A Sra. M. veio à consulta dizer-me que estava óptima após a cirurgia e que já conseguia arrancar as ervas do jardim à volta de casa, que não conseguia estar parada a olhar para elas. Portanto só conversámos um pouco.
Contou-me que o pai era estucador e apenas trabalhava nos meses sem chuva, porque o estuque precisava de secar, e que a mãe era vendedora de fruta e também cedo ganhou artroses graves dos joelhos por causa do peso dos caixotes. Depois também me disse que conseguiu comprar a sua vivendinha a muito custo a trabalhar numa mercearia a vida toda, e que só a fechou para ser operada.
E eu disse-lhe que gostava de fazer o mesmo mas que o preço das casas está pela hora da morte. E que tinha saudades da minha hortinha na outra casa, com a mesma área do gabinete de consulta, aproveitadinha até ao limite com alfaces, tomateiros, rúcula, morangueiros, e couves com que fazia belíssimos caldos verdes ou cozia para acompanhar bacalhau.
Então ela contou-me que tinha duas belas cameleiras no jardim - uma branca e uma vermelha - com camélias lindíssimas. E explicou-me que lhe tinham dado as sementes, e lhe disseram que só germinariam após sete anos. E assim foi durante sete anos, a regar as sementes nos vasos até que brotassem. E que já lá iam quarenta anos.
A Sra. M. agora vive com o filho e com os três netos, porque eles perderam a casa depois de um negócio que correu mal e o banco lhes ficou com tudo. E não queriam incomodar, mas ficariam os quatro a viver na rua. E ela ficou contente e tinha-lhes dito que se encolhessem um bocadinho e que tudo correria bem.
Contei-lhe que cresci num T2 pequeno com mais quatro pessoas, mas estávamos sempre juntinhos. E nas minhas festas de aniversário vinham todos os tios e primos e avós e as pessoas se sentavam umas em cima das outras e as crianças se pisavam a jogar à apanhada, e era difícil chegar à mesa, mas que todos nos recordamos hoje desses aniversários porque eram os melhores de sempre.
Saiu da consulta a sorrir de olhos molhados e disse-me que me ia trazer sementes de cameleira. E eu prometi-lhe que ia encontrar um sítio para as semear.
Andava com uma foto dela tipo passe, metida na carteira. Tinha sido surripiada para mim por uma amiga em comum, e desde então olhava-a embevecido e sonhava acordado diariamente.
Observava-a muitas vezes ao longe pela janela, meio escondido atrás dos estores, enquanto regressava da escola. Ou juntava-me aos treinos de basquetebol feminino só para poder estar um bocadinho mais perto dela. Os meus amigos diziam-me que um dia tinha de deixar de ser maricas.
Franzina, pequena, de olhos de um castanho esverdeado brilhante e sorriso de caninos felinos, quando olhava para mim as minhas supra-renais eram apertadas por mãos habituadas a torcer panos da loiça. É claro que durava meio segundo, porque eu desviava o olhar.
Um certo fim de tarde, depois de um treino, decidi respirar fundo e acompanhá-la a casa. O dia de inverno já se tinha feito noite, e o nevoeiro borrava a luz dos candeeiros da rua. Obviamente que ela já sabia o que eu ia dizer. Fiz da timidez força e disse-lhe que gostava dela, enquanto caminhavamos lado a lado, de olhos no chão. Supra-renais apertadas e com vontade de fugir. Claro que ela acelerou o passo e me disse que era muito querido e que era um belo amigo.
Quase trinta anos depois, ainda haveria de me dar conta de que essa tinha sido até então a única vez que me tinha declarado a uma mulher.
Passei as duas semanas seguintes, depois da escola, enfiado no quarto do Chico a ouvir Pearl Jam e Nirvana e a sentir-lhes as dores como minhas; ou então ficava na minha cama a olhar para o tecto. E continuava a olhar através dos estores para ela enquanto atravessava o descampado à volta da escola por entre as ovelhas que naquela altura ainda ali eram levadas a pastar, e jogava na mesma basquetebol com as miúdas.
