23 de junho de 2005
Se não visse, não acreditava!
7 de junho de 2005
Obrigado;)
Por vezes sinto-me perdida num mundo de feras e demónios... Sozinha, esquecida pelo vento agreste de um tempo sem limites nem limitações. E assim, no cenário escuro e ponteado do meu quarto, sinto a luz que transgride a noite e que pulsátil se projecta através dos rasgões destes estores semicerrados.
E aqui permaneço... estática e indefesa a qualquer bezoar que tente obstruir as vias macilentas, cansadas de mais um dia de luta. Hoje não oiço música, vida vibrante que veementemente desperta as emoções fechadas na inquietude do inconsciente. Não o faço porque a letargia dos meus sentidos seria suficientemente repugnante para dispersar o som e catapultá-lo para o vazio da confusão.
Hoje... agora... recordo este extenuante dia de incerteza e tumulto, de tristeza e felicidade. Sinto-me bem não só porque alcancei o meu primordial objectivo (ter positiva a fisiopatologia), como também porque redescobri a verdade e essência de alguns dos que me acompanharam e junto a mim lutaram. É por eles e para eles que escrevo este texto, agora que os meus olhos pesam e já não consigo vencer o sono. A amizade é algo que nem a mais bela melodia conseguiria superar. É dela que emerge a luz da criação, é por ela que vivemos e apenas por ela faz sentido rumar ao sonho que em conjunto nos guia. Obrigado pela união e sinceridade... pelo reconforto que é saber que nem só de demónios e feras se faz o mundo. Como é bom poder confiar... no próximo!
Para sempre... OBRIGADO!
AsKiNg_ThE_QuEsTiOn

Podes gastar todos os minutos
Não dar pelo respirar
Nem pelo ar que te circunda...
O mundo pode deixar de existir
Podes ficar cego ou surdo
E entre ti e o estudo
Ficar nada e tudo...
Mas vale a pena
Porque tudo passa
E de repente volta
Mais verdadeiro e claro
Como a regeneração do fogo
O sol após a lua
O dia após a noite!
27 de maio de 2005
Bossal
25 de maio de 2005
Tetris 4 - Quartzo, feldspato e mica

Dou mais um passo no novo pedaço de calçada marfinada, faiscante ao sol. Fecho mais um pouco os olhos.
Subitamente, o ar toma sabor e cheiro dulcíssimos como chocolate branco, mesmo quando ia respirar fundo e suspirar. Encho o peito daquele gás-fluido de outras paragens que ali foi ter vindo não sei de onde. Os alvéolos afogam-se imediatamente, como quando um náufrago inspira, desesperado, uma golfada de água salgada!
É estranho como o sol faz das suas. Se há cupido querubim, é ele, porque se decide a iluminar, a indicar, com um simples raio dourado, pessoas nas situações mais inesperadas, incómodas, inoportunas, injustas, impossíveis! Como se quisesse martelar nas peças do puzzle para que os entalhes... fit! Não é o encaixe induzido, é o encaixe forçado! Mas as peças do tetris não se compadecem, e continuam a cair. Amanha-te! E fica-se a rir, o querubim.
Danço agora na corda de um violino, embalado em tons docemente cortantes, mergulhado numa voz tão forte e tão frágil, choro de bebé real camuflado de imitação. Um pingo do mel que não querias derramar escorre pela minha corda bamba, desmielinizada, abafando as vibrações do meu pequenino mundo de rocha metamórfica, solidificado tão só recentemente, onde mal se vislumbra, já perigosamente longe, um esboço de calçada de marfim; levas-me para o outro lado do oceano, semeando em mim sonhos que não julgava possíveis de germinar.
Sei que assim é... sei-o tão bem! Mas sonho com esse embondeiro já grande, cheio de pássaros, a dar-nos apoio, sombra, suporte, do alto dos seus anos que viveríamos. E mordo os nós dos dedos com força porque também sei que entristeço porque autorizei a memória de uma árvore que nunca será, ao negligenciar o que uma semente poderia vir a ser.
E da minha ameia, da minha torre, da minha corda bamba de violino chorão, estou suado, amestrado, retido pelo teu olhar aí em baixo, de coração sem diástoles, respirando mais depressa do que devia e mais devagar do que quero, em busca daquele gás-fluido que já me viciou mas que não consigo encontrar; não sei quem és, porque não sei ainda quem sou...
