23 de maio de 2007

A minha vida é uma mentira - Doutor da mula ruça


Tenho para mim que a minha vida é uma mentira, talvez apenas superada pela farsa do cão e do gato. Desde pequenos que nos habituaram a ver o Tom a fugir daquele cão grande e atarracado com picos na coleira; a modos que era sempre o gato a ir parar à casota do cão nesses desenhos animados, e nunca era o cão a ir à gamela de leite do Tom (não é o Tom Sawyer, esse corre com os calcanhares a bater na nuca atrás do barco a vapor; falo do Tom e Jerry), mas a perseguição tem sempre sentido único no imaginário de toda a gente. Os nossos cãezinhos domésticos já não sabem caçar gatos, pá! A única carne que bastantes deles experimentam vem em puré e enlatada, ou então já foi cozida e estufada quatrocentas vezes e vai-lhes parar à bocarra depois de ter estado 10 minutos a arrefecer no nosso prato, e é se não estivermos com muita fome...
O que vejo na rua é cães a ser passeados pelos donos, pachorrentamente, e de repente salta-lhes um gato à frente. Os cães normalmente não prestam muita atenção, estão ali para fazer xixi ou comer erva, mas os sacanas dos gatos! Ouriçam-se logo todos e mandam-se aos cães como se não tivessem nada a perder! Amigo cão, vou-te vazar um olho com as minhas garras! (sempre adorei esta expressão, "vazar um olho". Faz-me imaginar que, quando no deserto, e em apuros, até podemos ficar cegos, mas à sede não havemos de morrer. Ou os olhos, ou um camelo com uma torneirinha numa bossa, ou então aqueles cactos marados). No outro dia, pela primeira vez, vi um dono a sair à rua à noite com um gato preso pela trela. Na altura pareceu-me completamente ridículo, mas depois de pensar nisso mais a fundo até tinha razão de ser.
Lembrei-me agora de um jogo para pc que eu jogava há bastantes anos, que era o Cat. Assim um jogo com gráficos CGA, fantásticos para quem estava habituado ao Spectrum (mais uma vez, os nossos olhos vêem aquilo que as nossas experiências deixam). Nós eramos um gato que tinha que entrar nas janelas de um prédio de apartamentos e realizar um sem número de tarefas, como apanhar ratos, passarinhos, peixes, comer a comida dos cães, e, claro, emprenhar o maior número de vezes possível uma gata branca que por lá andava - claro que nós eramos um gato preto. E como gatos pretos que eramos, podiamos morrer de todas as maneiras: levar com objectos atirados das janelas por moradores descontentes; morrer electrocutados num aquário com enguias eléctricas; ser perseguidos por cães; ser picados por aranhas (!?)... etc. Ou tinhamos 3 ou 5 vidas, já não me recordo. Mas não eram 7. Os gatos devem gostar muito de números
primos.

Dizia eu que a minha vida é uma mentira. Quando a minha mãe me parte a cabeça por não lavar a loiça (ou me parte a loiça por não lavar a cabeça) ou por fazer virtualmente nada em casa, eu digo-lhe que ando a estudar muito (o que nem é totalmente mentira, bem vistas as coisas) e que vou para o hospital salvar vidas. Mas depois chego lá aos estágios (não todos, mas a maioria) e fico lá com os meus colegas em pé até me doer as pernas, dentro de um gabinete de consulta ou enfermaria, a tentar mostrar que estou ocupado, ou nem isso. Dizem-nos para estar às 8 e meia ou 9 num determinado serviço, e depois mandam-nos beber café até às 10:30 (sempre ajuda a disfarçar os olhinhos de peixe cozido). Quando lá chegamos, dizem que não há assistentes para que possamos assistir às consultas. Então vamos para casa, decerto com a sensação de dever cumprido, e bastante mais enriquecidos com a experiência única que é beber o conhecimento in loco. Vamos para casa fazer o quê? Marrar. E, claro, nem sempre com a ajuda de um plano de conteúdos da cadeira em causa, como é o caso de oftalmologia. Muito haveria para dizer sobre este estágio, mas, porventura, não me apetece. Até me parece que alguém aqui há de escrever sobre isso (pelo menos foi o que me prometeram à boca pequena).
Mas estou no 5º ano, e acho que sei tanto de medicina como a curandeira que vende pau-de-cabinda no centro comercial de Queijas - imaginem uma cave, onde se entra por uma porta ladeada por paredes que dizem: "putas, 500$" ou "Queres boi?", e do outro lado há uma horta ladeada por umas madeiras podres cheias de pregos, com umas couves assim muito altas mas quase sem folhas (decerto haverá por ali coelhos suburbanos gigantes); imaginem que essa entrada tem aquele chão com uma tijoleira assim cor-de-laranja, com bolinhas, e depois entra-se lá dentro e é tudo muito escuro e com luzes fluorescentes a falhar, boas para se ficar epiléptico, e vê-se uma sala fechada cheia de máquinas de jogos onde, conta-se com ar grave e sério, já foram assassinadas várias pessoas por motivo de ajustes de contas (esta é outra expressão que adoro, "ajuste de contas"); e depois há um cabeleireiro com posters de modelos tipo Samantha Fox e outras que tais (por baixo diz "New fashion haircuts"); e depois uma peixaria, que tem lá daquelas lâminas verticais eléctricas de cortar peixe em postas que fazem aquele barulhinho kkzzznhhhhhhhiiiiiiiiiiiickzzz que nos faz imaginar imediatamente um aparatoso acidente laboral (mas hei! eu sou médico! estou lá para salvar vidas); poderia falar ainda da pequena lojinha que vende pilhas, despertadores, disfarces de carnaval muito maus e bombinhas que eram ano após ano proibidas, mas que lá havia sempre à venda - novamente imagino putos agarrados a uma mão que explodiu (calma, amigos, eu sei fazer um garrote, faz parte da minha profissão); no rés-do-chão desse centro comercial, há a Palidisco, uma papelaria que vende luzes de natal, transformadores de corrente alterna, balões... e por mais que tente, nunca há de me dar o prémio do euromilhões.
Adoraria continuar esta descrição, acreditem em mim: é terreno fértil.
Anyway: todas as pessoas que trabalham ali sabem mais de medicina do que eu. A peixeira, a cabeleireira, a curandeira. Até a mulher-a-dias (com todo o respeito que me merecem as mulheres-a-dias, porque eu morria entoxicado em Sonazol ao segundo dia) sabe mais do que eu. Todas elas, na sua área, são mais eficazes a curar maleitas, digo-vos! Até o Merlin sabia mais que eu, como físico da corte! (sabiam que o Merlin é metido ao barulho na série Stargate? que palhaçada). Sou o Dr. Phraud. Sou o doutor da mula ruça!
Estes estágios têm sido uma completa perda de tempo, energia, paciência, gasolina. E cada vez mais penso que só vou começar a aprender coisas mais práticas quando for atirado para dentro da arena de leões que é um hospital, e agora safa-te! Assim como fazem aos bebés nos países nórdicos quando os mandam à água gelada! Espero para meu bem que todos os humanos estejam, por instinto, preparados para exercer medicina, bastando um estímulo de sobrevivência para pôr mãos à obra. De médico todos temos um pouco, como dizem, não é?
Talvez quando tiver que trabalhar no meio de galinhas que falam mesmo muito alto e sem respeito pelos doentes que descansam; talvez quando tiver que ir às reuniões clínicas discutir casos, e agora sim, estiver sentado à mesa como interno, em vez de ter que marcar presença, em pé, esmagado contra um distribuidor de água, na sala de 3 metros quadrados, juntamente com os meus colegas alunos, a estoirar de riso pelas piadinhas que mandamos uns aos outros sobre os doutores... talvez aí eu aprenda a curar alguém.
Talvez nessa altura eu já possa levar pistachos para essas reuniões. E fumar charutos. Como me dizia aqui há dias um doente lá da enfermaria: "a mim não me deixam fumar aqui, mas eles fumam! eu sei que eles fumam! eu consigo sentir o cheiro! e são Cohibas! malandros é o que eles são! patifes!".

