16 de fevereiro de 2005

A luz é como a água



No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.

— De acordo — disse o pai — vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.
Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que os seus pais achavam.
— Não — disseram em coro — Precisamos dele agora e aqui.
— Para começar — disse a mãe — aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madrid, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganho. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação,

— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço.— O problema é que não há maneira de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não há mais lugar.

No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram os seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até ao quarto de empregada.

— Parabéns — disse o pai. — E agora?

— Agora, nada - disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca como água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó perguntou-me como era que a luz acendia só com a gente carregando num botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.

— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.

E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.

— Já é mau ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.
— disse o pai — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.

— E se ganharmos a gardénia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.
— Não - disse a mãe, assustada. — Chega. O pai reprovou sua intransigência.
— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela — mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.

No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardénias de ouro e o reconhecimento público do director. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos no seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos se tinham perdido na escuridão.

Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante. — É uma prova de maturidade — disse.
— Deus te ouça — respondeu a mãe.

Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.

Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até ao tecto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com o seu xale de Manilha, que se agitava com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude da sua poesia, voavam com as suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos libertados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No quarto de banho flutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.

No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigénio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira os seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o director, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha-se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madrid de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígines de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.


Gabriel García Márquez, Dezembro de 1978.

10 de fevereiro de 2005

Rechinhibru: "Posso dar uns toques contigo?"



"The universe will expand, and it will collapse back on itself, then will expand again. It will repeat this process forever. What you don't know is that when the universe expands again, everything will be as it is now. Whatever mistakes you make this time around, you will live through on your next pass. Every mistake you make, you will live through again, and again, forever. So my advice to you is to get it right this time around. Because this time... is all you have".

*

Lembro-me de, há uns anos, ir para a Faculdade de Ciências à boleia com o meu amigo Tonecas e com o pai dele. Íamos num jipe azul escuro; era muito de manhãzinha, e apesar de àquela hora já se ver a luz do sol, fazia um frio invariável.
Tinha uns 10 ou 11 anos quando conheci o Tonecas. Eu estava a jogar sozinho à bola, num campo de terra batida que havia perto de minha casa, onde todos os rapazes que aqui nasciam ou para cá vinham morar aprendiam a jogar, e onde se jogava de manhã à noite. As balizas eram feitas com três barras de andaime amarelo, aparafusadas entre si, e presas ao chão de terra castanha barrenta.
Nesse dia ninguém tinha aparecido, porque tinha chovido bastante de manhã. Mas mesmo assim eu fui jogar sozinho, porque sabia que o campo ia estar mesmo como eu mais gostava dele: com a terra fofinha, já quase seca pelo sol que entretanto aparecera. Mesmo muito calcado pelos pés alegres de gerações de rapazes que ali cresceram, as ervas teimavam em crescer à periferia do campo.

O Tonecas apareceu e pediu para jogar comigo; no dia a seguir já o tinha ido chamar a casa para irmos jogar outra vez; carrego na campainha que nunca ouvia tocar, chamo-lhe António ou Ricardo? sei lá se o pai gosta que chamem Tonecas ao filho, O António está?
Nesse dia não imaginava que uns anos mais tarde estaria em casa dele, com outros amigos meus, e com o pai dele a dar-nos a provar do vinho e da aguardente dele...
Uma vez o Tonecas escorregou numa poça do campo, quando estava a tentar roubar uma bola ao Motinhas, e partiu um pulso. Uma das minhas recordações mais vívidas é ele a levantar-se e passar à frente da baliza (onde eu estava a jogar a guarda redes) correndo em direcção a sua casa, agarrado ao pulso que oscilava, desamparado, e gritando, Parti o pulso! Parti o pulso!, enquanto saiam disparados da sua boca pedaços de biscoitos amarelos que estava a comer enquanto jogava...
Foram dias seguidos em casa dele a jogar Elifoot, Championship Manager 2 ... mais tarde, ajudei o Tonecas com a Matemática e com as Físico-Químicas. Já há muito tempo que lhe chamavam Tonecas, Rechinhas, Rechinhibru (alcunha mítica e cujas origens se perdem no tempo) ... até Manecas já alguém lhe chamou um dia.

