28 de outubro de 2023

A mulher que eu amo



    A mulher que eu amo achou-me especial, one of a kind, e nunca entendeu o porquê de a ter escolhido.

    A mulher que eu amo sabia que eu tinha sempre frio nas pernas ao jantar e por isso tapou-mas com uma mantinha e encheu-me o copo de vinho depois de ter aberto a garrafa, porque sabia que eu não tinha força para sacar a rolha.

    A mulher que eu amo cozinhou pratos incríveis e sabia que o fazia, mas apresentou-mos com a humildade de quem nunca tinha entrado numa cozinha, quase a medo, como se eu fosse repudiar o colo de Deus.

   A mulher que eu amo submeteu-se na cama, não porque a obrigasse, mas porque ela assim determinou, e sabia que em que cada gemido que lhe saisse e de cada vez que se viesse toda me deixaria mesmerizado.

    A mulher que eu amo deu-me festinhas quando não consegui, mas tentou na mesma uma e outra vez, e achou sempre que a falha foi dela e pediu sempre só mais uma oportunidade.

    A mulher que eu amo quis mostrar-me o mundo e o seu único pedido - e duvidou disto até ao último momento - foi que eu aparecesse no aeroporto a horas de não perder o voo.

   A mulher que eu amo fez-me massagens nos pés e mãos, pelas dores causadas pelos dias seguidos em que estive a trabalhar e a deixei sozinha.

     A mulher que eu amo ofereceu-me uma escova de dentes e colocou-a num copo ao lado da dela, e transformou a sua casa num lar para nós onde eu só ia às vezes.

    A mulher que eu amo recebeu migalhas de mim e achou sempre que não tinha direito ao pão todo.

    Mas um dia a mulher que eu amo percebeu que o seu silêncio é mais forte do que todas as minhas palavras, porque me transmite


dor

sofrimento

medo

ansiedade


 distância



alheamento




desdém





indiferença


sem que eu saiba qual deles é, ou se se se cancelam uns aos outros para produzir o vazio.

    A mulher que eu amo é uma geisha que descobriu finalmente a dimensão do valor que tem, e por isso decidiu que é muito melhor não estar abaixo de mim, mas também não a meu lado.

     Talvez por isso a ame cada vez mais.


27 de outubro de 2023

Falou e disse - 07

    Na praia, uma mulher fazia festinhas nos ombros de um homem, sentados em conchinha a olhar o mar, em jeito de massagens.


    Anónimo - Vês porque é que te paguei o almoço?

    Anónima - Pensava que era por causa dos bicos.

    Anónimo - Good comeback!

8 de outubro de 2023

"Tu tens que me comer!"

 


            Os pneus esmagaram as primeiras folhas de outono contra o empedrado de granito enquanto o automóvel estacava ao lado de um portão de ferro com balões azuis e vermelhos  pendurados.  O calor que se fazia sentir era anormalmente elevado para a época do ano. O Joca e a sua filha iam a uma festa dos cinco anos de um colega da escolinha, e quando chegaram já muitas crianças corriam e pulavam por toda a parte.

           No meio do jardim, um enorme barco pirata insuflável suportava os pulos dos miúdos e abanava por todos os lados. Ouviam-se guinchos de crianças e algumas vozes dispersas de conversas dos pais, de copos e garrafas de cerveja na mão. A criança largou a mão do pai e foi a correr descalçar-se atabalhoadamente para depois se lançar no insuflável sem cumprimentar primeiro quem quer que fosse.

O Joca deslocava-se quinzenalmente de outra cidade distante para estar com a filha, e portanto não conhecia bem a maior parte dos seus coleguinhas ou os respectivos pais, pelo que ficou meio perdido no meio da balbúrdia, com um embrulho na mão e outro no estômago.

Havia trocado algumas mensagens com amigos antes da viagem.

“Não te preocupes, se não te sentes bem em socializar deixas lá a miúda e vens embora, nem todos os pais ficam, é sempre assim” – dizia uma.

A outro, dizia: “Ficar aqui especado e a tentar fazer conversa da treta? Hell, no!”.

E este tinha respondido: “Ai é da linha do Estoril? Esse restaurante da marginal é excelente! E em conta! Já lá foi? Não?! Como não? A Carlota e a Teresinha adoram!”.

O pai do aniversariante perguntou-lhe se queria beber alguma coisa e disse-lhe que estivesse à vontade, mas recusou de forma delicada, argumentando que infelizmente tinha coisas para fazer. Perguntou à mãe do menino a que horas pensavam cantar os parabéns e partir o bolo, trocaram números de telefone, e saiu dali consolado por ter pelo menos três horas para descansar da viagem.

