27 de maio de 2005

Bossal

Gosto da palavra bossal. Tenho de admitir, é uma fraqueza. Mas é que esta palavra que compara algo a amimais possuidores de bossas é bastante ilustrativa destes algos. Vocês já devem estar a imaginar o Pires de Lima, ou então a programação da TVI, mas há por ai muitos bossais. Acham que não e estão com vontade de passar um bom bocado comtemplando metafóricos animaizinhos possuidores de bossas? Nada mais fácil.
Procedimento 1:
Nada mais fácil para encontrar estas espécies do que pegar num carro e entrar na selva urbana. Estas selvas são habitadas por grandes populações de tal espécie, de tal modo que é considerada praga. Medidas de controle de pragas estão a ser pensadas, como os iscos com veneno (usando como iscos telemóveis), vales de desconto de combustíveis armadilhados e velhinhas em passadeiras com mísseis tomhawk.
Procedimento 2:
Rumando a norte, pela A1, com a ajuda dum simples mapa, chega-se ao Marco de Canaveses. Aqui, não procure os espécimes wild type. Este microhabitat é o lar dum espécime de proporções históricas. Algumas espedições científicas já foram feitas e confirmam-no: este é o lar dum grande bossal! Mas despache-se, parece que este bossal encontra-se numa migração para amarante, na procura incessante de alimento.
Procedimento 3:
Quando tudo o resto falha, há uma salvação. Na capital, há uma reserva especial cinegética de bossais. Encontra-se um pouco abaixo do Jardim da estrela, na freguesia de S. Bento, local também conhecido como parlamento. Esta espécie de bossais é extremamente perigosa por isso só pode ser vista das galerias. Os espécimes encontram-se no cenro do recinto que lembra uma arena. Normalmente não são ferozes, passando grande parte do tempo descansando, dormitando nos seus lugares, acordando uma vez por semana. As palavras eleições, perda de privilégios e combate à corrupção são expressamente proibidas dentro do recinto.
Acho que conseguem! Boa sorte na caça ao bossal, a época está aberta!

25 de maio de 2005

Tetris 4 - Quartzo, feldspato e mica



Caminho, pé ante pé, cuidadosamente, no passeio que um velho e experiente calceteiro predestinado vai construindo em chão firme, mesmo à minha frente. Avanço sobre cada pedra que ele assenta. Primeiro a medo, depois com os dois pés... e fico à espera do próximo passo.
Imito-lhe o ritmo das marteladas precisas, que fragmentam os paralelipípedos de marfim, batendo silenciosamente com a minha bengala de pau de cerejeira no chão.Respiro fundo, devagar, serenamente, como quem tem a paz de começar uma vida nova, por estrear, com certezas divinas e seguranças de si mesmo. O cheiro da erva cortada, terra seca e pólen ardente dos malmequeres ao sol envolve-me numa plenitude estival, virtual, de meados de primavera.
Sinto este consolo e alívio à custa de forças intensas que se contrabalançam, num equilíbrio tenso, em cuja estabilidade escolho não pensar. O ar é denso... o ambiente ameaça rasgar. Mas se semicerrar os olhos as imperfeições da pintura esbatem-se, as incoerências passam despercebidas, os erros de lógica escapam impunes, e os bugs ficam por corrigir.
*

Dou mais um passo no novo pedaço de calçada marfinada, faiscante ao sol. Fecho mais um pouco os olhos.

Subitamente, o ar toma sabor e cheiro dulcíssimos como chocolate branco, mesmo quando ia respirar fundo e suspirar. Encho o peito daquele gás-fluido de outras paragens que ali foi ter vindo não sei de onde. Os alvéolos afogam-se imediatamente, como quando um náufrago inspira, desesperado, uma golfada de água salgada!
A minha hemoglobina suga imediatamente cada átomo daquela mistura de estranhos elementos que nunca se conseguiram isolar laboratorialmente, e leva-a rapidamente ao coração. Tento expirar, mas é em vão. Sinto-me tépido, mas envolvido em suor nervoso, gelado, que evapora rapidamente. Tenho sensação de pele queimada. Todo eu sou formigueiros. Tenho febre, tenho dores no corpo. Estou inflamado! E agora já estou bem e tudo isto demorou apenas meio minuto. O coração bate-me descompassado pela descarga adrenérgica. Não consigo estar quieto. Calma... onde estou? Expirei...
*

É estranho como o sol faz das suas. Se há cupido querubim, é ele, porque se decide a iluminar, a indicar, com um simples raio dourado, pessoas nas situações mais inesperadas, incómodas, inoportunas, injustas, impossíveis! Como se quisesse martelar nas peças do puzzle para que os entalhes... fit! Não é o encaixe induzido, é o encaixe forçado! Mas as peças do tetris não se compadecem, e continuam a cair. Amanha-te! E fica-se a rir, o querubim.
*

Danço agora na corda de um violino, embalado em tons docemente cortantes, mergulhado numa voz tão forte e tão frágil, choro de bebé real camuflado de imitação. Um pingo do mel que não querias derramar escorre pela minha corda bamba, desmielinizada, abafando as vibrações do meu pequenino mundo de rocha metamórfica, solidificado tão só recentemente, onde mal se vislumbra, já perigosamente longe, um esboço de calçada de marfim; levas-me para o outro lado do oceano, semeando em mim sonhos que não julgava possíveis de germinar.
No quartzo, feldspato e mica do meu planeta árido, agora visível pela desconstrução da minha tela vital, estival, virtual, tentam irromper raízes de um colossal embondeiro principesco, que, privado de alimento, sucumbirá, vítima de autofagia.

