o curso, sobre os hospitais, o que achava, o que não achava, o que sentia, o que acontecia... todas aquelas coisas que evito falar, porque não tens muita paciência para médicos, não é, meu amorzinho? Pois claro que não, como eu te percebo! Também eu não tenho, muitas vezes! E eu só escolhi o melhor, claro. Durante um jantar que se queria alegre não ia falar dos meus filmes da TVI!

Bem, depois fomos então para a mesa, e como eramos 7, tive de ficar à cabeceira da mesa, e até tive direito a uma cadeira diferente e tudo, vê lá tu bem. Fiquei mais longe do arroz de pato e do fondue de chocolate, mas felizmente que os meus braços tudo abarcam; basta esticá-los e eles abraçam o mundo! Como te abraçam a ti, não é? Depois comentaram que tinham ouvido rumores que era desta vez que eu também vinha acompanhado. Não falei muito sobre isso. Disse apenas que também esperava vir acompanhado, mas que ainda não era desta. Depois falámos das férias, e de como apanhei berbigões e conquilhas contigo pela primeira vez na vida, sabes? E daquela carne de porco à alentejana, um pouco aldrabada, mas foi a primeira vez que esse marisco me soube tão bem! E fiquei a saber que tenho jeitinho para apanhar berbigão! É realmente giro, eu remexer na areia com os pés, com água pelo tornozelo, e mesmo sem saber o que está por baixo, sabemos que os bichos hão de vir à superfície. E depois tu estavas lá, pronta para os apanhar; fazemos uma bela equipa, não é?

O jantar foi óptimo e a cerveja e o vinho ajudaram-me a mandar umas piadas, mesmo quando não me apetecia! E também me consegui rir um bom bocado, contra todas as previsões. Eles lá me acharam muita piada, porque gostam mesmo de mim. É bom saber que os faço rir! Mais para o fim do jantar reparei que todos eles tinham alianças, que brilhavam douradamente e tilintavam nos copos de vinho meio cheios. Sim, meio cheios, porque eu sou um optimista, como sabes! E falaram das casas, e dos empréstimos que são um balúrdio, e das janelas que vão ter uns vidros especiais, e dos azulejos da cozinha, que vão ser verde-lima. E dos lavatórios em vidro, que isto de serem Valadares ou Roca já é um bocado démodé.
Deixa-te estar que eu vou-te buscar um carioca de café. De certeza? Pronto, está bem, não insisto mais. Mas bebo mais um café. Querias falar de qualquer coisa, não é? Deixa-me acabar de contar o jantar, que já conversamos sobre isso. A não ser que tenhas pressa!
Bom, depois, os rapazes foram para a cozinha beber cubas livres, isto depois de termos bebido um café temperado com a aguardente especial do anfitrião. Falámos de histórias antigas e de coisas que não devem ser faladas em frente às esposas. Tu compreendes, não é, meu amor? Há coisas que não se dizem às respectivas. Lá se riram muito das minhas histórias antigas, que apesar de repetidas têm sempre muita piada e aquecem o coração com uma nostalgia que ganha vida real. Mesmo assim tenho pena que não estivesses presente, porque ficarias a saber mais sobre mim, na altura em que eu era ainda mais engraçado e mais novo, como tu és agora. Depois falaram novamente de mulheres, e de como dizem que existem sete mulheres para cada homem. Depois alguém disse que eu já tinha gasto as minhas sete, já tinha roubado as sete do vizinho do lado, e já estava a roubar ainda outras sete a outro rapaz qualquer. Claro que toda a gente se riu de mim; afinal, ser-se mulherengo nunca há de deixar de estar na moda, e fica sempre bem no currículo de um rapaz. E como sou solteiro, acham que o que eu quero realmente é aventura. Mas claro que sabes que é um exagero, não é, amorzinho? Eu nem sei bem a tabuada do sete...
Entretanto esqueci-me de contar uma coisa: bebemos lá um vinho licoroso que estava uma delícia, antes do jantar! Era um vinho que ia mesmo bem com os cajus e com umas tapas com marmelada e queijos de diferentes tipos. E tu sabes como eu adoro queijo, não é? Precisei de dois copos daquele vinho para empurrar os aperitivos, não fosse ficar embuchado.
Mas sim, eles parecem estar bem lançados! Estão felizes com as companheiras e estão na idade disso mesmo. É a ordem natural das coisas. Só eu é que fiz tudo ao contrário, mas como um deles disse uma vez, a brincar e a sério ao mesmo tempo, "o joão não é exemplo para ninguém!", ao que se seguiu um coro de gargalhadas. Também não é tanto assim, sabes disso, não é?
Queres ir-te embora? Mas ainda é tão cedo! Bebe mais qualquer coisa! Ah, pois, ainda não bebeste nada, é um facto. Não querias falar sobre qualquer coisa? Porque olhas para a chávena do meu café fixamente e não dizes nada? Que silêncio... está tudo bem?
Querias estabilidade e não consegues. Pois, percebo. E não nos entendemos? Bem, é verdade que temos os nossos altos e baixos, julgava que fazia parte... mas tens a certeza?
Bom, está bem. Sim, eu dou notícias. Não, bem não estou. Mas hei de ficar. Não te preocupes comigo. Sim, eu sei que posso contar contigo se precisar de alguma coisa, obrigado! E se precisar de ti, o que faço? Bem, hei de me lembrar de alguma coisa entretanto, não te preocupes. Obrigado, desculpa, obrigado, adeus... sim, tenho trocos para pagar os cafés. Obrigado. Até qualquer dia então.
*
Water so warm that day
I counted out the waves
As they broke into surf
I smiled into the sun
Water so warm that day
I was counting out the waves
And I followed the short life
As they broke on the shore line
I could see you, but I couldn’t hear you

