27 de dezembro de 2011

Números de circo


Sei que se ligar o rádio do carro a horas certas, alguém de lá irá dizer-me percentagens entre três e meio e dez, por isso não vale a pena fazê-lo. Também sei que, se ligar a televisão na sic notícias, alguém estará a referir quarenta e duas horas e meia em vez das quarenta, portanto não o tenho feito. Também já não pego num jornal (digno desse nome) há meses, com medo que a capa me grite em letras garrafais outros números como cinquenta por cento do subsídio de natal, ou desaparecimento de décimo terceiro e décimo quarto mês para o ano.
E já vou a poucos fóruns de discussão, porque senão arrisco ler coisas como cinquenta por cento ou menos do valor da hora extraordinária obrigatória.


Estou farto de números.


Não pensem que não sei. Não se precipitem a dizer que tanto me faz. E acima de tudo, não me chamem já de resignado.

É que já não consigo sequer falar sobre isso. Quero jantar sossegado, ir para o trabalho a ouvir música, beber café a folhear um jornal, quanto mais não seja a ver os classificados do correio da manhã. Não quero viver permanentemente na angústia de quem se sente injustiçado. Não me apetece participar no desfiar desses rosários. E acima de tudo, já percebi que, seja qual a posição que tome - contra, a favor, céptico, fervoroso apoiante, neutro - alguém se vai virar contra ela e dizer que sou um privilegiado, ou que falo de barriga cheia, ou que não tenho sentido cívico. Esta é daquelas ocasiões que talvez não deva perder para  estar caladinho.


Fui então beber o café e ler os classificados do correio-da-manhã. Detive-me sobre um deles que anunciava a cedência de quotas num dos colégios mais conhecidos da linha de cascais, mas na altura nem pensei muito sobre o que aquilo poderia significar. E depois fui pedir outro café, que por enquanto mas não por muito mais tempo, custa sessenta cêntimos, e reparei que estavam a tirar cariocas com "terceiras-águas".

Depois lembrei-me que também aqui haverá números a mudar de treze para vinte e três.

Fui pagar, mas à minha frente na fila para a caixa estavam duas senhoras de meia idade, de casaco à laia de vison mas sem o ser.
O senhor foi buscar o pão e o bolo pedidos pela primeira, e quando virou as costas, ela esticou a mãozita e enfiou meia dúzia de pacotes de açúcar no grande bolso.
Fiquei de boca aberta sem querer, mas é claro que não disse nada, e nem tive muito tempo para reacções, pois em seguida a segunda senhora também pediu pão ao empregado, e desta feita foram dois os bolsos cheios de pacotes de açúcar.


Podia falar também das pessoas, com bom aspecto e vestidas sem ser à mendigo ou à toxicodependente, a remexer no lixo deixado ao lado dos contentores, à noite, quando vou passear a cadela à rua.
Podia falar de como o nosso circo está a pegar fogo com os números perigosos que se estão a praticar, com promessas de acrobacias ainda mais arriscadas e impressionantes no futuro.

Mas não me apetece, nem é útil. Vocês já sabem isto tudo.

E por muito que não queira olhar para as cartinhas dos vencimentos ao fim do mês, ou para os jornais, sites, canais de televisão, boletins noticiosos na rádio... quando as coisas sucedem à minha frente, não dá para fugir. E, pelo menos para já, tem sido "só" com os outros.


Não tenho vontade de falar mais sobre o assunto, nem tenho grandes ideias. Mas uma coisa que aprendi é que quando se corta o aporte, provoca-se necrose. Hoje dá a notícia de que cem mil pessoas já emigraram este ano, e as que cá ficam não ficam melhor por isso, antes pelo contrário.
 
Tal como não consigo apontar soluções, também não posso terminar este texto de forma bonita. Apenas posso dizer uma coisa: não estou convencido de que o único caminho seja este, tampouco que seja este o melhor. Mas que nos estejamos a rir disto tudo daqui a uns anos.

16 de novembro de 2011

O melhor céu

O melhor céu já foi em junho e era laranja.