Foi feito num ápice o percurso de quinze quilómetros até ao sótão que tinha arrendado com o objectivo de estar com a filha, e pouco tempo depois já estava deitado na cama, entregue a si e às suas ansiedades, no silêncio batido pelo tique-taque do relógio de parede. 


*


Acordou uma hora depois, um pouco mais sereno. Decidiu regressar à festa de anos mais cedo para ver a filha a divertir-se e talvez tirar-lhe algumas fotografias. Esmagou novamente as primeiras folhas de outono com o automóvel e atravessou o portão de ferro, e em menos de dois minutos puseram-lhe uma carlsberg na mão.

Viu-a aos pulos no insuflável, eufórica, enquanto lhe fazia caretas. As mães das outras crianças metiam conversa com ele à vez, talvez curiosas por um elemento estranho, e diziam-lhe que tinha uma filha muito fofinha e outras palavras de circunstância. Sentiu-se mais calmo, embora não conhecesse ninguém ali.

Depois, a menina decidiu sair do insuflável e enfiar-se num trampolim pequeno protegido por rede a toda a volta, e foi logo seguida por outra. Ao entrar, esta chamou-o de papá, fitando-o e sorrindo. A sua mãe, que estava por perto, explicou que a sua filha falava muito nele e nunca mais se tinha esquecido de como em junho, na festa de anos da filha do Joca, ele tinha brincado com as crianças todas e com ela. Nessa ocasião, enquanto os pais conviviam uns com os outros sentados ou com copos na mão, havia sido ele a vítima consentida das crianças, fazendo de monstro, rugindo, fingindo que as mordia, pegando-lhes em altura, perseguindo-as e sendo perseguido, sendo puxado, empurrado, preso, esmagado, até ficar com a t-shirt larga e rasgada. E como a sua filha o chamava de papá, as outras crianças imitavam-na.


*


O Joca era talvez das pessoas mais velhas presentes, embora parecendo um pouco mais novo, talvez porque continuava a vestir-se como um rapaz, a falar como um rapaz e a mexer-se como um rapaz.

“Pai, tu és o monstro e tens que nos apanhar!” – disse-lhe a filha, enquanto saltitava no pequeno trampolim e corria à volta junto à rede, enquanto o pai fingia que a tentava apanhar do lado de fora. A outra menina encostou-se à rede de propósito e gritou :”Papá, tu tens que me comer!”. Ouviram-se risos baixinhos das mães que observavam. Uma levou a mão à testa. Outra disse-lhe: “a sua filha tem tanta sorte por o pai brincar com ela! O Joaquim…se não fosse eu a brincar com a minha filha…”.

O Joca encolheu os ombros e levantou o cantinho dos lábios. Conhecia por experiência própria e alheia a realidade das mal casadas, das mal juntas, das bem divorciadas, das mal comidas porque eles não querem ou porque elas deixam de querer, dos erros de casting e das histórias dos casamentos porque-é-o-que-se-espera, porque-está-na-altura, porque-é-o-meu-melhor-amigo, e não desejava isso para si. Não tinha chegado a casar, mas isso não importava muito.

 Aquele instante serenou-o finalmente por completo, ao certificar-se de que esse chamamento surgiria de forma visceral num determinado momento, sem dúvidas, meios-termos ou sacrifícios de alma, ou talvez isso nunca acontecesse.

 Mas já o tinha sentido.

3 de outubro de 2023


Tenho um querer imparável de fazer uma corrida
De rédeas soltas,
Ou sem rédeas,
Ou como se nunca as tivesse tido.

Não senti os tiros de partida
E agora espero reviravoltas.

E corro, nado, voo,
Com a certeza dos sóis que nascem
E com lágrimas de vento,
Muito mais depressa que autocarros e aviões,
Mais depressa do que a vida,
Mais depressa do que o tempo,
Mais depressa do que o mundo,
Até que este inverta as suas rotações
E regresse, por um segundo
Àquele par espaço-tempo em que nos falhei,
E eu mostrar-te-ia
Tudo o que - hoje - eu sou,
Tudo o que - hoje - eu sei,
Tudo o que - hoje - eu posso,
E tudo o que sinto, o que sempre senti por ti
E que eu não permitia
Vez após vez,
Chance após chance,
Mês após mês,
Que visse a luz plena dos dias.

29 de janeiro de 2017

Um amor correspondido quando calha ...



... mas podia lá eu abandonar este sítio?

Não me importo de estar no escuro desde que possa sentir esta luz de vez em quando.