Lembro-me de esperar à minha porta, de manhãzinha, até que ele e o pai assomassem lá ao fundo da rua no jipe azul escuro. Outras vezes tinham que tocar à minha porta porque eu, podre de sono, tinha-me deixado ficar na cama. Davam-me boleia porque o Tonecas andava no Colégio Moderno, que fica perto da Faculdade de Ciências. Nessas viagens desde Queijas até à Cidade Universitária, pela 2ª circular, ouvia encolhido no banco de trás a Mega FM... o sol ficava mais alto durante o percurso, e todas as manhãs tocava a "Linger" dos Cranberries. Sempre achei aquela música muito meiga, optimista, esperançosa, e nunca tinha ligado à letra. E é por isso que quando a oiço, apesar de hoje perceber muito melhor a mensagem dessa letra, me lembro sempre dessas manhãs em que o jipe me deixava no relvado gelado e húmido da reitoria da cidade universitária, e essa é uma memória refrescante e jovial.

Entretanto as coisas foram mudando. Foi ele que me deu o meu primeiro quadradinho de ganza, a mim, que nem nunca querera saber disso para nada, mas que queria experimentar com a namorada na altura.

Ele foi para Coimbra estudar.

Eu já não preciso de boleia para a FCUL...

*

Raras vezes passo agora pelo campo do bairro dos bombeiros. Como diz um amigo meu, "custa olhar para lá". As balizas, agora vermelhas de ferrugem, desistiram e tombaram no chão; estão cobertas por arbustos bastante mais altos que eu, que invadiram todo o terreno de jogo. Já ninguém vai para ali...
Dizem que alguém comprou aquele terreno há muitos anos e decidiu que ali não se construia para que se pudesse jogar à bola...

Encontrei o irmão dele há dias no Pingo Doce, nas compras, O teu irmão, 'tá bom? 'Tá lá pa Coimbra, mas ele há de vir cá votar!, olho para o número dele no meu telemóvel, já não o vejo há bem mais de um ano.

E agora, vai para 15 anos desde o dia em que pequeninos, jogámos à bola juntos pela primeira vez. Hoje, mais velho, oiço Pink Floyd, como azeitonas... e bebo minis por ocasião das festas de S. Miguel, aqui em Queijas, ano após ano, encenando que Parti o pulso! Parti o pulso!, abanando a mão, fingindo ter a boca cheia de biscoitos, correndo em volta dos amigos desse tempo enquanto eles se riem como se fosse naquele dia.
Invariavelmente.

5 de fevereiro de 2005

Jet lag

Na senda de um futuro brilhante, habilmente roemos as unhas num presente crepitante, rouco que enleia os nossos sentidos. O cansaço da incerteza, a dúvida da espera que nos exaspera, a matéria bruta que áspera nos consome e desperta... Tudo se conjuga num jet lag bipolar em que da manhã faço noite e à luz queimada do candeeiro que se arrasta, ilumino os meus olhos, como se de um crepúsculo nocturno se tratasse, fosse a lua o sol!
Os relógios que me circundam, descompassados, ecoam na membrana do tímpano, fibrosada... gasta. Já nada transita pela córnea erodida... opaca. No entanto, a força do sonho que me impele e instiga quebra as barreiras do impossível e numa loucura frenética assume o controlo de mim. De repente deixo de ser eu... deixamos de ser nós! Já não temos consciência, já não sabemos quem somos nem o que estamos a fazer. A acção torna-se involuntária, inata, num constante corromper da dor que outrora nos alertou. Não sentimos nada, nem o cansaço, nem a angústia... nada!
O passado faz-se de anticorpos (muitas vezes incompletos) que nos percorrem rumo a um futuro antigénico. O tempo precipita no presente viscoso em que qualquer parágrafo é moroso e nós, sem saber, já nem sequer estamos a ler.
Como é violenta a aridez das páginas infindáveis, a incandescência fricativa de um contacto gélido com a matéria bela mas frívola, pelo menos na dimensão em que me encontro.
E estática permaneço... procurando compreender mecânismos de transdução de sinal que se arrastam por uma imensidão de horas, suficientemente vastas para deixar morrer alguém à fome.
Como é paradoxal o eterno erro do saber básico ulterior à especialização por campos florescentes, onde escasseiam as necessidades básicas de quem procura sustentar o conhecimento na sua própria descoberta.
O aperfeiçoamento de técnicas de navegação permitiu que os Portugueses desvendassem o mar obsucuro e mítico. Foram muitos aqueles que temeram o desconhecido, bem como aqueles que pereceram na busca do sonho, é certo. Mas todos eles, munidos dos conhecimentos básicos, esboçaram um novo mundo que embora velho, só então se revelava.
Porque é que nós, sabendo nadar de forma inata, não somos lançados ao mar no momento em que nascemos? Porque é que limitam o nosso acesso à realidade através de obstáculos mesquinhos e sumptuosos? Tudo seria tão simples se ao mesmo tempo que estudassemos tivessemos a oportunidade de recordar experiências de facto vividas!
Como é inútil o tempo que perdemos a tentar decorar listas de “cluster of differntiation” ou de fármacos ou de colaterais de nervos, sabendo que numa próxima borga tudo se dissipará.
Como é que os iluminados que regem as quintas do saber não percebem que este não se constrói apenas com centenas de páginas para decorar? Será que eles não sabem que a memória é volátil? Ou apenas se descartam da preocupação pedagógica que deverá estar na base de qualquer ensino?
As aulas teóricas são para mim um veículo de transmissão oral de ínfimos pormenores que fazem a diferença num exame mas que pouco importam para o melhor desempenho da profissão que pretendemos exercer. Claro que há excepções mas são muito raras.
Comparo estas aulas a arranjos de DNA com sequências codificantes, intercaladas por extensas regiões nas quais acabo por adormecer e perder o fio condutor, já não se faz luz!
Falta racionalização e nós, como soldados na frente de um tabuleiro de xadrez, pouco conseguimos fazer contra o poder instituído, restando-nos continuar a lutar e a tentar sobreviver à insónia que nesta noite, como em tantas outras, não me deixa dormir.
Se a realidade não faz sentido, não deixemos que também ela estagne em nós... Ouçamos a música que nos arrepia e impele rumo a um velho mundo por nós reinventado!