Podia vê-lo filtrado pelos ramos de uma enorme figueira que espalhava por toda a parte aquele cheiro leitoso e doce de Junho. Os pardais faziam um chinfrim de fim de tarde na sua copa, e, embora fossem certamente muitos, só conseguiamos observar uma ou outra silhueta fugaz de vez em quando. Nessa altura, o meu pai aproveitava para apontar a pressão-de-ar. Xu-xu-xu quieto!, soprava ele, de mão muito aberta, palma virada para o chão.

Depois produzia-se um som seco que calava o chilrear caótico e provocava logo um alvoroço que fazia crescer momentaneamente a copa contra o laranja desse céu. E depois eu corria à procura do resultado do tiro, vestido com uns calçonitos curtos, fintando com as pernas arranhadas a vegetação rasteira que atingia metade da minha altura.

Tenho na memória uma cena, era eu ainda mais pequeno, passada em casa da minha tia-avó. Estavam várias pessoas sentadas à mesa numa sala mal iluminada de amarelo deslavado, por uma lâmpada incandescente de pouquíssimos watts; num dos cantos, por cima de uma bancada de cimento, havia um fogão de lenha improvisado entre dois tijolos, dispostos contra a parede enegrecida por incontáveis demãos de fumo.

Naquela casa sempre se comeram coisas muito boas, e dessa vez, estava eu ao colo de não-me-lembro-quem, tinha provado pardalinhos fritos em óleo e alhos. Aquele molho era, até a altura, uma das melhores coisas que eu provara.

Talvez fosse pela recordação desse sabor que nem me assomava à mente a vertente negativa de andar a chumbada aos pássaros.
Ou então era porque estava a caminhar com o meu pai por entre a vegetação rasteira que me arranhava as pernas, e se ele gostava de ir à caça, então eu também gostava.
Ou então porque era pequenino e não sabia o que era a morte, sabendo ao mesmo tempo que aqueles chumbinhos, que até eram moles porque os conseguia esmagar com os dentes, matavam pardais. É para mim fascinante a forma como as crianças conseguem viver bem com tais paradoxos.

Certa vez, um tempo mais tarde durante uma dessas caminhadas, acertámos de raspão num pardal, e demos com ele no chão, ainda vivo. Respirava muito depressa e mal se mexia. Quis pegar nele, mas o meu pai não permitiu.
Apontou-lhe a pressão-de-ar e desfez-lhe a cabeça com outro chumbinho; ele deixou de respirar.
Explicou-me a mim e à minha irmã, que estava connosco dessa vez, que era preciso acabar logo com o sofrimento do animal.
Nunca até então me tinha feito espécie ter as mãos sujas com o sangue dos pássaros que matávamos - a mim, que os carregava sempre enquanto caminhávamos. Por acaso, ou talvez não, essa foi a última vez que fomos aos pardais.

Passei há pouco tempo pelo mesmo sítio e reparei que construiram uma grande vivenda no lugar dessa árvore, que se calhar não era assim tão grande. Já não sei do paradeiro da pressão-de-ar, que, de resto, há muitos anos que não disparava. Chegou por telefone a notícia que a minha tia-avó tinha tido uma trombose e ficara menos bem.
E até estou aqui a pensar que talvez aquele molho dos pardalitos fritos em óleo e alhos não fosse assim tão bom.

Mas do céu laranja, filtrado pelos ramos da figueira, ainda me lembro bem.

Recordo-o certamente muito melhor do que recordaria se o tivesse contemplado ontem.

2 de novembro de 2011

Nostalgia ...


You've got time, you've got time to escape
There's still time, it's no crime to escape
It's no crime to escape, it's no crime to escape
There's still time, so escape
It's no crime, crime ...

