3 de setembro de 2007

Arripiado

Pressinto nas palavras o lúgubre silêncio de um mudo. Conseguisse eu falar, soubesse eu codificar de forma estruturada a causa desta insónia que fragiliza o meu sono. Há muito que não escrevia, julgo que perdi a capacidade de transpor para o papel qualquer ideia que ultrapasse o mero rigor teórico-científico. A fluidez com que outrora manuseava a caneta ou premia as teclas do computador esgotou-se em mim, comigo.
O vento sopra lá fora, ainda quente. Tudo dorme, pelo menos no raio mais próximo. A música acompanha-me nesta viagem pela escrita, serena, bela. Ouço a sonata ao luar de Beethoven e reconheço nela uma beleza tão antiga quanto a minha (nossa) existência. Na intimidade da noite, sigo as notas do piano. Calma, consentida pelo meu espírito agitado que corre apressado na incessante busca do silêncio melódico do campo, da maresiada brisa do Sul, do gélido Inverno a Norte. Ah, como anseio por um pouco de ar.

Percorro os quatro cantos do meu quarto, da cidade, e não encontro neles qualquer saída. O fumo infiltra-se no meu corpo insuflado e o espaço exíguo que me cerca esvai-se a cada segundo que passa. Apenas a guitarra compensa esta asfixia constante. Mesmo que soltas e sem nexo, encontro nas notas um caminho para o indizível. O som vibra nos meus dedos e eis que uma amálgama de emoções escoa pelos meus braços e depois por todo o meu corpo. Sinto-me leve e despojada, renunciando a tudo o que existe para além de mim e de um simples objecto que no mais subtil dos harpejos ganha vida.
Dizia Vergílio Ferreira em Estrela Polar que "Não se Ama uma Pedra. Amar é reconhecer nos outros um ser misterioso, e não um objecto (…) Aqueles que não amamos nem odiamos são nítidos como uma pedra. Sentir neles uma pessoa é começar a amar ou a odiá-los. Só amamos ou odiamos quem é vivo para nós." Apesar de verosímeis (sobretudo no contexto da obra), reconheço nestas palavras a minha mísera condição de amar um objecto, tão misterioso quanto mais o conheço e tão vivo quanto mais o amo.
Quando percorro as ruas ou viajo em transportes públicos procuro compensar a minha solidão tentando desvendar os pensamentos daqueles que, também solitários, se sentam ou passam por mim. Bem sei que não sou dotada de poderes premonitórios nem tão pouco telepáticos, contudo apraz-me tentar desvendar o seu nome, a sua vida, os sentimentos e pensamentos que vibram naquele preciso instante. Apesar de tais tentativas, a minha curiosidade e interesse cedo desvanecem. De repente, o intermitente e irritante mascar da pastilha elástica, já seca, sem sabor, o roer ruminante das unhas e os embrutecedores estalidos dos nós dos dedos transfiguram o semblante daqueles que me acompanham, de mim própria. O Homem torna-se num verdadeiro objecto, grotesco e insignificante como as pedras da calçada que pisamos ou como os pacotes de cigarros e os filtros que se amontoam pela orla dos passeios.
Tem sido particularmente difícil assumir uma existência embrutecida impregnada por um espírito eminentemente vivo. Se por um lado sinto uma vontade enorme de dar a vida em prol do bem estar dos meus companheiros de viagem, por outro sinto que é uma luta inglória e que apenas trará sofrimento e agruras. Sei que prevalecerá para sempre o objectivo primário de contrariar a morbilidade e sofrimento, contudo os riscos inerentes a essa missão fazem germinar um sentimento relutante. Será que vale a pena lutar e dar a vida pelo próximo? Poderá até nem valer, porém, com que direito ousamos julgar-nos superiores a ponto de centrarmos a existência somente na nossa vida e na daqueles que amamos?
Chegamos então a uma encruzilhada. Amamos nós os doentes, pessoas desconhecidas, pedras? Ou limitamo-nos a tratar de doenças somente porque amamos a vida ou porque no fundo da nossa essência existe algo desconhecido que nos impele a tal anseio pela cura e manutenção da espécie?
Ao longo dos anos de curso e de extensas horas de espera pelos corredores dos hospitais instalou-se em mim a dúvida – será que vale a pena? Embora seja uma questão pertinente, a resposta surge em mim como um verdadeiro axioma – vale! As constantes desilusões que sinto ao escutar as maledicências entre colegas que ecoam pelos corredores e pelos cubículos onde os “mestres” confortavelmente se instalam, a demissão do ensino por parte dos senhores doutores, a irresponsabilidade por parte de muitos doentes, a constante competição e luta pelo maior número de actos cirúrgicos, entre tantas outras contrariedades que me afligem e com as quais me vou deparar no futuro, não são suficientes para demover do espírito humano (sobretudo daqueles que escolheram a medicina para profissão) o instinto de sobrevivência em si impregnado desde as origens.
É desse instinto que surge a força que nos impele a amar um doente como uma pedra ou a sentir por uma pedra o amor que resplandece daqueles que amamos com toda a intensidade da vida. O caminho que já percorremos e o limiar ténue que nos separa do abismo que é a nossa condição de estagiários não é fácil. Penso que grande parte de nós já se sentiu (ou sentir-se-á) perdida nalgum ponto do seu percurso. Porém, quando a dúvida surge, há que apaziguar as interrogações e seguir de forma “irracional”, diria mesmo, puramente “animal”, esta dádiva enorme que é poder ajudar o próximo.
Este texto pode parecer despropositado e desconexo. Apesar disso, penso que vale a pena relembrar que ser médico vai além da indumentária estetoscópica. Ainda que as duvidas existenciais interpelem as nossas certezas, ainda que os problemas pessoais e quotidianos possam causar alguma instabilidade, é impreterível manter a frieza terna e complacente. Acima de qualquer amor, ódio ou instinto humano devemos ser realmente bons naquilo que fazemos, assumindo de forma consciente e honesta a inigualável e importante missão que nos foi concedida. Lutemos pela Vida.

"Sê"

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda

1 de agosto de 2007

Killing Me Softly - parte 1


"Queijas, anos 80. Agora está lá um Pingo Doce. A baliza, feita pelos putos, nunca caiu."
É madrugada e está quase na tua hora. Está entreaberta a janela do quarto, e as frinchas dos estores, aqueles que não me lembro de alguma vez conseguir fechar completamente, deixam entrar alguns raios da luz tão própria dos candeeiros deste momento. O silêncio é total e só estou aqui eu.
Por esta altura, talvez só as carrinhas da distribuição do pão, dos bolos, dos jornais. Talvez apenas elas interrompem o silêncio lá fora, de vez em quando. Os pássaros ainda dormem. Ainda é cedo para que a sua confusão de chilreares dê forma ao novo dia que aí vem. Também ainda não é altura do sol nascer, mas se eu estiver acordado já consigo sentir na minha pele as ondas de ar cada vez mais quente, aquelas que fazem adivinhar que vem aí mais um dia de calor.
Está quase na tua hora. Espero a qualquer momento que a porta do meu quarto expluda e me acordes brutalmente. Sem preparação paliativa, será algo como “João.”, ou “Está na hora.”. Ou, em dias mais criativos, “São cinco e meia.”. Apenas e só uma palavra ou frase, em tom grave, numa frequência que faz tremer pelo menos um bocadinho as fundações do prédio, que se ouvirá na casa toda, e que invariavelmente me fará saltar na cama e responder instintivamente “Hã!”. Ou então, de forma mais educada, “Sim!”, se é que há no instinto alguma educação. De qualquer forma, eu nem saberei o que digo, pelo que estas palavras monossilábicas próprias do acordar poderiam perfeitamente ser substituídas por um grunhido assustado, proferido com aquele ar residual que parece ficar nos pulmões depois de uma noite inteira sem respirar. Ou por aquela primeira tossidela de quem acaba de nascer.
Mas hoje eu acordei espontaneamente, e sem nenhum motivo em especial. Estás sentado numa cadeira, junto ao armário, perto da janela. Não sei como conseguiste arranjar espaço, no meio de tanta tralha e confusão. Roupa usada, caída no chão ou empoleirada em cima da bicicleta – é o melhor cabide que conheço – bolas de desportos vários, quilos e quilos de fotocópias empilhadas no chão, das quais só devo ter lido metade, e que nunca vou conseguir arrumar apesar de estar de férias – vou talvez conseguir mudá-las de lugar, e ficarão igualmente desarrumadas, embora talvez um pouco mais longe do meu campo de visão imediata. O que é certo é que conseguiste, e a luz dos candeeiros, filtrada pelas frinchas do estore, aquela luz tão própria dos candeeiros amarelos àquela hora em que estão quase a apagar-se embora ainda o sol não tenha nascido, desce obliquamente, esboça a tua silhueta e projecta-a na minha nudez deitada. Não é possível ver a tua cara, mas conheço-a bem. És como uma fotografia com demasiado contraste, em que se perdem os pormenores mas ficam mais fortes as formas realmente importantes. Ainda assim, sei que estás com o teu robe turco, azul claro roçado.