O desaparecimento da carreira 50

Leio no site da Carris que a empresa vai proceder a uma alteração estrutural de fundo nas suas carreiras. Lê-se no comunicado «...A Carris considera que a rede actual já não corresponde às necessidades de uma cidade que registou uma diminuição acentuada da população na última década... A rede proposta para a Carris assenta basicamente na existência de 3 segmentos de rede:

 Rede estruturante de autocarro e metro ligeiro, composta por 18 carreiras - virá complementar a rede pesada de metro e comboio, estando acessível (a menos de 6 minutos a pé de uma paragem) a 321.000 habitantes de Lisboa (57% da população da cidade)

 Rede intermédia, composta por 20 carreiras - que suprirá a menor oferta dos níveis superiores em algumas zonas da cidade e que está acessível (a menos de 6 minutos a pé) a 354.500 habitantes de Lisboa 63% da população da cidade)

 Rede de serviço local (Bairros), composta por 20 carreiras – com percurso curto, que assegurará aos Bairros a ligação, num ou mais pontos, à rede de metro e comboio, no máximo em 10 minutos...»


Por um lado compreendo a tomada de posição da administração da Carris, no sentido de diminuir os elevados custos de operação da transportadora e aumentar a produtividade.
Mas algo de mais grave se esconde...

ENTÃO E A TRADIÇÃO??? O QUE SERÁ FEITO DOS VALORES QUE SEMPRE ACOMPANHARAM A CARRIS AO LONGO DOS ANOS?? AS MEMÓRIAS PERPETUADAS PARA TODO O SEMPRE?

Uma rede eficiente e curta? Isso ditará o desaparecimento da super-famosa carreira 50. E de todo o seu folclore característico.

Esta bela e ditosa carreira existe há pelo menos 40 anos. Começou por ligar Algés ao Poço do Bispo, mas desde 1998 que o terminal se mudou para a Estação do Oriente. Passa por pontos tão pitorescos e belos da nossa cidade como o Bairro da Boavista, a Buraca, a Estação de Benfica, o Colombo, e aquela zona intermédia que divide as melhores zonas dos Olivais e Chelas.

4 de fevereiro de 2005

Recordar e sobreviver





Envolvidos num banco de jardim,
Contraímos músculos, sufocamos gritos,
Lá ao fundo há gente! - diz um de nós;
Apertam-se as roupas, fazemos que não,
Passam os desconfiados, retorna-se ao mesmo.
Desaparece o jardim...