Sei que assim é... sei-o tão bem! Mas sonho com esse embondeiro já grande, cheio de pássaros, a dar-nos apoio, sombra, suporte, do alto dos seus anos que viveríamos. E mordo os nós dos dedos com força porque também sei que entristeço porque autorizei a memória de uma árvore que nunca será, ao negligenciar o que uma semente poderia vir a ser.

E da minha ameia, da minha torre, da minha corda bamba de violino chorão, estou suado, amestrado, retido pelo teu olhar aí em baixo, de coração sem diástoles, respirando mais depressa do que devia e mais devagar do que quero, em busca daquele gás-fluido que já me viciou mas que não consigo encontrar; não sei quem és, porque não sei ainda quem sou...

Tenho medo. Quero permitir-me voltar à minha calçada marfinada, tocar xilofone em cada pedra com a minha bengala... esperar que o meu planeta granítico seja primeiro colonizado por líquenes, musgos, pequenos cogumelos... e quando a rocha mãe estiver quebrada e tiver dado origem a solo fértil, talvez um embondeiro.
Caminho, pé ante pé, cuidadosamente, em caminhos calcetados. Respiro profunda e serenamente a paz dos justos. Olho por cima do ombro e vejo o musgo verde tomar conta das brechas por entre as pedras da calçada...


18 de maio de 2005

Crónica do amor incondicional - parte 1


Sobrevoo em zigue-zague rochosos campos verdejantes de primavera. O pequeno avião desvia-se com perícia do esbatido nevoeiro marinho de algodão doce e dos picos cortantes dos montes e das escarpas da orla costeira; saboreio a fragrância do oceano gelado e os salpicos salgados de espuma na cara, borrifados pelo vento que assobia nas asas, mastigado pela hélice do motor, que trabalha em silêncio absoluto...
Numa relação de eterno amor intempestivo, as vagas açoitam as penedas lá em baixo, e ciclicamente lambem com volúpia as intercaladas línguas planas de areia grossa, que sorvem quase imediatamente aquela espuma de saliva salgada... tssssssssssssssss...

Do lado de fora do cockpit, um enorme holograma lilás da minha irmã vai falando comigo e dando-me instruções, com um mapa na mão.
- Tens que ir mais para sudeste! Aquela horta ali à frente, vês? Depois há um cotovelo na costa e viras mais à esquerda...
- Ok. Cheira a mar! Notas?
- Concentra-te! Nem te disse onde é que vais aterrar! Nem te lembras disso! Será possível? Tótó!
Deito-lhe a língua de fora e esbugalho os olhos. Puxo e empurro os comandos do avião, subo e desço vertiginosamente; corto-me a mim mesmo o fôlego, fecho os olhos, como uma criança num baloiço, alto, cada vez mais alto, baixo, cada vez mais baixo, viciada na sensação de perigo na barriga. Depois sento-me melhor na cadeira de piloto e tento respirar mais devagar. Tento acariciar as borboletas do meu estômago para as acalmar.

Aterro numa fita de terra batida enlameada, ladeada de trevo e campaínhas cobertas de orvalho gelado. Vou caminhando em direcção à margem de um rio que se junta ao mar, enquanto o mato rasteirinho me ensopa o couro das botas. Num bote, está um homem de cabelo branco; enquanto me aproximo, ele vai arrumando as tralhas da pesca sem olhar para mim. Chego-lhe à beira.

- O mar está meio bravo e vamos demorar a atravessar. Teve dificuldade em chegar? Sua avó está com as dores do reumático, é bem capaz que chova.
- Vim bem! Uns nevoeirozitos mas nada de especial. Pintou o barco outra vez?
- Vista esse oleado aí, ou ficará encharcado com esta névoa!

O velho remava com perícia e guiava o barco, sulcando aquele braço de mar que esmurrava a foz do rio, inquieto de milhares de pegadas que apareciam e desapareciam quase instantaneamente, pisadas pelo vento. Também eu me sinto agora inquieto, encostado à popa do bote, de mão esquerda medrosa crispada na borda do barco, enquanto os dedos vão ficando brancos de gelo, beijados pelas ondas mais afoitas.
*

14 de maio de 2005

Plasmodium (não) vivax ®




Somos feitos de C, N, O.
Somos feitos do asfalto que percorremos, dos traços descontínuos que desaparecem, efémeros como flashes.

Somos feitos dos semáforos vermelhos e stops que não respeitamos, dos carros que ultrapassamos, dos velhinhos que ajudamos a atravessar as ruas. E dos carros que nos atropelam.

Somos feitos do ar que inspiramos, e não do que expiramos. Não somos feitos do cabelo que cortámos ou que nos caiu...
A água que vertemos ainda há de fazer parte de nós de novo.