15 de janeiro de 2017

Carneiro no forno


Aqui há uns tempos conheci uma senhora que criava animais e tinha levado uma cornada valente de um carneiro grande e, segundo ela, mau. O resultado desse incidente foi um punho partido, e com a minha ajuda (ou apesar dela, não temos como saber...) a senhora melhorou.
E, umas semanas mais tarde, apareceu-me com um saco grande com peças de carne do animal, que tinha decidido abater.

Nunca tinha cozinhado carneiro. O resultado foi bom, e teria ficado perfeito se o carneiro não tivesse ficado passado demais, o que aconteceu porque não tive coragem de o deixar tão pouco tempo no forno como sugeriam diversas receitas que pesquisei. Mas o molho de salsa - excepcional - e o arroz de espargos salvaram o prato.

31 de dezembro de 2016

No news is good news



Uma expressão que não estava preparado para usar de mim para mim é "não comeces a ir correr, não!". E não respeito muito resoluções de ano novo porque são quase sempre radicais e agudas e, ao mesmo tempo, motivadas por problemas crónicos. Ou seja, não resultam, não resolvem, e não serão seguidas.

Posto isto, não estou preparado para mudar o que quer que seja, e que em 2017 quase tudo se mantenha tal e qual está agora.

* 

Num assunto não relacionado, uma fatia média de Bolo Rainha permite correr durante pouco mais de meia hora a uma velocidade moderada - por exemplo, ir do Estádio do Jamor ao Mosteiro dos Jerónimos; uma dose média de lasanha já deve dar energia para chegar até às docas de Alcântara.

Assim sendo há jantares meus que me devem chegar para ir até Marrocos ...

23 de dezembro de 2016

Não o café que quero, mas o café de que preciso



Os cafeeiros são cultivados junto à chaminé de um vulcão colombiano, e a colheita é feita especificamente durante as erupções estivais - summer eruption harvest.

Este lote de café foi transportado num navio-cargueiro que sofreu um catastrófico incêndio em alto mar, combatido por vários dias, tendo-se salvo apenas um contentor.
A torragem dos grãos que sobreviveram foi feita nas fornalhas da Siderurgia Nacional.

A máquina em que o café foi tirado estava vermelha-rubra.

Este café - Lote Delta Coque - foi desde já eleito o vencedor do galardão "Café Mais Queimado de 2016". 

O significado deste prémio sai reforçado pelo facto de que quatro em cada cinco cafés que bebo são de máquinas automáticas. 
Temi durante alguns segundos estar a precipitar-me, mas não tenciono passar por nenhuma estação de serviço até ao fim do ano e portanto estou convencido de que a escolha é justa.

11 de agosto de 2015

Bolas pá, arranjem masé a estrada!

Não sendo economista, financeiro, fiscalista ou politólogo, gostava de vos falar da Grécia. Posso? Contando que parto do princípio que devemos pagar as nossas dívidas, vejo-me preso lugares comuns da vida quotidiana como: “se gastares a semanada toda na segunda feira filho, comes a sandes de marmelada que a mãe te prepara todos os outros dias da semana!”. Ora, aqui é engraçado. A semanada vem, mas, na ausência de laços familiares, o financiador espera que lhe paguem. Mais, espera que lhe paguem a semanada e mais uns cobres. O giro começa depois. Caso eu falhe o pagamento da semanada, a mesma não é cortada, o metal é que passa de cobre a prata, de prata a ouro, e por ai a fora.

Ao que parece o valor de semanadas em dívida é algo elevado. Já se venderam todas as sandes de marmelada até 2050, o que deu origem a uma inflação do pão e da marmelada! O que parece que está a acontecer é que quem financia e não foi pago, paradoxalmente parece estar a ganhar ainda mais dinheiro do que se lhe tivesse sido pago a tempo e horas. Que estranho... Pois, é que ao que parece, por a Grécia estar no lixo, quem quer investir está agora a emprestar semanadas à Alemanha, por menos de uns cobres (parece que é amianto retirado das escolas). E querem ver que com isto já ganharam mais que a dívida toda da Grécia? Sacaninhas.


Mas quem é que os manda pedir? Uma semanada não chega? São uns calões pá, esses Gregos, ordenados mínimos duns principescos 1500€. Água quase de borla e electricidade e gás idem. Não sei quantas centenas de jardineiros por freguesia e mais outras tantas heresias. De certo não será o povo grego totalmente alheio a esta situação a que chegaram mas, sabem o que mais me marcou nesta história? A atitude de um povo de não conformidade com uma situação que só traz miséria para todos. A coragem de dizer não a um imperialismo económico que deixa os mais desprotegidos ainda mais desprotegidos e depois dá dinheiro a associações para proteger os mais pobres. Faz-me lembrar aqueles sinais de “estrada em mau estado”. Bolas pá, arranjem masé a estrada!