Os
pneus esmagaram as primeiras folhas de outono contra o empedrado de granito enquanto
o automóvel estacava ao lado de um portão de ferro com balões azuis e vermelhos
pendurados. O calor que se fazia sentir era anormalmente
elevado para a época do ano. O Joca e a sua filha iam a uma festa dos cinco
anos de um colega da escolinha, e quando chegaram já muitas crianças corriam e
pulavam por toda a parte.
No
meio do jardim, um enorme barco pirata insuflável suportava os pulos dos miúdos
e abanava por todos os lados. Ouviam-se guinchos de crianças e algumas vozes dispersas
de conversas dos pais, de copos e garrafas de cerveja na mão. A criança largou
a mão do pai e foi a correr descalçar-se atabalhoadamente para depois se lançar
no insuflável sem cumprimentar primeiro quem quer que fosse.
O Joca deslocava-se
quinzenalmente de outra cidade distante para estar com a filha, e portanto não
conhecia bem a maior parte dos seus coleguinhas ou os respectivos pais, pelo
que ficou meio perdido no meio da balbúrdia, com um embrulho na mão e outro no estômago.
Havia trocado
algumas mensagens com amigos antes da viagem.
“Não te
preocupes, se não te sentes bem em socializar deixas lá a miúda e vens embora,
nem todos os pais ficam, é sempre assim” – dizia uma.
A outro,
dizia: “Ficar aqui especado e a tentar fazer conversa da treta? Hell, no!”.
E este tinha
respondido: “Ai é da linha do Estoril? Esse restaurante da marginal é
excelente! E em conta! Já lá foi? Não?! Como não? A Carlota e a Teresinha
adoram!”.
O pai do
aniversariante perguntou-lhe se queria beber alguma coisa e disse-lhe que
estivesse à vontade, mas recusou de forma delicada, argumentando que infelizmente
tinha coisas para fazer. Perguntou à mãe do menino a que horas pensavam cantar
os parabéns e partir o bolo, trocaram números de telefone, e saiu dali consolado
por ter pelo menos três horas para descansar da viagem.
Foi feito num ápice o percurso de quinze
quilómetros até ao sótão que tinha arrendado com o objectivo de estar com
a filha, e pouco tempo depois já estava deitado na cama, entregue a
si e às suas ansiedades, no silêncio batido pelo tique-taque do
relógio de parede.
*
Acordou uma hora depois, um pouco mais
sereno. Decidiu regressar à festa de anos mais cedo para ver a filha a divertir-se
e talvez tirar-lhe algumas fotografias. Esmagou novamente as primeiras folhas
de outono com o automóvel e atravessou o portão de ferro, e em menos de dois
minutos puseram-lhe uma carlsberg na mão.
Viu-a
aos pulos no insuflável, eufórica, enquanto lhe fazia caretas. As mães das outras
crianças metiam conversa com ele à vez, talvez curiosas por um elemento estranho,
e diziam-lhe que tinha uma filha muito fofinha e outras palavras de circunstância.
Sentiu-se mais calmo, embora não conhecesse ninguém ali.
Depois,
a menina decidiu sair do insuflável e enfiar-se num trampolim pequeno protegido
por rede a toda a volta, e foi logo seguida por outra. Ao entrar, esta chamou-o
de papá, fitando-o e sorrindo. A sua mãe, que estava por perto, explicou que a
sua filha falava muito nele e nunca mais se tinha esquecido de como em junho,
na festa de anos da filha do Joca, ele tinha brincado com as crianças todas e
com ela. Nessa ocasião, enquanto os pais conviviam uns com os outros sentados
ou com copos na mão, havia sido ele a vítima consentida das crianças, fazendo de monstro, rugindo,
fingindo que as mordia, pegando-lhes em altura, perseguindo-as e sendo
perseguido, sendo puxado, empurrado, preso, esmagado, até ficar com a t-shirt
larga e rasgada. E como a sua filha o chamava de papá, as outras crianças imitavam-na.
*
O Joca era talvez
das pessoas mais velhas presentes, embora parecendo um pouco mais novo, talvez
porque continuava a vestir-se como um rapaz, a falar como um rapaz e a mexer-se
como um rapaz.
“Pai,
tu és o monstro e tens que nos apanhar!” – disse-lhe a filha, enquanto saltitava
no pequeno trampolim e corria à volta junto à rede, enquanto o pai fingia que a
tentava apanhar do lado de fora. A outra menina encostou-se à rede de propósito
e gritou :”Papá, tu tens que me comer!”. Ouviram-se risos baixinhos das mães
que observavam. Uma levou a mão à testa. Outra disse-lhe: “a sua filha tem
tanta sorte por o pai brincar com ela! O Joaquim…se não fosse eu a brincar com
a minha filha…”.
O
Joca encolheu os ombros e levantou o cantinho dos lábios. Conhecia por experiência própria e alheia a realidade
das mal casadas, das mal juntas, das bem divorciadas, das mal comidas porque eles
não querem ou porque elas deixam de querer, dos erros de casting e das
histórias dos casamentos porque-é-o-que-se-espera, porque-está-na-altura,
porque-é-o-meu-melhor-amigo, e não desejava isso para si. Não tinha chegado a
casar, mas isso não importava muito.
Aquele instante serenou-o finalmente por completo, ao certificar-se de
que esse chamamento surgiria de forma visceral num determinado momento, sem dúvidas, meios-termos ou sacrifícios de alma, ou talvez isso nunca acontecesse.
Mas já o tinha sentido.