Teremos sempre onde cair mortos e seremos sempre iguais a nós próprios; desejaremos sempre aos outros o dobro daquilo que eles nos desejam. Haverá sempre expressões arrogantes, verdades de La Palisse e ditos vingativos mascarados de bom samaritanismo.

Somos feitos dos amigos e amores que se foram embora, e seremos feitos dos que ficarem quando morrermos.
Somos feitos das dores que sentimos, dos sabores que experimentámos, dos odores que cheirámos e das cores e formas que pintámos.

Não somos feitos do que poderíamos ter feito. Somos feitos dos louros das acções para as quais tivemos força, dos saltos de fé que ousámos arriscar, do orgulho dos erros que tivemos a coragem de cometer. Em nós não há lugar para o arrependimento do que nunca fomos.

Somos feitos das lições que aprendemos, das cicatrizes de chicote que temos nas costas; mas também dos músculos que desenvolvemos e dos anticorpos que criámos.

Somos feitos de quem nos amou, de quem amamos e amámos. Somos feitos de quem nos magoou e nunca existiu. Somos feitos das paixões do presente.
Somos feitos de ganidos, latidos, ladrares e rosnares. Somos feitos dos mesmos órgãos e sistemas de órgãos que todos os dias envenenamos mais um pouco. E somos feitos da necessidade de excretar esse veneno, picando-nos uns aos outros.

Somos feitos do queijo e da ratoeira. Do queijo e da faca nas nossas mãos. Das facas de dois gumes que no-las cortam.
Somos feitos do fascismo, do comunismo, do socialismo e do neofascismo - tudo é uma questão de referencial einsteiniano.

Somos feitos de heroísmo cobarde; somos feitos de espiritualismo materialista; somos a espada e a parede.
Somos feitos de narcisismo falso-modesto.
Somos feitos de resignação megalómana. Somos lobos na pele de cordeiros, e nos tempos livres somos cordeiros na pele de lobos.
Somos minimalistas grandiloquentes.

Somos feitos de oscilação uniformemente variada.
Mas cada um de nós é feito das opções que toma.

16 de abril de 2005

Comunicado aos autores e leitores

Caros leitores e colaboradores:

Pela primeira vez, escrevo um post directamente no quadrinho próprio do blog para esse efeito, em vez de escrever um rascunho prévio no notepad do windows. Faço isto porque quero que seja o mais genuíno e o menos literário e estilístico possível, e porque quero ser o mais claro que me for possível. Quero também atingir o objectivo que pretendo, sem provocar a curiosidade de uns e ferir a susceptibilidade de outros.

Decidi, por várias razões, mudar o endereço do blog a curto prazo. Gosto muito do nome deste, mas infelizmente é inevitável. Queria pedir-vos a vós, leitores assíduos que querem realmente continuar a ler os nossos textos, que me enviem um feedback: se quiserem podem comentar aqui, deixando os vossos emails para que vos possa dizer qual é o novo endereço do blog, e também para poder construir uma newsletter que vos avise de posts novos, em vez de ter de estar a mudar o meu nick do msn para avisar o pessoal! Ou então enviem-me um email para valdispert@hotmail.com.

Também queria pedir aos meus amigos colaboradores que não enviem mais posts para aqui. Os novos posts serão publicados no novo blog.

As razões que me levam a fazer isto ficam para mim. No entanto, é com o objectivo de ajudar indirectamente a permitir uma gotinha de Paz no Mundo: a minha!

Grandes, grandes cumprimentos, sob as formas indicadas consoante o caso :)

