
"These notes are marked return to sender
I'll save this letter for myself
I wish you only knew how good it is to see you
these steps I take don't get me anywhere
I'm getting further from myself
one thing is always true
how good it is to see you
I'm done resenting you
you represented me so well
and this I promise you
how could I end up in the hands of someone else...".
I'll save this letter for myself
I wish you only knew how good it is to see you
these steps I take don't get me anywhere
I'm getting further from myself
one thing is always true
how good it is to see you
I'm done resenting you
you represented me so well
and this I promise you
how could I end up in the hands of someone else...".
*
Corro. Porque não quero estar onde estou, ou porque não tenho dinheiro para a camioneta, ou até porque não tenho para onde ir.
O Hospital de S. José, a faculdade, o jardim de Santana, tudo vai ficando para trás ao ritmo do vento frio que me greta os lábios, a boca, os pulmões... tudo fica para trás do campo de visão que oscila para cima e para baixo ao ritmo da corrida.
Também as memórias percorrem as ideias à mesma velocidade, mas parece que os seus contornos permanecem gravados, como no fósforo dos antigos monitores que, queimado para sempre pelas imagens fixas sem screen saver, exibirá para sempre aquelas letras e figuras que deixámos de querer ver. Para sempre?
As pessoas passam por mim como postes de iluminação presos à calçada; olham-me admiradas, talvez porque o meu ritmo de corrida é diferente da passada apressada do comum citadino, diferente da sangria desatada dos assaltantes. E também não posso estar a fazer jogging, porque tenho a mochila, um cachecol branco, as eternas botas CAT... e cabelo comprido. E os drogados não praticam desporto!
Passo pela pastelaria onde um dia lanchámos ao sol e onde os raios entravam pelo vidro, trespassando transversalmente os nossos olhares, tornando-os mais brilhantes um para o outro. Reflectindo o bom e o mau do outro. Mais puros e sinceros. De vez em quando vinha uma nuvem, mas era tão pequenina que nem se notava... ou eu não queria notá-la!
Os olhos são o espelho da alma, segundo dizem; mas temos que ter cuidado, porque esse espelho pode ser como aqueles dos filmes americanos, com agentes do FBI atrás.
Assomei por ali adentro sem saber porquê, a correr. Passei pela banca à porta e não tirei um papelinho de consumo... quando já estava perto da mesa avisaram-me, Olhe! O senhor!... Desculpe, desculpe, Saí.
Ganhei o gosto por fugir a correr. Por levar com o frio na cara, para abrir as pestanas, fortalecer os ossos que, intactos, se sentem ainda quebrados por forças psicossomáticas. Sabe bem chegar ao fim do caminho e, na beira da estrada, ofegante, sentir aquele calor que se acende por debaixo das camisolas. Os olhos ficam quentes, e vejo agora halos de luz nos candeeiros e nos faróis dos automóveis; enfio a mão esquerda no bolso, aquele bolso mesmo feito à medida para dentro dele darmos as mãos. Imediatamente lembro-me disso e tiro a mão cá para fora. Fecho o zipper.
Dirigi-me, já a passo, para a paragem do autocarro. Apanho-o. Sento-me. Encosto a cabeça ao vidro que estremece com o motor em permanente ralenti e lembro-me, sonolento, de que fingimos que não nos vimos, e que tornaremos a fazê-lo. Imediatamente antes de adormecer, ia jurar que te vi a sair pela porta do autocarro, que agora já não é a porta do autocarro, mas sim a porta do bar da faculdade, a que eu detesto que abram e não fechem depois. Escrevo freneticamente num guardanapo de papel que é agora uma pauta de exames: as nossas notas, os nossos nomes na mesma linha, juntos. Sorrimos. Eu bebo o meu descafeinado e tu bebes a tua garrafa de água.
Estamos então a vaguear no espaço sideral em montanha russa, vendo novas estrelas e planetas a bordo de um tapete mágico: a rodela verde do meu olho que ninguém vê. Ouve-se música, derretemo-nos em chantilly a ouvi-la...
"I can open your eyes
Take you wonder by wonder
Over, sideways and under
On a magic carpet ride.
A whole new world
A new fantastic point of view
No one to tell us no
Or where to go
Or say we're only dreaming
A whole new world
A dazzling place I never knew
But, now, from way up here
It's crystal clear
That now I'm in a whole new world with you.
Unbelievable sights
Indescribable feeling
Soaring, tumbling, freewheeling
Through an endless diamond sky.
A whole new world
A hundred thousand things to see
I'm like a shooting star
I've come so far
I can't go back to where I used to be..."
O Hospital de S. José, a faculdade, o jardim de Santana, tudo vai ficando para trás ao ritmo do vento frio que me greta os lábios, a boca, os pulmões... tudo fica para trás do campo de visão que oscila para cima e para baixo ao ritmo da corrida.
Também as memórias percorrem as ideias à mesma velocidade, mas parece que os seus contornos permanecem gravados, como no fósforo dos antigos monitores que, queimado para sempre pelas imagens fixas sem screen saver, exibirá para sempre aquelas letras e figuras que deixámos de querer ver. Para sempre?
As pessoas passam por mim como postes de iluminação presos à calçada; olham-me admiradas, talvez porque o meu ritmo de corrida é diferente da passada apressada do comum citadino, diferente da sangria desatada dos assaltantes. E também não posso estar a fazer jogging, porque tenho a mochila, um cachecol branco, as eternas botas CAT... e cabelo comprido. E os drogados não praticam desporto!