- Não consigo tirar da cabeça a música “Killing me softly”. Só conheço o cover da Aretha Franklin que passava imensas vezes na Rádio Nostalgia. E só há poucos dias percebi que era essa a música que te fartavas de assobiar; especialmente aquela parte do início. Só que as notas estavam desafinadas… passei anos a ouvir-te assobiar aquilo e nunca percebi o que era, mas imitava-te, mentalmente e não só.
- Sempre te disse que era duro de ouvido...
- Sim … com os anos fui percebendo. Mas apesar de conhecer perfeitamente a música, nunca lhe tinha ligado o teu assobio. Fazia-lo constantemente no banho, de manhã muito cedo, enquanto eu ainda dormia ou ia acordando. Esse teu assobio ficou-me marcado como se fosse um condicionamento por hipnopedia. Como no “Admirável Mundo Novo”, sabes? E há dias, quando estava a ouvir essa mesma música enquanto conduzia, quis assobiá-la, e quando o fiz cortou-se-me a respiração; estremeci; o coração acelerou mais do que o carro; senti-me como percorrido por um relâmpago. Encostei o carro na berma e percebi que me tinha lembrado imediatamente de ti, de uma forma completamente imprevisível e ininteligível. Foi aí que entendi o que era o assobio, e senti-me mesmo muito estranho. Foi como uma revelação.

- Então e agora? Já assobias a música sem desafinar?

- Não. Soa-me muito melhor o teu estilo.


*

Agora já não corro para apanhar autocarros. Sobretudo, porque ando quase sempre de carro. Mas quando vou de autocarro, não corro atrás dele. Se estou atrasado, deixo-me estar e pronto. Mesmo que o próximo venha daqui a bastante tempo, sinto sempre que a culpa não foi minha por não o apanhar. Ele é que passou cedo demais, não fui eu que acordei tarde demais.
Mas, há já muito tempo, puxavas-me o braço e corrias, e eu ia pelo ar. Os meus pés pequenos chegavam ao chão de vez em quando e davam impulso para mais uns metros de arrastão – naquela altura parecia-me que corrias muito depressa. E eu ria-me até me doer a barriga por não conseguir acompanhar o teu passo, e íamos mesmo velozes, e tu também te rias porque eu não conseguia parar de rir e porque sabias que eu estava no limite e mesmo assim corrias mais depressa de propósito. Não me lembro de alguma vez ter de esperar por uma camioneta quando ia contigo. E depois, na camioneta, estava cheio de calor, e a camioneta ia mesmo muito depressa, o motor acelerava tanto que fazia um som altíssimo e agudo, e parecia que se ia desfazer toda, enquanto descia aquela rua das árvores, no Estádio Nacional. Em muito pouco tempo estávamos na estação de comboios da Cruz Quebrada.

Quando eu dizia na escola que ia contigo procurar pedras – “as pedras certas” - para a praia da Cruz-Quebrada, não percebiam e gozavam comigo. E estranhavam essa e muitas outras coisas que eu dizia, e que tinha aprendido contigo. As crianças estranhavam-me e gozavam, e os adultos admiravam-se pela minha maneira perfeita de falar, com palavras caras. Não percebiam de onde vinham aquelas ideias diferentes, pouco comuns para uma criança tão pequena.
De qualquer maneira, nem uns nem outros sabiam que tu pegavas nessas pedras e com elas construías obras de arte. E também não percebiam muito bem o que queria eu dizer quando lhes dizia que “fazia barro”contigo.
Não me lembro de alguma vez me ter sentido posto de parte por me acharem diferente. Em vez disso, habituei-me a sê-lo e a gostar disso. A minha idade dos porquês foi muito enriquecedora. Aprendi desde muito novo a escrever impecavelmente, sem erros, e a gostar de ler e de escrever, porque tu não gostavas nada que eu escrevesse com erros – ficavas com os olhos muito grandes e falavas mais alto, especialmente quando eu repetia um erro.

Certa vez, estava eu doente, sem ir à escola, e houve um teste importante – uma prova, como se dizia na altura. Uma prova importante, se é que há provas importantes na terceira classe. E eu estava doente, mas como era importante, disse que tinha que ir fazer a prova e fui, levado pela minha mãe, com o pijama por baixo da roupa. Cheguei bastante atrasado, sentia-me mal disposto, febril, e tinha aquele gosto terrível a laranja-aspegic na boca. Mas fiz a prova, e tive nota máxima, melhor nota do que toda a gente lá na sala. Já não me lembro que prova era, mas lembro-me, isso sim, de que escrevi lá coisas que me tinhas ensinado e de que tínhamos conversado e que me vieram na altura à cabeça. De resto, as minhas composições eram quase sempre lidas pela professora em voz alta, para toda a turma ouvir.

Acho que só comecei a jogar futebol e outras coisas próprias da idade quando os meus colegas já se estavam a desinteressar disso por causa das raparigas. Eu preferia ler e fazer outras coisas. Andar de bicicleta como os outros também foi muito mais tarde do que o normal – já poucos andavam de bicicleta. Por isso mesmo, e já com aulas de Educação Física, era sempre dos últimos a ser escolhido para as equipas nos intervalos em que jogávamos à bola. E ia sempre à baliza. Só já no 8º ano, quando construíram uma escola em frente à minha casa, é que passei a ocupar os dias a jogar futebol e basquet, intensivamente. Com os anos passei a correr mais depressa e a jogar tão bem ou melhor ainda do que quase toda a gente. Entretanto, muita gente já não jogava sequer, porque já tinha passado a idade dessas coisas.
Nunca fomos muito ricos, embora nunca nos tenha faltado absolutamente nada do que era importante. Mas, uma vez, tinha eu uns doze anos, chorei com os nervos quando um vizinho me furou uma bola com uma faca. Eu estava a jogar com um amigo meu, e esse vizinho foi-se pôr a assar sardinhas num fogareiro mesmo por trás de um cesto de basquet que tínhamos construído com um barrote roubado numas obras, uma placa de contra-placado a fazer de tabela, e um aro de uma jante de bicicleta. O terreno era de terra, nas traseiras da minha casa, e tínhamos andado lá com enxadas a limpar as ervas daninhas até me nascerem bolhas nas mãos. Na altura, os nossos campos eram sempre assim, com balizas ou cestos feitos por nós, miúdos, e eram cheios de montes e buracos e enormes calhaus de basalto; apesar de tudo, nunca torci um pé por causa disso, e até hoje não parti nenhum osso. Mesmo com a escola que construíram à frente da minha casa, não nos deixavam ir jogar para lá, e embora tivéssemos saltado inúmeras vezes as grades da vedação, o segurança – um homem mal encarado, bêbado e sem qualquer educação - chegava a chamar a GNR por causa das nossas invasões. Lembro-me de ver os jipes (era sempre mais do que um, o que me fazia sentir uma real ameaça à sociedade) da GNR a subir a rua em direcção à escola, e nessa altura corríamos o mais que podíamos, tornávamos a saltar a vedação e enfiavamo-nos no prédio de algum de nós, enquanto nos riamos sem parar. Depois haveria de se continuar o jogo interrompido por motivos de força maior, e havia sempre alguém que se lembrava do resultado. “Tava quanto a quanto? A bola tava nossa!”.
Naquele dia, um lançamento mal calculado foi embater no fogareiro do tal vizinho, que estava no chão. Ele não gostou e furou-me a bola, sem dizer uma palavra. Chorei, não por ter ficado sem a bola – que era de futebol – mas pelos nervos causados pela besta que era o meu vizinho, e principalmente porque aquela bola me tinha sido dada por ti, e tínhamos ido comprá-la numa loja de desporto na baixa, num dos nossos passeios a pé, sempre a pé, por toda a Lisboa.