João

3 de abril de 2005

O Sótão





Semi-nu, sentado no mármore frio do último patamar, permaneceu encostado à parede crivada de pequenas pedrinhas de todas as cores, como em tantos outros prédios. Respirava profundamente o aroma a lavanda da lixívia, ainda suado, na escuridão quase absoluta. De repente, do fundo do poço surge o ruído de uma chave à porta; alguns passos de salto alto viajam lá de baixo, ricocheteando em todos os degraus, nos corrimões, nas portas cerradas, amplificando o som ecoante até ao expoente do medo. Acenderam a luz. Chamaram o elevador!
A respiração fica-lhe mais rápida e menos profunda. O suor torna-se glacial, o mármore começa a queimar-lhe o rabo. Continua quieto, na expectativa. O elevador não pára de subir, o barulho é cada vez mais alto; bate-lhe agora o coração muito depressa: "será que é desta vez que vêm cá acima e me descobrem?".
Depois do tempo que dava para ter subido a pé as escadas inteiras, pára o elevador, no piso imediatamente abaixo, que é o último que poderia atingir. Os saltos altos ecoam na escada, mais afiados, mais definidos, ainda mais altos. Dá duas voltas à chave e abre a porta. Ouve-se o barulho de sacos de plástico transportados para dentro de casa, mas a porta de casa teima em não fechar.
A luz apaga-se, mas acendem-na de novo. Com o coração a mil, surge o receio que oiçam o seu batimento. Respira bem devagarinho para que não o oiçam - qualquer barulho pode ser fatal - a ponto de quase sufocar. "Devem ter ido às compras; quando acabarem de levar tudo para casa entram e pronto! Tenho de ser racional: alguma vez vinham cá acima à uma da manhã?" - pensa.
- Onde é que queres pôr estes vasos?
- Não sei, põem-se lá em cima na escada ao pé do sótão, depois logo se vê!
- Então não feches a porta!
Aterrado, levanta-se muito depressa e veste-se em tempo recorde; muito mais depressa do que se tivesse acordado de repente e faltassem apenas 3 minutos para perder o autocarro.Lava líquida queima-lhe a traqueia e os pulmões. A boca e a garganta estão áridas como se tivesse abocanhado saquinhos de bolinhas de sílica desumidificadoras. Deixa de haver limite definido entre inspiração e expiração.
Carregado com os tais vasos, esse alguém sobe, um a um, os degraus do primeiro lanço de escadas. Vê-lhe a cabeça branca a surgir, por entre os corrimões. Olha para um lado e para o outro. Olha para cima, para o chão, procurando um buraquinho para onde se enfiar, uma pedrinha para se esconder debaixo! Nada. O desespero, o batimento do coração como se de um pássaro pequeno e assustado se tratasse. O que faria o Macgyver nesta situação?
"Tenho de fugir, mas estou encurralado! Vai-me ver!"
Encosta-se à sólida e trancada porta de madeira escura do sótão, enquanto arfa descompassadamente e o peito lhe oscila. De olhos postos nos degraus do último lanço, sobe o senhor com os vasos, cada vez mais próximo, até que chega ao patamar e os pousa no chão. Olha então de relance para a porta do sótão, e, calmamente, torna a descer as escadas.
*
Combalido, levanta a cabeça e tosse aflitivamente. Há pó por todo o lado. A rinite alérgica mostra rapidamente a sua raça, e começa logo o nariz a pingar água.
Tinha caído para trás, desamparado; a porta tinha mudado de estado físico - de sólida para uma fase fluida cristalina, de textura do tipo mousse de chocolate caseira - e tinha permitido que ele entrasse no sótão.Já tinha analisado mil vezes aquela porta noutras alturas, pensando para si mesmo que se ali fosse encurralado no patamar um dia, daria jeito poder abri-la. Brincando, tinha até simulado que a arrombava; no entando, tinha-se sempre demonstrado muito rija e impenetrável para quem não possuia a chave. Também por isso imaginava por vezes o que é que se encontrava naquele sótão.De si para si, confuso, pensou que fora aquele conjunto de acontecimentos, aquele contexto, que teria propiciado a mágica salvação ao momento de apuro. Talvez que o desespero elevado ao extremo tivesse invocado um milagre. Ou então aquela porta era saída de uma história mista de Stargate com Hansel and Gretel.
Levantando-se e sacudindo o pó, contempla o sótão. Do lado direito da sala, rasgam-se janelas altas e finas, palacianas, por onde penetram na escuridão feixes corpóreos de um sol amarelo de meio-dia. A toda a volta se encontram vultos de variadas formas envoltos em lençóis que, outrora presumivelmente brancos, são agora amarelos, lavados vezes sem conta por aquela luz que queima.Naquela sala, a única coisa que mexia eram as partículas de pó, que voavam incessantemente com movimentos brownianos.
Os seus passos faziam um barulho parecido com o afastar de duas tiras de velcro; o chão: pegajoso, como no fim de uma festa com cerveja, mostra agora as pegadas imprimidas em meio centímetro de espessura de cotão.
A meio do quarto, uma cama individual, com uma coberta de tecido azul claro, era a única peça de mobília visível, perfeitamente limpa e arrumada. Senta-se nela e vê com mais pormenor o resto do sótão. Nos parapeitos das janelas há molduras deitadas, pequenos vasinhos com cactos, vários animais de peluche e outros bibelots.Encostados a uma das paredes estão dois colchões de casal, com aspecto muito antigo, e um amontoado de material informático completamente obsoleto, invadido pelo pó. Numa outra parede, mais perto da porta, pedaços irregulares de espelho encontravam-se pendurados, envolvendo todo o sótão em reflexos solares.
Ao fundo, uma mesa redonda exibe um lindo bolo coberto com chantilly e morangos cortados às metades, encertado recentemente. As únicas duas fatias cortadas (uma bastante maior que a outra) encontravam-se num pratinho ao lado, por cima da faca triangular. Um pequeno papel tinha escrito: "COME-ME".
Toda aquela energia gasta pelo momento de stress despertou-lhe a gulodice, e decidiu seguir a instrução dada. Mordeu então a maior das fatias. Era um bolo muito doce, com sabor a alegria e festa. Suculento, leve, que se lhe desfazia na boca. Enquanto mastiga, inspira bem fundo, respirando a tranquilidade que quem está seguro e é amado. Senta-se de novo na cama e come o resto da fatia, sentindo-se subitamente apreensivo. "A porta... como é que aquilo aconteceu? E ele olhou para mim! Como é possível que não tenha visto o que aconteceu?"
A apreensão acentua-se, enquanto engole o último pedaço. "Será que é possível sair daqui?"
Receoso e inquieto, avança para a segunda fatia de bolo. No entanto, come-a quase instantaneamente; sente-o amargo como as amêndoas, enquanto começa a ficar desesperado. "Este bolo, aqui? Porquê? Isto é muito estranho...".Arranca então avidamente com a mão mais um bocado do bolo, e mete-o todo na boca, sujando-se com o chantilly.
Começa a sentir-se pesado, como se a gravidade tivesse aumentado de repente. Os olhos cansados tentam fechar; arrasta então o corpo para a cama e deita-se, sonolento mas estranhamente feliz e descansado. Sente-se dopado, tonto e a alucinar, enquanto mastiga o bolo lentamente, como uma tartaruga, ainda com metade por fora. Olhos semi-abertos, braços estendidos como um cristo. Mentalmente vai cantando uma música dos Jesus and Mary Chain:
"Listen to the girlAs she takes on half the worldMoving up and so aliveIn her honey dripping beehiveBeehive
It's good, so good, it's so goodSo good
Walking back to youIs the hardest thing thatI can doThat I can do for youFor you
I'll be your plastic toyI'll be your plastic toyFor you...".
Sente então a cabeça muito quente, e o suor a escorrer-lhe pela cara. O cheiro a mofo e humidade invade-lhe as narinas, e torna-se-lhe impossível respirar.Antes de apagar, ainda vê à sua frente um vulto enegrecido pelos feixes de luz que entram pelas janelas e lhe batem na cara; distingue ainda umas palavras dissolvidas por entre uma gargalhadinha doce e contagiante:
- Eu sabia que duas fatias não te iam chegar!
*
Com o pescoço e as bochechas molhadas com o sangue que escorria, e com a fronha enfiada nas tralhas mais variadas, acorda e levanta a cabeça. Tinha batido com toda a força na porta da mala do carro, enquanto tentava secar com folhas de jornal a água da chuva que se tinha infiltrado, e ali ficou, de cabeça para baixo, barriga empoleirada e joelhos encaixados no pára-choques, de encontro à matrícula.