29 de outubro de 2011

Sobre a desmontagem de argumentos e telemóveis

Tinha prometido que aparecia para jogar à bola hoje às 8:30h, a uns 15km de casa, e tendo em conta que é um sábado, é preciso dedicação para sair da cama num dos poucos dias em que dá para dormir até mais tarde. Neste caso, é mais do que dedicação. Conta-se uns com os outros para as equipas não ficarem desfalcadas, e ninguém gosta de um cortes.
Estava cansado da semana, deitei-me bastante tarde... mas não eram desculpas suficientes para faltar. Então, fiz o que quase toda a gente faz: pus o despertador no telemóvel para tocar umas 8 vezes, de 5 em 5 minutos.
Já me tinha acontecido várias vezes acordar com o telemóvel desligado, ou sem bateria, ou ter desligado essas 8 vezes o despertador e continuar a dormir... mas hoje aconteceu uma situação inédita: acordei com o telemóvel d-e-s-m-o-n-t-a-d-o! Capa de trás para um lado, teclado+ecrã debaixo da barriga - fiquei com dois telefonezinhos e a palavra "menu" marcados na pele - e bateria debaixo da almofada. E eu lembro-me de desligar o alarme algumas vezes.

É evidente que a divisão de uma pessoa em corpo e cérebro tem pouco de científico, mas desta vez terá de bastar: não deixam de me surpreender os recursos e subterfúgios que um e outro usam para se ludibriar. Normalmente apenas me vêm palavrões à cabeça na altura de acordar, mas desta vez lembro-me de estar a dormir e a assistir ao diálogo entre as partes: Não precisam de mim, têm gente suficiente de certeza! Não faz mal se não for! (o argumento distorcedor da realidade), Mas eu ainda ontem prometi que ia e é falta de consideração faltar, a eles também custa acordar de certeza! (o argumento da honra e do diz-não-ao-egoísmo, um dos mais temidos e respeitados, pelo menos em teoria), Mas eles também faltam de certeza sem avisar, se calhar até chego lá e não há gente suficiente para jogar! (se irem jogadores demais não é argumento, então tenta-se o inverso, juntamente com o remate que as pessoas honradas têm pouca concorrência porque são poucas e o fair play é uma treta), Mas faz-me bem jogar, é divertido, e depois do jogo vou-me sentir relaxado e contente comigo mesmo por me ter forçado a ir (o argumento da saúde com o complemento da vitória sobre a preguiça e a apatia, talvez um dos mais teóricos porque promete vantagens para o depois, o que talvez seja pouco potente perante uma necessidade premente de dormir numa pessoa em sofrimento e de consciência alterada), Mas se calhar nem bola têm, ou o pavilhão afinal está fechado porque é fim de semana antes de feriado à terça-feira, e... aquilo até custa 5 euros! Diz que estás doente, o pessoal compreende! ... Mas!, Mas..., maaas... Adormeci.

E então desmontei o telemóvel.
Não consigo perceber até que ponto é que o fiz involuntariamente, mas não me lembro de o fazer. Não é um gesto de difícil execução, mas requer algum grau de consciência, perícia, e intencionalidade. Pelo menos parte do córtex de integração tem de funcionar para juntar o porquê de o fazer ao como fazê-lo.

Acordei de repente e cheguei mais de meia hora atrasado, o que pode ser, de certa forma tortuosa, considerado como um "meet me halfway", mas fui, e por acaso até valeu a pena.

Fui montando o telemóvel pelo caminho... e ele acordou mais depressa do que eu.



14 de outubro de 2011

É óbvio que o que fazemos tem intenção... e quanto menos armas temos, mais elaborado e sinistro o ataque se mostra. Quando estamos mesmo em desvantagem, somos impelidos a atacar primeiro, de surpresa, o matar para não morrer. Se ficamos o bicho come! Olhamos as nossas tropas em pânico: se somos atacados tudo estará perdido! O inimigo encerra nas suas fileiras forças poderosíssimas!

Bem, sejemos céleres, vamos escolher o onde e quando. Quanto à estratégia, o onde, que seja num terreno sinuoso, aproveitando a nossa agilidade e o facto do inimigo ter a destreza de um transatlântico em frente de um "iceberg". O quando, pela madrugada, quando o inimigo mostra o desgaste de uma noite de vigilia, sendo certo que não esperam o golpe com a nudez das primeiras luzes da aurora.

O ataque vem, assim... Mas vos digo, não estudaram bem o inimigo! Embora tenha o transatlântico transposto o "iceberg" como um atleta que derruba a fasquia, certo é agora que tais transatlânticos vêm com casco duplo! De um golpe, a frágil armada é derrubada. Agora a fugir, o bicho pega.

Ninguém ganhou, mas só um perdeu!