Nunca digo o que faço se não me perguntarem. Mas se perguntarem, ficam muito admirados. Medecina? Andas em Medecina? Grandá crânio. Sinto-me logo um macrocéfalo...
E já andas nos estágios? E eu respondo logo que sim, que salvo vidas todos os dias, e depois rio-me do que acabei de dizer. As pessoas fazem um sorriso amarelo, que sim, que entenderam a piada. E depois dizem que querem consultas à borla, que é sempre bom conhecer um médico. E eu digo "Queira deus que nunca precises dos meus serviços!". Nesta altura da minha vida esta escapatória tem um duplo sentido, embora as pessoas não o topem. Mas fica sempre bem dizer, que fica toda a gente muito contente, "Ah, ele desejou-me saúde de forma tão inteligente!".

O meu conselho de médico neste momento é, seja para que problema de saúde for, esfregar com água-rás. Acreditem em mim, eu vou ser médico, devo ter razão de certeza. Deixa de haver problema. E jogue Squash se tiver mais de 50 anos e factores de risco cardiovasculares.
Desculpa lá, mãe. Eu não salvo vidas. Não sou insuflável nem feito de plástico cor-de-laranja.
Tenho para mim que a minha vida é uma mentira, mas uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade; talvez volte a escrever daqui a uns aninhos sobre isto. E talvez me sinta bem.

22 de abril de 2007

Pequenos grandes heróis


Desta vez, não sou eu o autor do próximo post. Ainda não foi desta que me senti inspirado para escrever de novo. Em compensação, cedo a palavra a uma pessoa que me escreveu um texto e que, espero, não se irrite comigo por eu ter decidido divulgá-lo. Claro que gostei muito dele, também tenho direito a ser vaidoso... por outro lado, deixo-vos aqui com uma foto minha que tudo tentei para que não me mostrasse gordinho que nem um macho :p
Um grande bem-haja!

*
Pequenos grandes heróis
Nunca tinha reparado no João até ele ser da minha turma.

Um puto calado, mas mesmo calado, extremamente observador, com um brilho no olhar que confundia, sei lá eu como, alguma mágoa e uma vontade enorme de viver. Acho que só dois meses depois do ano lectivo ter começado é que comecei a entendê-lo e, lembro-me bem, foi no estágio de Pneumologia.

Estávamos sentados - pouco habitual - no corredor do Serviço à espera (usual stuff) que chegasse um assistente para nos dar uma aula. Acho que já toda a gente falava bem com o João e eu não. À primeira vista, ele não me inspirou confiança, talvez porque desconfie sempre das pessoas que parece que me lêem a alma - ou pelo menos que me pareça que estão a tentar lê-la. E o João, como se adivinhasse os meus pensamentos, disse

Epá, eu sou um gajo calado, mas sou muito observador e uso isso para fazer piadas

a propósito de estar toda a gente quase em lágrimas de riso com o que ele estava a dizer. A história parece fraca, e provavelmente o é, mas a partir desse dia - e dessa frase - comecei a aproximar-me do João. No fim desse estágio, acabei por saber de uma coisa terrível, pelo menos foi para mim sabê-lo: o pai do João estava gravemente doente há já algum tempo e isso acabava por explicar tanta coisa.

Um cancro que metastizara para os ossos, o pai que não dormia por causa de dores que a nada cediam, o João que tomara controlo da situação e era o chefe de família, o aluno de Medicina, o jovem adulto com direito aos seus interesses, um gajo com um sentido de humor e de ironia irrepreensíveis. Ele no meio de tudo aquilo - malabarista de vidas humanas, equilibrista da sua própria vida.

Um dia roubaram-me um beijo e eu, que não andava nada bem, fiquei contentíssima com isso. Cheguei a casa naquela agitação, ainda embriagada (o beijo aconteceu numa saída à noite) e vejo que o João e outros dois colegas estão num enorme regabofe e eu, no meio daquela alegria toda,

que é que fazem acordados a estas horas?

e, piada para ali para acolá,

olha estamos aqui porque o meu pai morreu esta madrugada.