Nessa altura arranjei um canivete daqueles da propaganda médica, dado pelo tio Luís, e não directamente a mim, de certeza. Era daqueles que só cortava se fizéssemos muita força, e não me era muito útil na altura, porque a principal função era tirar caricas das garrafas de cerveja. Dava tudo para ter visto a cara do meu vizinho quando se levantou para ir para o trabalho e viu os quatro pneus do carro dele furados. Com facas mato, com facas morro, terá pensado.

No outro dia vi o tal segurança, enquanto tomava o pequeno almoço no café aqui da esquina. Está velhíssimo, com a mesma cara de besta, cospe no chão, anda com bengalas e mal se mexe. Come todos os dias um caracol e uma meia de leite.

*
Não foi esse o meu début no mundo dos pneus. A estreia já tinha acontecido há uns anos, num episódio que me tornou muito famoso junto da minha comunidade. Tenho a certeza de que te lembras muito bem.
Estava eu na primeira classe, com 5 anos, e tinham-me dado uma daquelas agulhas de picotar com cabinho de madeira, juntamente com uma esponjinha paralelipipédica, para fazer aqueles trabalhos da escola com papel de lustro. E então resolvi, no caminho da escola para casa, ir espetando essa agulha nos pneus de alguns automóveis. Gostava da sensação daquele arzinho a sair tsssssss! Mas depois ia-me logo embora, e como o furo era pequenino não chegava a ver a inevitável transformação do pneu. Assim sendo, ter-me-á parecido prática inofensiva, pelo que repeti sucessivamente a coisa.
Não creio que o meu modus operandi tivesse obedecido a qualquer critério especial de selecção das vítimas. Certo é que consegui acertar nos carros dos pais de alguns amigos meus de cá da rua, e como um deles me viu a fazê-lo, juntaram-se para me linchar quando a minha avó me tinha dito para lhe ir fazer um recado à mercearia. A intervenção providencial da minha avó evitou o pior nessa altura.

Certo é que... fui dar contigo sentado no meu quarto, na mesinha de cabeceira branca da minha avó, a olhar fixamente para a janela. Estavas calado, com um olhar muito estranho. Os teus olhos azuis acinzentados brilhavam muito, não olhavas para mim. Não me lembro se disseste alguma coisa. Mas eu sei que pedi desculpa, e tentei explicar que o tinha feito “para ver como era fazê-lo”. Nunca mais me esqueci.

Como eu já disse, nunca fomos muito ricos, e não deve ter sido pouco o que se teve de pagar na altura por causa da minha diabrura. Houve até pessoas que quiseram que se pagasse pinturas novas por causa de riscos que não tinham sido produto da minha arte. Na altura, não corria o risco de que fizessem com o nosso carro a mesma coisa, porque não tínhamos. Tiraste a carta já bastante tarde, e dos meus amigos era o único cujos pais não tinham carro. Depois, lá arranjámos um Renault 5 vermelho em segunda mão.

A minha primeira bicicleta, do tipo BMX, foi comprada em parte com dinheiro que tinha poupado, e já eu tinha uns doze anos. Lembro-me que não chegava com os pés ao chão, mas não foi por isso que me instalaste rodinhas para aprender a andar, como se costumava fazer na altura. E tão pouco me amparaste enquanto aprendia. Lá tive que me amanhar e aprender a andar nela. Mas rapidamente ganhei confiança, o que precipitou o meu maior espetanço de sempre.
Foi num Verão, estava muito calor, e fui fazer uma descida que na altura me parecia enorme, e que acaba numa semi-curva, ladeada por aquelas pedras brancas baixinhas que desenham os estacionamentos mais antigos. Essa descida ficava perto de casa, mas suficientemente longe para demorar 10 minutos a lá chegar a pé, e era uma rua de alcatrão com pedrinhas de gravilha. Resolvi fazer a descida em tronco nu, sem mãos, e de olhos fechados, para sentir melhor o fresquinho da velocidade. Até agora, mesmo tendo ido de bicicleta até para o Algarve, foi a única vez que andei em tronco nu.

Quando a roda resvalou nas tais pedrinhas brancas, cá em baixo, aconteceu o pior.
Dos polegares, saíram metade das unhas. O meu tórax e parte do abdómen esquerdo, desde a clavícula até quase ao umbigo, ficaram em carne viva. Tive de levar a bicicleta ao ombro porque ela ficou bastante maltratada e a roda da frente ficou empenada, elíptica, com raios partidos, e o pneu rebentou. Lembra-te que antigamente os aros eram num metal super rijo e pesado, não eram como agora, que são de alumínio muito leve – talvez isto dê uma melhor ideia da violência do espetanço.
Estava muito calor, mas quando entrei no fresquinho das escadas do meu prédio, a coisa começou a doer a sério. Quando bati à porta – também só tive chaves de casa quando era mais velho – a minha avó abriu e eu estava a chorar. Deitei-me no chão de taco encerado do hall da minha casa, e a minha avó deve ter gasto dois pacotes de algodão em rama. Primeiro espremeu água, depois álcool, por cima da ferida. Os meus amigos que moravam noutro quarteirão vieram bater à minha porta por causa dos gritos, para ver o que se passava. Nessas férias, fiquei um mês sem me mexer como deve ser, e passadas semanas ainda saiam bocados de pele, crosta, e pedrinhas de gravilha do meu peito, durante o banho. Ainda hoje essa pele não bronzeia como deve ser.

Vejo agora boa parte dos meus colegas de primária que gozavam comigo por ser mais intelectual, e dos tais amigos da minha rua que quiseram fazer justiça pelas próprias mãos – naquela altura qualquer razão era boa para bater em alguém que fosse mais fraco. Com algumas excepções (e esses não eram os piores na altura), têm vidas lixadas, com empregos lixados, com salários lixados, e continuam com a mesma pouca cultura e educação que tinham.
A maneira como me educaste levou-me a tomar as desvantagens em meu favor. Não foi por ser o mais pequenino das turmas onde andei na primária e no ciclo que fui dos que levou mais tareias dos mais fortes e estúpidos (e mesmo assim levei várias), porque também foi contigo que aprendi a ser mais esperto e a escapulir-me. Em muitos casos até consegui que me protegessem e admirassem.
Não foi por ser mais baixinho que toda a gente que deixei de jogar basquet melhor do que os outros, ou que deixei de aprender a correr bastante mais depressa do que eles. Não foi por ter menos dinheiro ou menos condições que deixei de estudar e aprender mais do que os outros e ir mais longe do que muitos. Se hoje pertenço a uma pequena minoria, foi porque mesmo sem grandes palavras ou explicações, ou mesmo grandes exemplos, me mostraste que é possível atingir grandes objectivos, se dermos o máximo para sermos sempre melhores.
Não apesar das limitações, mas por causa delas.
*

9 de junho de 2007

Quiz test - Verdades de La Palisse




Será que ele gosta de ti? És sexy? Precisas de emagrecer neste Verão? És capaz de o pôr louco de desejo? Responde a este questionário e tira as tuas dúvidas! Regista as tuas respostas e vê a tua pontuação no fim (ou não).

1 - Se ficas absorvido todos os dias no teu trabalho, depois não te admires...

a) ... que não te convidem para jogar poker às quartas-feiras à noite ou beber copos ao fim-de-semana;
b) ... que só te telefonem quando precisam de ajuda porque "tu até trabalhas na área";
c) ... que quando te virem na rua só te perguntem como vai o emprego, porque sabem que não tens mais nada para contar.

2 - Se não deres de beber de vez em quando aos teus amigos, não te admires...

a) ... de eles irem procurar água noutras paragens;
b) ... de receberes muitos postais de Natal;
c) ... de não chorarem muito no teu funeral.
(Quando aqui cheguei ao café, não estava cá ninguém; agora mal tenho espaço para a bica e para o pc na mesa, sentaram-se três velhotas à minha volta, e uma delas está a dar-me pontapés por baixo da mesa).

3 - Se trocares o teu namorado por outro por causa do dinheiro, depois não te admires...

a) ... de ser encornada à força toda;
b) ... de teres mais dois sítios onde pendurar as jóias;
c) ... de seres trocada daqui a 10 anos por outra mais nova.