Caminhamos de mãos dadas
Restolhando por entre ramos de árvores que ladeiam a estrada;
Acertamos os pés e os passos rápidos,
Sorrimos, respiramos fundo e não dizemos nada
Percorremos o chão de areia quente, fina
Adivinhando os pulos um do outro;
Entrelaçamos dedos e pele e carne,
Deitamo-nos numa toalha de folhas e flores,
Conjuga-se o cheiro a mar dos corpos.
Desaparece a clareira...

Acordamos escondidos pelas rochas
Com o mar a beijar as pontas dos pés
E um lençol de nevoeiro salgado
E cobertor de negro estrelado
É tarde... é tempo de voltar para casa

Mas gritos calados,
E sempre a mesma nota de piano
Aumentam a distância...
Soltam-se as amarras

Corre o tempo! Fogem as pessoas!
Tudo muda
Aparecem os locais e as memórias

Recordar é (sobre)viver.

1 de fevereiro de 2005

Tetris 2 - Everybody's Gotta Learn Sometime




Depois de todas as encruzilhadas do dia de hoje; depois de tantas emoções fortes enoveladas nestas 72 horas a pé; depois de ter batido o meu anterior record de privação do sono – tinha prometido a mim mesmo dormir e só me lavantar da cama quando raios de sol de outrora conseguissem perfurar os prédios que dispuseram entre mim e o nascente da manhã; cá estou, de volta, após uma tentativa gorada de mergulhar no meu escuro interior, munido de uma manta polar fininha, um aquecedor, e um garrafão de ginja. O absinto era a imagem de marca do Eça de Queirós. As ganzas aparecem nas T-shirts do Bob Marley. Se eu um dia fosse um personagem do Auto da barca do inferno, tenho a certeza que se escolheria o cabelo comprido e uma garrafa de ginja caseira como meus elementos cénicos – embora já tenha bebido ginjinha contida em muitos outros recipientes (quem se pode gabar de beber ginginha de um balão volumétrico laboratorial? Senti-me um Prince of Persia). Se vou parar ao inferno? Confio no bom senso do Gil Vicente...

Em pequeno e em adolescente, era habitual demorar muito tempo – horas – a adormecer. Aprendi a usar esse intervalo a rever tudo o que tinha aprendido naquele dia na escola; à distância, não tenho dúvidas de que o meu relativo êxito nos estudos se deveu em grande parte ao facto de ter insónias. Não precisava de estudar, porque me limitava a lembrar-me das aulas, do que os professores diziam e de como contavam os factos da matéria; depois, ia compondo esses factos com outros pormenores inventados por mim; tecia por fim relações mentais muito improváveis entre as matérias das aulas, e quando dava por mim já tudo se tinha misturado num sonho distorcido, e eu tinha-me tornado em ânodo, condutor e cátodo de uma torrente imparável, Filho! Vá, ‘tá na hora...!
Já em adolescente, passava também em revista todos os pormenores das tropelias dos meus colegas e amigos; reproduzia na minha tela mental os tímidos cruzares de olhares com as meninas da minha escola, que na altura estavam a aprender a usar os seus dons de fascínio da classe masculina, como pequenas gatinhas que, trôpegas, recuavam mais depressa do que avançavam nos seus raides armados de garras de leite. Na verdade, nem todas aquelas miúdas da minha escola cruzaram o olhar comigo, embora eu tivesse desejado que isso acontecesse. Imaginei tanto essas situações que elas se tornaram realidade pretérita perfeita, na minha cabeça.
Nessa altura não poderia imaginar que, mais tarde, ainda havia de considerar esses olhares (já totalmente maturados e, assim, isentos de uma réstia que seja de timidez) como foras-de-jogo. Alguma relação com os offside do futebol? A realidade torna-se esbatida, a história torna-se lenda, a lenda torna-se mito...
Lamentavelmente, algumas destas recordações tão vivas, que parecem de ontem, de agora!... são construidas. A título de excepção, tive a clarividência de que uma ou outra das minhas recordações mais brilhantes de miúdo pequenino são devidas a memórias dos meus pais, contadas juntamente com fotografias que atestam esses ambientes e momentos de que me recordo. O meu pai anda a remexer nas suas fotografias antigas, e encontrou uma antiga – um achado! – em que eu fingia conduzir um camião azulinho, mas ferrugento, podre, decrépito, abandonado no estádio nacional... estava na cabine, agarrado ao volante, ao mesmo tempo que sorria com os olhos e com todos os dentes que tinha e também com os buracos deixados pelos que não tinha naquela altura. Hoje, quem me visse sorrir daquela maneira apelidar-me-ia imediatamente de esquizofrénico ou coisa que o valha. Na foto, eu estava mesmo feliz a conduzir aquele camião – de tal forma que durante anos jurei lembrar-me daquele dia. Mas não lembro. Do que me lembro é que quando era pequeno o meu pai passeava muito a pé comigo, e tirava-me muitas fotografias; as memórias daquele dia estão na minha cabeça porque mais tarde vi essa fotografia, mostrada pelos meus pais, o que eternizou o momento... convencendo-me que me lembrava.