Chegou o verão.
Fui de férias com a família para a Ericeira, e lembro-me da minha avó e da minha irmã a divertirem-se a fazerem-me tranças no cabelo todo pela primeira vez, e eu a encolher os ombros sem qualquer medo do ridículo. Flutuava meio acordado pelas madrugadas dentro ouvindo música num walkman da Sonny, ou impedido de dormir pelos ataques das melgas, ou a imaginar o que ela estaria a fazer naqueles dias.
Um dia tivemos de regressar apenas para fazer as matrículas escolares. Naquele ano eu teria de mudar de escola porque ia transitar para o ensino secundário, mas ela permaneceria na mesma porque era um ano mais nova do que eu.
O nosso grupo de amigos ficava sempre à tarde ou depois do jantar numa praceta de terra batida entre duas fileiras de prédios, e ela morava num desses prédios. Havia um pessegueiro nessa praceta, e todos os verões a fruta bichada caía de madura no chão e saturava o ar de um aroma doce inebriante.
E foi nessa praceta, nessa manhã quente e soalheira, que esbarrámos um no outro por acaso enquanto evitávamos pisar os pêssegos caídos. Eu de tranças no cabelo, ela de t-shirt azul escura. Sorriu-me muito e falámos. Pareceu-me alegre e especialmente simpática. Descobrimos que no dia em que eu voltasse outra vez da Ericeira iria ela para o norte. Pareceu-me desapontada como eu pelo desencontro de datas. Que voltariamos a encontrar-nos logo que ela regressasse. Sorriu-me outra vez, olhava-me nos olhos, e passou ao de leve a mão pelo meu antebraço. E enquanto nos afastávamos olhámos os dois para trás por cima do ombro. Tu queres ver que ... ?
*
Tinha sido convidado para sair na noite de Halloween. Nunca tinha aproveitado esta ocasião, embora quando em miúdo tivesse chegado a ir ao Pão-por-Deus na manhã do dia de Todos os Santos, a bater às portas dos vizinhos e a receber frutos secos, castanhas, romãs, moedas pequenas e alguns doces.
De qualquer das formas sempre me agradou a possibilidade de encarnar personagens com roupas e adereços diferentes, e portanto decidi mascarar-me à minha maneira de estrela rock "agarrada".
Foi tudo um pouco à pressa. Rasguei umas skinny jeans e arranjei uma camisola terrível, larguíssima e compridíssima, com o padrão mais duvidoso que encontrei na Springfield. E encaminhei-me para o Centro Comercial Babilónia, conhecido por ser muito étnico e pelos inúmeros cabeleireiros. Certamente que ali alguém me iria entrançar o cabelo, mesmo que já a meio da tarde e em véspera de feriado.
Estava com dificuldade em parar o carro, e entretanto lembrei-me que ali perto havia uma cabeleireira que eu conhecia bem, mas que já não via há vários anos. Embiquei para aquela rua e estacionei em quatro piscas em cima do passeio. Lá estava o mesmo salão de sempre, desta vez vazio. Fiquei à entrada da porta uns segundos a olhar para a Lourdes, que arrumava as coisas, certamente preparada para fechar e ir embora.
Virou-se para trás e encarou-me. Uma expressão de alegria imensa invadiu-lhe a face e veio abraçar-me aos gritinhos. Fomos tomar café na pastelaria ao lado e falar da vida.
A Lourdes é agora cinquentona, mas continua bonita, sem um cabelo branco, enxuta, alta e imponente. Um traço. Falou-me dos filhos já crescidos e do marido que já não lhe liga há muitos anos mas de quem cuida porque talvez mais ninguém o fizesse. Há vinte anos eu tinha dado explicações de matemática ao filho dela, que agora é engenheiro e sabe mais de matemática do que eu já me esqueci. E ela guarda-me um carinho e uma gratidão que perdurou pelo tempo. Depois chamou pelo telefone um senhor que trabalhava numa oficina ali ao lado e com quem falava sobre mim porque ambos descobriram por acaso que ele era meu doente. O mundo é, de facto, uma ervilha.