4 - Se beberes, fumares, e andares a comer pequenas sem precaução como se não houvesse amanhã, depois não te admires...

a) ... de ter uns pulmões pequenos e não conseguires correr atrás dos teus filhos;
b) ... de ficar com um fígado enorme, ou gordo, ou encortiçado;
c) ... de ter uma pila disfuncional e cheia de borbulhas.

(Não necessariamente por esta ordem. Entretanto, deixei cair três vezes a colher do café no chão, e as velhotas já olham para o pc de olhos esbugalhados).

5 - Se não levares o teu carro à revisão quando é preciso, depois não te admires...

a) ... se te falharem os travões quando uma gaja qualquer se meter à cão à tua frente;
b) ... se tiveres de mudar um pneu na 2ª circular, à chuva, e em dia de jogo do benfica, e de seres assaltado por meia dúzia de macacos vindos do Colombo e que estavam prestes a atravessar a estrada como animais perdidos;
c) ... se ficares com ele empanado precisamente no dia em que não podias faltar a uma coisa qualquer.

6 - Se nunca te lembrares de registar o euromilhões antes das 7 da tarde ao sábado, não te admires...

a) ... que seja um gajo empresário têxtil explorador e podre de rico a ganhar o prémio;
b) ... que o vencedor construa uma casa enorme, forrada a ladrilhos e a azulejos e com cães de louça e leões de mármore à porta (e duendes de plástico no jardim);
c) ... de trabalhar a vida inteira para aquecer.
7 - Se não limpares debaixo da tua cama de vez em quando, depois não te admires...

a) ... se lá viverem monstros que acordam à noite;
b) ... de comprar pantufas todos os fins-de-semana;
c) ... de ter asma.

(Um dos pacotes de açúcar que vêm com a bica dizia assim: "falta menos de um ano para você ficar um ano mais velho"; olha o cabrão! Que apropriado, ler neste preciso momento filosofia de pacote d'açúcar! Sinto-me em comunhão com o mundo a partir deste momento... os planetas alinham-se).

8 - Se gastares o teu dinheiro todo num carro topo de gama, ou em roupa de marca que se desintegra a mais de 30 ºC, depois não te admires...

a) ... de achar que o mundo é pequeno e que tu és o maior;
b) ... de nunca teres saído da tua casa rodeada de arame farpado ou de uma sebe altíssima;
c) ... que só te dês com gente mais pobrezinha das ideias do que tu, que nunca se aborrece por as tuas histórias serem sempre as mesmas.

(Não acredito. A velhota à minha frente meteu-se a ler (?) um jornal maior do que a mesa e é o terceiro encontrão que dá no monitor do pc. Os olhares de reprovação sucedem-se de lado a lado, mas nenhuma palavra é proferida).
*

A vida é um padrão imenso de opções, com tantas variáveis incontroláveis quanto possibilidades. O grande problema é que não temos paciência.

Hoje é sábado e acordei demasiado cedo. E entre o dormir e o acordar, na cama, construí mentalmente este texto, não sei bem por que razão. Apeteceu-me fazer este post, embora reconheça que se parece, mais do que gostaria de admitir, com aqueles mails da trampa.
Entretanto, sugiro-vos que vão ao link que aqui vos deixo, para saberem mais sobre La Palisse.
Acho um bocado ridículo usar frases conhecidas (ainda por cima com nomes próprios metidos ao barulho, e não saber de onde vieram).
(como qualquer pessoa pode escrever na víquípédia, de certeza que o que lá diz é verdade).

23 de maio de 2007

A minha vida é uma mentira - Doutor da mula ruça


Tenho para mim que a minha vida é uma mentira, talvez apenas superada pela farsa do cão e do gato. Desde pequenos que nos habituaram a ver o Tom a fugir daquele cão grande e atarracado com picos na coleira; a modos que era sempre o gato a ir parar à casota do cão nesses desenhos animados, e nunca era o cão a ir à gamela de leite do Tom (não é o Tom Sawyer, esse corre com os calcanhares a bater na nuca atrás do barco a vapor; falo do Tom e Jerry), mas a perseguição tem sempre sentido único no imaginário de toda a gente. Os nossos cãezinhos domésticos já não sabem caçar gatos, pá! A única carne que bastantes deles experimentam vem em puré e enlatada, ou então já foi cozida e estufada quatrocentas vezes e vai-lhes parar à bocarra depois de ter estado 10 minutos a arrefecer no nosso prato, e é se não estivermos com muita fome...
O que vejo na rua é cães a ser passeados pelos donos, pachorrentamente, e de repente salta-lhes um gato à frente. Os cães normalmente não prestam muita atenção, estão ali para fazer xixi ou comer erva, mas os sacanas dos gatos! Ouriçam-se logo todos e mandam-se aos cães como se não tivessem nada a perder! Amigo cão, vou-te vazar um olho com as minhas garras! (sempre adorei esta expressão, "vazar um olho". Faz-me imaginar que, quando no deserto, e em apuros, até podemos ficar cegos, mas à sede não havemos de morrer. Ou os olhos, ou um camelo com uma torneirinha numa bossa, ou então aqueles cactos marados). No outro dia, pela primeira vez, vi um dono a sair à rua à noite com um gato preso pela trela. Na altura pareceu-me completamente ridículo, mas depois de pensar nisso mais a fundo até tinha razão de ser.
Lembrei-me agora de um jogo para pc que eu jogava há bastantes anos, que era o Cat. Assim um jogo com gráficos CGA, fantásticos para quem estava habituado ao Spectrum (mais uma vez, os nossos olhos vêem aquilo que as nossas experiências deixam). Nós eramos um gato que tinha que entrar nas janelas de um prédio de apartamentos e realizar um sem número de tarefas, como apanhar ratos, passarinhos, peixes, comer a comida dos cães, e, claro, emprenhar o maior número de vezes possível uma gata branca que por lá andava - claro que nós eramos um gato preto. E como gatos pretos que eramos, podiamos morrer de todas as maneiras: levar com objectos atirados das janelas por moradores descontentes; morrer electrocutados num aquário com enguias eléctricas; ser perseguidos por cães; ser picados por aranhas (!?)... etc. Ou tinhamos 3 ou 5 vidas, já não me recordo. Mas não eram 7. Os gatos devem gostar muito de números
primos.