O meu peito encolheu-se e eu deixei de poder respirar durante algum tempo. Senti uma dor tão, mas tão grande, um abalo tão forte, como uma chapada de mão seca numa bochecha de bebé (imagino que isso doa bastante). Ao João não lhe apetecia muito falar sobre isso, então falámos da minha desilusão amorosa e o João deu-me valiosos conselhos e ouviu-me com atenção. Naquele dia em que uma vida se perdera, e em que ele presumivelmente perdeu parte de si próprio, ele ouvia-me porque eu estava de coração partido, no seu altruísmo, na sua generosidade imensa.

O João, um puto calado, muito observador, que sempre me fez rir e que tem um coração maior do que si próprio. Um pequeno grande herói, com cara de miúdo e uma vida das antigas.

Desculpa esta porcaria de texto, João. Mas é para ti.
Joana Batista
20.04.2007

9 de abril de 2007

Artes e ofícios

Os pescadores amadores são criaturas interessantes. Isso e estranhos. É-me totalmente incompreensível como é que estes seres ficam horas e horas a lançar linha. O resultado final parece não ser compensador: uns quantos miseráveis peixes num balde resgatado à esfergona da cozinha. Para tornar tudo ainda mais estranho, as suas companheiras parecem fazer ponto de honra em acompanhar os respectivos. Algumas têm até direito à sua cana, sempre mais pequena e com uma localização sempre subalterna, ficando porém a maioria com a missão de abrir latas de conserva e tricotar adoráveis “naperons”.

Isto leva-nos a duas questões.
Primeiro, mas porque é que as pessoas que vão pescar alegremente comem sempre conservas de peixe? Mas então porque é que vão pescar? E não estão suficientemente perto dos peixes e do mar?
E que cálculos de mestre são esses, que matemática elaborada está por detrás da localização de uma cana? Qual é a diferença entre um “spot” e outro? O processamento das diferentes variáveis é feito por estes homens a velocidades não conseguidas em silicon valley, computando o vento, as correntes, a temperatura ambiente e da água, a altura da maré e a espécie a pescar enquanto mandam a baixo uma sandes de presunto.
“É aqui!”. Não adianta nem dizer que ali é perigoso, uma escarpa que estoicamente resiste aos agentes erosivos. O facto de ciclicamente se ter de desviar das vagas também não demove o pescador, tão pouco os ventos cruzados que o podem apanhar como a qualquer folhita de Outono.
E o quão precioso é a sua captura? Tais criaturas, quando vêem a cana a dobrar, lançam-se em ferozes lutas contra o peixe. Tão ferozes que o risco de caírem pela ravina a baixo torna-se real, muito real! Quando não tiram uma bota ou um molho de ulvas, o peixito é ridículo, não enchendo a cova dum dente.
Também os há que vão para a praia. Esses ainda me conseguem espantar mais, pois não só os cálculos da localização da cana entram para o domínio do divino como têm outra característica: fanfarrões. Estendem o arsenal de canas paralelamente ao mar, normalmente 4 ou 5 por pescador. Detenho-me aqui para pensar no que acontecerá se todas elas se dobrarem ao mesmo tempo. O tal balde está lá, mas agora à mercê da curiosidade dos banhistas que curiosos, têm uma atracção fatal por tal espólio. Esta curiosidade é desfeita quando ao olhar para o balde o que se vislumbra é não mais que um molho de algas e alguns peixitos aterrorizados. Os fanfarrões normalmente têm uma grande logística por de trás, com 2 ou 3 chapéus-de-sol, umas tantas geleiras e, não só a companheira, mas também família e amigos. Estes especialistas da pesca são tão confiantes que, entre capturas, apanham banhos de sol, dão à língua e ao dente, jogam os mais variados jogos de praia e, para espanto meu, banham-se ruidosamente nas mesmas águas onde tentam pescar…

Ele há cada cromo!

30 de janeiro de 2007

I might be wrong VIII - Sim, Não, ou Não sabe/Não responde ?


Depois de algum tempo arredado destas lides, não poderia deixar de escrever qualquer coisa, estimulado como fui pelo texto do Pedro, mais uma vez aclamado sem surpresa pela crítica.Devo dizer que fiquei contente por ver um texto relacionado com o aborto, mas completamente diferente dos que se costumam ler por aí. Estou completamente farto do tema, do esgrimir de argumentos... houve até alguém bem próximo de mim que me disse que o país iria entrar em depressão generalizada após o referendo. Imediatamente me lembrei de que diziam exactamente o mesmo antes da Expo98 e do Euro2004.

Como dizia, estou realmente sem vontade alguma de defender a minha posição e o meu voto. Tenho uma opinião, naturalmente. E posso até dizer que, em parte, consigo delinear meia dúzia de argumentos, e noutra, tenho a opinião que tenho não sei bem porquê. Vem do meu interior, não se traduz por palavras, e na verdade não será necessário fazê-lo. Porventura, essa será talvez a parte mais importante da minha convicção, porque é uma espécie de essência destilada das minhas vivências, do que observei até agora por aí, e das minhas reflexões sobre o tema - confesso que já pensei muito nisto, e talvez por isso é que desisti de fazer valer a minha dama em debates, entre amigos, colegas, etc. Não deixa de ser aparentemente paradoxal que, após ter gasto tanto tempo a reflectir, e após ter ouvido e observado tantas realidades diferentes e antagónicas, seja menos capaz e tenha menos vontade de produzir uma argumentação. Isso será, talvez, porque me tenha convencido de que esta não é, de todo, uma questão de convencer pessoas. Ou elas conseguem sair de si mesmas e dos seus espectros que as rodeiam, ou então não serão capazes de ter uma opinião justa, e muito menos fazer campanha de defesa dessa opinião.Para quem já estava a esfregar as mãos de contente, esperando um rol de armas de destruição maciça como defesa acérrima de uma das facções, desengane-se.