23 de março de 2005

A Era do Egoísmo



Aproximo-me em ponto morto de um sinal vermelho, lá ao longe. Ao de leve, o meu pé direito afaga o pedal do travão do carro, gerindo a velocidade para não parar antes que o semáforo abra. O Chico vai cantando uma música qualquer de Red Hot Chili Peppers.

- 'tás muito calado, puto! Que é que se passa?
- Nada... estava-te a ouvir!
- Ah... assim 'tá bem!

Mastigo mais uma chiclete oferecida pelo Chico (comprada na Makro) enquanto penso no comentário que vou fazer ao post da Isabel. Já abordei sob várias perspectivas as suas palavras - primeiro humana, depois intelectual, e depois social. Mas agora tento mentalmente produzir também pela palavra escrita o que me vai no espírito, e o impacto que nele causou aquele texto.

Estiveramos no Refúgio das Freiras, um barzinho em Santos. Bebo uma green (só uma, cuidado com as interacções medicamentosas!) e umas coca-colas, enquanto esperamos eternidades pela banda que supostamente ia tocar ao vivo.
A localização da nossa mesa, com vista privilegiada para a porta do W.C., fez-me lembrar aquelas margens dos rios africanos, onde as zebras necessariamente vão beber, e onde crocodilos se escondem submersos à espera de uma presa mais incauta.
Raparigas passam por nós todas arranjadas, com decotes generosos, cinturas que se abraçariam com duas mãos bem abertas, aragens de perfumes doces, passos felinos e olhar misto de sedução e "filha-da-putice". Olhares cruzam-se; sorrio, afável e despido de segundas intenções. Quase invariavelmente recebo de volta uma cara bonita, mas com tromba de mal disposta. E quase sempre vem um nuno atrás, ou um fábio, ou um cláudio. Ou um Jorge...
Não entendo todas estas pessoas. Não estamos no mesmo comprimento de onda.

Tamborilo com as mãos na mesa de mármore, envolto no fumo dos cigarros que todos os outros (ainda) jovens prendem entre dois dedos, tentando inserir-me no ritmo do reggae alegre que passa na altura.
De repente começa a banda a tocar. É uma banda de covers de Red Hot.

"I'm overcoming gravity,
I'm overcoming gravity,
(It's easy when you're sad to be,)
It's easy when you're sad, sad like me

I like pleasure spiked with pain and music is my aeroplane,
It's my aeroplane..."

Sigo agora o ritmo mais rápido com a cabeça, os pés batem no chão como se lá estivessem pedais de bombo, pestanejo à mesma cadência, sinto-me agora mais apto, mais adaptado, mais forte, melhor e mais pertencente do que toda a gente ali. Aquela é a minha música de há muito, é a carne e os ossos de que sou feito. Começa a viagem aos tempos antigos da ESBA, do secundário, do ir para todo o lado de bicicleta, de apanhar sol, de ser expulso das aulas para ir ter com as miúdas ou ir jogar à bola (não necessariamente por esta ordem); das idas e vindas na vimeca com os amigos, as palhaçadas! ... o tempo em que o mundo era nosso e estava todo por estrear!