30 de outubro de 2010

Sobre os contos peregrinos

     Já tive oportunidade de partilhar com alguns amigos, e também aqui no blog, a minha admiração por Gabriel García Márquez. Um dos livros que escreveu, e que li pela primeira vez há alguns anos, é um conjunto de contos - Doze Contos Peregrinos - que, definindo de forma completamente redutora, retratam episódios da vida de pessoas latino-americanas residentes em cidades europeias.
     Há mais de ano e meio, comprei um exemplar para oferecer. Mas há relativamente pouco tempo, tentei fazê-lo novamente e não consegui. O livro não se encontra aos pontapés por aí, por isso é possível que tenha de se encomendar.
     O Gabito começa com um prólogo em que explica de forma fascinante como é que os contos surgiram, foram abandonados, perdidos, reescritos, seleccionados, e, finalmente, publicados; apresenta também algumas reflexões interessantes sobre o processo criativo subjacente à escrita. Não pensem que são muitas páginas, é só meia dúzia delas. E essa é apenas uma introdução de ouro para os contos que se seguem no livro. Deixo aqui um bocadinho do prólogo, para quem quiser ir à procura ...

     « (...) Foi uma rara experiência criativa que merece ser explicada, nem que seja para as crianças que querem ser escritores quando forem grandes saberem desde agora como é insaciável e abrasivo o vício de escrever. A primeira ideia ocorreu-me no começo da década de setenta, a propósito de um sonho esclarecedor que tive depois de estar há cinco anos morando em Barcelona. Sonhei que assistia ao meu próprio enterro, a pé, caminhando entre um grupo de amigos vestidos de luto solene, mas num clima de festa. Todos parecíamos felizes por estarmos juntos. E eu mais que ninguém, por aquela grata oportunidade que a morte me dava de estar com meus amigos da América Latina, os mais antigos, os mais queridos, os que eu não via fazia tempo. Ao final da cerimónia, quando começaram a ir embora, tentei acompanhá–los, mas um deles fez-me ver com uma severidade terminante que, para mim, a festa havia acabado. "Tu és o único que não pode ir embora", disse-me. Só então compreendi que morrer é não estar nunca mais com os amigos. Não sei porquê, interpretei aquele sonho exemplar como uma tomada de consciência da minha identidade, e pensei que era um bom ponto de partida para escrever sobre as coisas estranhas que acontecem aos latino–americanos na Europa. (...) seis dos dezoito temas foram parar ao cesto de papéis, e entre eles o do meu funeral, pois nunca consegui que fosse uma farra como a do sonho.».