Como disse e sublinho, não tenho pachorra para falar de argumentos. Mas ainda tenho menos para aturar a esmagadora maioria de pessoas que, no nosso país, opta por fazer campanha, tanto pelo sim como pelo não em resposta ao referendo. Na televisão, pessoas como Edite Estrela ou Zita Seabra, para falar em algumas das mais mediáticas, não deviam ser porta-estandartes. Nem vale a pena caracterizar pessoalmente estas duas indivíduas, mas apesar do ridículo que são, continua a ser-lhes dado tempo de antena, e isto é algo que não entendo. Opiniões o mais politizadas e partidarizadas possível não é o que se pretende, numa questão que envolve a nossa consciência e nada mais do que isso. E já basta.
A maioria das pessoas não está habilitada a decidir sobre esta questão que envolve as outras 9.999.999 pessoas, ou por ser demasiado nova, ou por ser demasiado velha, ou por ser demasiado rica ou pobre, ou por ser homem (aqui com algumas reservas, mas não muitas), ou por ser demasiado alheia. Estou aqui a imaginar um bancário, de 45 anos, estéril, que vive para o trabalho, não é casado, tinha negativa a filosofia, português e história quando andava na escola, e a única coisa que lhe dá prazer é ver o benfica a jogar aos domingos. Esta pessoa terá nas urnas o mesmo peso do que uma mulher que já fez um aborto por decisão própria, porque achava que devia fazer, arriscando-se a várias complicações do ponto de vista penal e da própria saúde.Torno a dizer que não é minha vontade defender o sim ou o não. Mas que este referendo é um bocado estranho... ai isso tenho-o para mim e ninguém mo tira.

Mas falarei agora um pouco de pessoas comuns, porque as mediáticas são mediáticas muitas vezes por serem autênticas anormais.
Fiquei a saber que na minha faculdade (não vou lá há montes de tempo - a partir do 4º ano continuamos o curso noutros sítios) o pessoal dos 3 primeiros anos anda a fazer campanha pelo sim e pelo não. Sem rodeios, digo à boca cheia: que... RIDÍCULO. Claro que os jovens têm direito à opinião e são parte interessada. Na verdade, no meu curso em particular, até acho que devem pensar sobre o assunto. Mas terem a pretensão de poderem fazer campanha, ou seja, defender acerrimamente uma opinião e tentar convencer os outros... já acho estupidez pura. Para já, não vão convencer ninguém, porque as pessoas têm tendência de ficar na sua. E em segundo lugar... são crianças! E ainda por cima, em boa parte dos casos, riquinhos! Que background social poderão ter para se poder pronunciar em campanha? Na verdade, estes jovens, mais do que ninguém, cheiram que tresandam aos próprios meios socio-económicos nos quais se inserem, e as suas opiniões não são mais do que a súmula dos interesses destes mesmos meios.

Os putos do sim, muito convencidos de que têm consciência política e de que são humanos. Habitualmente sabem de trás para a frente "Mensagem" do Fernando Pessoa, só vêem filmes no Quarteto (se possível, do Kusturica), adoram acordeão, e só falam de bandas e escritores que ninguém conhece. E se conhecermos, bem ... "já foi melhor do que é agora!" - dizem, desdenhosamente. O que eu gosto mesmo é quando digo que não tenho paciência para os seus discursos panfletários, e eles me respondem (tendo menos 500 anos de idade do que eu) que eu sou uma amiba, um afectado pelo torpor, uma amiba sem consciência política. Ao que eu lhes digo: tu ainda não eras nascido quando deu "Os amigos do Gaspar" pela primeira vez na televisão, pois não? Então tem mas é juízo e faz essa penugem mal semeada, que não ficas parecido com o Che. E vai lá ouvir o Çaçetti na tua aparelhagem de 300 contos, ou ler o Fiodor Mikhailovitch Dostoievski!

Os putos do não são pelo menos tão mauzinhos como os do sim. Antes de mais nada, não vi muitas pessoas com poucos recursos financeiros e de backgrounds menos favoráveis a defender o não. Por outro lado, sempre que aparece alguém na televisão a defender o sim, é quase sempre uma tia ou um monárquico, ou então alguém de uma organização cristã católica qualquer. E é sempre pessoal rico.Apetece-me dizer-lhes: ó meu amigo, gostavas de viver na monarquia, era? Mas sabes que naquele tempo não havia dentistas e o pessoal quando ficava sem dentes não passava a usar placa como a avozinha? E também não havia Holmes Place? E tinhas de entregar metade das tuas colheitas ao rei? Sim, porque quase toda a gente era camponesa, ou só conheces essa palavra dos folhetos do Pizza Hut? Arranhavam ali no duro e não havia debulhadoras para fazerem os fardos de feno para os animais! Já foste ao castelo de S.Jorge? Parece-te cor de rosa e com torres douradas como o do Rei Artur? Cola mas é esse símbolo da monarquia que tens atrás no Audi A4 na peidola e não me venhas chatear com essas tretas do direito à vida! E tu, minha amiga, quando fores a correr para Espanha no fim do Verão com o resto do dinheiro das férias que os teus pais te deram, depois de uma estadia com os teus amigos em Vilamoura, diz-lhes que vais comprar caramelos! Mas lembra-te que o que os teus pais não souberem, Deus saberá! E por falar em Deus: sabias que um verdadeiro cristão renuncia aos bens materiais e anda descalço na rua? Vai lá agora sair à noite descalça para o bairro alto! Na verdade, tenho uma ideia melhor: porque é que não pões também entre os dedos um balão com um digestivo, como a tua mamã, e te sentas aos pés dela, no taco de carvalho ou no tapete Luis 15 junto à lareira crepitante, enfiadinhas as duas em robes vermelhos e dourados, e quando ela estiver já com um grão na asa, lhe perguntas sobre os namorados antigos dela? Queres uma rainha como a de inglaterra? Bem, essa ainda não percebeu que se enganou no cálice. Inúmeras e repetidas vezes. E o que tinha lá dentro não era bem água benta. "A rainha que não se curva perante ninguém". Bah! Tretas! Tem uma cifose tão grande que já parece uma maria-café!

