Estou aqui sem fazer nada, não queres ir à esplanada num sítio qualquer beber café? Ai, não posso! Tenho que ir buscar a bilha do gás! Ah, pronto, o dever primeiro, claro! Assim 'tá bem!
Tenho andado a ler um livro que me foi emprestado, sobre inteligência emocional. Embora muitas das coisas que lá estão escritas não sejam propriamente surpreendentes, o ambiente que é criado serve de suporte motivacional para que tenha mais atenção em relação a alguns mecanismos emocionais que as pessoas utilizam no dia-a-dia. No mesmo livro, a autora (é uma "ela", o que também não constitui surpresa...) sublinha a importância das reacções motivadas pelo instinto, a forma inata de analisar pessoas instantaneamente, a primazia das emoções sobre os raciocínios como geradoras de comportamentos e atitudes que se querem o mais adequados possível a cada colisão social , seja ela conflituosa ou apenas circunstancial!
Em muitos casos sabemos que as emoções são exteriorizadas, verbalmente, é certo, mas as interpretações levam a enganos e a confusões de consequências desastrosas.
Sem querer estar a interromper o assunto, não podia deixar isto em claro: está aqui a dar no Portugal no Coração, na RTP1, o Júlio Isidro com mais uma das pérolas da televisão nacional: aqueles cromos da harmónica (gaita de beiços, para os leigos) que foram não sei quantas vezes seguidas campeões do mundo, e que são uma família de um pai, não sei quantos filhos e netos e acho que até o cão sabe tocar aquela bodega! Campeonato do mundo de gaita de beiços. Que lindo, hã? Também devemos ser campeões da bisca de 3 e de quem come mais bolas de berlim. Deus ma pardoe. Que harmonia... desde que me lembro de existir que eles aparecem na TV!
Bem, continuando: sabe-se perfeitamente que as pessoas dizem A quando querem dizer B, particularmente quando são confrontadas com situações em que as emoções lhes saem do âmago, aparecem por baixo da pele, e elas sabem que será de algum modo ridículo, constrangedor, embaraçoso, penoso, seja o que for, se elas forem manifestadas na íntegra e sem areia. Então o A seria algo como: hoje não... tenho dores de cabeça, desculpa, amo-te querido!; o B será algo como: Pá, tou um bocado farta de ti!; ou então: Com essa barba hás de ter muita sorte...; ou ainda pior: Tou páquí a dizer que me dói a cabeça mas devia doer era a ti...
Mesmo assim, se as emoções são importantes para dirigir os nossos comportamentos, é igualmente importante estar alerta para podermos interpretá-los da forma mais adequada e elaborarmos a melhor resposta. Aqui entram qualidades como a experiência, a atenção, a inteligência, e, porque não dizê-lo, o conhecimento sobre nós próprios e sobre situações que envolvem terceiros. Sim, porque se é verdade que não devemos fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós, também não é mentira que nas costas dos outros vemos nós muitas vezes as nossas...
Vamos ao cinema à noite? Ah e tal, não deve dar, tenho que ir lavar o carro a campo-de-ourique! Ok, tudo bem! De que interessa retorquir que estão a chover calhaus, as estradas estão inundadas, há uma praga de gafanhotos que se espetam contra os vidros e faróis e pára-choques, nascem vulcões Etna por baixo dos pneus dos carros e que cospem cinza e piroclastos, e toda a cidade está em obras com lama e em pinturas de prédios e está tudo encharcado de tinta?Convém perceber a mensagem, mesmo que venha codificada, transformada, ou mesmo antagónica, em certos casos.
No outro dia estive até às tantas a ver um filme com o Nicholas Cage e o Malkovich em que eles vão num avião cheio de presos perigosos, sabem? E há uma cena em que uns bacanos comunicam por carta, aparentemente inofensiva, mas que se pusessem por cima uma cópia da "Última ceia", com os apóstolos e Jesus com os olhos furados, via-se pelos olhos as letras e elas formavam palavras e era assim que a mensagem passava. Perceberam? Isto é parecido.
Há desculpas muito boas que resultam sempre, como: Tenho varicela! Não posso sair de casa! Até dá para justificar faltas no ensino superior, porque é uma doença infecto-contagiosa! Mas tudo tem um lado mau: convém que só se use uma vez, senão pode-se ser apanhado numa mentira. E que a pessoa não conheça a nossa mãe! E já agora convém não ir passear nesses dias para o Colombo ou para o parque das nações... Estás aqui! Atão a varicela? Ah, vê lá tu que não era! Foi um rash que apareceu por causa de uma lata de atum que comi!
Outra desculpa muito boa é: Não vai dar! Tenho um casamento! Desculpa!Também aqui existe uma desvantagem, porque não se pode (ou não se deve, porque eu conheço quem o tenha feito) usar se o evento a que nos queremos cortar é outro casamento.
Mas nem sempre dá para elaborar uma desculpa boa. E o nosso cérebro é uma caixinha de surpresas que, no pânico de querer fazer malabarismo com 500 ovos sem deixar cair nenhum (ou seja, cortarmo-nos, não fazer a pessoa sentir-se mal, e ainda por cima não ser apanhado numa mentira) às vezes inventa razões fantásticas. Err... não posso! Tenho que ir tirar as natas ao leite! Tenho que ir desligar o esquentador! Tenho que ir fazer um defrag ao disco rígido! Ahmm... epá, não dá, desculpa, tenho uns anos da minha prima do Cacém! Atão mas... isso não foi em Fevereiro? Não, essa é a outra! Ah... assim 'tá bem! Não queres ir jogar à bola connosco? Anda lá, falta-nos um! Epá, só se me arranjarem uma t-shirt porque eu tou todo suado! 'Tá bem, a gente arranja, anda lá! Err... mas é que... Mas é que o quê? Não queres vir? Não, não é isso, é que fiquei de ficar em casa porque vem cá o homem da luz ver o contador! Ah... assim 'tá bem!
Em suma: aconselho-nos a sermos tendencialmente verdadeiros nas nossas respostas, porque isso evita males maiores; ao mesmo tempo, devemos estar mais atentos ao que nos é dito - conteúdo e forma - e sermos mais tolerantes e condescententes. Desta forma percebemos imediatamente a essência da mensagem e escusamos de estar a tentar encostar a pessoa à parede, apanhá-la na mentira, porque isso é inútil. Não devemos esperar algo como "não me apetece" como resposta. É muito raro isso acontecer, e pressupõe uma relação muito aprofundada. Nesse caso, ou deixa de ser necessária a "mentirinha piedosa", ou então ela adquire a dimensão de "mentirona à cabrão". Entre pessoas que se dão pouco, ou alguma coisa, o normal é ser-se enganado! Espera-se que assim seja.
Por mais que se advogue a sinceridade como elemento essencial nas relações, a verdade é que ela se transmite de muitas formas, acessória e simultaneamente à mensagem verbal. Basta estar com alguma atenção!
Por último, deixo-vos com uma curiosidade: há pessoas com lesões cerebrais bem localizadas que deixam de ter a percepção destes códigos sociais, e perdem a habilidade de dissimular. Simplesmente dizem sem quaisquer complexos a verdade. Essas pessoas são consideradas como tendo algum grau de incapacidade, o que de certa forma um tanto perversa que me está mesmo agora a ocorrer, mostra o que pensamos sobre quem é incapaz de mentir, e, por outro, o medo que temos de, muitas vezes, sermos confrontados com a verdade.
Ás vezes é pior a emenda que o soneto!