Acabo o tetris que estava a jogar, freneticamente, contra o computador. Bebo mais um gole de ginjinha, providencialmente colocada num cantil abaulado de alumínio, daqueles que os detectives usam no bolso da gabardina. Fecho os olhos, deixo-me levar pelo doce calor do aquecedor. Recosto-me na minha nova cadeira de executivo, daquelas que há em todas as grandes empresas de todas as novelas brasileiras. “Change your heart... look around you...” canta Beck, nos headphones. O líquido vermelho, viscoso, dir-se-ia quase gorduroso, desce pelo esófago e parece ir directinho ao cérebro, trazendo acalmia, vontade de introspecção ... o aquecedor envia ondas que fazem as minhas pernas inchar de prazer. Vou bebendo enquanto tento fazer o que há muitos anos não faço: rever o dia de hoje, que teve 72 horas.
Uma conversa difícil e inútil mantida pela net – decisões dolorosas tomadas de forma insegura, mas apregoadas de maneira corajosa - porque as gatinhas crescem e transformam-se em panteras. Um jogo de futebol em que a minha equipa foi copiosamente derrotada, e em que eu consegui ser o elemento que mais “enterrou”. Um exame de escolha múltipla, em que o difícil estava, de facto, na escolha – não li metade da matéria da cadeira, e as 14 perguntas que tinha deixado para fazer no fim (ao todo eram 80) foram feitas à pressa porque estavam já a recolher os testes quando me dei conta de que tinha acabado o tempo – Game Over; de olhos fechados embebi-me no pânico que senti nesses 30 segundos... mas também naquela sensação boa que tenho quando estou a preencher um boletim do Euromilhões com a certeza de que é desta que vou ganhar. Por mais vezes que tenha perdido antes... (... everybody’s gotta learn sometime...).
Daí para trás, perdi a disciplina e o controlo; comecei a lembrar-me de coisas sem padrão definido, aleatoriamente. A roda viva alcoólica embalada nas rajadas de ar quente do aquecedor enlevou-me para outras imagens dissipadas, dissolvidas, vividas ou construídas: colheres de mousse de manga dadas à boca alternadas com beijos de leite condensado; imagens de mim próprio de bata branca a ser sucessivas vezes atacado pela mesma estirpe bacteriana num banco de hospital, sem ser capaz de produzir anticorpos (... everybody’s gotta learn sometime...); ao mesmo tempo, milhares de estorninhos a voar por cima de mim fazendo manchas geométricas perfeitas no céu, como naqueles screensavers das lojas de informática; os meus aniversários, desde pequeno até agora, sempre celebrados à chuva, à noite, com bolo de anos, sangria, capas de trajes académicos e bolas de futsal à mistura; palavras carregadas de paixão escritas num vidro de carro embaciado... andar de baloiço de olhos fechados (...everybody’s gotta learn sometime...).

Depois disso não me lembro de tudo o que recordei. Já de olhos fechados, a escuridão ficou mais profunda, como se não houvesse muito mais para além daquela barreira temporal. A cadeira começou a andar à roda, e a minha cabeça também, mas em sentido contrário. Flashes pictóricos assolavam-me aqui e ali com memórias já muito distantes: um jipe de caixa aberta em Aljezur, à noite, carregado com mais de 10 pessoas; o escuro e tenebroso laboratório de biologia celular, para cujas aulas ia amiúdes vezes alcoolizado; eu, a transportar uma rapariga em coma alcoólico ao colo, que nunca tinha visto, para uma ambulância, estando também eu muito bêbado (tendo bebido só uma imperial e um shot, numa festa universitária); os bancos do parque eduardo VII, onde esperava a camioneta para casa; cegonhas na praia de Carcavelos num dia nublado, muito de manhãzinha (... everybody’s gotta learn sometime...); e, de novo, andar de baloiço de olhos fechados... cada vez mais depressa, mais alto, descontroladamente, até que o arrepio na barriga, que afinal é na cabeça, me faz acordar. Afinal alguém me abana a cabeça...!

