10 de setembro de 2006

Parábola

Voltava do café, segurando um cigarro entre os dedos, fumava-o pacificamente: observava o fumo a ser abraçado pela neblina. A humidade corria de forma galopante por entre as árvores, enquanto a luz nascente de um solitário poste de iluminação contava as gotículas que lá se depositavam e esvaneciam. Luz atrevida que mergulhava pela duna onde me sentei a admirar o mar, que apenas me sorria com uma espuma ténue e quase que fluorescente. Tentava embalar-me com o seu som, qual ninfa que cantara para Ulisses. Mergulho os dedos em tenros grãos de areia – fria e pálida como cal – como se raízes fossem. Reflicto. Sei que vou voltar para lá, um dia destes em que a Natureza decidir que sou o menos apto. Todos perdemos o nosso lugar. Renasceremos?
Não sei. A ideia de ser um grão de areia que está enterrado há muito e que, subitamente, é trazido novamente à superfície é algo apelativo para muitas pessoas e crentes nessa matéria. E se formos uma elipse com um foco fixo e outro no infinito? Afinal de contas, se nascemos e nos podemos imortalizar pelas nossas múltiplas acções, não podemos fechar a elipse. O Mundo, a Natureza, está toda equilibrada numa parábola.
Sou interrompido. Resolvo não atender. A Natureza abraça-me: a maresia toca-me na cara enquanto a cheiro, a espuma fala comigo enquanto enrola na areia. Sussurra-me no ouvido um terno “és meu”. O cigarro depressa acabou. Desenraízo-me, atravesso a bruma e o vento traz-me recordações gotejantes. As minhas passadas, pesadas, deixam cicatrizes que o mar rapidamente cura. Subo em direcção ao topo da duna e só o vento sara essas pegadas profanas que ousaram pisar tão sagrado solo. Quartzo, feldspato e mica acomodam os meus pés enquanto sou iluminado a cada vez que um carro passa. Passo pela rua estreita do costume. Não há um único fotão mais atrevido que os da Lua, a delinear-me. Estava cheia, ela. Sim, tu que praticas o culto da gula durante uns dias dos teus 28 de esplendor, à custa do Sol.
Meto a chave na porta de casa e rodo-a; a porta de madeira maciça range de dor. Os últimos Invernos haviam sido rigorosos. Despejo a tralha toda que tinha nos bolsos em cima da mesa e abro uma garrafa de Whisky. Encho o copo, como de costume, faço mergulhar duas pedras de gelo naquele tentador destilado de 1976. Sorvo cada golo ardente, esticado no sofá da sala, olhando para o tecto enquanto as pedras descaradamente beijam o copo. A Lua espreita pela janela. Quando chego ao quarto vejo que tinha tacteado tudo. Deito-me com ela aos meus pés, olho para ela uma última vez e, ao som de Tool, digo: “serei tua, mas não hoje…não hoje”.

Tool – Parabola

We barely remember
Who or what came before
This precious moment,
We are choosing to be here,
Right now.
Hold on,
Stay inside...
This holy reality,
this holy experience.
Choosing to be here in...
This body.
This body holding me.
Be my reminder here that I am not alone in
This body.
This body holding me.
Feeling eternal, all this pain is an illusion.
Alive
This holy reality,
In this holy experience.
Choosing to be here in...
This body.
This body holding me.
Be my reminder here that I am not alone in
This body.
This body holding me.
Feeling eternal all this pain is an illusion...
Of what it means to be alive
Swirling round with this familiar parable.
Spinning, weaving round each new experience.
Recognize this as a holy gift and celebrate this chance to be
Alive and breathing
Chance to be
Alive and breathing.
This body holding me reminds me of my own mortality.
Embrace this moment.
Remember: we are eternal, all this pain is an illusion.

31 de agosto de 2006

Dás-me um beijo?


... e ao voltar de não sabemos onde, sentou-se à espera do eléctrico num daqueles separadores de metal que estão nos passeios para tentar evitar que as pessoas atravessem as ruas em determinados pontos. Tinha anoitecido sem se dar por isso, mas o vento que soprava em direcção ao rio continuava quente, ainda de Verão, embora Setembro se aproximasse pé ante pé para que não o ouvissemos chegar. Um ou outro casalinho de estrangeiros deambula em passos inseguros, empunhando mapas da cidade, guias de transportes, dicionários para turistas.
Do outro lado da rua, um quiosque aproveita ainda para tentar vender jornais moribundos, feitos de notícias que nunca tiveram vida, apesar de inventadas por mentes tão desesperadas por furos jornalísticos como cozinhadas pelo calor que em todo o lado penetra. É a fruta da época - embora se saiba que, cada vez mais, a silly season se estende pelas quatro estações. Mas Johannes, que veio não sabemos de onde, está alheio a tudo isto. Limita-se a estar. Espreguiça-se como um gato e quase cai do poleiro para a estrada que está por trás, embebida na velocidade de alguns carros que passam àquela hora sem respeitar os semáforos, mas nem o susto o desperta do torpor. Johannes vem bêbado, mas não bêbado de cerveja ou de um vinho a martelo qualquer: os seus pulmões estão cheios de suspiros; a sua pele vem barrada de carícias; os seus músculos descontraídos de satisfação. Johannes tinha certamente estado com alguém muito especial.

O placar digital ao seu lado, por cima da sua cabeça, que supostamente informa os tempos aproximados de espera dos transportes, está completamente descontrolado. Vários números piscam sem ritmo aparente; o E15, que Johannes espera, demorará cerca de 120 minutos a chegar àquela paragem. Embora gostasse de definir escalas para depois as rebentar, ele sabia que aquele tempo não correspondia à verdade. E, na verdade, 30 segundos depois, o eléctrico chegou.

Depois de fintar um pequeno corredor pejado de estrangeiros e de gente estranha à sua maneira, ele chega à ponta do eléctrico. É um eléctrico antigo, feito de madeira, de dimensões reduzidas. O condutor parece apressado, visto que acelera a fundo assim que entra o último passageiro. Parece que o veículo se vai desfazer, e as pessoas mais velhas, sentadas, abanam a cabeça em direcção ao homem do leme em sinal de reprovação. Johannes viaja, naturalmente, em pé, mas à janela, escancarada. É tão fina a fronteira entre o dentro e o fora, apenas dois dedos de espessura de madeira. E a parede é mais janela do que outra coisa - à altura da cintura - bastando um pequeno empurrão oportuno para aterrar na estrada. Enquanto Johannes pensa despreocupadamente nisto, é interpelado por um casal de estrangeiros de meia idade (não consegue perceber de onde vêm, mas falam um inglês perfeito):

- Excuse me!
- Yes?
- Could you please tell us how to go to "Jerownimux"?
- Sure! See this line on the map over here? It's the road where you are now. You wait in this ..."train"?... until Belém, or even better, until Centro cultural de Belém. I'll warn you when you have to get down, don't worry. Then you'll see Jerónimos right in front of you.
- Hey, tank you, pall!
- It's ok!
Johannes voltou ao torpor, embora não se possa dizer que o eléctrico o embalasse. Na verdade, o condutor acelerava como se não houvesse amanhã, e travava a fundo em todas as paragens, como se estivesse a testar os travões. Mas não ficou sozinho por muito tempo.

- I'm sorry pall, do you have a lighter?
O casal tinha acabado de enrolar um charro do tamanho de uma caneta bic. Johannes nem nunca tinha visto ao vivo mortalhas tão grandes.
- Hmm... let me see.
Fingiu procurar atentamente nos bolsos. Fingiu, porque sabia que nada trazia nos bolsos dos calções de ganga, a não ser um isqueiro Clipper. Na verdade, Johannes nem bilhete tinha para o eléctrico. Antes de o dar, disse ao casal:
- See this lighter? You can do this with it (desmontou a roldana que faz atrito na pedra para produzir faísca, que vem com um pequeno pauzinho agarrado)!
- And what the hell is that for? - perguntou o rapaz, admirado.
- Well, you may find it usefull to make that joint, see? (e calcou com o pauzinho a ponta do charro que o casal estava a fazer).
- Oh, that is sooo cool! May i have it? - diz a rapariga.
- Well, you really shouldn't smoke inside the train ... but if you share that with me you may keep the lighter! - Johannes ri-se como se estivesse a gozar, mas na verdade estava a falar a sério.
- How rude of you, Arek! He was so nice with you!
O rapaz ri-se e aceita bem a proposta. Acende o charro.
- I thought portuguese people didn't like it!
- Are you planning to get high and then watch mosteiro dos jerónimos? Never done that! Might be cool!