Dizia eu que a minha vida é uma mentira. Quando a minha mãe me parte a cabeça por não lavar a loiça (ou me parte a loiça por não lavar a cabeça) ou por fazer virtualmente nada em casa, eu digo-lhe que ando a estudar muito (o que nem é totalmente mentira, bem vistas as coisas) e que vou para o hospital salvar vidas. Mas depois chego lá aos estágios (não todos, mas a maioria) e fico lá com os meus colegas em pé até me doer as pernas, dentro de um gabinete de consulta ou enfermaria, a tentar mostrar que estou ocupado, ou nem isso. Dizem-nos para estar às 8 e meia ou 9 num determinado serviço, e depois mandam-nos beber café até às 10:30 (sempre ajuda a disfarçar os olhinhos de peixe cozido). Quando lá chegamos, dizem que não há assistentes para que possamos assistir às consultas. Então vamos para casa, decerto com a sensação de dever cumprido, e bastante mais enriquecidos com a experiência única que é beber o conhecimento in loco. Vamos para casa fazer o quê? Marrar. E, claro, nem sempre com a ajuda de um plano de conteúdos da cadeira em causa, como é o caso de oftalmologia. Muito haveria para dizer sobre este estágio, mas, porventura, não me apetece. Até me parece que alguém aqui há de escrever sobre isso (pelo menos foi o que me prometeram à boca pequena).
Mas estou no 5º ano, e acho que sei tanto de medicina como a curandeira que vende pau-de-cabinda no centro comercial de Queijas - imaginem uma cave, onde se entra por uma porta ladeada por paredes que dizem: "putas, 500$" ou "Queres boi?", e do outro lado há uma horta ladeada por umas madeiras podres cheias de pregos, com umas couves assim muito altas mas quase sem folhas (decerto haverá por ali coelhos suburbanos gigantes); imaginem que essa entrada tem aquele chão com uma tijoleira assim cor-de-laranja, com bolinhas, e depois entra-se lá dentro e é tudo muito escuro e com luzes fluorescentes a falhar, boas para se ficar epiléptico, e vê-se uma sala fechada cheia de máquinas de jogos onde, conta-se com ar grave e sério, já foram assassinadas várias pessoas por motivo de ajustes de contas (esta é outra expressão que adoro, "ajuste de contas"); e depois há um cabeleireiro com posters de modelos tipo Samantha Fox e outras que tais (por baixo diz "New fashion haircuts"); e depois uma peixaria, que tem lá daquelas lâminas verticais eléctricas de cortar peixe em postas que fazem aquele barulhinho kkzzznhhhhhhhiiiiiiiiiiiickzzz que nos faz imaginar imediatamente um aparatoso acidente laboral (mas hei! eu sou médico! estou lá para salvar vidas); poderia falar ainda da pequena lojinha que vende pilhas, despertadores, disfarces de carnaval muito maus e bombinhas que eram ano após ano proibidas, mas que lá havia sempre à venda - novamente imagino putos agarrados a uma mão que explodiu (calma, amigos, eu sei fazer um garrote, faz parte da minha profissão); no rés-do-chão desse centro comercial, há a Palidisco, uma papelaria que vende luzes de natal, transformadores de corrente alterna, balões... e por mais que tente, nunca há de me dar o prémio do euromilhões.
Adoraria continuar esta descrição, acreditem em mim: é terreno fértil.
Anyway: todas as pessoas que trabalham ali sabem mais de medicina do que eu. A peixeira, a cabeleireira, a curandeira. Até a mulher-a-dias (com todo o respeito que me merecem as mulheres-a-dias, porque eu morria entoxicado em Sonazol ao segundo dia) sabe mais do que eu. Todas elas, na sua área, são mais eficazes a curar maleitas, digo-vos! Até o Merlin sabia mais que eu, como físico da corte! (sabiam que o Merlin é metido ao barulho na série Stargate? que palhaçada). Sou o Dr. Phraud. Sou o doutor da mula ruça!
Estes estágios têm sido uma completa perda de tempo, energia, paciência, gasolina. E cada vez mais penso que só vou começar a aprender coisas mais práticas quando for atirado para dentro da arena de leões que é um hospital, e agora safa-te! Assim como fazem aos bebés nos países nórdicos quando os mandam à água gelada! Espero para meu bem que todos os humanos estejam, por instinto, preparados para exercer medicina, bastando um estímulo de sobrevivência para pôr mãos à obra. De médico todos temos um pouco, como dizem, não é?
Talvez quando tiver que trabalhar no meio de galinhas que falam mesmo muito alto e sem respeito pelos doentes que descansam; talvez quando tiver que ir às reuniões clínicas discutir casos, e agora sim, estiver sentado à mesa como interno, em vez de ter que marcar presença, em pé, esmagado contra um distribuidor de água, na sala de 3 metros quadrados, juntamente com os meus colegas alunos, a estoirar de riso pelas piadinhas que mandamos uns aos outros sobre os doutores... talvez aí eu aprenda a curar alguém.
Talvez nessa altura eu já possa levar pistachos para essas reuniões. E fumar charutos. Como me dizia aqui há dias um doente lá da enfermaria: "a mim não me deixam fumar aqui, mas eles fumam! eu sei que eles fumam! eu consigo sentir o cheiro! e são Cohibas! malandros é o que eles são! patifes!".

Nunca digo o que faço se não me perguntarem. Mas se perguntarem, ficam muito admirados. Medecina? Andas em Medecina? Grandá crânio. Sinto-me logo um macrocéfalo...
E já andas nos estágios? E eu respondo logo que sim, que salvo vidas todos os dias, e depois rio-me do que acabei de dizer. As pessoas fazem um sorriso amarelo, que sim, que entenderam a piada. E depois dizem que querem consultas à borla, que é sempre bom conhecer um médico. E eu digo "Queira deus que nunca precises dos meus serviços!". Nesta altura da minha vida esta escapatória tem um duplo sentido, embora as pessoas não o topem. Mas fica sempre bem dizer, que fica toda a gente muito contente, "Ah, ele desejou-me saúde de forma tão inteligente!".

O meu conselho de médico neste momento é, seja para que problema de saúde for, esfregar com água-rás. Acreditem em mim, eu vou ser médico, devo ter razão de certeza. Deixa de haver problema. E jogue Squash se tiver mais de 50 anos e factores de risco cardiovasculares.
Desculpa lá, mãe. Eu não salvo vidas. Não sou insuflável nem feito de plástico cor-de-laranja.
Tenho para mim que a minha vida é uma mentira, mas uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade; talvez volte a escrever daqui a uns aninhos sobre isto. E talvez me sinta bem.

22 de abril de 2007

Pequenos grandes heróis


Desta vez, não sou eu o autor do próximo post. Ainda não foi desta que me senti inspirado para escrever de novo. Em compensação, cedo a palavra a uma pessoa que me escreveu um texto e que, espero, não se irrite comigo por eu ter decidido divulgá-lo. Claro que gostei muito dele, também tenho direito a ser vaidoso... por outro lado, deixo-vos aqui com uma foto minha que tudo tentei para que não me mostrasse gordinho que nem um macho :p
Um grande bem-haja!

*
Pequenos grandes heróis
Nunca tinha reparado no João até ele ser da minha turma.

Um puto calado, mas mesmo calado, extremamente observador, com um brilho no olhar que confundia, sei lá eu como, alguma mágoa e uma vontade enorme de viver. Acho que só dois meses depois do ano lectivo ter começado é que comecei a entendê-lo e, lembro-me bem, foi no estágio de Pneumologia.

Estávamos sentados - pouco habitual - no corredor do Serviço à espera (usual stuff) que chegasse um assistente para nos dar uma aula. Acho que já toda a gente falava bem com o João e eu não. À primeira vista, ele não me inspirou confiança, talvez porque desconfie sempre das pessoas que parece que me lêem a alma - ou pelo menos que me pareça que estão a tentar lê-la. E o João, como se adivinhasse os meus pensamentos, disse

Epá, eu sou um gajo calado, mas sou muito observador e uso isso para fazer piadas

a propósito de estar toda a gente quase em lágrimas de riso com o que ele estava a dizer. A história parece fraca, e provavelmente o é, mas a partir desse dia - e dessa frase - comecei a aproximar-me do João. No fim desse estágio, acabei por saber de uma coisa terrível, pelo menos foi para mim sabê-lo: o pai do João estava gravemente doente há já algum tempo e isso acabava por explicar tanta coisa.

Um cancro que metastizara para os ossos, o pai que não dormia por causa de dores que a nada cediam, o João que tomara controlo da situação e era o chefe de família, o aluno de Medicina, o jovem adulto com direito aos seus interesses, um gajo com um sentido de humor e de ironia irrepreensíveis. Ele no meio de tudo aquilo - malabarista de vidas humanas, equilibrista da sua própria vida.

Um dia roubaram-me um beijo e eu, que não andava nada bem, fiquei contentíssima com isso. Cheguei a casa naquela agitação, ainda embriagada (o beijo aconteceu numa saída à noite) e vejo que o João e outros dois colegas estão num enorme regabofe e eu, no meio daquela alegria toda,

que é que fazem acordados a estas horas?

e, piada para ali para acolá,

olha estamos aqui porque o meu pai morreu esta madrugada.

O meu peito encolheu-se e eu deixei de poder respirar durante algum tempo. Senti uma dor tão, mas tão grande, um abalo tão forte, como uma chapada de mão seca numa bochecha de bebé (imagino que isso doa bastante). Ao João não lhe apetecia muito falar sobre isso, então falámos da minha desilusão amorosa e o João deu-me valiosos conselhos e ouviu-me com atenção. Naquele dia em que uma vida se perdera, e em que ele presumivelmente perdeu parte de si próprio, ele ouvia-me porque eu estava de coração partido, no seu altruísmo, na sua generosidade imensa.

O João, um puto calado, muito observador, que sempre me fez rir e que tem um coração maior do que si próprio. Um pequeno grande herói, com cara de miúdo e uma vida das antigas.

Desculpa esta porcaria de texto, João. Mas é para ti.
Joana Batista
20.04.2007

9 de abril de 2007

Artes e ofícios

Os pescadores amadores são criaturas interessantes. Isso e estranhos. É-me totalmente incompreensível como é que estes seres ficam horas e horas a lançar linha. O resultado final parece não ser compensador: uns quantos miseráveis peixes num balde resgatado à esfergona da cozinha. Para tornar tudo ainda mais estranho, as suas companheiras parecem fazer ponto de honra em acompanhar os respectivos. Algumas têm até direito à sua cana, sempre mais pequena e com uma localização sempre subalterna, ficando porém a maioria com a missão de abrir latas de conserva e tricotar adoráveis “naperons”.