In Doze Contos Peregrinos, Gabriel García Márquez

15 de junho de 2010

Crónica de uma noite


Gostava de caminhar à noite pelas ruas desalmadas, deixando-se envolver pelo zumbido das luzes das montras das lojas encerradas. A noite dá descanso às pessoas normais e cria espaço para que os sentidos se concentrem nos pormenores mais ínfimos que sempre ali estiveram, embora esmagados pela vida citadina diurna; consiste, por assim dizer, numa longa inspiração profunda, como que uma purga sem a qual não pode explodir o dia seguinte. Pelo menos, era assim que ele pensava.
Sentia o cheiro a alfarroba das correntes de ar tépido que percorriam preguiçosamente as avenidas e lhe massajavam as maçãs do rosto, entrando-lhe pelas narinas e incendiando-lhe aos poucos o peito, como quem aviva um braseiro adormecido com um leve soprar.
Aquela serenidade fazia com que se sentisse mais vivo e mais consciente de si mesmo, ao mesmo tempo em que quase toda a população da cidade ensaiava a própria morte àquelas horas tardias. Era Verão e não havia vivalma.
Uma das coisas boas da madrugada é que - julgava-o ele - podia ter certeza de que ninguém estava a pensar nele, podendo assim ocupar-se disso mesmo sem receio de ocupar o lugar de alguém.
Não ficaria, contudo, sozinho por muito tempo naquela noite.
Por questões logísticas, de horário, ou por outra razão qualquer, tinha combinado encontrar-se com ela por volta daquela hora, o que, bem entendido, não era costume. Logo a achou, aguardando por ele, a fazer de sentada numa precária vedação de jardim.
Não disse nada. Abraçou-a, e percorreu com mãos de pura saudade o seu vestido azul, como que certificando-se de que eram aquelas as formas que tão bem conhecia.
Pediu-lhe que se acalmasse; que ali não era o local; e juntou, com olhar cúmplice, que era preciso tratar das "precauções".
Caminhou com a mão dela na sua, enfrentando de peito incandescente a brisa de tom doce-alfarroba, contando os passos, medindo os espaços para pisar apenas as pedras pretas da calçada.
Lá ao fundo, na avenida perpendicular, voa um taxi durante meio segundo entre os dois prédios de esquina. Um homenzinho careca e atarracado carrega caixotes de fruta de dentro de uma ferrugenta Bedford enquanto pragueja em transmontano. O vestido dela é agora azul mar, atingido pela luz verde do símbolo da farmácia.
Perguntou-lhe por moedas. Que não tinha, abanou, que só tinha podido sair de casa com o que lhe cobria o corpo.
Enquanto arranhava os bolsos, olhava para ela com aquele olhar de quem finge estar preso no infinito, a olhar para, mas a ver através de, com o pensamento noutra galáxia distante. De resto, era a melhor forma que tinha desenvolvido para poder fitá-la por longos momentos sem a intimidar, sem que lhe fugisse com os olhos. E foi nos olhos cor de mel que reparou primeiro, devagar, trespassados pelo verde-cruz-de-farmácia. Como se não estivesse já apaixonado por ela, ficá-lo-ia naquele preciso conjunto de coordenadas espaço-tempo.
E aquele vestido, tão simples e leve! sublinhava-lhe as formas até meio da coxa, como um presente que antes de recebido já se sabe o que é por fora, e mesmo assim surpreende sempre de tão bom que é quando desembrulhado.
Encontrou uma única moeda de duzentos escudos por entre a tralha de um dos bolsos das jeans gastas. Voilá!
Precipitaram-se para a caixa azul pregada ao lado da porta da farmácia, e juntos inseriram a chapita dourada e cromada na ranhura. Pressionaram o botão uma primeira vez, depois outra, várias vezes. A máquina não respondeu.
Irritada, esmurrou o botão de retorno, mas as entranhas da máquina responderam com um ganido metálico, e não devolveram a moeda.
Foda-se, foda-se, foda-se! E agora?, E agora nada, disse ela, com a simplicidade tão própria dos acontecimentos óbvios e irremediáveis.
*
O hálito doce a alfarroba era agora substituido aos poucos pelo cheiro viçoso dos jardins regados, que lhe embebia sonolentamente as cinzas no peito; os pássaros gritavam já nas copas do arvoredo onde reinavam, e não tardaria muito para que o céu clareasse; tudo isto acontecia e lhe era dado a ele que, surdo de sentidos, apressava agora o andar sem contar os passos e sem medir os espaços, calcando a eito as pedras escuras e claras da calçada daquela avenida para não perder o autocarro por causa de um capricho estúpido.
As montras calaram o zumbido das suas luzes, e os carros já sulcavam novamente o asfalto das ruas. Tinha terminado a purga num último sopro de expiração, e já explodia um outro dia qualquer.