O resultado do referendo, já se sabe, nada mudará, independentemente de qual for. Mas acho que deviamos aproveitar a oportunidade para juntar este pessoal todo das campanhas, e era pezinhos em latas de robialac com betão, enfiadinhos em sacas de sarapilheira, e Tejo com eles. É desta que fica sem peixes, porque a paciência deles para pregações também é limitada.
Acalmo-me.
Sou da classe média baixa. Estudo medicina, directamente ligada à problemática do aborto. Tenho amigos de todos os quadrantes, e ouço-os sempre com muita atenção, mesmo aqueles que descrevi há pouco. Raramente contraponho alguma coisa, prefiro ouvir para ver se aprendo algo novo. Tenho estado nos hospitais de lisboa, e contacto com os doentes da enfermaria, das urgências e das consultas. Observo-os e tento perceber de onde vêm, o que fazem, que nicho social ocupam. Presto atenção ao sofrimento que boa parte deles traz às costas. Contemplo e ouço as acções e decisões dos meus colegas, e também dos médicos que nos instruem (quando o fazem). Nos transportes (quando vou de transportes) ouço as conversas cruzadas dos portugueses anónimos, até mesmo sobre o aborto. Já vou para os 30, e acho que até posso dizer sem grande erro que passei pelo intervalo de idades mais provável de se ser confrontado com a decisão de um aborto. Tive algumas namoradas, e andei, tal como quase toda a gente que conheço, à rasca à espera que viesse a menstruação da namorada. Também tentei comprar preservativos em pequenas máquinas instaladas à porta de farmácias, à noite (aquelas que encravam sempre ou estão esgotadas). Passei por várias coisas relevantes, tenho uma opinião sólida, informada pelas ciências da vida e formada pela consciência. E nunca passei pela situação de fazer ou não aborto, não espero passar, e nem faço a mínima ideia do que deve ser. E por isso mesmo já percebi que fazer campanha sobre esta situação é não só inútil como estúpido. Mas abençoadas sejam as pessoas aprisionadas pelo raciocínio linear, porque são elas as donas do mundo (pelo número) e da felicidade (pela limitação de ideias).

Só uma pequena ideia que tenho para mim e partilho convosco, defensores do sim ou do não. Esta é uma boa oportunidade para nos congratularmos por termos nascido, por estamos vivos, por termos saúde, e por termos ou termos tido pais que nos amaram e nos educaram com maior ou menor dificuldade porque tiveram possibilidade para isso. Amém.

PS - Gosto sempre de passar na segunda circular e ver os simpáticos outdoors dos defensores do não. "Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto? Não, obrigado!"... "Abortar por opção sabendo que já bate um coração? Não, obrigado!". Gosto, não sei! É como se dissessem: "Epá, caro gajo defensor do sim, criminoso sem escrúpulos e escumalha da sociedade, obrigado por me fazeres essa proposta de assassinar crianças, agradeço imenso, mas não posso aceitar! Recuso delicadamente, está bem? Mas não fiques chateado, que da próxima talvez dê para aceitar! E olha, cumprimentos lá em casa, espero que a tua avó tenha gostado dos ferreros que lhe enviei pelo natal!".
Também vibro com aqueles outros outdoors em que se vê uma mulher algemada a ser levada pela polícia, assim a preto e branco (agressivo! as formas aguçadas! os tons violentos, sujos, suburbanos, underground!) e que diz "Para parar com a vergonha vota sim" ou lá o que é. Acho que também devemos votar em referendo a revogação da lei que proíbe andarmos aí aos tiros em centros comerciais, especialmente em dias de jogo de futebol, porque me apetece fazer uns headshots... e depois ia ser uma vergonha eu ser imobilizado com um joelho nas costas e algemado e lerem-me os direitos, no meio de cadáveres baleados e poças de sangue e transeundes curiosos. Ou então, votarmos para a Zita Seabra e a Edite Estrela não poderem por lei aparecer na TV no "prós e contras" a defender ideias sobre o aborto. Isso é que é uma vergonha e ninguém vota contra.

*
No outro dia, ia a conduzir e a ouvir rádio. Então, tocou (uma vez mais) aquela música do André Çardet. E no fim, a radio-locutora diz assim: «esta música foi pedida pela vanessa, de odivelas, com uma mensagem muito enigmática: "para ti, que sabes quem és, que me enfeitiçaste"»; e depois a locutora continuou, explicando que o tal gajo era padeiro, e que a música era realmente romântica. É preciso ver que eu vinha na 2ª circular (antes de passar pelos tais outdoors) e eram quase 3 da manhã, portanto vendedor de gelados é que ele não devia ser. Epá, deus ma pardoe, romântico? Atentem neste refrão: "Eu não sei o que me aconteceu/foi feitiço, o que é que me deu/P'ra gostar tanto assim de alguém como tu?". É o mesmo que dizer: epá, não vales népias, és padeiro! Como é que eu fui gostar de ti? Bati com a cabeça? Devo estar drogada! Por favor, internem-me!

Grande bem haja, pessoal!

22 de janeiro de 2007

"Enganei-te bicho!"

Se há eventos cíclicos, o debate sobre o aborto parece sê-lo. Até ao referendo vai ser um degladiar de argumentos, uma contagem de espingardas enfim, uma alegre troca de galhardetes. Acho piada pois, e como há uns anos atrás, depois do referendo voltará tudo à mesma. Não acho que, qualquer que seja o resultado, mudanças efectivas se registem. Quem pensa abortar fá-lo-á, quem pensa em não o fazer, não o fará. Quem o faz no vão de escada, terá a possibilidade de não o fazer enquanto que quem vai a Espanha, já o pode fazer por cá. Se calhar, com a diferença dos preços, ainda compensará ir a Espanha, aproveitando-se para ir ver os saldos dos grandes armazéns.

Parece que por vezes as mudanças servem para deixar tudo exactamente na mesma e para ficar na mesma, mais vale estar como está. Não quero dizer com isto que vá votar não, não vou votar não. Além do mais, nem tenho muito a ver com isso pois, sendo homem, a última decisão nunca poderia ser minha, a não ser que, em vez dum aborto vão de escada, se trate dum aborto escada a baixo!

Gosto da expressão “vão de escada”. É rude. Descreve uma realidade com uma rudeza tal que até arrepia a pele. Imaginem um vão de escada, sítio escuro, húmido. Será ali pois que uma mulher irá fazer um aborto. Não sei porque, esta imagem não tem o efeito pretendido pelas pessoas que a empregam em mim. Sempre gostei dos vãos de escada, são óptimos esconderijos. Sabem-se segredos e contam-se histórias. Costumava jogar à bola num vão de escada dum prédio da minha rua antiga quando chovia. O que era espectacular é que mesmo com chuva podíamos jogar e os remates saíam com mais força. Devido ao espaço exímio a técnica dos diferentes artistas esbatia-se e assim o futebol tornava-se muito mais democrático.