Recordo a ESBA que já não existe porque lhe passaram um viaduto por cima em Algés; os passeios na praia... o Chico a vomitar no terminal das camionetas, de manhã, enjoado como sempre; lembro aquela vez em que não fiz a específica de Biologia e estava lá encostado às grades do túnel de acesso à estação dos comboios, à espera de alguém...

"What I've got you've got to give it to your mamma
What I've got you've got to give it to your pappa
What I've got you've got to give it to your daughter
You do a little dance and then you drink a little water..."

Abro então os olhos e noto que não estou assim tão diferente do que era nesses tempos: t-shirt branca, calças azuis lisas, ténis; baixinho como sempre... sinto-me mesmo bem com aquela música, e percebo que não preciso de ser um nuno, não preciso de uma camisa à paneleiro ou de um casaco de cabedal à durão para nada. E quando vejo aquelas gajas boas a mascarem pastilha elástica com a boca toda aberta, com ar de que sabem tudo, com aquelas botas e aqueles saltos à bimbas, com aqueles maneirismos de segurar o cigarro que arriscam uma luxação da articulação do punho, de tão dobrado para fora que fica... percebo que elas estão muito bem com os nunos, cláudios ou fábios com quem estão. Realmente tudo no universo encaixa na perfeição, mesmo que não estejamos a ver na altura a lógica da coisa. E, já agora (não que fosse necessário dizê-lo), também não preciso delas para nada!

"Give it away, give it away, give it away now!
Give it away, give it away, give it away now!
Give it away, give it away, give it away now!
Give it away, give it away, give it away now!"

*

O sinal abre e ainda consigo meter a segunda mudança; o carro engasga mas mesmo assim ultrapasso os outros que tinham passado por mim muito antes, a grande velocidade, e agora estavam ali, parados à espera do verde.

Dou-me conta então de que tenho muito orgulho no meu percurso, no meu passado, e que a ambição para o futuro se mantém intacta.
Acelero mais, e risco a estrada marginal a grande velocidade.

- Aí está Hakkinen a voar por cima da pista, não há adversários à altura!

- Dois jovens morrem na marginal a caminho de casa. O excesso de velocidade e as manobras perigosas terão estado na origem do acidente...

- Reparem como o piloto aborda destemidamente as curvas!

- Oh, mas vejam, o piloto abranda com medo da curva!

- Não, é que a polícia costuma estar aqui, chico.

- E aqui, o piloto a ter medo que a polícia apareça no autódromo!

A grande velocidade segue também a minha cabeça. Vou dizer à Isabel que já não ando a precisar tanto de agonistas do GABA, que concordo com ela quando diz que a vida é bela, e que só decidi tirar um tempinho para mim. Que esse tempo ficará registado como "Era do Egoísmo", e será como uma reacção inflamatória aguda, ou seja, perfeitamente auto-limitado. Que já estou muito melhor e que muito em breve deixarei de estar bloqueado pelas reacções cerebrais adversas e pela falta de serotonina.
Escreverei que das cinzas desse egoísmo renascerei rapidamente para estar mais forte, mais racional e mais preparado para ajudar as outras pessoas (mesmo que sejam nunos ou as suas gajas). Será mesmo essa a minha função, e este acidente de percurso só servirá para tornar mais íntegra a minha estrutura psicológica. O que não nos mata torna-nos mais fortes e mais imunes!
E não lhe vou agradecer sequer por palavras, porque sei que a melhor maneira de o fazer é ensinar-lhe novas fintas com uma bola de futebol!

Subo agora as escadas do meu prédio, depois de ter estacionado impecavelmente o carro (como sempre) e de me ter despedido (à porrada) do Chico. Vou às escuras, porque já sei o caminho e o buraco da fechadura de cor.

Já sei o que lhe vou escrever...

20 de março de 2005

Are u there?????