5 de setembro de 2007

Se te perderes em Lisboa...


Aquela tarde era uma página branca pronta a ser preenchida com uma tinta muito líquida, de uma caneta permanente que deslizasse, suave e freneticamente, desenhando movimentos que tragassem palavras completamente novas que contassem aqueles novos cheiros e cores. E aquela cidade seria um novo capítulo de um livro com tão poucas páginas já escritas; algumas, enrugadas de lágrimas; outras, riscadas de raiva; e outras ainda, amarrotadas de alegria.
Aquela tarde era de amarelo-torrado. A luz enchia o ar de pequenas partículas que caíam placidamente nas caras das pessoas. Espanhóis, brasileiros e outros estrangeiros passeavam calmamente pelas ruas do Bairro Alto. O rapaz da flauta lutava com o silêncio composto pelos passos anónimos e pelas pessoas que falavam de livros, compras, e coisas.
Cada linha do tecido daquele vestido lhe desenhava o corpo e libertava a alma de quem para ela olhava. Os seus passos, silenciosos, batiam o ritmo essencial da vida, do bater de um coração - nem demasiado molengão, nem demasiado
neurótico. É de crer que quem a observava poderia ter puxado do telemóvel, acedido às funções de cronómetro e calculadora, e medido este ritmo; contaria então 72 passos por minuto, o que daria o sedutor número de 1,2 passos por segundo. É de crer, mas ninguém o fez, pois não era preciso: os corações reconhecem o seu próprio ritmo sem fazer contas de cabeça, e rendem-se imediatamente à sintonia quando a encontram.
Nas ruas, nos cafés, nas esplanadas, as pessoas ficavam a vê-la passar. Os casais que por ela passavam em sentido oposto suspendiam os seus diálogos e miravam-na em algo mais do que um relance. Elas, para lhe tentarem copiar o estilo; eles, tentando com exagero mostrar que não repararam. Mas depois de uns metros, não eram poucos os que para trás olhavam por cima do ombro. "Julguei ver o fulano tal" - diziam às namoradas.
Aqueles passos de ternura desenhavam obras de arte no chão. E as suas pernas, troncos ingénuos com tão poucos anéis, sustentavam asas que estavam agora a aprender a voar. Ela era a árvore e o passarinho que nela pousa.
E as pessoas ficavam a ver. Quietas. Inquietas. Quedavam-se a olhar aquele jeito de mulher com cara de Vitinho. Vestido ondulante de rebeldia. Hálito de ananás e hortelã. E os passos, aqueles passos que lhes acompanham os corações naquele ritmo terno e viciante. Que cortam a respiração e fazem vibrar os tímpanos, e os martelos, e as bigornas, e os estribos, com a melodia que todos procuram pelas suas eternidades fora. É que há canções que não perduram nem depois de tocadas mil vezes, mas esta ficará imediatamente no ouvido após ser escutada pela primeira vez, no meio do ruidoso ambiente citadino, mesmo por ouvidos empedernidos por milhares de outras músicas passadas...

Tengo ganas de cantar
Una bonita canción
Que te haga comprender
Lo que hay en mi corazón

Una canción con dulzura
Que de ti hable y de mi
Diga que siente mi alma
Desde el día que te vi

Que tiki tiki tiki ti
Late así mi corazón

Es que estoy enamorado
De tu mirada preciosa
De tu risa y de tu boca
De tu cuerpo escultural

Que tiki tiki tiki ti
Late así mi corazón

Desde aquel divino día
En que yo te conocí
Y es por eso que la vida
No la suporto sin ti.
Passeava ela pelas ruas da nova cidade.
As fachadas dos prédios escondiam outros prédios mais altos por trás, e as estradas iam sempre dar a outras estradas. Tantas caras novas! E quantas direcções por explorar!
Vai formosa e segura, ou pelo menos assim pensam todos os que para ela olham, sem poder imaginar o nervosinho que lhe faz cócegas no estômago. "Nunca vou conseguir conhecer tudo isto!" - dirá ela para si - "Haverá em cada esquina um amigo? Quantos lobos daqui saltarão ao meu caminho?".
Mas não receia perder-se, porque alguém um dia lhe disse: "Se te perderes em Lisboa, desce. Hás de ir ter ao rio."