Cantil – vazio - por cima do teclado... a manta polar no chão, nú e a tremer de frio, quase a cair da cadeira. Headphones quase a sairem do sítio, mas que não desistiram de dar voz ao Beck (everybody’s gotta learn sometime – winamp em repeat mode), Oh João, parece mentira! Tu és doido, João! Não estás bem, nem parece teu!!, carícias na face.

Estou desconfiado que não torno a fazer a mesma coisa – acho que dei um desgosto à minha avó.

25 de janeiro de 2005

Abortos

Tinha pensado em escrever outra coisa. Um assunto até mais divertido, que me anda a corroer há uns tempos. A seu tempo virá.

Estava a passar os olhos pelo site da tsf e deparei-me com uma polémica gerada pelo debate na sic notícias, entre Francisco Louçã e Paulo Portas. O bloquista disse não ter o seu opositor direito de julgar o direito à vida, uma vez que não era pai (nem mãe...). Consigo perceber o fundamento que está a ser evocado mas acho que não é aplicável. Lá por não ser pai, posso ter uma opinião. Acho que se ele disse-se algo do género, nem eu nem você podemo-nos estar a alargar muito sobre o direito à vida, pois não vamos nunca ser confrontados com a decisão dum aborto, já aceitava mais. Embora a decisão seja da mulher, acho que deve ser partilhada e suportada pelos demais.

Uma outra coisa que se confunde, é a opinião que se pode ter sobre esta questão do aborto e a lei. Se eu sou contra o aborto? Acho que a maioria o é na medida em que nunca será um método primário. Acho que ninguém (quase ninguém!) pensa algo do género, deixa lá isso, depois abortas... Não sou contra uma escolha de gerar uma vida que não seja desejada, que não venha benefeciar de condições mínimas de sobrevivência. Muitos, especialmente na comunidade ligada à saúde, alegam que no momento da concepção já pode ser considerado um ser, e mostram-nos imagens comoventes de fetos onde já se destingue um ser humano. Temos de pensar num ser como um ser também social e não só biológico. A maioria dos abortos faz-se por necessidade e não por diversão! É a minha opinião como as há diferentes

Outros sete e quinhentos é a lei. Então quem praticar o aborto sujeita-se a ser preso? Há quem concorde com a lei? Neste aspecto sou frontal e irredutivelmente contra. Mulheres que enfrentam a díficil decisão de recorrer ao aborto, ainda têm de ser marginalizadas? Podem ainda ser presas? Isto é uma das mais gritantes segregações sociais dos nossos tempos. Se as posses económicas assim o permitirem, vais ali a Espanha, grande clínica, o “serviço” é feito e ainda pasamos na serra nevada, dizes lá ao pessoal que foram umas férias na neve. Se não, azar. Vais ali ao sapateiro, arriscas a vida, ah e claro, podes sempre ser presa ou passar pelo tribunal para contar a história! Muitos dos que defendem a actual lei, já calcurrearam estes meandros... é uma definição simples e crua de hipócrisia.

Tenho pena que a sic notícias tenha passado um lápis azul pelo debate, mostrando apenas a exaltação de Louçã e não a cara de aperto de Portas. Liberdades...

15 de janeiro de 2005

“Só sei que nada sei”