"Mas João, eu acho que nunca fiz isso como deve ser! Já experimentaste ali no Babilónia? Ah, mas é para o Halloween? Então está bem, eu vou tentar, alguma coisa há de se arranjar!".
Trouxe-me uma enorme caixa de contas de feitios diferentes e disse-me para escolher. E esteve durante a hora seguinte a trabalhar no meu cabelo enquanto eu lhe contava a história da minha avó e da minha irmã a fazer-me tranças daquela vez quando era adolescente. A Lourdes conheceu a minha avó, a minha mãe, e conhece a minha irmã, e chegou a tratar do cabelo delas todas.
Saí de lá com um penteado melhor do que tinha imaginado, e ela insistiu em não aceitar pagamento. Pediu-me só o favor de regressar.
*
Há dois meses fui dar uma consulta numa clínica que fica pertinho da minha casa. Tratava-se de uma senhora de idade com quem tinha combinado fazer-lhe uma infiltração no joelho. É simpática, com a cabeça no sítio, e toda para a frente. Disse-me que tinha conhecido a minha avó, que toda a gente tinha conhecido a minha avó.
Ela tencionava ir a pé para casa depois do procedimento, apesar de lhe ter perguntado se tinha vindo com alguém para a ajudar. Respondeu-me que não.
Então saí de braço dado com ela, devagarinho, para descer as escadas e para a ajudar a entrar no carro. Acabei por lhe dar boleia.
- Eu moro ali ao pé do Pingo Doce, chegava lá a pé num instante, não era preciso!
- A sério? Mas quem mora ao pé do Pingo Doce sou eu!
Levei-a até à mesma praceta de antes, agora já sem pessegueiro, empedrada e transformada em parque de estacionamento, por onde não passava há anos. E parei no único lugar disponível, justamente em frente à porta do prédio da senhora, que era o mesmo prédio por onde tinha passado vezes sem conta para olhar rapidamente para a janela do primeiro andar onde vivia a minha primeira paixão.
- A sério que vive aqui? Eu tinha vários amigos nesta rua! E até tinha três amigas a viver no seu prédio.
- Vivo há muitos anos aqui!
Ajudei-a a sair do meu carro, que tem bancos muito baixos e dificulta a vida a quem sofre das ancas e dos joelhos.
- Lembra-se da miúda do primeiro andar? Assim magrinha...
- Claro, era a Liliana, coitadita. Tinham um Renault 5 branco. Aquele acidente foi uma desgraça... depois a família mudou-se daqui, nunca mais soube deles.
- Pois... eu também não.
Fiquei a vê-la a entrar no prédio a coxear enquanto me acenava com a mão.
*
Fiquei uma hora estacionado à espera para ir sair no Halloween, à uma da manhã, vestido de GILF, estrela rock de tranças, calças rasgadas, olhos pintados com lápis e sombra. Mas esperei pacientemente, porque aprendi há muito tempo que não se deve apressar uma mulher que se quer pôr bonita.
A minha companhia vinha inspirada no Blade Runner, uma estupenda replicant. Um traço ainda maior. E contou-me que se demorou muito porque esteve a pôr a filha de 14 anos - a mesma que vi com dias de vida - debaixo de duche frio por se ter portado mal numa festa de Halloween em que havia vodka preta.
Percorremos por quilómetros o fundo do Bairro Alto e as travessas de Santos de braço dado, por entre pessoas mascaradas. Algumas delas olhavam e certamente reparavam na disparidade daquele duo. Fomos parar a duas discotecas a que não ia há muitos anos, apeteceu-me dançar apesar das botas CAT pesadas que tinha calçadas e acabámos de manhã a comer pão com chouriço da Merendeira abrigados da morrinha que caía na rua.
Tive uma noite divertidíssima. Cheguei a casa sem sono, sem dor nos pés, e de alma lavada. O cabelo, esse não o lavei durante uma semana para manter as tranças só mais um bocadinho.