A viagem continua, e curiosamente o eléctrico parece prosseguir cada vez mais devagar. Talvez o condutor tenha entrado no espírito dos três viajantes do fundo... ou então apenas lhes parecia dessa forma. Passados alguns minutos, ainda o charro ia a meio, e depois de alguma conversa em inglês, banalíssima para os restantes passageiros, mas que parecia carregada de profundidade universal para Johannes, este julga sentir o cheiro das oliveiras do jardim dos jerónimos.
- You have to get down in the next stop!
- Tank you pall! And tanks for the lighter.
- You're welcome! Enjoy! Bye! Have fun!
O eléctrico está agora meio vazio, e isso permitiu-lhe sentar-se à janela, que lhe dá agora quase pelo nível do cotovelo. Põe o braço de fora e recosta-se confortavelmente no banco.
Johannes sentiu-se como se estivesse no comboio das praias da caparica. E então deixou-se embalar pelas irregularidades de percurso. Observava com demasiado interesse os edifícios, as luzes dos candeeiros; saboreava longamente os cheiros trazidos por aquele vento de verão que teimava em não arrefecer; perscrutava demoradamente as caras dos passageiros, que se perguntavam porque é que ele os olhava, antes de desviarem os olhares; pensava todos os estímulos visuais, auditivos, olfactivos, e delineava teorias, como se tudo estivesse ligado por uma ordem ditada superiormente, como se tudo fizesse sentido. E então lembrou-se outra vez dela.

Fechou os olhos. Com as pontas dos dedos desenha-lhe o rosto a traços leves, as feições, as sobrancelhas, os lábios, o sinal por baixo do lábio e descaído para a esquerda que já tão bem conhecia. Penteia-lhe o cabelo com os dedos entreabertos, desde a raíz até ao pólen, enquanto a puxa para si com a outra mão, pelas presilhas das calças de ganga. Sente-lhe o perfume irresistível por baixo da orelha, e fecha os olhos com mais força. Sente-se agora em comunhão com as forças do universo.
Enquanto as carícias imaginárias se sucedem, Johannes recorda mentalmente o seu sorriso, que só aparece de quando em vez, mas que ilumina qualquer coisa dentro de si e lhe dá uma vontade inexplicável de sorrir também. E tudo sobre ela continua a encaixar e a formar um puzzle enorme, com cada vez mais peças, mas cada uma que vem encaixa ainda melhor nas precedentes.
Não é preciso Johannes pedir-lhe um beijo, porque ela lho dá quando ele mais o deseja, sem ele lho dizer. E ele sabe que ela o quer tanto como ele. Não são necessárias palavras; basta que ela passe a mão pela sua cara e olhe para ele como Johannes recorda para que ele se sinta especial para ela. E recorda. E reconstrói. E reinventa...
"Gosto tanto tanto de ti!"
"Gostas gostas..."
"Pois gosto!"
"Então, que é que eu disse?".
Abraçou-a, tem-na agora perto de si, e o eléctrico vai em frente mais depressa, enquanto apita com aqueles barulhos musicais que só os eléctricos têm, que são parecidos com o toque dos telefones antigos. Sempre em frente. Johannes poderia sair em qualquer paragem, mas quer ir até onde o eléctrico o levar; continua de olhos fechados, não quer saber onde está nem para onde vai. Apenas desenha repetidamente as feições dela enquanto se afoga no seu perfume.
*

- Algés! Última paragem!

Não sabemos de onde veio Johannes. Nem ele sabia que ia apanhar aquele eléctrico. Mas sabia que não podia tê-lo perdido.