Não sei se me estás a ouvir. A linha de conversação é ténue... o ruído aumenta... estás cada vez mais longe... espera... pára... vai para onde estavas... tenta voltar a apanhar rede. A vida é demasiadamente bela para ser preenchida pelos agonistas do GABA. O vento cortante, as corridas para os transportes, o cabelo grande e despenteado (acrescido de sobrancelhas por arranjar), também fazem parte da minha realidade, assim como da realidade de muitos. É isso que torna a vida bela; é isso que permite que olhemos para trás e nos orgulhemos do presente, conseguido à custa do extenuante esforço de combate contra as mais adversas contrariedades. Tudo é relativo, os nossos problemas, as nossas angústias... tudo! A única coisa absoluta é o sorver da esperança de um dia de raios de sol que se reflectem no mar.
A vida é bela... Penso que já o disse várias vezes... Sei que é muitas vezes difícil fugir das lembranças... Por vezes sonho com situações de aflição em que procuro correr mas não consigo porque as pernas prendem... Mas tudo tem de passar quando de repente me encontro e penso que a minha vida não sou só eu! São os que me rodeiam e, tal como preciso deles, também eles precisam de mim! É neles que encontro força e eles não se resumem à soma das partes mas sim às partes de uma forma que não se desintegra se apenas um alicerce se partir.
Ainda estás aí?
Há um mundo em constante mutação lá fora... As estradas estão prontas para ser riscadas, os relvados esperam por alguém que os rasgue, as redes esperam por um golo que as perfure, a noite dirige-se constantemente para o dia, ACORDA! Esquece o passado e reformula o presente... é urgente! Reactiva o p53 e repara os danos... Pensa que um conjunto de vidas espera pela tua ajuda... Já imaginaste que um ser que pode estar neste momento a nascer poderá um dia precisar da tua ajuda?
O tempo chama por ti... Não o desprezes... Não o percas...
Nada acontece por acaso, nada! Lembra-te disto que te estou a dizer, também me foi dito por alguém especial para mim, e esse alguém tinha razão!
Por vezes prestamos demasiada atenção a algo que não a merece... mas nem isso está errado quando o que fazemos é puro e honesto... na vida não deve haver lugar para o arrependimento mas sim para a aprendizagem!
Nunca te esqueças que cada um de nós tem um papel a desempenhar e nada nos deve deter... nem o sentimento.
O caminho é árduo... não é fácil ser o que se pretende... O sonho implica dor, implica riscos mas nunca o deixes de perseguir... concentra-te nele!
Não caminhes de costas para o Campo de Santana, vira-te antes para ele... quanto ao resto... melhores dias virão ACREDITA! Constrói a tua vida com base na tua missão futura: salvar vidas... Tudo o mais, embora essencial, não alcança esse feito! É assim que procuro pensar quando estou triste... É isso que dá alento à minha angústia e desilusão. Por vezes não tenho certeza de nada a não ser que tenho um objectivo e é nele que me procuro concentrar.
Sabes que não vivo apenas a pensar nele mas é a pensar nele que vivo... tenta abstrair-te do resto, pensa mais em TI! E lembra-te que, acima de tudo, preciso de ajuda para os casos longos de fisiopatologia lol ;)
FORÇA! É UMA ORDEM!

13 de março de 2005

I'm not the only one..

Eu amo tudo aquilo que não tenho.. todas aquelas coisas que olho dia a dia sem que me passem desapercebidas, olho durante mais tempo para elas do que para as outras... coisas. Sao transuentes.. vão e vêm, passam e nem reparam, pessoas como as outras que dia a dia nos fazem pensar se realmente existimos, ou não passamos de almas transparentes que vagueiam incessantemente em procura de algo que também não vêem, algo que os trata da mesma forma que os outros nos tratam a nós.. com indiferença, talvez seja essa indiferença que nos cative, que nos faça manter o olhar, aquela coisa que faz alguém que não conhece, alguem que fixa e nao descola. Mas passam, tal como à breves instantes atrás, não existem. A vida continua igual, passaram, aquela necessidade intrínseca vai e vem, e volta a angústia, de quem não acredita que bons momentos ainda existam, que tudo o que seja bom tenha ido embora e não queira voltar. Mas porque é que as coisas boas não voltam? Possivelmente será isso que me faz classificalas como boas, a ausencia delas. Amigos meus dizem: Só faz falta quem cá está, mas eu discordo.. faz falta quem fez a equação chegar ao limite máximo, aquele que nao é relativo, mas que nós queremos que o seja, que volte a ser igualado por um prazer de conforto e companhia, por um objectivo de uma pessoa que gostava de voltar atras e mostrar ao mundo como era feliz, de mostrar um sorriso a essas pessoas que vêm e vão. Talvez seja do alcoól, mas eu aposto que é da noite, não como estado do dia, mas como sinal de melancolia. A noite.. cá está ela, sempre à nossa espera como quem decide se vamos sofrer ou ser felizes. É ela que nos faz vir ao de cima.. todos aqueles factores que achamos minimos se mostram numa competição renhida à procura de um título. Esse título chega, e é ele que nos escolhe. Nunca o vou perceber. A minha vida corre bem, as coisas cruzam-se e fazem cadeias de sentido, mas mesmo assim sinto-me mal. Falta aquilo que eu desejo realmente, por cima do que o dia tem para me oferecer. Quando é que acabas noite? Quando? És quase sempre tu que ganhas, cansas-me até mais nao poder, ate eu ir para a cama e desistir. Mas quando acordo já estás preparada para me julgar, e eu nao te posso escapar.

9 de março de 2005

Tetris 3 - Erro de paralaxe ou Em ponto morto




"These notes are marked return to sender
I'll save this letter for myself
I wish you only knew how good it is to see you

these steps I take don't get me anywhere
I'm getting further from myself
one thing is always true
how good it is to see you

I'm done resenting you
you represented me so well
and this I promise you
how could I end up in the hands of someone else...".


*

Corro. Porque não quero estar onde estou, ou porque não tenho dinheiro para a camioneta, ou até porque não tenho para onde ir.
O Hospital de S. José, a faculdade, o jardim de Santana, tudo vai ficando para trás ao ritmo do vento frio que me greta os lábios, a boca, os pulmões... tudo fica para trás do campo de visão que oscila para cima e para baixo ao ritmo da corrida.
Também as memórias percorrem as ideias à mesma velocidade, mas parece que os seus contornos permanecem gravados, como no fósforo dos antigos monitores que, queimado para sempre pelas imagens fixas sem screen saver, exibirá para sempre aquelas letras e figuras que deixámos de querer ver. Para sempre?