Tenho medo. Quero permitir-me voltar à minha calçada marfinada, tocar xilofone em cada pedra com a minha bengala... esperar que o meu planeta granítico seja primeiro colonizado por líquenes, musgos, pequenos cogumelos... e quando a rocha mãe estiver quebrada e tiver dado origem a solo fértil, talvez um embondeiro.
Caminho, pé ante pé, cuidadosamente, em caminhos calcetados. Respiro profunda e serenamente a paz dos justos. Olho por cima do ombro e vejo o musgo verde tomar conta das brechas por entre as pedras da calçada...
18 de maio de 2005
Crónica do amor incondicional - parte 1

Sobrevoo em zigue-zague rochosos campos verdejantes de primavera. O pequeno avião desvia-se com perícia do esbatido nevoeiro marinho de algodão doce e dos picos cortantes dos montes e das escarpas da orla costeira; saboreio a fragrância do oceano gelado e os salpicos salgados de espuma na cara, borrifados pelo vento que assobia nas asas, mastigado pela hélice do motor, que trabalha em silêncio absoluto...
Do lado de fora do cockpit, um enorme holograma lilás da minha irmã vai falando comigo e dando-me instruções, com um mapa na mão.
Aterro numa fita de terra batida enlameada, ladeada de trevo e campaínhas cobertas de orvalho gelado. Vou caminhando em direcção à margem de um rio que se junta ao mar, enquanto o mato rasteirinho me ensopa o couro das botas. Num bote, está um homem de cabelo branco; enquanto me aproximo, ele vai arrumando as tralhas da pesca sem olhar para mim. Chego-lhe à beira.
- O mar está meio bravo e vamos demorar a atravessar. Teve dificuldade em chegar? Sua avó está com as dores do reumático, é bem capaz que chova.
O velho remava com perícia e guiava o barco, sulcando aquele braço de mar que esmurrava a foz do rio, inquieto de milhares de pegadas que apareciam e desapareciam quase instantaneamente, pisadas pelo vento. Também eu me sinto agora inquieto, encostado à popa do bote, de mão esquerda medrosa crispada na borda do barco, enquanto os dedos vão ficando brancos de gelo, beijados pelas ondas mais afoitas.
14 de maio de 2005
Plasmodium (não) vivax ®

Somos feitos de C, N, O.
Somos feitos do asfalto que percorremos, dos traços descontínuos que desaparecem, efémeros como flashes.
Somos feitos dos semáforos vermelhos e stops que não respeitamos, dos carros que ultrapassamos, dos velhinhos que ajudamos a atravessar as ruas. E dos carros que nos atropelam.
Somos feitos do ar que inspiramos, e não do que expiramos. Não somos feitos do cabelo que cortámos ou que nos caiu...
A água que vertemos ainda há de fazer parte de nós de novo.
Teremos sempre onde cair mortos e seremos sempre iguais a nós próprios; desejaremos sempre aos outros o dobro daquilo que eles nos desejam. Haverá sempre expressões arrogantes, verdades de La Palisse e ditos vingativos mascarados de bom samaritanismo.
Somos feitos dos amigos e amores que se foram embora, e seremos feitos dos que ficarem quando morrermos.
Somos feitos das dores que sentimos, dos sabores que experimentámos, dos odores que cheirámos e das cores e formas que pintámos.
Não somos feitos do que poderíamos ter feito. Somos feitos dos louros das acções para as quais tivemos força, dos saltos de fé que ousámos arriscar, do orgulho dos erros que tivemos a coragem de cometer. Em nós não há lugar para o arrependimento do que nunca fomos.
Somos feitos das lições que aprendemos, das cicatrizes de chicote que temos nas costas; mas também dos músculos que desenvolvemos e dos anticorpos que criámos.
Somos feitos de quem nos amou, de quem amamos e amámos. Somos feitos de quem nos magoou e nunca existiu. Somos feitos das paixões do presente.
Somos feitos de ganidos, latidos, ladrares e rosnares. Somos feitos dos mesmos órgãos e sistemas de órgãos que todos os dias envenenamos mais um pouco. E somos feitos da necessidade de excretar esse veneno, picando-nos uns aos outros.
Somos feitos do queijo e da ratoeira. Do queijo e da faca nas nossas mãos. Das facas de dois gumes que no-las cortam.
Somos feitos do fascismo, do comunismo, do socialismo e do neofascismo - tudo é uma questão de referencial einsteiniano.
Somos feitos de heroísmo cobarde; somos feitos de espiritualismo materialista; somos a espada e a parede.