15 de agosto de 2006

Zen - Didjeridú


- Istá ele!
- Então puto? Tasse bem?
- Epá... ya. Baza ao café?
- Ya, baza.
- Que é que tens feito?
- Nada de especial. Não se faz nada de jeito, ninguém cá está. Isto parece um deserto, nem há pessoal na rua de quem possa dizer ou pensar mal. E tu?
- Epá... vim ontem de Azeitão.
- Azeitão? O que é que foste lá fazer?
- Fui ter com uma amiga.
- Amiga... atão, e quando é que foste?
- Fui anteontem de manhãzinha, voltei ontem à noitinha.
- Ah, então dormiste lá...
- Hã?
- Ficaste lá em casa dela.. ?!
- Pois, havia essa ideia, mas eu não sabia bem como ia ser. Mas aquelas praias são mesmo boas, acabei por ficar de um dia para o outro.
- As praias... pois. Não chegaste a falar muito nessa tua amiga, pois não?
- Hã?
- Quem é ela, porra!? Tás aí todo abananado! Ó caraças do miúdo, tenho que repetir sempre tudo?
- Epá, desculpa lá, mas é que tou Zen...
- Zen?!
- Epá, apanhei muito sol e tou um bocado queimado... e também tou um bocado cansado porque foi muita praia e depois também dormi pouco, tive que acordar às 6 anteontem para apanhar o autocarro e...
- Autocarro?! Tu foste de autocarro para Azeitão?
- Epá, fui... que é que tem? Ias ficar admirado. Demorei menos tempo a chegar lá do que se fosse de Queijas para a minha faculdade. Tá bem que é Agosto, mas não deixa de ser impressionante. Ainda é um esticãozinho...
- Tens razão, tou admirado. Tou admirado como é que te deu a ideia de ir de autocarro para tão longe. Ainda hás de me explicar isso como deve ser, se fosse eu a estar em Azeitão de certeza que não ias lá ter! E não me venhas dizer que foi por causa dos brancos areais da Arrábida!
- Epá... é que a minha amiga é fixe.
- Ah! Assim tá bem! É uma compincha! Aposto que passaram a noite inteira a jogar Uno!
- Não... eu sei o que queres dizer... mas estás enganado, não é nada do que pensas.
- Ó João... tás-te a esquecer que eu te conheço desde que nasceste?
- E eu conheço-te a ti! E então?
- Tás-me a dizer que vais de autocarro para Azeitão, dormiste lá, tu és um rapaz, ela é uma rapariga, conhece-la há pouco tempo porque eu acho que só ouvi falar nela umas duas vezes...
- Eu só dormi lá porque ela estava sozinha, o resto da família estava fora e então ela pôde-me convidar para aproveitar o dia a seguir de praia.
- Sozinha?! Ainda por cima sozinha? Ouve lá, tu és estúpido?
- Acredita em mim... estivemos lá a fazer companhia um ao outro, até jantámos lá umas cenas que eu fiz, foi muito porreiro. E estivemos muito tempo na praia que é fenomenal... chegámos a ir a Setúbal a um bar à noite, ver um amigo dela a tocar Didgeridú.
- Did... quê?
- Aqueles troncos escavados que se sopra por um bucal e faz um som todo marado uuuuóóóóóóiiiéééummmm Prrreeuu!, aquele daquela música dos Blasted...
- Ah ya...
- O gajo constrói aquelas cenas... fica muito bacano. Vai buscar os troncos à serra da arrábida, escava aquela cena, pinta-lhes umas cenas, uns lagartos... E o ambiente tava muito boa onda, basta sair de Lisboa que o ar fica diferente. Epá, aquilo é que é qualidade de vida.
- Não te desvies da conversa. Ainda por cima se foste a um bar... à noite... em Setúbal... calculo que tenhas levado pelo menos uma muda de roupa. Portanto ias preparado para o que pudesse acontecer.
- Pronto, tá bem... pá... eu fui lá porque estava naquela de a conhecer melhor. Conhecia pouco, mas gostei bastante do que conhecia... e como ia de férias depois disso, achei que era a melhor altura para ir.
- E então?
- E então que agora conheço um bocadinho mais, e gosto ainda mais, e esse é que é o problema.
- Problema porquê? Tá bem que ainda é um bocadinho longe...
- Hmm sim, e sabes o que eu penso dessas cenas. Mas por acaso não era a isso que me estava a referir. Neste caso eu até estava disposto... temos sempre a tendência de sobrevalorizar o que está perto, porque parece maior. Mas nem sempre é assim. Estava pronto para fazer disto uma excepção... porque...
- Porque ela é excepcional.
- Parece-me que sim.
- Então... qual é o atrofio?
- Epá... não correu como eu idealizei. Eu achei que a gente se estava a dar muito bem, e resolvi ver até que ponto era verdade e fui lá passar dois dias com a miúda. Só que depois cheguei lá e bloqueei,não consegui falar quase nada, era só a miúda que se desunhava, e eu ali, quietinho e calado, a admirar.
- Ehehehe granda grização... nem parece teu! Costumas ser todo bazófias e gozar com tudo...
- Pois... a cena é que fiquei caladinho e quanto mais conhecia dela, menos me conseguia dar a conhecer. E não sei até que ponto é que isso terá sido ou não determinante...
- Determinante para quê?
- Epá... eu acho que não lhe agradei.
- Mas tu és parvo? Ouve uma coisa: tu não agradas só pelo que pareces ou pelo que grunhes ou pelo que fazes. É questão de química. Ou sim ou sopas. Infelizmente não há muito que possas fazer para mudar essa realidade binária, por isso acho que não deves estar a tentar arranjar responsabilidades tuas.
- Tá bem, mas mesmo assim ... é que tu não estás bem a ver. Para quem esteve só umas poucas vezes junto, até ficámos bem próximos. Eu não cozinho para todas as raparigas que conheço! Pode até sair uma grande merda, mas... é a minha merda. Acho que é especial fazê-lo. E muitos abracinhos e festinhas... um gajo fica abananado. E depois é este cheiro a protector solar misturado com perfume que não me sai do nariz... é tão bom que é quase intoxicante!
- Bem me pareceu que não tinhas só ido lá só porque te deu um grande vaipe. Tavas-te a meter todo na casca porquê? Já não tás em Azeitão!
- Pá... ainda não pensei bem sobre isto tudo. E por isso custa-me estar a falar sobre uma coisa que ainda nem racionalizei... limito-me a senti-la, estás a perceber? E é uma cena que começou por ser interessante, depois agradável... depois Zen... e depois começou a ser um bocado inquietante e menos agradável, um bocado angustiante!
- Ehehe tu e o Zen...
- Pois! Para mim Zen é um cheiro maravilhoso a perfume e protector solar misturado com o cheiro natural de uma moça fixe, estar deitado na areia ao sol, abraçado a ela e virado para ela, enquanto me mexe no cabelo e fala baixinho comigo, com uma voz que provoca diabetes, e com o nariz dela a meio centímetro do meu. Mas, claro, não lho disse. Só disse que estava Zen. Mas perguntei o que é que ela achava que era Zen.
- Moça fixe... humm... tu e o fixe. Acho que não é bem fixe a palavra que define essa situação. Mas isso aconteceu? E que é que ela disse que era Zen?
- Aconteceu. Até por mais do que uma vez e por longos de tempo. Foi muito, muito bom... Ela disse que para ela Zen era estar numa banheira com água quentinha e sais ou espuma, já não me lembro bem... eu até disse que ela podia pôr umas pétalas de rosa, mas ela disse que nem era preciso. Enfim...
- Se calhar estava a pensar no banho, mas com companhia...!
- Ahmm... não, não estava. E fiquei naquela: perdi uma boa oportunidade de tar caladinho, visto que ela não achava aquela situação presente como originadora de um estado Zen. O meu Zen não era o Zen dela.
- Ela não te disse isso. Tu é que achaste.
- E o que eu acho não tem tanta ou mais importância do que aquilo que é dito?
- Não tinhas dito que tinha sido muito, muito bom? Qual é o problema?
- O problema é que o que aconteceu, de facto, foi muito bom. E eu até nem me importava que continuasse assim. Não fiques com ideia que eu tou com pressa de alguma coisa, não é isso. Mas tenho que ter uma boa dose de certeza que estamos mais ou menos na mesma onda. E eu acho que eu estou no pico da serra da arrábida e ela está cá em baixo na praia, percebes?
- Não.
- Alguma coisa me diz, o meu instinto é...
- Ela esteve abraçada a ti, não esteve?
- Ya.
- Esteve mais próxima de ti do que o socialmente aceitável, não foi o que disseste?
- Sim, muito mais do que o socialmente aceitável.
- Convidou-te para lá dormires, não convidou?
- Sim, mas foi porque dava jeito!
- Oh pá, então eu acho que há qualquer coisa, pá... tás aí mas é a engonhar, e cá para mim acho que foste foi um granda menino que andou para lá a anhar e a dizer tou zen, tou zen... e depois não se orientou! Sabes o que tu és? És um granda anhado! Não deste andamento à cena!
- Epá... eu só gostava era que tu sentisses o que eu senti e não estavas aí a dizer isso. Sabes que o que é mais difícil para mim de lidar... é quando eu vejo que não há nada que eu faça que seja capaz de marcar a pessoa; e ao mesmo tempo, vejo que há montes de coisas nessa mesma pessoa que me agradam, e que ela nem precisa de se esforçar para me marcar a mim.
- Epá, eu já tou um bocado farto dessa conversa do "fico desinteressante quando tou interessado". Para mim continuas a ser um menino porque não tentaste, não te desbroncaste. Pregavas-lhe era um beijo!
- Não senti que fosse isso que ela estava à espera. Apesar de toda a situação, de todo o contexto, da proximidade... não sei explicar. Até posso estar enganado, mas não me arrependo de não ter tentado. O que me faz confusão e me deixa triste é mesmo pensar como é possível estar tão próximo de uma pessoa, próximo demais, segundo os meus padrões, e ter uma impressão doida que a outra pessoa acha aquilo perfeitamente normal, que é só coisa de pura amizade.
- Tu já não és um miúdo pequeno, e devias saber que as mulheres às vezes são assim. Querem atenção, gostam do carinho, até fazem coisas para chamar a atenção, inconscientemente, do rapaz, mesmo que não queiram nada mais com ele.
- Ouve lá, e eu também gosto de atenção e carinho... mas só me meto em algumas situações se for bastante mais do que isso!
- Mas as pessoas são diferentes...