Alcoól, drogas?
Talvez sejam eles as coisas que mais gosto na vida, depois da minha família e os meus verdadeiros amigos que prezo e não esqueço. São estas duas primeiras coisas que me fazem sentir bem, ou seja, abstraír-me de todo um universo de raiva e angústia que tenho por aqueles que nunca me aceitaram por não ser “exactamente” igual àquilo que esperavam de um colega, por tentar fazer as pessoas soltarem um sorriso espontâneo, mesmo que, quando a tentativa falhava, ouvisse comentários como “és tão seco, és o palhaço da turma, és uma merda”. Faz-me confusão expôr isto perante vocês, mas se é assim que tem de ser, que seja.. Os meus pais pedem-me para ter objectivos e força para ser alguém na vida, mas acredito que nesta altura da minha adolescência isso seja muito dificil para uma pessoa instável e relativamente fraca como eu. Música? Não sei, não sei apreciar música.. Sempre que gosto duma música venho a saber que não é a melhor, nem a escolhida por aqueles que eu intitulo de melomaníaco. Os momentos que passo no quarto a olhar para este écran vazio de emoções parecem tão puros, com tão pouca maldade, contrariamente àquela com que deparo de manhã quando as pessoas sentem necessidade de dar pontapés psicologicos em alguém, alguém não, os mais frágeis, que são os mais fáceis de atinjír. A minha masculinidade dever-me-ia dizer para não expôr as minhas fraquezas perante qualquer um, mas o que é que isso interessa? A maior parte das pessoas não preza a existência das outras, e como muitas das que lêem isto não me conhecem, mais tarde ou mais cedo vão acabar por esquecer ou ignorar aquilo que estou a escrever. Peço desculpa a quem não o fizer por isto, mas sinceramente não acredito que sejam muitos assim. O meu português não é dos melhores, eu sei, mas os textos são como os filmes, um bom argumento pode reparar outras lacunas. Mas este texto tem um bom argumento? Sei lá se tem, mas acho que isto não passa de uma crise de mais um adolescente farto do que vê, e não só. Sim, também estou farto de mim, não gosto de ser como sou. Considero-me materialista, mimado, e como já disse, fraco. Mas como sou um ser humano como os outros, ou talvez não seja, pelo menos como os da minha idade, que vejo estudarem afincadamente com um objectivo, fazendo por ser felizes. Como eu gostava de ser assim.. Gostava de me regalar a estudar, para mais tarde ser um bom profissional, mas a verdade é que estou no curso que estou porque os meus pais o tiraram. No fundo não gosto de curso nenhum, não gosto de fazer coisas productivas, e ocupo a mente com coisas estúpidas como a roupa e todo o materialismo redundante. Penso que seja uma pessoa com tendências depressivas pois entendo que a minha infância nao ajudou muito ao desenvolvimento do ego, sempre com uma especial queda para o pessimismo.Gosto de estar no meu quarto, é aí que me sinto melhor, sózinho, sem um decibél de barulho que perturbe a minha confusa cabeça que se tenta identificar com escritores ou músicos, ou simplesmente alguem que exponha ideias. Por fim gostava só de referir que tem sido a minha namorada que me tem dado força para tentar passar esta dificíl fase do meu crescimento. Espero que isto me passe rápido e que seja ao menos productivo para a minha vida de adulto.

“Só sei que nada sei”


Alcoól, drogas?
Talvez sejam eles as coisas que mais gosto na vida, depois da minha família e os meus verdadeiros amigos que prezo e não esqueço. São estas duas primeiras coisas que me fazem sentir bem, ou seja, abstraír-me de todo um universo de raiva e angústia que tenho por aqueles que nunca me aceitaram por não ser “exactamente” igual àquilo que esperavam de um colega, por tentar fazer as pessoas soltarem um sorriso espontâneo, mesmo que, quando a tentativa falhava, ouvisse comentários como “és tão seco, és o palhaço da turma, és uma merda”. Faz-me confusão expôr isto perante vocês, mas se é assim que tem de ser, que seja.. Os meus pais pedem-me para ter objectivos e força para ser alguém na vida, mas acredito que nesta altura da minha adolescência isso seja muito dificil para uma pessoa instável e relativamente fraca como eu. Música? Não sei, não sei apreciar música.. Sempre que gosto duma música venho a saber que não é a melhor, nem a escolhida por aqueles que eu intitulo de melomaníaco. Os momentos que passo no quarto a olhar para este écran vazio de emoções parecem tão puros, com tão pouca maldade, contrariamente àquela com que deparo de manhã quando as pessoas sentem necessidade de dar pontapés psicologicos em alguém, alguém não, os mais frágeis, que são os mais fáceis de atinjír. A minha masculinidade dever-me-ia dizer para não expôr as minhas fraquezas perante qualquer um, mas o que é que isso interessa? A maior parte das pessoas não preza a existência das outras, e como muitas das que lêem isto não me conhecem, mais tarde ou mais cedo vão acabar por esquecer ou ignorar aquilo que estou a escrever. Peço desculpa a quem não o fizer por isto, mas sinceramente não acredito que sejam muitos assim. O meu português não é dos melhores, eu sei, mas os textos são como os filmes, um bom argumento pode reparar outras lacunas. Mas este texto tem um bom argumento? Sei lá se tem, mas acho que isto não passa de uma crise de mais um adolescente farto do que vê, e não só. Sim, também estou farto de mim, não gosto de ser como sou. Considero-me materialista, mimado, e como já disse, fraco. Mas como sou um ser humano como os outros, ou talvez não seja, pelo menos como os da minha idade, que vejo estudarem afincadamente com um objectivo, fazendo por ser felizes. Como eu gostava de ser assim.. Gostava de me regalar a estudar, para mais tarde ser um bom profissional, mas a verdade é que estou no curso que estou porque os meus pais o tiraram. No fundo não gosto de curso nenhum, não gosto de fazer coisas productivas, e ocupo a mente com coisas estúpidas como a roupa e todo o materialismo redundante. Penso que seja uma pessoa com tendências depressivas pois entendo que a minha infância nao ajudou muito ao desenvolvimento do ego, sempre com uma especial queda para o pessimismo.Gosto de estar no meu quarto, é aí que me sinto melhor, sózinho, sem um decibél de barulho que perturbe a minha confusa cabeça que se tenta identificar com escritores ou músicos, ou simplesmente alguem que exponha ideias. Por fim gostava só de referir que tem sido a minha namorada que me tem dado força para tentar passar esta dificíl fase do meu crescimento. Espero que isto me passe rápido e que seja ao menos productivo para a minha vida de adulto.