Somos feitos de narcisismo falso-modesto.
Somos feitos de resignação megalómana. Somos lobos na pele de cordeiros, e nos tempos livres somos cordeiros na pele de lobos.
Somos minimalistas grandiloquentes.
Somos feitos de oscilação uniformemente variada.
Mas cada um de nós é feito das opções que toma.
16 de abril de 2005
Comunicado aos autores e leitores

Caros leitores e colaboradores:
Pela primeira vez, escrevo um post directamente no quadrinho próprio do blog para esse efeito, em vez de escrever um rascunho prévio no notepad do windows. Faço isto porque quero que seja o mais genuíno e o menos literário e estilístico possível, e porque quero ser o mais claro que me for possível. Quero também atingir o objectivo que pretendo, sem provocar a curiosidade de uns e ferir a susceptibilidade de outros.
Decidi, por várias razões, mudar o endereço do blog a curto prazo. Gosto muito do nome deste, mas infelizmente é inevitável. Queria pedir-vos a vós, leitores assíduos que querem realmente continuar a ler os nossos textos, que me enviem um feedback: se quiserem podem comentar aqui, deixando os vossos emails para que vos possa dizer qual é o novo endereço do blog, e também para poder construir uma newsletter que vos avise de posts novos, em vez de ter de estar a mudar o meu nick do msn para avisar o pessoal! Ou então enviem-me um email para valdispert@hotmail.com.
Também queria pedir aos meus amigos colaboradores que não enviem mais posts para aqui. Os novos posts serão publicados no novo blog.
As razões que me levam a fazer isto ficam para mim. No entanto, é com o objectivo de ajudar indirectamente a permitir uma gotinha de Paz no Mundo: a minha!
Grandes, grandes cumprimentos, sob as formas indicadas consoante o caso :)
João
3 de abril de 2005
O Sótão

A respiração fica-lhe mais rápida e menos profunda. O suor torna-se glacial, o mármore começa a queimar-lhe o rabo. Continua quieto, na expectativa. O elevador não pára de subir, o barulho é cada vez mais alto; bate-lhe agora o coração muito depressa: "será que é desta vez que vêm cá acima e me descobrem?".
Depois do tempo que dava para ter subido a pé as escadas inteiras, pára o elevador, no piso imediatamente abaixo, que é o último que poderia atingir. Os saltos altos ecoam na escada, mais afiados, mais definidos, ainda mais altos. Dá duas voltas à chave e abre a porta. Ouve-se o barulho de sacos de plástico transportados para dentro de casa, mas a porta de casa teima em não fechar.
A luz apaga-se, mas acendem-na de novo. Com o coração a mil, surge o receio que oiçam o seu batimento. Respira bem devagarinho para que não o oiçam - qualquer barulho pode ser fatal - a ponto de quase sufocar. "Devem ter ido às compras; quando acabarem de levar tudo para casa entram e pronto! Tenho de ser racional: alguma vez vinham cá acima à uma da manhã?" - pensa.
- Onde é que queres pôr estes vasos?
- Não sei, põem-se lá em cima na escada ao pé do sótão, depois logo se vê!
- Então não feches a porta!
Aterrado, levanta-se muito depressa e veste-se em tempo recorde; muito mais depressa do que se tivesse acordado de repente e faltassem apenas 3 minutos para perder o autocarro.Lava líquida queima-lhe a traqueia e os pulmões. A boca e a garganta estão áridas como se tivesse abocanhado saquinhos de bolinhas de sílica desumidificadoras. Deixa de haver limite definido entre inspiração e expiração.
Carregado com os tais vasos, esse alguém sobe, um a um, os degraus do primeiro lanço de escadas. Vê-lhe a cabeça branca a surgir, por entre os corrimões. Olha para um lado e para o outro. Olha para cima, para o chão, procurando um buraquinho para onde se enfiar, uma pedrinha para se esconder debaixo! Nada. O desespero, o batimento do coração como se de um pássaro pequeno e assustado se tratasse. O que faria o Macgyver nesta situação?
"Tenho de fugir, mas estou encurralado! Vai-me ver!"
Encosta-se à sólida e trancada porta de madeira escura do sótão, enquanto arfa descompassadamente e o peito lhe oscila. De olhos postos nos degraus do último lanço, sobe o senhor com os vasos, cada vez mais próximo, até que chega ao patamar e os pousa no chão. Olha então de relance para a porta do sótão, e, calmamente, torna a descer as escadas.