- Houve uma altura, quando me deitei de sábado para domingo, depois de irmos ao tal bar, que estava um bocado irritado e susceptível, e ela até notou isso, mas eu fingi que não, que era para não estar ali a ter que desbroncar-me todo. Ia lá o tal bacano do didgeridú a casa. Se eu dissesse alguma coisa, é como os fios dos collants, se tu puxas nunca mais acaba, e naquela situação ainda dormia era na rua ehehehe!
- Ou então acabavas aos beijos com ela, não sabes!
- Epá cala-te lá, parece que não ouviste nada do que eu disse.
- Sim, continua... estavas irritado?
- Epá, estava, porque me estava a sentir um bocado torturado com aquela situação. Por um lado, imensos carinhos, bons, óptimos, e eu todo derretido com aquilo tudo. Por outro, via-a quase imperturbável, não havia um único sinal de hesitação, de nervosismo, enfim, até às vezes parecia que eu não estava lá!
- Não te esqueças que ela estava a jogar em casa.
- Epá... não jogou em casa porque não jogou, nem defendeu, nem atacou, nem nada! Nada que eu percebesse como inequívoco de uma posição. Não foi carne nem peixe.
- Foi marisco! Mas pelos vistos tava verde, não é?
- Eheheheh!!...
- Mas continua!
- E então, fui-me deitar. E pensei comigo: "se neste momento fosse de manhã, acho que me ia embora a pé e depois falava com ela, já não aguento mais, isto é de pôr um gajo com a cabeça a andar à roda!... mas vou agora descansar... durmo bem, amanhã de manhã logo vejo se ainda penso assim...".
- E acordaste...
- Acordei, bué cedo, até nem parece meu! Acho que foi de começar a regularizar o sono, porque também tinha acordado mesmo cedo no dia anterior por causa do autocarro. Dormi no quarto dos pais dela, eu só queria um canto da sala para dormir, sabes como é, gajos rijos dormem até no chão... mas ela quis meter lençóis todos bonitos e que eu dormisse ali, enfim...
- Granda menino, ias era ao quarto dela durante a noite!
- ... continuando: liguei a tv, meti-me a ver os Simpsons na Fox, depois fui à cozinha comer qualquer coisa, vim fora de casa, dei uma volta, voltei à cama e vi mais dois episódios dos Simpsons, até que finalmente ela acorda. Achei por bem não me ir embora sem me despedir... de manhã eu ainda estava um bocado chateado comigo mesmo por não conseguir ser imune a estas cenas. Mas estava menos. Se estivesse igual tinha mesmo ido embora a pé até à paragem das camionetas... e eu nem sabia o horário, mas não interessava. Havia de passar uma casal boss e um velhote, e dava-me boleia ou assim.
- Mas ela acordou...
- Pois, aí é que está! Acordou e veio com umas bermudazinhas (aqueles calçõezinhos mesmo à rapariga, bué curtinhos, acho que são bermudas, n sei) com o snoopy e um topzinho (era o pijama dela) e toda bronzeada e tal, deitou-se encostada ao meu lado, deu-me um beijo enorme na cara e disse que tinha estado a sonhar comigo.
- AHAHAHAHAHAH! Que grização!- Acredita... eu ali todo rijo, vou a pééé! e vou bazar daquiiii!!! E sou buéda mauuu! Em dez segundos, o meu sangue todo circulou 50 vezes pelo corpo e mudei de ideias. Claro que acabei por ir à praia e mais não sei quê e só bazei à noite de lá.
- Então... mas ficou tudo bem. Se ficaste lá, onde é que está a crise?
- A crise está, que continuei com a mesma sensação, apesar de isso ter acontecido de manhã. Por um lado mudei de ideias, mas por outro fiquei com aquela ideia que aquele momento serviu só para baralhar o meu raciocínio, chegou naquele momento em que eu estava a preparar-me para tomar uma atitude, mas desestabilizou-me... e no entanto a minha atitude se calhar teria mesmo sido a mais sensata.
- Epá, foi tormenta para mais um dia, mas também serviu para fortaleceres as tuas opiniões e para ficares com mais dados...
- E para ficar mais confuso. Confuso não, um bocado triste. O que eu queria era ser especial para ela, não queria mimos ou massagens ou...
- Massagens? Mas ela fez-te massagens?
- Fez, ela tem jeitinho... mete uns cremezinhos... e sabes que eu sou maluco por cheiros... fez-me umas depois daquilo dos Simpsons, tava eu estendido de barriga para baixo lá no tal quarto.
- E não te achas especial?
- Ao que parece, ela faz isso aos amigos de quem gosta. Também fez ao bacano do Didgeridú, que veio connosco à praia várias vezes.
- Como é esse gajo?
- Epá... é um gajo à maneira. Engraçado, simples, deixa o pessoal à vontade... não há nada a apontar! E tu sabes como eu só digo mal do pessoal. Se fosse um tótó ou um gajo com a mania que é cromo eu dizia-te logo.
- Pois, eu sei. Custa a crer. Gajas demasiado giras e demasiado queridas, normalmente atraem gajos demasiado cromos. Aliás, dá para ver por ti.
- Ah que fixe!! Que piada de merda... epá, só queria que visses como é que ela me apareceu à frente quando foi para me ir buscar, quando eu cheguei de lisboa... ah e tal, tive pouco tempo, saí à pressa de casa, desculpa tar atrasada e quê... mas: toda penteadinha, ganchinhos todos giros, altos brincos, perfume bué bom, toda top com decote giro, toda minissaia a arrebentar com o pessoal todo das redondezas que parecia que tinha caído ali uma granada, e umas sandálias que a faziam mais alta que eu. Se de cada vez que eu saio de casa assarapantado mandasse uma pausa assim...
- Pois, puto... não sei que te dizer... já sabes que cenas de gajas são sempre uma granda merda.
- Como eu tava a dizer há bocado, o que eu queria era ser especial para ela. Os mimos são muito bons, mas não significam o mesmo se tu te convences que ela não está a sentir o que tu sentes quando lhe fazes os mesmos mimos.
- Isso tu não sabes, há pessoas mais explícitas que outras. Mas não é isso que me faz confusão nessa história toda. As pessoas vivenciam essas situações de maneiras diferentes, ela se calhar é fechada como uma ostra, enquanto tu dás mais nas vistas do que um fogo de artifício. E eu sei como tu és e tou mesmo a imaginar tu todo derretido com cara de "se morresse agora morria feliz". O que me faz confusão é que ela devia-te ter topado essa onda e agido um bocado mais em conformidade, para o bem ou para o mal. A cena é que elas muitas vezes não agem para não perder a atenção e o carinho, mas... até isso tem limites. Normalmente nenhuma gaja gosta de ter um gajo agarrado a ela tipo lapa se estiver farta de saber que ele gosta dela. Eu também não gosto cá de muitos abraços e muitas mãos dadas com gajas se souber que o que elas vêem em mim não é bem um amigo.
- Pois... sabes que ela já se queixou de alguns rapazes, que eram muito amiguinhos... e que depois se puseram com coisas porque gostavam dela, e depois afastaram-se e não sei quê, numa atitude muito trágica... eu percebo bem como é que passaram a gostar dela, e também percebo que deva ser um bocado mau para ela. Por isso disse-lhe que não ia ter problemas comigo.
- Mas...?
- Não há mas! Uma pessoa habitua-se à ideia, que remédio! Tenciono honrar o prometido. Quando lhe disse isso já estava a tentar ser especial para ela, mas o facto de estar a tentar seduzi-la não significa que tenha mentido.
- Essa merda do "eu quero ser especial"... tu és é um creep, um weirdo! E não pertences aqui! ehehehe!
- Tás com umas graçolas... que deus ma pardoe... por acaso fui a ouvir isso no autocarro durante o regresso!
- Eixx que lindo! Que melodramático! Tou a ver o filme! Tu, no autocarro, no escurinho, a passar a ponte, com as luzes de lisboa do outro lado, sem ninguém no autocarro, a ouvir essas músicas. Ahahahaha! E a Black, dos Pearl Jam? Ahahaha!"I know someday you'll have a beautiful life, in know you'll be a star / In somebody else's sky, but why, why why can't it be mine?" tururu tu tururuuuu... ai, que grização...
- Por acaso ouvi!
- Bem me tinha parecido... então e como foi a despedida?
- Epá, foram fixes... ficaram comigo na paragem à espera do autocarro, ela e o gajo do didjeridú. Ainda foram uns 20 minutos... mas eu estive sentado no banco ao lado dela, a receber umas festinhas na nuca!Depois o autocarro veio de repente, não deu para grandes despedidas, foi tudo muito atabalhoado, dei-lhe um beijo ao mesmo tempo que ela a mim, uma coisa assim muito esquisita que quase não era na cara... se calhar a culpa foi minha por causa do desespero, ou então foi dela... ou então isto sou eu a querer que a realidade se adeque ao que eu idealizo. Só sei que foi mais uma cena para aumentar a confusão!
- Foste menino! Arriscavas! Depois bazavas, de qualquer maneira! O que é que podia correr mal? O que ainda podia acontecer era teres que mandar o homem do autocarro embora!
- Só me lembrei disso depois... mas não sei se teria tido lata para o fazer.
- Lá está! És um granda tótó! Olha puto, mas a sério, tu é que sabes, tu é que estiveste na situação, e se achas que alguma coisa não encaixava... é porque se calhar era verdade. As coisas são como são, as pessoas são como são, e só acontece o que tem de acontecer. Se não aconteceu... é porque um de vocês ou os dois não queriam assim tanto. E se ela estivesse a sentir o mesmo que tu, haveria de arranjar maneira de o mostrar sem margem para dúvidas. Mesmo as pessoas tímidas e que se reprimem ao máximo, chega uma altura em que se descaem... nem que seja só por um momento, uma coisa que se diz, ou se faz, sem querer... e parece-me que não foi esse o caso, pois não? Senão tu tinhas notado. Mesmo estando caidinho como estás, e nota-se a léguas... tu até és um gajo observador, e não ias deixar isso em claro.
- Mais uma vez te digo: não é que tivesse de acontecer alguma coisa. Não era preciso nada... mas gostava de ter ficado com a sensação que não era só eu a sentir-me esquisito e nervoso no bom sentido.
- Bem... então vê isso como se fosse uma virose. Não eras tu que estavas com uma amigdalite? É a mesma cena... se tudo correr bem daqui a uns dias passa! E aí vais poder honrar a tua "promessa".
- Ya, é capaz de ser melhor assim.
- Puto! Vou pa casa. Tá a ficar fresco.
- Ok jovem, até logo! E não te esqueças que não tenho net, se não me vires no msn não te admires!
*
In "Excertos de Conversa do STP com o Acre" :)