Isto leva-nos a duas questões.
Primeiro, mas porque é que as pessoas que vão pescar alegremente comem sempre conservas de peixe? Mas então porque é que vão pescar? E não estão suficientemente perto dos peixes e do mar?
E que cálculos de mestre são esses, que matemática elaborada está por detrás da localização de uma cana? Qual é a diferença entre um “spot” e outro? O processamento das diferentes variáveis é feito por estes homens a velocidades não conseguidas em silicon valley, computando o vento, as correntes, a temperatura ambiente e da água, a altura da maré e a espécie a pescar enquanto mandam a baixo uma sandes de presunto.
“É aqui!”. Não adianta nem dizer que ali é perigoso, uma escarpa que estoicamente resiste aos agentes erosivos. O facto de ciclicamente se ter de desviar das vagas também não demove o pescador, tão pouco os ventos cruzados que o podem apanhar como a qualquer folhita de Outono.
E o quão precioso é a sua captura? Tais criaturas, quando vêem a cana a dobrar, lançam-se em ferozes lutas contra o peixe. Tão ferozes que o risco de caírem pela ravina a baixo torna-se real, muito real! Quando não tiram uma bota ou um molho de ulvas, o peixito é ridículo, não enchendo a cova dum dente.
Também os há que vão para a praia. Esses ainda me conseguem espantar mais, pois não só os cálculos da localização da cana entram para o domínio do divino como têm outra característica: fanfarrões. Estendem o arsenal de canas paralelamente ao mar, normalmente 4 ou 5 por pescador. Detenho-me aqui para pensar no que acontecerá se todas elas se dobrarem ao mesmo tempo. O tal balde está lá, mas agora à mercê da curiosidade dos banhistas que curiosos, têm uma atracção fatal por tal espólio. Esta curiosidade é desfeita quando ao olhar para o balde o que se vislumbra é não mais que um molho de algas e alguns peixitos aterrorizados. Os fanfarrões normalmente têm uma grande logística por de trás, com 2 ou 3 chapéus-de-sol, umas tantas geleiras e, não só a companheira, mas também família e amigos. Estes especialistas da pesca são tão confiantes que, entre capturas, apanham banhos de sol, dão à língua e ao dente, jogam os mais variados jogos de praia e, para espanto meu, banham-se ruidosamente nas mesmas águas onde tentam pescar…

Ele há cada cromo!

30 de janeiro de 2007

I might be wrong VIII - Sim, Não, ou Não sabe/Não responde ?


Depois de algum tempo arredado destas lides, não poderia deixar de escrever qualquer coisa, estimulado como fui pelo texto do Pedro, mais uma vez aclamado sem surpresa pela crítica.Devo dizer que fiquei contente por ver um texto relacionado com o aborto, mas completamente diferente dos que se costumam ler por aí. Estou completamente farto do tema, do esgrimir de argumentos... houve até alguém bem próximo de mim que me disse que o país iria entrar em depressão generalizada após o referendo. Imediatamente me lembrei de que diziam exactamente o mesmo antes da Expo98 e do Euro2004.

Como dizia, estou realmente sem vontade alguma de defender a minha posição e o meu voto. Tenho uma opinião, naturalmente. E posso até dizer que, em parte, consigo delinear meia dúzia de argumentos, e noutra, tenho a opinião que tenho não sei bem porquê. Vem do meu interior, não se traduz por palavras, e na verdade não será necessário fazê-lo. Porventura, essa será talvez a parte mais importante da minha convicção, porque é uma espécie de essência destilada das minhas vivências, do que observei até agora por aí, e das minhas reflexões sobre o tema - confesso que já pensei muito nisto, e talvez por isso é que desisti de fazer valer a minha dama em debates, entre amigos, colegas, etc. Não deixa de ser aparentemente paradoxal que, após ter gasto tanto tempo a reflectir, e após ter ouvido e observado tantas realidades diferentes e antagónicas, seja menos capaz e tenha menos vontade de produzir uma argumentação. Isso será, talvez, porque me tenha convencido de que esta não é, de todo, uma questão de convencer pessoas. Ou elas conseguem sair de si mesmas e dos seus espectros que as rodeiam, ou então não serão capazes de ter uma opinião justa, e muito menos fazer campanha de defesa dessa opinião.Para quem já estava a esfregar as mãos de contente, esperando um rol de armas de destruição maciça como defesa acérrima de uma das facções, desengane-se.

Como disse e sublinho, não tenho pachorra para falar de argumentos. Mas ainda tenho menos para aturar a esmagadora maioria de pessoas que, no nosso país, opta por fazer campanha, tanto pelo sim como pelo não em resposta ao referendo. Na televisão, pessoas como Edite Estrela ou Zita Seabra, para falar em algumas das mais mediáticas, não deviam ser porta-estandartes. Nem vale a pena caracterizar pessoalmente estas duas indivíduas, mas apesar do ridículo que são, continua a ser-lhes dado tempo de antena, e isto é algo que não entendo. Opiniões o mais politizadas e partidarizadas possível não é o que se pretende, numa questão que envolve a nossa consciência e nada mais do que isso. E já basta.
A maioria das pessoas não está habilitada a decidir sobre esta questão que envolve as outras 9.999.999 pessoas, ou por ser demasiado nova, ou por ser demasiado velha, ou por ser demasiado rica ou pobre, ou por ser homem (aqui com algumas reservas, mas não muitas), ou por ser demasiado alheia. Estou aqui a imaginar um bancário, de 45 anos, estéril, que vive para o trabalho, não é casado, tinha negativa a filosofia, português e história quando andava na escola, e a única coisa que lhe dá prazer é ver o benfica a jogar aos domingos. Esta pessoa terá nas urnas o mesmo peso do que uma mulher que já fez um aborto por decisão própria, porque achava que devia fazer, arriscando-se a várias complicações do ponto de vista penal e da própria saúde.Torno a dizer que não é minha vontade defender o sim ou o não. Mas que este referendo é um bocado estranho... ai isso tenho-o para mim e ninguém mo tira.

Mas falarei agora um pouco de pessoas comuns, porque as mediáticas são mediáticas muitas vezes por serem autênticas anormais.
Fiquei a saber que na minha faculdade (não vou lá há montes de tempo - a partir do 4º ano continuamos o curso noutros sítios) o pessoal dos 3 primeiros anos anda a fazer campanha pelo sim e pelo não. Sem rodeios, digo à boca cheia: que... RIDÍCULO. Claro que os jovens têm direito à opinião e são parte interessada. Na verdade, no meu curso em particular, até acho que devem pensar sobre o assunto. Mas terem a pretensão de poderem fazer campanha, ou seja, defender acerrimamente uma opinião e tentar convencer os outros... já acho estupidez pura. Para já, não vão convencer ninguém, porque as pessoas têm tendência de ficar na sua. E em segundo lugar... são crianças! E ainda por cima, em boa parte dos casos, riquinhos! Que background social poderão ter para se poder pronunciar em campanha? Na verdade, estes jovens, mais do que ninguém, cheiram que tresandam aos próprios meios socio-económicos nos quais se inserem, e as suas opiniões não são mais do que a súmula dos interesses destes mesmos meios.

Os putos do sim, muito convencidos de que têm consciência política e de que são humanos. Habitualmente sabem de trás para a frente "Mensagem" do Fernando Pessoa, só vêem filmes no Quarteto (se possível, do Kusturica), adoram acordeão, e só falam de bandas e escritores que ninguém conhece. E se conhecermos, bem ... "já foi melhor do que é agora!" - dizem, desdenhosamente. O que eu gosto mesmo é quando digo que não tenho paciência para os seus discursos panfletários, e eles me respondem (tendo menos 500 anos de idade do que eu) que eu sou uma amiba, um afectado pelo torpor, uma amiba sem consciência política. Ao que eu lhes digo: tu ainda não eras nascido quando deu "Os amigos do Gaspar" pela primeira vez na televisão, pois não? Então tem mas é juízo e faz essa penugem mal semeada, que não ficas parecido com o Che. E vai lá ouvir o Çaçetti na tua aparelhagem de 300 contos, ou ler o Fiodor Mikhailovitch Dostoievski!