27 de maio de 2010

Figura de corpo ausente

Chego e pouso o casaco. Este tempo em que não está calor nem frio é uma complicação, ainda por cima odeio andar com coisas na mão e muitas vezes aguento o casaco, mesmo com calor. Cumprimento quem está na sala, avisando desde logo pelo silêncio do cumprimento, que não me apetece falar. O difícil é que fui chamado aqui para falar. Estou aqui para resolver esta situação. As partes parecem não se entender e depositaram uma estranha esperança em mim.
Quando me convocaram tentei perceber por um lado o porque da escolha e por outro tentar reverter esta convocatória. Sem resultado, quem toma estas decisões não aceita não como resposta.
Havia uma cadeira colocada estrategicamente entre as partes que deduzi ser para mim, pois além de estar onde estava, era a única vazia. Estava assim no centro da sala, a ser olhado de baixo meio de viés. Este contexto faz-me sentar sem tirar o casaco da cadeira, assumindo uma posição desconfortável, até cómica, em outra situação claro.
Uma das partes introduziu o problema, enquadrou a situação, pôs-me ao corrente e rematou com a ideia que nenhuma das partes concordava inteiramente que fosse eu o melhor intermediário, era assim como a escolha menos má. Pelo menos já sabia porque ali estava, devia-o à qualidade de ser o menos mau entre as duas partes, um sem terra.
A outra parte, acena, agradecendo no entanto a minha presença, apontando para uma taça com alguns bombons. Num segundo olhar lá vejo uns quantos bombons semelhantes a abafadores partidos ao meio, embrulhados na mais ordinária prata colorida. Lembraram-se de mim.
Estávamos nisto quando as partes se calam e esperam que eu faça o que estava ali para fazer. Tinha o casaco enrolado nas costas da cadeira, o que fazia com que tivesse-me sentado muito à ponta, e a posição não era a melhor. Bem, comecei, não me parece uma situação fácil. Pedi dados complementares, estava pelo menos a passar a bola para o outro lado, e enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. O problema é que este ir e vir do pau foi curto e logo as costas encaixam outra vergastada. Carambas, isto é que estava ali um imbróglio.
O problema no fundo era de resolução simples, não fosse uma das partes de uma tirania já quase em desuso, fazendo uso da hierarquia e da experiência que não conhecimento, e a outra parte, habituada a não combater gumes com punhos, por artes e manhas, tentava que a cobra morresse com o próprio veneno.
Era fácil, cada um assume o papel, avançamos com isto, que eu tenho de me ir embora, estou mal sentado e ainda não recuperei nem o folgo nem a cor por ter subido vários andares encasacado.
Não podendo resolver a contenda sem apelar ao protocolo, a este apelei. Cada uma das partes teve o momento do admito que errei aqui mas só o fiz porque alguém errou ali. Não foi possível chegar a lado nenhum.

“Adeus tristeza até depois,
Chamo-te triste por saber que entre os dois
Não há mais nada para fazer ou conversar,
Chegou a hora de acabar”

11 de maio de 2010

O meu Deus é um gajo porreiro

Como hoje estou de mal com o mundo, e por ocasião da visita do Bento 16, não queria perder a oportunidade de falar sobre o meu Deus. Vamos por partes.

A primeira parte é que me estou a borrifar para a vinda do Papa. Ou melhor, estou contra. Estou contra terem fechado quase todos os acessos para eu sair de Lisboa depois de um banco, e nenhum dos polícias me conseguiu dar uma indicação sobre como sair. Estou contra não terem feito apenas um percurso para o papa, e deixado os restantes abertos. Nem que tivessem de pôr um polícia em cada ramal de acesso a esse percurso. Afinal de contas, não eram 88000 polícias os destacados para a segurança?
Estou também contra a quantidade de dinheiro que se gastou nesta brincadeira. De cada vez que os nossos quatro f16 levantam vôo, são córenta mil aéreos que vão ao ar. Só porque sim. Nem era necessário, mas ... como podemos! Já para não falar no gasóleo que não sei quantos carros gastaram a dar voltas a tentar sair de lisboa. E resta saber qual é o cachet do papa. É que disso é que ninguém fala.

Tenho vergonha de viver num país que é (constitucionalmente, pelo menos) laico, mas em que 88% da população se diz católica. São muito católicos são.

O que me irrita mais é certos bacaninhos que andam com crucifixos no carro, e andam na faixa da esquerda a 20. Devem pensar: Deus ajudar-me-á a não ter acidentes pois que eu tenho uma cruz de pechisbeque pendurada no espelho retrovisor, e isso faz toda a diferença. Nem que por cada acidente que não tenham, provoquem três. E se alguém faz sinais de luzes metem a manápula de fora assim a fazer um gesto "passa por cima!".

Mas também não me irrita menos aquelas ideias do "ah, se ganhar o euromilhões, prometo que vou a pé para fátima!" ou "que deus te dê no dobro aquilo que me desejas a mim".

Saramago tem toda a razão. A concepção católica de Deus é egoísta, vingativa, interesseira. Eu já pensava isto, e só tenho pena que grande parte das pessoas não o leve a sério e pare para mensar um pouco.