As pessoas passam por mim como postes de iluminação presos à calçada; olham-me admiradas, talvez porque o meu ritmo de corrida é diferente da passada apressada do comum citadino, diferente da sangria desatada dos assaltantes. E também não posso estar a fazer jogging, porque tenho a mochila, um cachecol branco, as eternas botas CAT... e cabelo comprido. E os drogados não praticam desporto!

Passo pela pastelaria onde um dia lanchámos ao sol e onde os raios entravam pelo vidro, trespassando transversalmente os nossos olhares, tornando-os mais brilhantes um para o outro. Reflectindo o bom e o mau do outro. Mais puros e sinceros. De vez em quando vinha uma nuvem, mas era tão pequenina que nem se notava... ou eu não queria notá-la!
Os olhos são o espelho da alma, segundo dizem; mas temos que ter cuidado, porque esse espelho pode ser como aqueles dos filmes americanos, com agentes do FBI atrás.

Assomei por ali adentro sem saber porquê, a correr. Passei pela banca à porta e não tirei um papelinho de consumo... quando já estava perto da mesa avisaram-me, Olhe! O senhor!... Desculpe, desculpe, Saí.
Ganhei o gosto por fugir a correr. Por levar com o frio na cara, para abrir as pestanas, fortalecer os ossos que, intactos, se sentem ainda quebrados por forças psicossomáticas. Sabe bem chegar ao fim do caminho e, na beira da estrada, ofegante, sentir aquele calor que se acende por debaixo das camisolas. Os olhos ficam quentes, e vejo agora halos de luz nos candeeiros e nos faróis dos automóveis; enfio a mão esquerda no bolso, aquele bolso mesmo feito à medida para dentro dele darmos as mãos. Imediatamente lembro-me disso e tiro a mão cá para fora. Fecho o zipper.

Dirigi-me, já a passo, para a paragem do autocarro. Apanho-o. Sento-me. Encosto a cabeça ao vidro que estremece com o motor em permanente ralenti e lembro-me, sonolento, de que fingimos que não nos vimos, e que tornaremos a fazê-lo. Imediatamente antes de adormecer, ia jurar que te vi a sair pela porta do autocarro, que agora já não é a porta do autocarro, mas sim a porta do bar da faculdade, a que eu detesto que abram e não fechem depois. Escrevo freneticamente num guardanapo de papel que é agora uma pauta de exames: as nossas notas, os nossos nomes na mesma linha, juntos. Sorrimos. Eu bebo o meu descafeinado e tu bebes a tua garrafa de água.

Estamos então a vaguear no espaço sideral em montanha russa, vendo novas estrelas e planetas a bordo de um tapete mágico: a rodela verde do meu olho que ninguém vê. Ouve-se música, derretemo-nos em chantilly a ouvi-la...

"I can open your eyes
Take you wonder by wonder
Over, sideways and under
On a magic carpet ride.
A whole new world
A new fantastic point of view
No one to tell us no
Or where to go
Or say we're only dreaming
A whole new world
A dazzling place I never knew
But, now, from way up here
It's crystal clear
That now I'm in a whole new world with you.
Unbelievable sights
Indescribable feeling
Soaring, tumbling, freewheeling
Through an endless diamond sky.
A whole new world
A hundred thousand things to see
I'm like a shooting star
I've come so far
I can't go back to where I used to be..."

*

Acordo qual despertador programado, mesmo a tempo de carregar no botão para sair na minha paragem.
Estremunhado, conduzo devagar (sempre em ponto morto, que é a única velocidade do meu carro) por montes e vales, enquanto olho para os halos gigantescos dos stops do automóvel que vai à minha frente.

Lembro-me então que não vimos estrelas, mas apenas um eclipse lunar. Que me puxaste o tapete mágico no ponto mais alto da montanha russa, num solavanco inesperado, paroxístico, e que não voltaste para me apanhar, seguindo o teu voo espacial para outras galáxias, outros sóis, outros eclipses (?). Que as rodelas verdes dos meus olhos desapareceram, talvez porque já não reflectem imaturidade. Que a esperança, também ela verde, está morta e não cantou sequer como um cisne, mas como um galo que vimos um dia, abraçados, que depois voou disparado para se esconder no cimo de uma árvore. Os galos voam?!
E eu vou cantando cada vez mais alto para dentro...

"But, now, from way up here
It's crystal clear
That now I'm in a whole new world with you..."

... e sorrio para mim mesmo: fui um erro! Um erro de paralaxe!

*

Diz a Sagrada Escritura, no livro dos Macabeus: "Matou um elefante, e matou-o como esforçado e valoroso porque não lhe soube fugir como prudente...".



Nota: este texto é pura fixão; ele é dedicado ao dia internacional da mulher e aos meus amigos Marto e Papoila. Um deles anda comigo a pé por estes caminhos; o outro diz-me para seguir em frente e não olhar para trás.