Tinha caído para trás, desamparado; a porta tinha mudado de estado físico - de sólida para uma fase fluida cristalina, de textura do tipo mousse de chocolate caseira - e tinha permitido que ele entrasse no sótão.Já tinha analisado mil vezes aquela porta noutras alturas, pensando para si mesmo que se ali fosse encurralado no patamar um dia, daria jeito poder abri-la. Brincando, tinha até simulado que a arrombava; no entando, tinha-se sempre demonstrado muito rija e impenetrável para quem não possuia a chave. Também por isso imaginava por vezes o que é que se encontrava naquele sótão.De si para si, confuso, pensou que fora aquele conjunto de acontecimentos, aquele contexto, que teria propiciado a mágica salvação ao momento de apuro. Talvez que o desespero elevado ao extremo tivesse invocado um milagre. Ou então aquela porta era saída de uma história mista de Stargate com Hansel and Gretel.
Levantando-se e sacudindo o pó, contempla o sótão. Do lado direito da sala, rasgam-se janelas altas e finas, palacianas, por onde penetram na escuridão feixes corpóreos de um sol amarelo de meio-dia. A toda a volta se encontram vultos de variadas formas envoltos em lençóis que, outrora presumivelmente brancos, são agora amarelos, lavados vezes sem conta por aquela luz que queima.Naquela sala, a única coisa que mexia eram as partículas de pó, que voavam incessantemente com movimentos brownianos.
Os seus passos faziam um barulho parecido com o afastar de duas tiras de velcro; o chão: pegajoso, como no fim de uma festa com cerveja, mostra agora as pegadas imprimidas em meio centímetro de espessura de cotão.
A meio do quarto, uma cama individual, com uma coberta de tecido azul claro, era a única peça de mobília visível, perfeitamente limpa e arrumada. Senta-se nela e vê com mais pormenor o resto do sótão. Nos parapeitos das janelas há molduras deitadas, pequenos vasinhos com cactos, vários animais de peluche e outros bibelots.Encostados a uma das paredes estão dois colchões de casal, com aspecto muito antigo, e um amontoado de material informático completamente obsoleto, invadido pelo pó. Numa outra parede, mais perto da porta, pedaços irregulares de espelho encontravam-se pendurados, envolvendo todo o sótão em reflexos solares.
Ao fundo, uma mesa redonda exibe um lindo bolo coberto com chantilly e morangos cortados às metades, encertado recentemente. As únicas duas fatias cortadas (uma bastante maior que a outra) encontravam-se num pratinho ao lado, por cima da faca triangular. Um pequeno papel tinha escrito: "COME-ME".
Toda aquela energia gasta pelo momento de stress despertou-lhe a gulodice, e decidiu seguir a instrução dada. Mordeu então a maior das fatias. Era um bolo muito doce, com sabor a alegria e festa. Suculento, leve, que se lhe desfazia na boca. Enquanto mastiga, inspira bem fundo, respirando a tranquilidade que quem está seguro e é amado. Senta-se de novo na cama e come o resto da fatia, sentindo-se subitamente apreensivo. "A porta... como é que aquilo aconteceu? E ele olhou para mim! Como é possível que não tenha visto o que aconteceu?"
A apreensão acentua-se, enquanto engole o último pedaço. "Será que é possível sair daqui?"
Receoso e inquieto, avança para a segunda fatia de bolo. No entanto, come-a quase instantaneamente; sente-o amargo como as amêndoas, enquanto começa a ficar desesperado. "Este bolo, aqui? Porquê? Isto é muito estranho...".Arranca então avidamente com a mão mais um bocado do bolo, e mete-o todo na boca, sujando-se com o chantilly.
Começa a sentir-se pesado, como se a gravidade tivesse aumentado de repente. Os olhos cansados tentam fechar; arrasta então o corpo para a cama e deita-se, sonolento mas estranhamente feliz e descansado. Sente-se dopado, tonto e a alucinar, enquanto mastiga o bolo lentamente, como uma tartaruga, ainda com metade por fora. Olhos semi-abertos, braços estendidos como um cristo. Mentalmente vai cantando uma música dos Jesus and Mary Chain:
It's good, so good, it's so goodSo good
Walking back to youIs the hardest thing thatI can doThat I can do for youFor you
I'll be your plastic toyI'll be your plastic toyFor you...".
- Eu sabia que duas fatias não te iam chegar!