(Senhora Mãe) - Eu a cozinhar carne e a mostrar-lhe: "vês, isto é uma perna, isto é uma asa...". E eu a pensar "ou vais achar nojento ou fazer perguntas sobre o animal".
Nada.
A tua filha: "Mas olha, não tires a pele que eu gosto. Agora parece nojento mas depois fica bom.".
"Imaginem que estão sentados numa cadeira, em frente a uma mesa. Imaginem que em cima dessa mesa está um puzzle; puzzle esse que têm vindo a construir durante meses a fio.
Imaginem as horas perdidas em redor deste...
Imaginem tudo aquilo que deram de vós para o ver finalmente construído...
Imaginem a dedicação...
A obsessão que aquele puzzle representa...
O desejo inexplicável de o ver finalmente concluído.
Imaginem agora que todo o puzzle está constuído. Falta uma única peça, peça essa que está na vossa mão, pronta para ser colocada no espaço em branco, no espaço que falta para, por fim, completar o puzzle e, de certa forma, para completar-vos a vós mesmos.
Imaginem que, no preciso momento em que vão colocar a última peça no seu devido lugar, ela vos cai por entre os dedos. Imaginem-na a deslizar pelo chão...
desliza...
desliza...
desliza...
Imaginem que esta peça, com toda a paz e equilíbrio que para vós representa, decide finalizar a sua viagem instalando-se confortavelmente por baixo de um móvel... Um móvel daqueles antigos, pesados, que exigem no mínimo a força de três homens robustos para serem movidos.
Imaginem que, não sem uma ponta de desespero, se precipitam para esse mesmo móvel, com todo o tipo de objectos, procurando retirar de lá a tão ambicionada peça.
Imaginem então que nenhum dos instrumentos de que se serviram para chegar à dita peça é suficiente para a alcançar.
Imaginem que já tentaram tudo para remover a peça do sítio onde se instalou, mas sem sucesso. Imaginem que não há nada mais que possam fazer para tentar tirá-la de lá.
Conseguem imaginar o que fariam então ?"
Moony, julho de 2007
*
Minha querida Moony:
Decidi ter a ousadia - ou cometer o sacrilégio - de continuar o teu texto.
Primeiro exprimiu-se a veia de orto em particular, e de homem no geral, que me empurrou a fornecer soluções para resolver o problema.
Já tentaste lá chegar com o cabo de uma vassoura? Tens a certeza que o móvel é assim tão pesado que não dá para arredar sem dares cabo das tuas costas? Será que não dá para tocar à campainha do terceiro esquerdo onde há uns jeitosos do ginásio que te podem ajudar? Será que não podes usar a "força" para atrair telecineticamente a peça para ti? Já experimentaste desligar e tornar a ligar?
De facto muitos homens tendem a oferecer soluções aos problemas que as mulheres lhes apresentam, e não percebem que nem sempre é isso que elas pretendem. Vocês às vezes querem apenas ser ouvidas, e ouvir é uma coisa que muitos de nós não sabem fazer.
A verdade é que a minha veia de orto em particular e de homem no geral está em transformação, agora que tenho tempo para reflectir. E, portanto, talvez não tenha o talento para terminar o teu texto de forma esteticamente atraente, nem o sentido prático de fazer facilmente um damage control aos problemas,mas fizeste-me pensar e sentir. Nunca é demais valorizar a capacidade de uma cabeça de pensar, e de um coração de sentir.
O meu primeiro impulso foi responder-te que saberia exactamente o que fazer: desmanchar o puzzle imediatamente e metê-lo na caixa, e enfiá-la em cima de um armário. Mas o meu lado orto obriga-me a ser um reconstrutor, e o meu lado romântico impele-me a crer que não há impossíveis. E que sim, há peças perfeitas, especiais, insubstituíveis. Eu e o meu Ѱ andamos à espadeirada por causa deste tema e acho que nunca estaremos de acordo, portanto se ele alguma vez ler isto irá abanar a cabeça de certeza.