Passo pela pastelaria onde um dia lanchámos ao sol e onde os raios entravam pelo vidro, trespassando transversalmente os nossos olhares, tornando-os mais brilhantes um para o outro. Reflectindo o bom e o mau do outro. Mais puros e sinceros. De vez em quando vinha uma nuvem, mas era tão pequenina que nem se notava... ou eu não queria notá-la!
Os olhos são o espelho da alma, segundo dizem; mas temos que ter cuidado, porque esse espelho pode ser como aqueles dos filmes americanos, com agentes do FBI atrás.
Assomei por ali adentro sem saber porquê, a correr. Passei pela banca à porta e não tirei um papelinho de consumo... quando já estava perto da mesa avisaram-me, Olhe! O senhor!... Desculpe, desculpe, Saí.
Ganhei o gosto por fugir a correr. Por levar com o frio na cara, para abrir as pestanas, fortalecer os ossos que, intactos, se sentem ainda quebrados por forças psicossomáticas. Sabe bem chegar ao fim do caminho e, na beira da estrada, ofegante, sentir aquele calor que se acende por debaixo das camisolas. Os olhos ficam quentes, e vejo agora halos de luz nos candeeiros e nos faróis dos automóveis; enfio a mão esquerda no bolso, aquele bolso mesmo feito à medida para dentro dele darmos as mãos. Imediatamente lembro-me disso e tiro a mão cá para fora. Fecho o zipper.
Dirigi-me, já a passo, para a paragem do autocarro. Apanho-o. Sento-me. Encosto a cabeça ao vidro que estremece com o motor em permanente ralenti e lembro-me, sonolento, de que fingimos que não nos vimos, e que tornaremos a fazê-lo. Imediatamente antes de adormecer, ia jurar que te vi a sair pela porta do autocarro, que agora já não é a porta do autocarro, mas sim a porta do bar da faculdade, a que eu detesto que abram e não fechem depois. Escrevo freneticamente num guardanapo de papel que é agora uma pauta de exames: as nossas notas, os nossos nomes na mesma linha, juntos. Sorrimos. Eu bebo o meu descafeinado e tu bebes a tua garrafa de água.
Estamos então a vaguear no espaço sideral em montanha russa, vendo novas estrelas e planetas a bordo de um tapete mágico: a rodela verde do meu olho que ninguém vê. Ouve-se música, derretemo-nos em chantilly a ouvi-la...
"I can open your eyes
Take you wonder by wonder
Over, sideways and under
On a magic carpet ride.
A whole new world
A new fantastic point of view
No one to tell us no
Or where to go
Or say we're only dreaming
A whole new world
A dazzling place I never knew
But, now, from way up here
It's crystal clear
That now I'm in a whole new world with you.
Unbelievable sights
Indescribable feeling
Soaring, tumbling, freewheeling
Through an endless diamond sky.
A whole new world
A hundred thousand things to see
I'm like a shooting star
I've come so far
I can't go back to where I used to be..."
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"But, now, from way up here
It's crystal clear
That now I'm in a whole new world with you..."
Acordo qual despertador programado, mesmo a tempo de carregar no botão para sair na minha paragem.
Estremunhado, conduzo devagar (sempre em ponto morto, que é a única velocidade do meu carro) por montes e vales, enquanto olho para os halos gigantescos dos stops do automóvel que vai à minha frente.
Lembro-me então que não vimos estrelas, mas apenas um eclipse lunar. Que me puxaste o tapete mágico no ponto mais alto da montanha russa, num solavanco inesperado, paroxístico, e que não voltaste para me apanhar, seguindo o teu voo espacial para outras galáxias, outros sóis, outros eclipses (?). Que as rodelas verdes dos meus olhos desapareceram, talvez porque já não reflectem imaturidade. Que a esperança, também ela verde, está morta e não cantou sequer como um cisne, mas como um galo que vimos um dia, abraçados, que depois voou disparado para se esconder no cimo de uma árvore. Os galos voam?!
E eu vou cantando cada vez mais alto para dentro...
Estremunhado, conduzo devagar (sempre em ponto morto, que é a única velocidade do meu carro) por montes e vales, enquanto olho para os halos gigantescos dos stops do automóvel que vai à minha frente.
Lembro-me então que não vimos estrelas, mas apenas um eclipse lunar. Que me puxaste o tapete mágico no ponto mais alto da montanha russa, num solavanco inesperado, paroxístico, e que não voltaste para me apanhar, seguindo o teu voo espacial para outras galáxias, outros sóis, outros eclipses (?). Que as rodelas verdes dos meus olhos desapareceram, talvez porque já não reflectem imaturidade. Que a esperança, também ela verde, está morta e não cantou sequer como um cisne, mas como um galo que vimos um dia, abraçados, que depois voou disparado para se esconder no cimo de uma árvore. Os galos voam?!
E eu vou cantando cada vez mais alto para dentro...
"But, now, from way up here
It's crystal clear
That now I'm in a whole new world with you..."
... e sorrio para mim mesmo: fui um erro! Um erro de paralaxe!
Diz a Sagrada Escritura, no livro dos Macabeus: "Matou um elefante, e matou-o como esforçado e valoroso porque não lhe soube fugir como prudente...".
Nota: este texto é pura fixão; ele é dedicado ao dia internacional da mulher e aos meus amigos Marto e Papoila. Um deles anda comigo a pé por estes caminhos; o outro diz-me para seguir em frente e não olhar para trás.
*
Diz a Sagrada Escritura, no livro dos Macabeus: "Matou um elefante, e matou-o como esforçado e valoroso porque não lhe soube fugir como prudente...".
Nota: este texto é pura fixão; ele é dedicado ao dia internacional da mulher e aos meus amigos Marto e Papoila. Um deles anda comigo a pé por estes caminhos; o outro diz-me para seguir em frente e não olhar para trás.