26 de julho de 2006

Já se sabe como elas são - parte 1

Komeço por me apresentar: sou o irmão jémio do Acre, umdos gajos que escreve aqui no blog. Sou 4 anos mais novo do que ele, e pedi-lhe pa escrever umas cenas de vês em kuando, porque ele keichou-se que andava a perder a vontade de andar rabugento com o mundo e de dizer mal de tudo. Bem, eu não sou propria/ igual a ele, mas é o que se pode arranjár.

E então desta ves é assim:
Certa ves, tava eu sentadu na esplanada da minha fakuldade a esvaziar um caneco, e tava uma kolega minha a akarissiar-m u cabelo e a conversar cmg. E então ela dizia-m:
"Ai [inserir nome própriu do TouFartoDeGajas], sabes k sempre fui c a tua cara... és mesmo fofo! Já falei mtas vêses com a fulana e beltrana [inserir nomes de aves raras kom apelidos de marcas de vernis das unhas] sobre ti, e elas são da mesma opiniaum q eu! Tens uma carinha muito girinha... fazes-m rir imenso... sabes komo é importante para uma rapariga ke a fassam rir! E depois lembras-t sempre de coisas q ninguém sabe, deves ler muito nas horas vágas! E confeço que fico um bocado coisa quando olhas pa mim ficçamente... veiem-me umas temperaturax à cara e tenho q desviar o meu olhar! [era verdade, eu tinha notadu]. Só nunca investi em ti porque és baixote..." - e continuou a falar lá coisas da alma dela; enkuanto isso, akele estímulo(*) viajou pelos meus nervos periférikos acima, foi ganhando força, ganhando força e velocidade, passou a medula, continuou a subir, a subir, passou por entre os núkleos do tronko cerebral e atingiu os neurónios do kórtex cerebral como uma bombinha de mau xeiro. Enkuanto ela continuava a metralhar palavras comu um helikanhão de 20mm, e ao mesmo tempo q me mexia na trunfa karinhosa/, os efeitos dentro da minha cabeça faziam-se sentir e o meu cérebro demorava eternidades a elaburar a respoxta!

"Ai, [inserir de novo nome própriu do TouFarto...], outra koisa é q podias vestir uma camisa de vês em kuando..." - não a deichei acabar e kurtei-lhe a palavra "Oooh...[inserir nome de gaja que até tem um korpo genial, uns olhos bunitos e um kabelo bem tratado, mas que da boca só saiem partíkulas fecais]!... tu sabes q eu também sp fui c a tua kara, desde o primeiro anu do kurso. Tens uma figurinha invejável [manda um par... acudam-me!], arranjaste mta bem, és mto karinhosa kmg... e até me riu de vês em kuando c as tuas parvoíces... também nunka pensei em investir em ti porke tens as mamas pekenas! E não tou a dizer ixtu só pq disses-te q sou fôfo han?" - l0ol0olo0l0ol0o riu-m sempre q me lembro dixto.
Ela depois parou de me fazer fextinhas no cabelo."Oh [inserir nome dela]! [Inserir nome dela de novo], onde é que vais? Não keres um bokado do meu kaneco?" e ela bazou a xorar não sei porkê.

E foi isto. O meu irmão Acre julga que tem sempre razão, mas eu goxto de ouvir os konselhos dos outros para ver se fiz bem ou se fiz mal em não lhe ter dito também q devia pensar em ir korrer para o estádio universitário.
Goxtava q komentassem...! Um abraço e deskulpem os erros, é da preça.
(*) estímulo - palávra "baixote" usada no contêxto q eu tenho + um palmo doque ela.

10 de julho de 2006

I might be wrong (VI) ... but I won't change my mind!

Estou aqui no Hospital Pulido Valente, numa maratona de estudo que se prevê só terminar no dia 21, quando for o próximo exame. Resolvi escrever porque já estou aqui desde as 11 da manhã, e provavelmente só irei para casa às 2 da manhã, já de terça feira.Como não escrevo há muito tempo, que melhor maneira senão fazê-lo de um computador público daqui do hospital? Mesmo à trouxe-lamouche (ou lá como se escreve).

Mal me meti no msn, reparei que havia uma lista de endereços de msn no campo onde costumamos inserir o nosso... afinal isto é público, é normal que assim seja. Mas os emails, deus ma pardoe... só nomezinhos de pares de namorados: vitoranabela@hotmail.com; susanapaulo@hotmail.com ... fdx, será que é porque não fui acometido dos calores primaveris que acho isto ridículo? Ai, amorzinho, obrigado por me ires buscar as pantufas! Ai, fofinho, és tão querido por me dares um telemóvel novo! Damn... abaixo as mariquices! Grandás nhonhices! Daqui por uns meses se for preciso estão à procura nos settings do hotmail para fazerem o account disable, aposto!
E já que estamos numa de msn... porque porra é que toda a gente mete away e busy e o caraças a 3? Vêm sempre falar comigo ou se eu falo respondem passados 5 milisegundos! "Ai, porque não quero que me chateiem, mas tu és diferente" - olha, obrigado pela parte que me toca, mas porra, não liguem o msn! "Ai, porque há pessoal muita chato!" - Bloqueiem, ora! "Ah, mas é que eles depois descobrem" - Err... porque é que os adicionaram de todo? E se não podem com eles, porque é que os mantêm na lista? Tenham dó, pá! Há que saber mandar uma pessoa dar uma volta quando é preciso! O que as pessoas fazem para não ter que dizer o que pensam ou o que sentem!
Os estados do msn são uma manifestação virtual da hipocrisia entre relações humanas! Nunca correspondem à verdade! People lie...

Falo-vos agora um bocadinho sobre o campeonato do mundo, só assim de surra. Eu não gosto muito de fazer desabar as minhas nuvens sobre o molhado, mas acho que se impõe um grito de revolta. Será que fui só eu que vi que o Nuninho fez mais em 20 minutos do que o Pauleta durante dois certames internacionais, que ainda por cima podiamos ter ganho? É que... tipo... sou o primeiro a dizer que chegámos onde chegámos pela sorte do Scolari. Mas também sou o primeiro a apontar o meu dedo acusador até ter uma luxação das interfalângicas: não ganhámos esta merda por causa dele! Dá-me um ódio... venham-me cá dizer que não fomos ajudados pelos árbitros e o caraças, mas isso para mim é-me indiferente. Mesmo não sendo ajudados, se tivessemos metido lá 3 ou 4 batatas contra a frança ninguém pensava no árbitro! E quer-me parecer... só assim uma leve sensação... que não é com o Pauleta que íamos conseguir. Não vou perder tempo a chamá-lo de nódoa, nulidade, zero, "-1", tosco, fraquíssimo, "só-marca-golos-ao-Lixãnstáin" - ok, já perdi tempo que chegue e acho que já perceberam onde quero chegar. E para vosso bem, espero que não fosse preciso este meu acervo de predicados...
Bom, felizmente que o menino lá decidiu abandonar a carreira internacional (ainda não estou em mim), mas eu acho que não há desgraça que venha sozinha, e provavelmente talvez tenhamos que gramar com o Hugo Almeida... ou o João Tomás. De bradar aos céus!
E todo este movimento tuga peri-mundial... acabou por me dar azia por diversas situações. Roberto Leal a cantar o hino nacional? Infelizmente rima e é verdade... com o filho dele a tocá-lo na guitarra? É de querer enfiar a cara num balde de água rás e inspirar profundamente... mente limpa!

Um dia destes escreverei mais pormenorizadamente sobre alguns dos notáveis da nossa praça pública. No dia do Santo António (ou terá sido do S.João?) fizeram uma transmissão televisiva deplorável de um espectáculo igualmente deplorável, em que o Betinho lá cantou o hino. Ontem, no Herman Sic (esse bastião da qualidade televisiva portuguesa), apareceram uns cromos que já não via há muito tempo, e que até pensava que eram equívocos de popularidade que já tinham sido esclarecidos com uma laje por cima (é giro ver como a expressão "pôr uma pedra sobre o assunto" se aplicaria tão bem). Infelizmente foi engano meu. Eles vivem, eles sobrevivem, eles metastizam! Não me lembro do nome do gajo, mas é aquele músico (?) que aparece sempre com a mulher gorda, e que tem cabelo assim liso, preto, escadeado, e uma cara de fuínha que até temos medo que nos ganhe ao poker (com 16 ases na manga). Impõe-se uma série de posts sobre esses ícones... mas fica para outro dia.

Até ao meu regresso! :)

30 de junho de 2006

Guerra - Cap I

Embarcou à três meses mas só ontem recebi a primeira carta. Diz que está bem, que a comida é boa, mas faz muito calor. Está bem, e come bem e isso é que importa e que Deus nosso senhor o proteja e guie.
- Ai está bem? Isso é que importa, uma guerra onde se come bem, embora com algum calor – acenando a cabeça o merceiro põe as compras numa cesta. Embrulha bem meia dúzia de ovos em papel manteiga e passa o cordel pelo embrulho com duas postas de bacalhau alto, do bom para grelhar – deve até dar para ir a banhos!
O senhor Augusto por acaso não está a fazer troça da dor duma mãe? É que se for esse o caso deixe que lhe diga que faz muito má figura! Como até um parvo vê, agarro-me ao que de bom tenho.
- Dona Maria Teresa, por acaso eu troçaria com a dor duma mãe que vai ao cais das colunas ver o único filho, arrancado das carteiras da escola industrial – e bom aluno se dizia ser -, partir para o ultramar sem regresso certo? Mas olhe, agarre-se bem, não vá correntesa a baixo.
O cesto foi arrancado ao balcão e restolhado pelas sacas de cereais que se dispunham até à saida, tão veloz que deixou uma nuvem de pó por assentar. Augusto vem à porta compor as sacas no seu passo calmo e decidido, sempre com uma vassoura na mão, caso o pó volte ou algum pilantra lhe esteja a galar as résteas de cebolas e os caracóis que estão à porta.