Os putos do não são pelo menos tão mauzinhos como os do sim. Antes de mais nada, não vi muitas pessoas com poucos recursos financeiros e de backgrounds menos favoráveis a defender o não. Por outro lado, sempre que aparece alguém na televisão a defender o sim, é quase sempre uma tia ou um monárquico, ou então alguém de uma organização cristã católica qualquer. E é sempre pessoal rico.Apetece-me dizer-lhes: ó meu amigo, gostavas de viver na monarquia, era? Mas sabes que naquele tempo não havia dentistas e o pessoal quando ficava sem dentes não passava a usar placa como a avozinha? E também não havia Holmes Place? E tinhas de entregar metade das tuas colheitas ao rei? Sim, porque quase toda a gente era camponesa, ou só conheces essa palavra dos folhetos do Pizza Hut? Arranhavam ali no duro e não havia debulhadoras para fazerem os fardos de feno para os animais! Já foste ao castelo de S.Jorge? Parece-te cor de rosa e com torres douradas como o do Rei Artur? Cola mas é esse símbolo da monarquia que tens atrás no Audi A4 na peidola e não me venhas chatear com essas tretas do direito à vida! E tu, minha amiga, quando fores a correr para Espanha no fim do Verão com o resto do dinheiro das férias que os teus pais te deram, depois de uma estadia com os teus amigos em Vilamoura, diz-lhes que vais comprar caramelos! Mas lembra-te que o que os teus pais não souberem, Deus saberá! E por falar em Deus: sabias que um verdadeiro cristão renuncia aos bens materiais e anda descalço na rua? Vai lá agora sair à noite descalça para o bairro alto! Na verdade, tenho uma ideia melhor: porque é que não pões também entre os dedos um balão com um digestivo, como a tua mamã, e te sentas aos pés dela, no taco de carvalho ou no tapete Luis 15 junto à lareira crepitante, enfiadinhas as duas em robes vermelhos e dourados, e quando ela estiver já com um grão na asa, lhe perguntas sobre os namorados antigos dela? Queres uma rainha como a de inglaterra? Bem, essa ainda não percebeu que se enganou no cálice. Inúmeras e repetidas vezes. E o que tinha lá dentro não era bem água benta. "A rainha que não se curva perante ninguém". Bah! Tretas! Tem uma cifose tão grande que já parece uma maria-café!

O resultado do referendo, já se sabe, nada mudará, independentemente de qual for. Mas acho que deviamos aproveitar a oportunidade para juntar este pessoal todo das campanhas, e era pezinhos em latas de robialac com betão, enfiadinhos em sacas de sarapilheira, e Tejo com eles. É desta que fica sem peixes, porque a paciência deles para pregações também é limitada.
Acalmo-me.
Sou da classe média baixa. Estudo medicina, directamente ligada à problemática do aborto. Tenho amigos de todos os quadrantes, e ouço-os sempre com muita atenção, mesmo aqueles que descrevi há pouco. Raramente contraponho alguma coisa, prefiro ouvir para ver se aprendo algo novo. Tenho estado nos hospitais de lisboa, e contacto com os doentes da enfermaria, das urgências e das consultas. Observo-os e tento perceber de onde vêm, o que fazem, que nicho social ocupam. Presto atenção ao sofrimento que boa parte deles traz às costas. Contemplo e ouço as acções e decisões dos meus colegas, e também dos médicos que nos instruem (quando o fazem). Nos transportes (quando vou de transportes) ouço as conversas cruzadas dos portugueses anónimos, até mesmo sobre o aborto. Já vou para os 30, e acho que até posso dizer sem grande erro que passei pelo intervalo de idades mais provável de se ser confrontado com a decisão de um aborto. Tive algumas namoradas, e andei, tal como quase toda a gente que conheço, à rasca à espera que viesse a menstruação da namorada. Também tentei comprar preservativos em pequenas máquinas instaladas à porta de farmácias, à noite (aquelas que encravam sempre ou estão esgotadas). Passei por várias coisas relevantes, tenho uma opinião sólida, informada pelas ciências da vida e formada pela consciência. E nunca passei pela situação de fazer ou não aborto, não espero passar, e nem faço a mínima ideia do que deve ser. E por isso mesmo já percebi que fazer campanha sobre esta situação é não só inútil como estúpido. Mas abençoadas sejam as pessoas aprisionadas pelo raciocínio linear, porque são elas as donas do mundo (pelo número) e da felicidade (pela limitação de ideias).

Só uma pequena ideia que tenho para mim e partilho convosco, defensores do sim ou do não. Esta é uma boa oportunidade para nos congratularmos por termos nascido, por estamos vivos, por termos saúde, e por termos ou termos tido pais que nos amaram e nos educaram com maior ou menor dificuldade porque tiveram possibilidade para isso. Amém.

PS - Gosto sempre de passar na segunda circular e ver os simpáticos outdoors dos defensores do não. "Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto? Não, obrigado!"... "Abortar por opção sabendo que já bate um coração? Não, obrigado!". Gosto, não sei! É como se dissessem: "Epá, caro gajo defensor do sim, criminoso sem escrúpulos e escumalha da sociedade, obrigado por me fazeres essa proposta de assassinar crianças, agradeço imenso, mas não posso aceitar! Recuso delicadamente, está bem? Mas não fiques chateado, que da próxima talvez dê para aceitar! E olha, cumprimentos lá em casa, espero que a tua avó tenha gostado dos ferreros que lhe enviei pelo natal!".
Também vibro com aqueles outros outdoors em que se vê uma mulher algemada a ser levada pela polícia, assim a preto e branco (agressivo! as formas aguçadas! os tons violentos, sujos, suburbanos, underground!) e que diz "Para parar com a vergonha vota sim" ou lá o que é. Acho que também devemos votar em referendo a revogação da lei que proíbe andarmos aí aos tiros em centros comerciais, especialmente em dias de jogo de futebol, porque me apetece fazer uns headshots... e depois ia ser uma vergonha eu ser imobilizado com um joelho nas costas e algemado e lerem-me os direitos, no meio de cadáveres baleados e poças de sangue e transeundes curiosos. Ou então, votarmos para a Zita Seabra e a Edite Estrela não poderem por lei aparecer na TV no "prós e contras" a defender ideias sobre o aborto. Isso é que é uma vergonha e ninguém vota contra.

*
No outro dia, ia a conduzir e a ouvir rádio. Então, tocou (uma vez mais) aquela música do André Çardet. E no fim, a radio-locutora diz assim: «esta música foi pedida pela vanessa, de odivelas, com uma mensagem muito enigmática: "para ti, que sabes quem és, que me enfeitiçaste"»; e depois a locutora continuou, explicando que o tal gajo era padeiro, e que a música era realmente romântica. É preciso ver que eu vinha na 2ª circular (antes de passar pelos tais outdoors) e eram quase 3 da manhã, portanto vendedor de gelados é que ele não devia ser. Epá, deus ma pardoe, romântico? Atentem neste refrão: "Eu não sei o que me aconteceu/foi feitiço, o que é que me deu/P'ra gostar tanto assim de alguém como tu?". É o mesmo que dizer: epá, não vales népias, és padeiro! Como é que eu fui gostar de ti? Bati com a cabeça? Devo estar drogada! Por favor, internem-me!

Grande bem haja, pessoal!

22 de janeiro de 2007

"Enganei-te bicho!"

Se há eventos cíclicos, o debate sobre o aborto parece sê-lo. Até ao referendo vai ser um degladiar de argumentos, uma contagem de espingardas enfim, uma alegre troca de galhardetes. Acho piada pois, e como há uns anos atrás, depois do referendo voltará tudo à mesma. Não acho que, qualquer que seja o resultado, mudanças efectivas se registem. Quem pensa abortar fá-lo-á, quem pensa em não o fazer, não o fará. Quem o faz no vão de escada, terá a possibilidade de não o fazer enquanto que quem vai a Espanha, já o pode fazer por cá. Se calhar, com a diferença dos preços, ainda compensará ir a Espanha, aproveitando-se para ir ver os saldos dos grandes armazéns.