O meu Deus é um gajo porreiro. Não precisa que cortem avenidas, ou que se mandem levantar aviões com o último fuel disponível para o resto do ano. Não precisa de representantes na terra, porque o melhor representante sou eu (e mais quem acreditar nele). E portanto não precisa de 80000 polícias a protegerem não se sabe bem de que ameaças. É verdade que também não precisa que se criem tolerâncias de ponto, mas por outro lado talvez me ensine a usar melhor o tempo livre em vez de fingir que rezo em voz alta para me mostrar o mais temente possível, ou de ir a fátima e obrigar não sei quantos enfermeiros a lavarem-me os pés porque como sou muito temente decidi ir descalço ou de galochas. Mas ei! Levei um ramo que parti ali de uma figueira ao pé de casa a fazer de cajado a imitar o Moisés!

Epá, respeito as peregrinações mas causam-me reboliço nos intestinos.

E depois aquela moda de lhe chamarem santo padre... é outra coisa que me deixa mareado. Santo padre porquê? Por ser o sumo pontífice dos chulos ?

Se as minhas avós vissem este texto ficariam profundamente desapontadas comigo. A verdade é que elas rezam muito por mim para que tudo me corra bem, e uma delas provavelmente até comprou flores e um poster do papa para meter na janela. E eu gosto que rezem por mim.

Vou-vos contar um segredo: estou com estas merdas, mas a verdade é que também eu por duas vezes na vida estive tão desesperado que já rezei. Uma delas, foi numa catedral em Milão, e a verdade é que as minhas preces foram ouvidas. Não sei por quem, mas foram.
E às vezes oro para dentro para o meu Deus, falo com ele, e faz-me sentir melhor.
Quanto mais vivo, vivencio, ouço, vejo, sinto, estudo... mais me convenço de que as coisas são tão complexas que é difícil imaginar que tudo se originou a partir de simples regras da física e da química que tanto amo e com as quais trabalho. Mas da maneira como as religiões contam a história é que tenho para mim que NÃO FOI! Não me venham com tangas.
O meu Deus ouve-me mesmo estando eu calado. Não preciso de dizer améns e comer óstias e andar de joelhos e rezar bxx bxx bxx bxx só para as outras pessoas perceberem que estou a rezar. E se ele tem alguma influência no meu destino, provavelmente é para me mostrar que não devia ter seguido determinado caminho e para aprender com o erro. Não é para me castigar.

Se Deus existe, então escolho que seja um gajo porreiro. Ou uma gaja. Mas isso também duvido. Muito. Mas isso são outros Carnavais.

Quanto ao papa, que se vá embora o mais depressa possível. O bafio do vaticano precisa dele como de pão para a boca.


PS - não quero ofender ninguém. Se o fiz... estão autorizados a não rezar por mim.

12 de abril de 2010

Mas... e então?



Que me desculpe se houver alguém que costume ler o Valdispert e fica desapontado com tanto tempo de ausência.

Queria dizer-vos que ... às vezes está tudo bem, ando embrenhado nas coisas que me tiram energia, nos braços dos amigos, no trabalho,

nas coisas que gosto de fazer...
nas coisas que descubro que gosto de fazer...
nas coisas que aprendo a gostar de fazer ...

E esqueço-me de que se calhar ser feliz é isto. É estar sereno como um sol de fim de tarde a afastar as folhas das copas das árvores e a bater em campos pejados de tremocilhas.

Estive a pensar nisto hoje e realmente é verdade. Já sabia há muito tempo que quando ando mais em baixo escrevo muito mais. Talvez o que nunca me tivesse atingido de forma tão forte fosse a consciência de que ando bem disposto e não me importava nada de continuar exactamente como estou agora. Um montezinho ali e um valezinho acolá, mas sem grandes tsunamis.

Talvez fuja de potenciais problemas com a mesma perícia com que fujo de potenciais emoções fortes, mas... e então?

Já alguém o disse mas eu vou roubar à descarada a frase: gosto muito de escrever - mesmo que só saia trampa, às vezes especialmente quando sai trampa - mas gosto muito mais de ser feliz.

E se ser feliz for isto... pois que o seja.