Andaste a chatear mais uma mãe que deu o filho ao prego? Augusto, Augusto...
- Olha lá, não devias estar ali em Santa Apolónia a pedir esmola aos que chegam, já que os que partem ou vão sem esperança ou sem dinheiro? És cego, és cego mas é para o que te cheira!
O Dr de S.José disse que eu era invisual, cego é uma parte da tripa! – e vá de se sentar numa saca de cevada por encetar que estava por ali á mão. Eu também ia ás sortes se Deus nosso senhor me tivesse destinado a ver.
- Assim destinou-te a pedinte na estação de Santa Aplónia. Mas pelos vistos já podes comandar batalhões, foste promovido a invisual! Isso até faz uma bela rima com General, General invisual! Não parece muito longe da realidade – por breves instantes pousou a vassoura mas logo a energia de mercieiro o tomou – vamos mas é a levantar dai o traseiro que isso não é uma espreguiçadeira.
Bem se aqui está, com a brisa do Tejo e mesmo defronte para a estação. Mas tens razão, chega de cobra, vou mas é ganhar a vida, a ver se chega para a bucha. Augusto atirou um papo seco para o colo do ex-cego agora invisual e começou a varrer energicamente, como se tivesse de varrer a esmola. Varria com tanto empenho que nem notou o reboliço que se formara à frente da estação, onde militares e polícias corriam em todas as direcções, vasculhando todos os cantos e todos os carros. Quando a nuvem de pó assentou, Augusto vislumbrou agentes a virem em sua direcção, que mais pareciam atiçados tal era o passo. Que venham, tudo o que leio alimenta a caldeira, tudo o que não leio não sei.
Boas tardes, precisamos de entrar na merceiria, com licença! – a educação não costuma faltar aos agentes da polícia agora aos do exército não constava que fosse item prioritário na sua formação.
- Precisam de alguma coisa? Em que os posso ajudar? – perguntou Augusto pousando a vassoura não vá o diabo tecê-las e a fiel amiga ainda se virava contra ele. Não obteve resposta.
Bom dia sr Augusto – saudou o habitual agente Palha, Zé Palha para quem entrava no seu círculo de amigos – andam à procura dum mancebo que fugiu, acho que ainda por cima é comuna ou como é que se chamam esses diabos. Chegaram de Santarém para embarcarem para a Guiné e o sacana escapoliu-se, evaporou-se melhor dizendo! - esticando o dedo como se tivesse a leccionar a mais preciosa matéria do alto dum estrado.
- Compreendo, não quer ir a banhos? Se calhar não gosta da praia, ou é mau de boca, muito embora a comida no Ultramar seja boa.
Como sabe disso? Já lá esteve?
- Não, não, chegou-me aos ouvidos, acho que é o que os nossos soldados mais escrevem nas cartas para casa, que está calor por lá mas come-se bem. Se calhar devia mudar o negócio para essas paragens, até gosto do calor e comer bem também não me custa.
Um homem alto de bivaque saiu da merceiria. Aparentava uns robustos 30 anos e tinha traços sizudos e fechados. Abeirou-se dos dois homens que pacatamente trocavam palavras à porta da loja e avisou Augusto que se visse algum mancebo fugido, ou se soubesse de alguma coisa para avisar as autoridades competentes sob pena de ser acusado de ocultamento e colaboração com um desertor. Sim senhor saiu da boca de Augusto em coro com o agente Palha, que não ficou indiferente ao peso de tais palavras. Meio embaraçado saiu despedindo-se com um aceno de cabeça e com um já sabe, se vir qualquer coisa de suspeito... Augusto respondeu-lhe com um vá descansado. Pegou na vassoura e voltou para dentro que aquilo ali fora era um mar agitado demais para a sua barca.
Estes tipos são mesmo intragáveis, pobre rapaz, espero que já esteja bem longe daqui são e salvo. A trabalheira a que eles se dão por causa dum pobre rapaz que só quer que o deixem na escola e jogar à malha. Vou mas é por as pipas à porta que o comboio do Cartaxo deve vir a horas e depois fico sem vinho. Galgou dois degraus e abriu a porta das traseiras, reparando que havia pó no ar. Começou a desarredar as pipas e a deitá-las pois vá lá um homem carregá-las doutra maneira que não seja rebolando. Estas aqui estão vazias, gastei-as primeiro para agora não ter trabalho a desarredá-las, o método vence sempre. Nem sempre. Mas que inércia tem esta pipa vazia, que ar tão pesado é este, bolas! Tenho a certeza que a gastei, deixa-me a lá virar. O peso da pipa ultrapassou o ângulo limite que a faria estar em equilíbrio e rebolou como não devia, contra a parede, fazendo soltar um som abafado.
- Bolas, isto quando corre mal, corre mesmo mal, irra! Só me faltava uma pipa rachada, e o comboio aí a vir! A força que teria de dispender para tentar erguer a pipa parecia-lhe sobre humana, mas que raio de enguiço será este agora, é a paga por zoar das mães orfãs de filhos. Ladeou a pipa e reparou numa mancha de vinho na face que tinha ficado para cima, que estranho, mas o vinho sai pelo topo? Mas isto não é vinho, e ao abrir a pipa viu que o peso desta afinal não era devido a um ar mais pesado.

6 de junho de 2006

O recorte do contraste


Quando Lázaro entrou naquele hospital, não conhecia ninguém. Apenas tinha falado com o responsável dos recursos humanos sobre a sua transferência; tinha querido alugar uma casa por um preço mais razoável, mas para isso fora obrigado a mudar também de local de trabalho, razão bem compreendida e aceite pelos seus patrões.
Tentando conhecer os cantos à casa, percorreu os corredores do local onde iria trabalhar nos próximos tempos. Nada de muito diferente de qualquer outro hospital, de resto. Corredores com gente apressada, gente à espera, gente a gemer, gente a dormir em macas, garrafas de soro por todo o lado. As paredes amareladas, nuas, estéreis, com um silêncio de estética apenas interrompido por uma ou outra racha no estuque antigo, delimitavam um espaço que, embora considerável, era manifestamente pequeno para conter o sofrimento de uma parte tão grande da população.
Lázaro defendia a opinião de que estas paredes eram inimigas dos doentes, e não estavam lá para os ajudar a curar mais depressa, mas sim para evitar que a dor contaminasse o exterior, onde as pessoas deambulavam e levavam as suas vidas de forma insuspeita. Não tinha grandes estudos, mas, como qualquer outra pessoa, sentia-se influenciado pelas formas e pelas cores; sabia que sem muito esforço e com pouco dinheiro seria possível transformar estes locais em sítios mais acolhedores, mais familiares, de forma a que quem estivesse doente se sentisse menos abandonado e mais centrado na sua própria recuperação.
É claro que pouco estava nas suas mãos, mas...
*
Passadas algumas semanas, Lázaro conhecia as caras das pessoas com quem trabalhava diariamente. No entanto, poucas eram aquelas que lhe davam os bons dias. Não obstante, continuava a desempenhar a sua função de forma dedicada. Fazia recados aos médicos... varria e encerava o chão das enfermarias, despejava constantemente os vários contentores dos mais diversos lixos hospitalares, supria as necessidades e os stocks. Acreditava que esta sua forma de trabalhar era a maneira mais eficaz de tornar os serviços eficientes, e mesmo num sítio feio como aquele as coisas poderiam tornar-se muito piores se não houvesse material ou se as salas estivessem sujas.
Certa vez, enquanto limpava o vidro da janela de uma enfermaria, reparou numa mulher jovem, muito bonita, de bata branca, pasta preta na mão e estetoscópio aos ombros. Nunca a tinha visto por ali antes, e ela estava agora a falar com uma senhora numa cama, que ele sabia estar internada há meses. Conseguia ouvir parte da conversa, mas não prestou atenção às palavras. Apenas notou que o tom de voz daquela médica era muito diferente do dos outros médicos: mais atencioso, mas um atencioso verdadeiro, sem parecer aquele atencioso profissional, mecânico, cínico, viscoso e em voz alta que já conhecia tão bem. E sorria... com um sorriso tão bonito que arrancava também um sorriso à doente. Não um sorriso subserviente, medroso, como os doentes que têm medo de irritar os médicos e pensam que talvez sendo simpáticos lhes conseguem mais atenção.
De facto, Lázaro percebia isto muito bem, porque falava várias vezes com os doentes, e estes também sorriam daquela maneira, talvez por saberem que ele era apenas um auxiliar, que estava ali a falar com eles porque lhe deu na gana, e que não tinham de ser simpáticos e subservientes da mesma maneira...