Parece que por vezes as mudanças servem para deixar tudo exactamente na mesma e para ficar na mesma, mais vale estar como está. Não quero dizer com isto que vá votar não, não vou votar não. Além do mais, nem tenho muito a ver com isso pois, sendo homem, a última decisão nunca poderia ser minha, a não ser que, em vez dum aborto vão de escada, se trate dum aborto escada a baixo!

Gosto da expressão “vão de escada”. É rude. Descreve uma realidade com uma rudeza tal que até arrepia a pele. Imaginem um vão de escada, sítio escuro, húmido. Será ali pois que uma mulher irá fazer um aborto. Não sei porque, esta imagem não tem o efeito pretendido pelas pessoas que a empregam em mim. Sempre gostei dos vãos de escada, são óptimos esconderijos. Sabem-se segredos e contam-se histórias. Costumava jogar à bola num vão de escada dum prédio da minha rua antiga quando chovia. O que era espectacular é que mesmo com chuva podíamos jogar e os remates saíam com mais força. Devido ao espaço exímio a técnica dos diferentes artistas esbatia-se e assim o futebol tornava-se muito mais democrático.

Esta é a história do Homem: a luta contra a lei do mais forte. Ai os veados correm mais que nós? Então vamos atraí-los para uma falésia. Estão a ver amigos veados, de que lhes vale correrem mais? Quanto mais correm mais caem! Mas porque é que não nos damos por derrotados? Os outros bichos pensam, ok, os tipos correm que se fartam, ou corremos mais ou então vamos comer umas bagas! Mas nós não, está-nos entranhado o espírito vamos dar a volta a isto, eles são estúpidos. E os bichos, na sua simplicidade, caem que nem uns patos!

Onde é que eu ia? Ah sim, o vão de escada. Bem, eu vou votar sim, já o tive oportunidade de dizer. Não vamos entrar nas discussões do ele é de esquerda ele é de direita, por muito que se queira partidarizar esta questão. Por mais que pense, acho que a decisão menos má é deixar cada um decidir por si. Cada um, digo utopicamente referindo-me a casal. Muitos falam do direito à vida, do quanto um feto o é mesmo antes de o ser, da população envelhecida… eu acho que se esquecem de falar na outra dimensão da vida, a dimensão social. Jet set à parte, acho que um ambiente próprio é também uma dimensão importante da vida do próximo. E em última análise, quem vai conseguir que uma mulher que o queira não aborte? É a solução para isso um julgamento. Também há a visão que acho que reflecte bem a posição na vida de quem a tem, e é ela a de contar quantas mulheres estão efectivamente presas ou foram condenadas. A lei existe, mas não se cumpre… sem comentários.

Claro que uma boa pernita de veado é bem melhor que umas nozes ou umas amoras mas, tínhamos de provar que enganávamos o bichito. Enquanto comemos, temos a mania de descrever a magnificência do animal em vida, como que demonstrando que nos alimentamos de um ser que não era para nós. Interiormente pensamos – estúpido, dei-lhe a volta! Era o melhor da manada, com os chifres mais lustrosos e a pelagem mais farta.

31 de dezembro de 2006

O sistema isolado

"E enquanto fitava as ondas que se revolviam umas nas outras, sentiu nas mãos geladas os grãos de gravilha húmida de diferentes formas e tamanhos. Inspirou fundo aquele vendaval polvilhado de névoa marinha, e começou a construir um invólucro imaginário que combatesse as leis da termodinâmica mais proverbial: hermético como um surdo-mudo na escuridão; inviolável como um livro que em dia algum será aberto; silencioso como o espaço sideral.

Então, depositou lá mil dias que passaram. Fechou vigorosamente o frasco e chocalhou o conteúdo, rodando sobre si mesmo, fazendo de si mesmo o eixo das suas reflexões, centrifugando todas as histórias, sóis e luas. Deixou assentar o cascalho no fundo, e as emoções subiram para os lugares que lhes cabiam por direito próprio, formando um gradiente que ia do negro pastoso ao branco fluorescente gasoso.

Quis então retirar o pouco sobrenadante que brilhava intensamente, desenhando um ténue filme mesmo no topo de todas aquelas ideias; queria guardá-lo consigo. Mas logo percebeu que não conseguia abri-lo, porquanto não mais poderia ser violado depois de fechado. Num acesso de fúria, atirou o recipiente com toda a força contra as rochas; este embateu violentamente, rolando de volta até aos seus pés.

De repente, ficou muito cansado. Franziu o sobrolho e ficou quieto, de cócoras, de mãos no queixo e cotovelos nos joelhos por um longo momento. "É inútil. Tenho de aceitar o mau com o bom" - pensou.
Depois, levantou-se e colocou o frasco no bolso da grossa gabardina. Afastou-se daquele lugar.".
In "Os novos Fragmentos de memória(s)".

14 de dezembro de 2006

Noite


A brisa gélida perpassa a janela semicerrada. Está um frio seco lá fora e o meu corpo bramante reclama pelo aconchego do edredão. Para trás deixo longas horas de espera, corredores atolados, horas infindáveis em que me perco e nada faço, comboio, metro, cansaço.

Quando um dia completar o curso lembrar-me-ei destas manhãs heróicas de desprezo e tédio. Ainda que procure não colocar as mãos nos bolsos, sinto-me inútil e ignorada ao passar pelas portas dos quartos. Trata-se de uma espécie de passeio matinal, entremeado por uma ou outra ida à cafetaria. A Drª corre pelos corredores olhando para o chão. Dos seus contornos lânguidos, apenas se destacam os caracóis irregulares pendentes de uma plataforma viscosa e as pontas das botas que berram a cada passo frenético.
O curso de medicina (sim, aquele curso cuja admissão exige altíssimas classificações) é melismático – muita música, o mesmo discurso. Nada se move. Tudo permanece estático e silencioso, numa falsa harmonia e paz. Os estudantes perdem-se pelos corredores e os tutores, os mestres orientadores, deixam-nos passar. O saber, aquela virtude que exige desafios e encaminhamento, não chega a brotar nas nossas mentes tão “brilhantes”.

Volto à noite. A esta noite. Finalmente encontrei o conforto do lar. As luzes estão apagadas, permanecendo apenas o verde luminescente das constelações que desenhei no tecto do meu quarto. Tomara que fossem verdadeiras estrelas, estas que incessantemente me olham e nas quais deposito o meu olhar ébrio. Ouço poesia acompanhada pela música de Jorge Palma. São poemas de Abril, gritos revoltos de coragem sublimados pela melodia nostálgica de um músico, de uma voz que canta o canto dos poetas.
De repente, esta “apenas noite” apoderou-se de mim. Também eu estou nos versos e nas palavras que transbordam pelos meus olhos. Quem não se reencontra nas entrelinhas de Eugénio de Andrade, Ary dos Santos, Sophia, Torga. Eles estão aqui comigo, agora. Sinto a presença deles a meu lado e num tempo distante anseio pela mesma liberdade.

O ciclo eterno que sacraliza a nossa humilde condição de transeunte surge cada vez mais nítido. Independentemente daquilo que pautou a vida de cada ser, há na doença uma convergência inevitável. Hospitais, gente, confusão, dor. A qualidade dos cuidados médicos não deve de todo basear-se na maior ou menor dimensão humana do doente, nem tão pouco no grau de diferenciação intelectual. Contudo, esta equidade a que me refiro não deverá ser medida por defeito – quantos de nós não se sentiram já “presos” numa cama de hospital, resignados com os “estranhos” termos médicos e largados à sorte no tumulto da doença?
Neste jogo que procura respostas e palavras de esperança falta muitas vezes lugar para o ser. Não procuro encontrar culpados. Apenas alerto para a impaciência e intransigência impregnadas naqueles corredores e salas por onde diariamente caminho. A bata branca e o estetoscópio não superlativam a moral de ninguém. Deixemos de lado o terrível hábito de julgar quem quer que seja. Os doentes devem ser orientados e não tratados como crianças. A reprimenda não faz parte da medicina e o direito à informação é inalienável. Fica o apelo.

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

A poesia cessa com a música. Nos meus ouvidos ressoam ainda os sons do piano. A noite vai longa e o sono apodera-se de mim. Extinta a luminescência das estrelas de plástico, tudo se torna mais nítido. Procuro no silêncio da casa um lugar para o sono. As palavras misturam-se e deixam de fazer sentido. E eu “sem vocação para a morte” continuarei na senda do sonho de vir a exercer medicina.