Será que a peça escorregou sozinha das tuas mãos ou foste mesmo tu quem a deixou cair? Vou excluir a possibilidade de a teres atirado deliberadamente ao chão e para debaixo do móvel, mas talvez não o devesse fazer tão levianamente, uma vez que acontece.
Quer pelo medo de completar a façanha e não ter uma satisfação tão grande quanto se esperava.
Quer porque afinal nos fartámos de fazer puzzles.
Quer por um acesso temporário de insanidade.
Quer por acharmos que não merecemos a recompensa.
A verdade é que a peça foi parar debaixo do móvel, e é lá que está. Ou será que não? Tens a certeza de que consegues vê-la? Domina o teu desespero e a tua vontade. Conseguirás esperar algum tempo, e ter ideias diferentes para recuperar a peça?
Eu aprendi que o tempo e a paciência podem levantar alguns móveis, da mesma maneira que o tempo e o alheamento podem depositar monos em cima de nós sem que nos apercebamos.
Conforme o tempo passa, muitas coisas podem acontecer. Um ratinho pode morder as orelhas à peça caída. A humidade pode fazer o cartão inchar como um mil folhas. A cor e os desenhos da peça podem desbotar. Uma corrente de ar vinda por debaixo da porta da rua pode soprar-te a peça de volta às tuas mãos. Um aspirador pode engolir-te a peça para sempre sem que o saibas sequer.
E no entanto, durante esse tempo, como nunca mais a viste à luz vais sempre pensar que ela é ainda mais bonita e perfeita do que originalmente.
Pode acontecer que nunca a recuperes, e se assim for o "e se?" tornar-se-á difícil de silenciar.
E pode até ser que quando a recuperares não gostes dela, ou nem sequer encaixe no puzzle.
A metáfora mais importante é o puzzle, não é a peça. E um dia pode parecer-te que fica mais bonito sem ela.
No pico deste verão, às 3 da manhã, estava eu a trabalhar sem ar condicionado e com 35 graus de temperatura ambiente. Já estava mais do que na hora de tentar descansar um bocado, já não havia o que fazer, e portanto encaminhei-me para sair. Estava quebrado pelo calor, mais do que pelo trabalho.
Já tinha pensado em deixar de trabalhar ali há algum tempo, mas não tinha sabido dizer que não a quem me pediu para trabalhar nestes dias, e portanto tinha cumprido com a palavra dada. Sempre foi um ponto de honra para mim o não virar o bico ao prego e deixar alguém na mão, mesmo que isso me prejudicasse mais do que beneficiasse. Um parvo sem noção.
Encaminhei-me para a sala de espera geral para sair pela porta.
Estavam bastantes pessoas sentadas nas cadeiras, algumas de olhos fechados, outras de canadianas ou de cadeiras de rodas, algumas a conversar em sussurros. Na televisão transmitiam as televendas. Quase silêncio e bastante calor.
Vieram umas enfermeiras da Pediatria a correr atrás de mim para me apanharem antes que saísse.
"Doutor, doutor! Não se vá embora!".
Vinham com uma senhora com uma menina pequena ao colo.
"Não há Pediatria hoje no hospital... Mas podia ver a criança? Tem um bracinho magoado...".
Olhei para a menina ao colo da mãe. Estávamos todos em pé no meio da sala, e ela obviamente não me queria deixar mexer no cotovelo e esperneou um bocadinho. Toda a gente a olhar.
"Estás cheia de soninho, não é? Pois... também eu... deixa cá ver o teu cotovelinho... sim, eu sei que não queres... eu sei que é muito chato...", trlick!, "Pronto... já está... já não te faço mais mal..." ... calou-se. As enfermeiras e a mãe ficaram admiradas e agradecidas. A plateia da sala de espera olhava curiosa para mim, sujo de gesso, em fato de treino, desgrenhado, olheirento, e farto de ali estar. Parecia e sentia-me um desenterrado, desterrado, longe de casa.