Esta é a história do Homem: a luta contra a lei do mais forte. Ai os veados correm mais que nós? Então vamos atraí-los para uma falésia. Estão a ver amigos veados, de que lhes vale correrem mais? Quanto mais correm mais caem! Mas porque é que não nos damos por derrotados? Os outros bichos pensam, ok, os tipos correm que se fartam, ou corremos mais ou então vamos comer umas bagas! Mas nós não, está-nos entranhado o espírito vamos dar a volta a isto, eles são estúpidos. E os bichos, na sua simplicidade, caem que nem uns patos!

Onde é que eu ia? Ah sim, o vão de escada. Bem, eu vou votar sim, já o tive oportunidade de dizer. Não vamos entrar nas discussões do ele é de esquerda ele é de direita, por muito que se queira partidarizar esta questão. Por mais que pense, acho que a decisão menos má é deixar cada um decidir por si. Cada um, digo utopicamente referindo-me a casal. Muitos falam do direito à vida, do quanto um feto o é mesmo antes de o ser, da população envelhecida… eu acho que se esquecem de falar na outra dimensão da vida, a dimensão social. Jet set à parte, acho que um ambiente próprio é também uma dimensão importante da vida do próximo. E em última análise, quem vai conseguir que uma mulher que o queira não aborte? É a solução para isso um julgamento. Também há a visão que acho que reflecte bem a posição na vida de quem a tem, e é ela a de contar quantas mulheres estão efectivamente presas ou foram condenadas. A lei existe, mas não se cumpre… sem comentários.

Claro que uma boa pernita de veado é bem melhor que umas nozes ou umas amoras mas, tínhamos de provar que enganávamos o bichito. Enquanto comemos, temos a mania de descrever a magnificência do animal em vida, como que demonstrando que nos alimentamos de um ser que não era para nós. Interiormente pensamos – estúpido, dei-lhe a volta! Era o melhor da manada, com os chifres mais lustrosos e a pelagem mais farta.

31 de dezembro de 2006

O sistema isolado

"E enquanto fitava as ondas que se revolviam umas nas outras, sentiu nas mãos geladas os grãos de gravilha húmida de diferentes formas e tamanhos. Inspirou fundo aquele vendaval polvilhado de névoa marinha, e começou a construir um invólucro imaginário que combatesse as leis da termodinâmica mais proverbial: hermético como um surdo-mudo na escuridão; inviolável como um livro que em dia algum será aberto; silencioso como o espaço sideral.

Então, depositou lá mil dias que passaram. Fechou vigorosamente o frasco e chocalhou o conteúdo, rodando sobre si mesmo, fazendo de si mesmo o eixo das suas reflexões, centrifugando todas as histórias, sóis e luas. Deixou assentar o cascalho no fundo, e as emoções subiram para os lugares que lhes cabiam por direito próprio, formando um gradiente que ia do negro pastoso ao branco fluorescente gasoso.

Quis então retirar o pouco sobrenadante que brilhava intensamente, desenhando um ténue filme mesmo no topo de todas aquelas ideias; queria guardá-lo consigo. Mas logo percebeu que não conseguia abri-lo, porquanto não mais poderia ser violado depois de fechado. Num acesso de fúria, atirou o recipiente com toda a força contra as rochas; este embateu violentamente, rolando de volta até aos seus pés.

De repente, ficou muito cansado. Franziu o sobrolho e ficou quieto, de cócoras, de mãos no queixo e cotovelos nos joelhos por um longo momento. "É inútil. Tenho de aceitar o mau com o bom" - pensou.
Depois, levantou-se e colocou o frasco no bolso da grossa gabardina. Afastou-se daquele lugar.".
In "Os novos Fragmentos de memória(s)".

14 de dezembro de 2006

Noite


A brisa gélida perpassa a janela semicerrada. Está um frio seco lá fora e o meu corpo bramante reclama pelo aconchego do edredão. Para trás deixo longas horas de espera, corredores atolados, horas infindáveis em que me perco e nada faço, comboio, metro, cansaço.

Quando um dia completar o curso lembrar-me-ei destas manhãs heróicas de desprezo e tédio. Ainda que procure não colocar as mãos nos bolsos, sinto-me inútil e ignorada ao passar pelas portas dos quartos. Trata-se de uma espécie de passeio matinal, entremeado por uma ou outra ida à cafetaria. A Drª corre pelos corredores olhando para o chão. Dos seus contornos lânguidos, apenas se destacam os caracóis irregulares pendentes de uma plataforma viscosa e as pontas das botas que berram a cada passo frenético.
O curso de medicina (sim, aquele curso cuja admissão exige altíssimas classificações) é melismático – muita música, o mesmo discurso. Nada se move. Tudo permanece estático e silencioso, numa falsa harmonia e paz. Os estudantes perdem-se pelos corredores e os tutores, os mestres orientadores, deixam-nos passar. O saber, aquela virtude que exige desafios e encaminhamento, não chega a brotar nas nossas mentes tão “brilhantes”.

Volto à noite. A esta noite. Finalmente encontrei o conforto do lar. As luzes estão apagadas, permanecendo apenas o verde luminescente das constelações que desenhei no tecto do meu quarto. Tomara que fossem verdadeiras estrelas, estas que incessantemente me olham e nas quais deposito o meu olhar ébrio. Ouço poesia acompanhada pela música de Jorge Palma. São poemas de Abril, gritos revoltos de coragem sublimados pela melodia nostálgica de um músico, de uma voz que canta o canto dos poetas.
De repente, esta “apenas noite” apoderou-se de mim. Também eu estou nos versos e nas palavras que transbordam pelos meus olhos. Quem não se reencontra nas entrelinhas de Eugénio de Andrade, Ary dos Santos, Sophia, Torga. Eles estão aqui comigo, agora. Sinto a presença deles a meu lado e num tempo distante anseio pela mesma liberdade.