Aproximou-se, de pano e Ajax na mão, e sorriu para elas. Com elas. Já conhecia a doente desde que tinha começado a trabalhar, por isso a conversa estabeleceu-se com espontaneidade. Ficou a saber pela bata que a jovem médica se chamava Lurdes, um Lurdes escrito a letra desenrascada com um marcador azul, grosso. E a Lurdes era tão afável que rapidamente a conversa os tomou aos dois, enquanto a doente adormecia calmamente na sua cama. Já estavam ali há 10 minutos, mas para Lázaro os ponteiro do relógio colocado estrategicamente à porta da enfermaria não tinham saído do mesmo sítio. Mais ninguém tinha ficado doente no mundo, não havia medições de pressão arterial a ocorrer, nenhum enfermeiro estava a escrever os relatórios de turno... até que a Lurdes, que morava em Massamá com os pais, que tinha um Mercedes Classe A, que tinha feito o curso em Lisboa, e que tinha a bata com os botões desfasadamente enfiados nas casas da bata, disse que tinha que ir almoçar. Lázaro ainda pensou em convidá-la, mas as palavras não lhe sairam da boca em tempo útil.

Desde esse dia, ia trabalhar ainda com mais vontade. Levantava-se rapidamente da cama e a viagem de 20 minutos até ao hospital parecia uma eternidade. E no corredor, mais cinco minutos menos cinco minutos da mesma hora, lá vinha o bom dia e o belo sorriso do costume. A boca sorria. Os dentes ficavam mais brancos naquele momento, as pálpebras abraçavam os olhos dela de uma forma diferente quando sorria. E o cabelo sempre impecavelmente despenteado de uma forma perfeita, apenas preso atrás com um gancho. Lázaro imaginava a Dra Lurdes a prender à pressa o cabelo, despreocupadamente, antes de sair de casa para conduzir o seu belo, prático - e caro - automóvel. Ele revivia mentalmente, vezes sem conta, a conversa que tinham tido, sem se lembrar da maior parte dela, pois não tinha conseguido deixar de olhar para os seus olhos claros e o seu sorriso irresistível.
*
As visitas às enfermarias continuaram, e Lázaro conciliava os seus afazeres e os seus turnos com essas visitas. Constatou que a simplicidade do tom de voz da Lurdes não mudava, e que era uma coisa inata. Os doentes perguntavam-lhe por ela muitas vezes. Sorriam com gosto quando se falava nela, com expressão de agradecimento sereno e sincero.

Uma vez, Lázaro chegou a casa e decidiu põr-se ao trabalho. Comprou uma bata na melhor loja da cidade, lavou-a com um detergente perfumado, amaciou-a de forma a que o toque ficasse perfeito, e depois bordou, com linha, no topo do bolso, o nome dela, ladeado por duas florzinhas, que embora muito simples, deram um enorme trabalho. Ele pensava que as coisas mais simples davam mais trabalho a fazer, e que eram elas que transportavam a verdadeira essência das mensagens que se queriam transmitir. Dos afectos... dos carinhos. Pensava também que a maior parte das pessoas não pensava assim, e que nem se lembrava de pintar as paredes dos hospitais com cores vivas, que nem lhes passava pela cabeça instalar candeeiros com quebra-luz que pudessem dar um ambiente mais descontraído aos corredores dos hospitais... e as flores? Coisas tão simples como vasos com flores...

Mas estava na mão dele premiar uma pessoa que ele achava que, de tão diferente, não pertencia ao hospital. Na tasca, onde ia beber uns canecos com os amigos, eles já se referiam a ela como a Branca de Neve, em tom de chacota. Lázaro não se deixava desmoralizar, e tentava explicar-lhes vezes sem conta como ela era ímpar e rara. Sempre com a mesma inflamação, sempre com o dobro da convicção que tinha antes. "Tu estás é caidinho e nem consegues ver que ela é toda riquinha e não é para ti, pá! Quando ela quiser ir para Cancun, vais ser tu a levá-la, Lázaro?" - gargalhada geral. "Vocês estão é bêbados!" - Êêêêêêêê! em jeito de atiçamento - "Ela já te deu boleia no carro dela? Se calhar está na altura de a convidares para ir de 23, não?" - Nova gargalhada geral.
Lázaro, calado, bebe mais um gole da sua caneca.
*
Vários dias depois, deixou-lhe a bata próximo do cacifo onde ela costumava guardar as suas coisas, e ficou à espreita, do outro lado da janela. Queria ver se sorria, se gostava. E de facto abriu um sorriso radiante quando, depois de desdobrar a bata, viu o bordado, pequenino, do tamanho de uma unha de polegar. Ficou a examiná-lo por momentos, como que a pensar que aquilo tinha sido feito com auxílio de uma agulha minúscula e uma lupa, de tal maneira que os pontos eram imperceptíveis. Escondido, Lázaro também sorria. Sabia que sempre tinha tido jeito para artes, e se isso fizesse alguém feliz, tanto melhor. Entretanto, Lurdes afagava o nariz no tecido da bata, apreciando a maciez e o perfume daquele branco que era mais branco do que todas as batas que já tinha visto. Acabou por se decidir a vesti-la.

Lázaro saiu do seu esconderijo e foi aos seus afazeres, sem ser notado. Assobiou mais do que o normal durante toda a manhã, enquanto carregava pacotes de compressas e ligaduras para os vários serviços, facto que não deixou de ser notado por doentes e staff hospitalar.
Mais tarde, ao passar por um corredor, reparou que a Lurdes falava baixinho com várias outras médicas, e todas se riam aos sussurros, sentindo com os dedos o toque da bata. Apressou o passo, muito envergonhado com a situação, e nem olhou para elas, acabando por bater com o carrinho carregado de compressas numa maca que estava estacionada junto a uma das paredes amareladas. Lázaro começou rapidamente a repôr o estrago, e a única pessoa que o ajudou foi a Dra Lurdes.
Enquanto apanhavam as compressas, a Lurdes falou com ele."Lázaro, gostei muito da bata e do bordado... mas queria-te pedir que não me desses mais presentes, está bem?".
Lázaro apenas conseguiu balbuciar um desculpe, um está bem, um peço desculpa Dra, de olhos presos nas instruções de utilização das embalagens de compressas. Estas palavras arranhavam-lhe a garganta, parecia que não tinha voz, como quando se quer gritar nos pesadelos. Por fim, aclarou a voz e disse, mais decididamente: "Esteja descansada Dra Lurdes. Eu compreendo bem, mas ainda bem que gostou". Afastou-se, rapidamente, como quem ainda tem muito para fazer, embora tivesse terminado as tarefas há muito.

*
Desde esse dia, os bons dias e boas tardes diminuiram até cessar, e quando calhava cruzarem os olhares, desviavam-nos rapidamente, ambos embaraçados. Lázaro não era feio, mas não tinha traços tão belos como homem como Lurdes tinha como mulher. Tinham a mesma idade e eram ambos boas pessoas, mas as semelhanças entre ambos ficavam-se por aí.
Passados vários meses, e pelo menos até ao último dia do contrato do Lázaro, a Dra Lurdes não vestiu outra bata.

24 de maio de 2006

Cantiga d'Amigo, escárnio e maldizer


Ai ondas do rio Trancão
Haveis visto a minha paixão?
Haveis sabido da minha perdição?
Ai Deus i u é...?

Achei-a era ainda criança
Também me pareceu mansa
Não deitei as garras de fora
Para quê tanta demora?
Não pensei que fosse embora!

Ai lodo do rio Liz
Sabeis da minha perdiz?
Sabeis da minha actriz?
Ai Deus i u é...?

Achei-a no meio do mato
Pareceu-lhe que não estava apto
E enquanto não ato nem desato
Fez de mim miau-sapato
Por pouco não lhe bato!

Ai águas revoltas das Fontainhas
Sabeis novas da minha rainha?
Ela come a babugem das tainhas!
Ai Deus i u é...?

Fui dar uma granda vôlta
Para achar as pontas soltas
Andei sempre de meias rotas
Ainda assim conheci umas garotas
E outras tantas marotas!

Ai ardente areia de Carcavêlos
Tu que andas sempre a vê-las
Sabeis da minha gaja?
Ai Deus i u é...?