Virei-me logo e fui-me embora.
Pela primeira vez não senti orgulho ou regozijo.
E subitamente deixou de me fazer sentido o trabalhar tanto, ou melhor, o decidir estar ali, ou melhor ainda, o achar que as pessoas eram mais bem tratadas se eu ali estivesse; ou o ganhar dinheiro que podia ser importante para depois, sacrificando sucessivamente os agoras e todas as formas com que poderiam ter sido preenchidos em alternativa. Não tinha havido agoras que me oferecesse a mim próprio durante anos, e muito menos partilhara agoras suficientes com aqueles que gostavam de mim. Em vez disso, tinha até então extraído satisfação na minha capacidade de encaixar trabalho por cima de trabalho no calendário, num tetris perfeito.
Foi nesse exacto momento que o fiel da minha balança desvariou de dor, e um dos pratos rebentou a corrente que o prendia e embateu violentamente cá em baixo, partindo o chão de mármore e despenhando-se na cave da minha consciência - o prato dos sorrisos que não vi, das saudades acumuladas, do ressentimento do amor perdido, dos últimos momentos que podia ter tido com as pessoas queridas que partiram entretanto.
*
"Olha para a tua trajectória e pensa se alguma vez fizeste alguma coisa para magoar alguém, se tiveste intenção de causar dor a alguém. Não tiveste. E podem dizer-me que não interessa a intenção, que o que interessa são as consequências.
Eu não concordo.
Tudo interessa e as intenções também! Porque elas demonstram o que está no nosso coração. E para além disso, tu foste reagindo ao que foi acontecendo na tua vida... e que, sinceramente, não tirou o bom de dentro de ti.
Sabes, eu uso uma expressão quando me refiro a alguém ou alguma coisa que me faz sentir o porquê de viver e que sei que é um sinal de que o amor existe (e estou a falar simplesmente de amor, amor puro... não necessariamente de relações amorosas): colo de deus.
Veio-me essa expressão em alturas em que não estava muito bem. Então, para tentar sentir-me melhor, fechava os olhos e imaginava que estava literalmente no colo de deus... e por vezes resultava. Ficava numa paz e sentia que podia acontecer qualquer coisa, que nada interessava naquele momento. E a partir daí, quando conhecia alguém ou via alguma coisa simples e especial, sabia que era aquele o colo de deus.
Só podia ser.
E tu... já foste e és o colo de deus para muita gente e ainda serás para muita.
Agora estarás a pensar que eu estou a dizer isto porque não te vejo os defeitos e tal... mas não tem absolutamente nada a ver com isso. Provavelmente terás defeitos como toda a gente, mas orientas-te por um fundo bom.
O que eu disser não vai mudar o que sentes ou pensas... mas tu estás no caminho do bem e, na verdade, eu acho que sempre estiveste.
Uma vez ouvi uma frase deste género: "se não dermos comida ao nosso bicho interior, ele vai-nos incomodar até lhe darmos o que nos faz felizes". E aqui a palavra bicho eu substituo por alma... eu não sei o que te faz feliz, mas foi isso que tu sempre quiseste de certeza.
Meu querido, tu mereces tanto ser feliz!
Talvez não o tenhas feito sempre porque acabaste por silenciar a tua alma.".
D.S., em mensagem dirigida a mim.
14-10-2023
*
Hoje ouvia Lofi lounge no youtube enquanto escrevia. Havia um salmão com leite de côco a assar no forno para o jantar. A música fundia-se com o canto grave do vento que soprava as frinchas das portas mal vedadas da varanda da sala, temperado pela chuva abandonada em saraivadas.
Estava em boa companhia, a 283 quilómetros de casa.
Depois voltei ao trabalho para cumprir com uma última palavra dada.
Na rua a chuva molhava agora os tolos, e parecia despejar-se dos focos dos candeeiros rodeados de escuridão, de que saí para o branco fluorescente do hospital. E os meus colegas ficaram estupefactos quando lhes disse que não vinha mais.