O ciclo eterno que sacraliza a nossa humilde condição de transeunte surge cada vez mais nítido. Independentemente daquilo que pautou a vida de cada ser, há na doença uma convergência inevitável. Hospitais, gente, confusão, dor. A qualidade dos cuidados médicos não deve de todo basear-se na maior ou menor dimensão humana do doente, nem tão pouco no grau de diferenciação intelectual. Contudo, esta equidade a que me refiro não deverá ser medida por defeito – quantos de nós não se sentiram já “presos” numa cama de hospital, resignados com os “estranhos” termos médicos e largados à sorte no tumulto da doença?
Neste jogo que procura respostas e palavras de esperança falta muitas vezes lugar para o ser. Não procuro encontrar culpados. Apenas alerto para a impaciência e intransigência impregnadas naqueles corredores e salas por onde diariamente caminho. A bata branca e o estetoscópio não superlativam a moral de ninguém. Deixemos de lado o terrível hábito de julgar quem quer que seja. Os doentes devem ser orientados e não tratados como crianças. A reprimenda não faz parte da medicina e o direito à informação é inalienável. Fica o apelo.

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

A poesia cessa com a música. Nos meus ouvidos ressoam ainda os sons do piano. A noite vai longa e o sono apodera-se de mim. Extinta a luminescência das estrelas de plástico, tudo se torna mais nítido. Procuro no silêncio da casa um lugar para o sono. As palavras misturam-se e deixam de fazer sentido. E eu “sem vocação para a morte” continuarei na senda do sonho de vir a exercer medicina.

30 de novembro de 2006

Esclarecimento sobre a ordem Natural das coisas

Nunca fui pessoa de acreditar em coincidências. Tenho aquela ideia que o que acontece acontece por alguma razão ou por razão alguma e não por ter de ser. Julgo pertencer ao grupo de pessoas que o que não explica atribui a factores aleatórios. Há uma certa probabilidade de levar com um vaso de uma frondosa Avenca na cabeça enquanto se desce a Avenida da Liberdade.

Penso eu que quem anda à chuva molha-se por que quer e não porque tem de ser. Eu penso tudo isto, e certo estou do que digo mas, que probabilidades nos metem em rota de colisão com certos acontecimentos?

Visualizo esta questão naquele jogo em que se larga uma bolita, género berlinde, por uma parede vertical abaixo, em que esta está cheia de pregos e na base tem balizas com prémio ou armadilha. A aposta que fazemos à partida é completamente cega, e as possibilidades são imensas mas mesmo assim temos uma fezada no prémio.

As nossas vidas são lançadas por uma parede vertical abaixo e vamos ressaltando nos pregos, por vezes com ricochetes violentos, que nos fazem subir ligeiramente a vertical parede, por vezes leves embalos que parecem propositados e pior: premeditados! Se por vezes exclamamos admirados com a pequenez do mundo, por outras somos levados a exclamar que fado é o nosso.

Será que das infinidades de ressaltos possíveis estão para mim destinados aqueles específicos para atingir a baliza pré destinada? Será que a probabilidade de atingir cada baliza é a mesma ou estará o jogo viciado sem que saibamos?

Se estes embalos e ricochetes são pré determinados, parecem ser muitas vezes bem curiosos mas vêm em última análise darem-me razão: somos nós que nos pré determinamos. O que anda à volta vem de volta!

26 de novembro de 2006

apontamento


A chuva corre nos vidros. Vêm reflexos de luzes, gemidos de uma multidão que se atropela, sirenes que em tons de azul desesperam, agonia que impera, sangue que exaspera em mim, aqui. Tudo lá fora tem vida que se esconde entre as fragas da solidão e eu, só, vivo a energia deste silêncio, da vibrante calma que o consente.
Tudo dorme a par do cansaço lúgubre dos tempos e de repente ouço passos de gente que se aproxima, maquinal como o correr dos dias, maciça como o cimento dos prédios que me cercam.
A noite vai longa e a chuva ressalta nos cristais das pedras. Vagueio pela escrita sem rumo à procura de um lugar mas nada encontro e esqueço quem sou. Os ossos, os músculos as articulações abandonam-me, voam pelo escuro da sala. Os vasos jorram sangue que se espraia ao vento, os nervos rastejam como vermes pelo chão. Eu renasço do pó de que era feita. Sinto a música que me ilumina e o som que me embala. Finalmente encontrei a vida sem que ela deixasse de existir em mim. Vem música serena e bela, abraça-me com todo o teu fulgor e leva-me nessa viajem louca.

7 de novembro de 2006

Fisiopatologia da solidão


O sol, amarelo todo o ano, mesmo no inverno; as gemas de ovo, amarelo vivo; as cores do vestuário, mesmo daquele que é lavado duas vezes por semana, sempre brilhantes e apelativas; os olhos de todos os amigos, sempre límpidos, de tons impossíveis de imitar com lápis de cera, guache, aguarela ou tinta de óleo…
As notas de cada música, vibrantes, guardadas no ouvido que, ávido, tudo capta, e interioriza; cada letra nos define, porque nos identificamos com ela, e porque nos transforma à medida que depois a exteriorizamos com os amigos.

As batalhas perdidas, as catástrofes, as desilusões… todas elas são combatidas de peito aberto, porque nada é definitivo ou eterno e há todo um futuro pela frente. Embora não o saibamos, as coisas que parecem insignificantes à luz da juventude são as que vão marcar para sempre.
Em cada dar de mão, em cada olhar trocado… em cada gargalhada em conjunto, há um aumento de pulsação e um ruborizar de face. Nada é eterno? Julga-se que os amigos o são! Nunca se pensa neles no futuro. Gosta-se deles, partilha-se a vida com eles, mas sempre no presente. São como são e gostam de nós. São quase como nós, mesmo sendo muito diferentes. Mas ouvem, avisam, aprendem, acompanham, ajudam, acompanham de novo, sempre, e preocupam-se. Aconselham; quando bem, porque é o que querem, quando mal, porque se enganam. São as melhores pessoas do mundo, insubstituíveis; chega-se a ter pena das outras pessoas, que não têm os amigos que nós temos. Os outros têm amigos interesseiros, egoístas, que não se podiam estar mais a borrifar. Os outros têm sempre grupos de amigos que, volta não volta, desaparecem e são substituídos por outros, novos, iguais, sem piada nenhuma, sem sal, burros, pouco interessantes, de personalidades pouco densas. Os nossos amigos é que são fixes. Escolhemo-los a eles, mas eles também nos escolheram a nós. Somos uns privilegiados. E ainda bem que temos muitos amigos!