Quando voltei um granda malandro
Logo a ouvi chamando
E enquanto a ia papando
Mandei-a para o camandro
Mandei-a para o camandro!!

Ai vagas do rio Jamor
Tendes novas do meu amor?
Serei só um sedutor?
Ai Deus, i eu é?
Ai Deus ... i eu é.
:)

23 de maio de 2006

Para o infinito e mais além...

Quando somos pequenos, tudo o que é grande ou muito é assim por volta dos mil. Um prédio tem para ai uns mil metros de altura, um barco pesa de certeza mil quilos e acho que a minha avó tem quase mil anos embora ela insista que não. Entramos para a escola e apresentam-nos o conjunto N. Heina pá, tanto número! Os nossos débeis paradigmas são abalados quando nos apercebemos que existe o número mil e um. E também existe o dois mil, o dez mil, o noventa mil. Nesta altura estabelecemos o nosso tecto nos milhões. Tudo o que é muito é porque deve ser da ordem dos milhões. É por esta altura que descobrimos que os dinossauros viveram há milhões de anos atrás! O conjunto N0 é absolutamente redundante para nós pois para que serve o zero? Já sabiamos há muito tempo que tudo começa no zero.

Depois avançamos na nossa vida, e a complexidade aumenta duma maneira que as nossas escalas já não servem, assim como se o nosso saber fosse um insecto em crescimento e as escalas fossem o esqueleto de quitina que tem de ser renovado. Abraçamos o conjunto Q. Como todos os alicerces quando são mexidos fazem abanar as estruturas, a complexidade perde-se na escala, e o nosso saber perde-se na imensidão do esqueleto de quitina. É aqui que ficamos a saber que em média um automobilista pode ter 3,2 acidentes por ano, que podemos comprar meio quilo de laranjas e que há temperaturas negativas. Aqui sim, paramos ao esbarrar de frente com o sólido exoesqueleto. Eu já sabia que o fim era dificil de saber onde era, mas o princípio também não se sabe? O infinito, aquilo que ainda não queremos pensar que exista, pois revela a falta de existência.

Eis o conjunto R. Ainda meio atordoados com a possibilidade de termos 3,2 acidentes por ano, ainda com o pensamento de porque raio não baixam as escalas de temperatura, tomem lá esta: o infinito! Mas, então não há inicio, não há fim? Aqui começamos a pensar em estradas, no céu, no mar e pensamos, há mais que isto? O problema aqui é que ninguém nos situa. Não faz sentido dizermos a distância daqui ao Porto em milimetros, nem o comprimento dum lápis em quilómetros. Como não nos conseguem explicar isso (ou não conseguimos compreender) apresentam-nos a recta real!

A recta real, diz a professora pegando no giz e desenhando uma linha no quadro. Não tem princípio nem fim, com o zero aqui no meio, páli numeros positivos, do outro lado os negativos. Primeira pergunta: onde está essa recta, passa onde? Já sabemos que ali ao fundo é o infinito, bemo como lá na outra ponta, o mais e o menos infinito. Ficamos descansados pois o nosso conhecimento está balizado! Finalmente a nossa escala já parece ser pequena para o nosso conhecimento, já não pode crescer mais, afinal é do infinito que estamos a falar!

As escalas são traiçoeiras, sempre dispostas a pregar rasteiras ao conhecimento e à capacidade de entendimento dita humana. Com o nosso campo definido, chegamos ao ponto onde alguém nos diz: quantos números estão entre um e dois? Mas que raio de pergunta, toda a gente sabe que estão, ora... bem... pois, não sei. Ai não sabe? Então eu digo-lhe: infinitos números! Caos, é a única coisa que me lembro dessa altura. Infinitos números estão entre um e dois? Eu sabia que eram muitos mas infinitos? Infinito é o número de números que existe. Mas pera lá, se existem infinitos números ao todo, e se existem infinitos números entre um e dois, como pode ser possível? Um infinito é maior que o outro? Mas se o infinito é tudo, desde o mais ao menos, como é que há infinitos no meio do infinito? Há infinitos maiores e outros mais pequenos? Não pode ser! Como é que duas coisas que não começam e não acabam podem ser maiores ou menores? A realidade parece ter ultrapassado em grande escala o conhecimento, o que nos dá maiores motivos de alegria. Há muito desconhecido por ai, temos de o por a descoberto, temos de continuar a pensar e a retirar das trevas o conhecimento ai retido pelas escalas! Se não quisermos, também não faz mal, é só uma questão de escolha de escalas, como a nossa vida!

12 de maio de 2006

A minha pedra preciosa

Quando acordei naquela manhã com umas dores abdominais difusas insuportáveis, percebi logo que aquele ia ser um dia especial, daqueles marcantes, que mudam o rumo da vida de uma pessoa. No hospital deram-me injecções para aguentar a dor, e disseram-me para beber muita água em casa. Disseram-me também que o problema era num uretero, e que provavelmente ia dar à luz num dos próximos dias. Aconselharam-me a ter cuidado quando fosse à casa de banho, não fosse o rebento cair também na sanita, juntamente com as águas.

Satisfeito, fui para casa. Sim, satisfeito, porque apesar de não ter útero, tenho uretero (e logo dois!) e se o nome não é muito diferente, a função também não deverá variar muito. E eu sempre quis ter um filho. Mal cheguei a casa, fui logo pesquisar na internet. Como se teria formado o meu menino? Que nome lhe daria? Naquela altura tive a certeza de que carinho não lhe faltaria. Disseram-me no hospital que aquele era o primeiro de vários que um dia poderiam nascer também, visto que se viam em formação na ecografia. Ou seja, o meu filhote irá ter maninhos!

Poucos dias depois, enquanto mijava para um alguidar (não fosse eu perder o menino juntamente com a água do banho), finalmente pari. Eureka! Mas não flutuava, o que dizia muito do seu peso. Três quilos e setecentas! That's my boy! A avaliar pelo seu aspecto verde escuro, homogéneo, parecia uma safira pronta a polir.Decidi chamar-lhe Pedro. Pedro Rocha. Sempre achei que deveriamos olhar para a cara do recém-nascido antes de lhe darmos o nome, porque muitos nomes influenciam o carácter da pessoa. E este tinha mesmo cara de Rocha. Parecia aquele do Duarte e Companhia.

Claro que comecei logo a fazer planos para o futuro do Pedro. Ele tinha necessidades especiais; não poderia andar na escola como os outros meninos. Ele não é violento, mas como é muito rijo e com arestas poderia magoá-los nas correrias próprias da infância. E sabemos como as crianças podem ser cruéis umas com as outras quando detectam alguma diferença. Não que ele seja muito diferente dos outros, mas é preciso uma pessoa como eu, madura, adulta e equilibrada, para perceber que no fundo vão todos dar ao mesmo. Só que eu gosto mesmo muito do Pedro e quero o melhor para ele.

Ainda me lembro de como foi concebido com amor! Com muito chocolatinho, muito sal na comidinha, pouca águinha (afinal, não queria que ele se constipasse enquanto crescia devagarinho na minha barriga), muita carninha da melhor, vermelhinha e tudo! Pois claro que o Pedro tinha de sair especial. Os meus pais não acharam muita piada por ter um filho tão novo, e por ter engravidado sem mãe. Afinal, uma criança precisa da influência dos dois pais! Mas eu convenci-os quando disse que apesar de ter nascido com muita dor, era muito desejado com certeza. É o produto do meu amor pela boa vida.

Um dia, quando for mais velho, vou levá-lo a passear a sítios bonitos, para que possa ver os tios da Peneda Gerês, os sobrinhos das Penhas Douradas, um primo afastado que nasceu numa pedreira mas teve muita sorte e até está bem na vida - deu origem ao CCB - e as fragas da serra da estrela podem ser suas amigas quando despertar para o sexo oposto.
Quando souber ler, vou poder mostrar-lhe um novo amiguinho imaginário, que o Obelix traz sempre às costas. "Vês, Pedrinho? É o Menir!". Os miúdos precisam destas referências culturais para poderem crescer em harmonia.
Também passarei com ele pela coluna de pedra em que bati com o carro há poucos dias, para que aprenda os perigos de permanecer à beira da estrada.

Depois, quando for adulto, auguro-lhe um futuro excelente. Se o Cutileiro for vivo, e se entretanto tiver havido outra revolução, talvez possa meter uma cunha para que transforme o meu filho numa bela estátua, assim numa estação de metro ou no topo de um grande jardim lisboeta, para que toda a gente o possa ver! Ou então talvez os Duques de Bragança possam encomendar um conjunto de jóias da coroa inteirinho. Três quilos e setecentas devem dar para fazer um brilharete.