8 de janeiro de 2005

Ouvindo Elis...

É no recanto do espaço que sinto o cheiro daquela voz quente e doce de café, daquela face risonha de piteira aos lábios que serenos proferem palavras de amor. Amor!
Que sentimento estranho capaz de moldar os afectos, a mente! Capaz de estar presente nos mais ambivalentes momentos da vida- do ausente desejado, ao presente jamais renunciado.
No momento em que nos achamos mais fortes, tudo se quebra, tudo descongela e desconjunta. De repente... parece que apenas existimos pelo outro, para o outro, tal como a música que só faz sentido quando ressoada nos ouvidos do povo.
Assim como não é preciso estudar música para chorar ao som de Chopin ou saber desenhar para admirar um Dalí, também o amor nasce espontaneamente, sublimado pelo ósculo da chegada, do adeus, pelo qual procuramos auscultar a reciprocidade de um coração que por nós bate... que por nós luta... que por nós bombeia para cotinuar a ser!
Mas como é difícil! Todos sabemos que um dia tudo acabará, nós, os outros... Se mais ninguém nascesse a partir deste momento e se voassemos no tempo, todas as ruas ficariam desertas, tudo petrificava! Só ficariam as luzes que gastas não tardariam em desvanecer. O circadiano halo solar sucederia ao limbo lunar e no escuro de uma noite sem estrelas não haveriam filhos para dar o jantar, não haveria ninguém com quem falar, não restaria nada! Nem a solidão. Também ela é feita de amor... nem que seja da sua ausência.
Amor... terra da vida. É por ele que continuamos a lutar. Ainda que não tenhamos força, é por ele que nos agarramos à vida numa epopeia em prosa que termina em verso... Como é real o sofrimento por que passa, como é lírico quando volta a si e nos abraça.
Vivemos numa concha limitada por onde parcamente nos damos ao mundo, aos outros. Podemos pesar com eles e por eles, podemos até chorar mas tudo passa... porque são apenas outros. Parece cruel pensar assim mas é o que por norma acontece. Quantas vezes vemos ambulâncias em missão urgente e sofremos pelo ser que ali vai? Mas... Quantas vezes voltamos a lembrá-lo? Basta um telefonema ou um carro que entra sem ter prioridade para que aquele momento seja absorvido pelo vazio do esquecimento.
Tudo aquilo que não amamos é volátil, dissipando-se no tempo. É um não acordar súbito, renegado por aqueles que amam e que amo.
No limiar da vida, ainda que não tenhamos forças para abrir os olhos ou para sorrir, ainda que as capacidades vitais se fundam como o fio metálico de uma lâmpada, só o amor nos detém. Quando as vozes ecoam batendo nos nossos sentidos numa amálgama de sofrimento e desespero, de vontade de desistir, é por amor que lutamos e procuramos subsistir... Existir, resistindo ao vento que no exausto arrastar do tempo nos faz levitar... como plumas que se espraiam no azul do céu.