Eram muitos. Mas vão desaparecendo, enquanto o tempo passa. Não aqueles que se vão embora para outras escolas; não os que morrem (esses, de certo modo, vão ser sempre amigos); não os que, em meia dúzia de meses que passam, atravessam a rua para não terem que nos encontrar. Não aquelas pessoas que aparecem e desaparecem fugazmente ao sabor da novidade e da necessidade de afecto. Os que desaparecem, realmente, são aqueles que continuam junto de nós, mas se vão modificando lentamente… vão acumulando diferenças, vão ganhando indiferença, e a preocupação que têm por nós e a importância que nos dão desvanece-se. Continuamos a gostar deles porque sempre estiveram mais ou menos ao pé de nós; mas, na verdade, eles já não nos lembram o tempo em que eramos mais novos. O que é assustador é que este é um processo irreversível, sucede a cada ano, imparável, e sem nos darmos conta. É uma doença insidiosa, de desfecho previsível, de prognóstico reservado.

Os velhos amigos lembram-me sempre o tempo em que os conheci, porque nunca mudou a relação que nos une. As faces vão ficando diferentes. As feições tornam-se mais angulosas, carregadas, mas a maneira como sorriem ou explodem em gargalhadas é sempre igual, sempre com piadas ou situações mil vezes contadas e recontadas. Esses velhos amigos sabem quando estou a dizer uma coisa que não é verdade; e sabem que, se o digo, não é para lhes mentir, e sim porque me estou a tentar convencer de alguma coisa que não corresponde à realidade. No entanto, dizem-no como se os estivesse a fazer de parvos: “Sabes há quantos anos te conheço? Pensas que eu não te conheço?”. E eu sorrio, embaraçado, porque eles têm quase sempre razão.
E se há algo de preocupante, algum desvio no seu comportamento, alguma diferença de actuação, imediatamente nos insurgimos. Indignamo-nos, porque aquele não é o nosso amigo, e portanto precisa de levar na cabeça.
É muito raro valorizarmos verbalmente os nossos verdadeiros amigos, porque os temos como certos. E essa previsibilidade acaba por ser a melhor maneira de os valorizarmos. Não é preciso um esforço para saber deles ou para os acompanhar, porque eles fazem parte das nossas vidas, ocupadas, quotidianas, mesmo sem nos darmos conta.

Quem desaparece, esquece; mesmo que não desapareça fisicamente da nossa vista. É o preço a pagar. Mas é a forma que temos de escolher quem queremos que nos rodeie, e quem preferimos que não faça parte das nossas vidas. E é também a forma que temos de ter a certeza de que quem permaneceu, ficou porque não poderia ter sido de outra maneira. As verdadeiras relações são como a água ou como a electricidade. Escolhem sempre o melhor caminho, o único caminho.

O crivo vai ficando inacreditavelmente largo. São tão poucas as pessoas que sobrevivem à selecção dos anos! Ainda sou novo e isto já me assusta. Já li vários emails daqueles que as pessoas mandam sucessivamente umas às outras, sobre como a amizade deve ser cultivada: “ligue ao seu amigo hoje mesmo e diga-lhe que gosta dele e mostre-lhe como ele é importante!”. Estive a pensar, e não concordo nada. Para quê fazê-lo, se esse amigo está sempre aqui ao lado? Até ia gozar comigo se o fizesse.

As circunstâncias são madrastas, e perdem-se muitas pessoas de quem gostamos, boas pessoas, mas cujas vidas as levam para longe de nós (obrigado, Mafalda Veiga, benza-te Deus). Penso nisso muitas vezes, e eu próprio estou a ser levado para longe de várias pessoas por forças que não compreendo bem. São forças pouco intensas, muitas vezes imperceptíveis; mas são muitas, e a união faz a força resultante! O balanço é esmagador. A velocidade de afastamento começa por ser pequena; mas uma pequena aceleração ao longo do tempo suficiente, produz por fim uma velocidade enorme, e uma distância percorrida proporcionalmente grande. E as ligações são inversamente proporcionais ao quadrado da distância entre elas.

Claro que continuo a gostar dessas pessoas, e quando me lembro delas ainda sorrio, mas a pouca convivência e a distância (relativa ou absoluta) tende a adicionar diferenças de gostos, de carácter e até de valores. A barreira da ausência permite que se acumulem essas diferenças nas interfaces relacionais que antes encaixavam na perfeição.
As nossas vidas caem na quiescência…

Acredito que os melhores amigos que tenho, já os fiz. É um pouco como com a reserva óssea de cálcio. Bebe muito leite e faz exercício enquanto és jovem. Economiza, acumula. Vou ficar mais velho, e as pessoas que conhecer não vão estar tão disponíveis para ser amigas como estavam antigamente. As folhas em branco das vidas das pessoas acabam-se… o futuro produtivo esgota-se. E as relações que fizermos não vão ser mais do que palavras escritas nos espaços entre frases já escritas por outras pessoas; serão palavras gravadas por cima de papel que já sofreu censura de borracha e está encharcado em desconfiança, ou que já está rasgado. Não vai haver praticamente espaço para o completamente novo e surpreendente. É cada vez mais difícil ser marcante para alguém, e isso entristece-me muito, embora o compreenda porque sinto a mesmíssima dificuldade em me deixar marcar. É por isso que admiro e respeito as pessoas mais novas do que eu: exibem com alegria e espontaneidade a capacidade de se deixarem marcar.
*

As gemas de ovo parecem-me baças. O sol parece-me mais branco e mais frio do que há uns anos. As minhas t-shirts nunca têm cores tão intensas como gostaria que tivessem, mesmo acabadas de sair da loja. Os meus olhos parecem-me mais empurrados para dentro da cabeça, e o branco já não faz tanto contraste com a cor da íris.

E a música de hoje parece-me toda igual…