26 de julho de 2006

Já se sabe como elas são - parte 1

Komeço por me apresentar: sou o irmão jémio do Acre, umdos gajos que escreve aqui no blog. Sou 4 anos mais novo do que ele, e pedi-lhe pa escrever umas cenas de vês em kuando, porque ele keichou-se que andava a perder a vontade de andar rabugento com o mundo e de dizer mal de tudo. Bem, eu não sou propria/ igual a ele, mas é o que se pode arranjár.

E então desta ves é assim:
Certa ves, tava eu sentadu na esplanada da minha fakuldade a esvaziar um caneco, e tava uma kolega minha a akarissiar-m u cabelo e a conversar cmg. E então ela dizia-m:
"Ai [inserir nome própriu do TouFartoDeGajas], sabes k sempre fui c a tua cara... és mesmo fofo! Já falei mtas vêses com a fulana e beltrana [inserir nomes de aves raras kom apelidos de marcas de vernis das unhas] sobre ti, e elas são da mesma opiniaum q eu! Tens uma carinha muito girinha... fazes-m rir imenso... sabes komo é importante para uma rapariga ke a fassam rir! E depois lembras-t sempre de coisas q ninguém sabe, deves ler muito nas horas vágas! E confeço que fico um bocado coisa quando olhas pa mim ficçamente... veiem-me umas temperaturax à cara e tenho q desviar o meu olhar! [era verdade, eu tinha notadu]. Só nunca investi em ti porque és baixote..." - e continuou a falar lá coisas da alma dela; enkuanto isso, akele estímulo(*) viajou pelos meus nervos periférikos acima, foi ganhando força, ganhando força e velocidade, passou a medula, continuou a subir, a subir, passou por entre os núkleos do tronko cerebral e atingiu os neurónios do kórtex cerebral como uma bombinha de mau xeiro. Enkuanto ela continuava a metralhar palavras comu um helikanhão de 20mm, e ao mesmo tempo q me mexia na trunfa karinhosa/, os efeitos dentro da minha cabeça faziam-se sentir e o meu cérebro demorava eternidades a elaburar a respoxta!

"Ai, [inserir de novo nome própriu do TouFarto...], outra koisa é q podias vestir uma camisa de vês em kuando..." - não a deichei acabar e kurtei-lhe a palavra "Oooh...[inserir nome de gaja que até tem um korpo genial, uns olhos bunitos e um kabelo bem tratado, mas que da boca só saiem partíkulas fecais]!... tu sabes q eu também sp fui c a tua kara, desde o primeiro anu do kurso. Tens uma figurinha invejável [manda um par... acudam-me!], arranjaste mta bem, és mto karinhosa kmg... e até me riu de vês em kuando c as tuas parvoíces... também nunka pensei em investir em ti porke tens as mamas pekenas! E não tou a dizer ixtu só pq disses-te q sou fôfo han?" - l0ol0olo0l0ol0o riu-m sempre q me lembro dixto.
Ela depois parou de me fazer fextinhas no cabelo."Oh [inserir nome dela]! [Inserir nome dela de novo], onde é que vais? Não keres um bokado do meu kaneco?" e ela bazou a xorar não sei porkê.

E foi isto. O meu irmão Acre julga que tem sempre razão, mas eu goxto de ouvir os konselhos dos outros para ver se fiz bem ou se fiz mal em não lhe ter dito também q devia pensar em ir korrer para o estádio universitário.
Goxtava q komentassem...! Um abraço e deskulpem os erros, é da preça.
(*) estímulo - palávra "baixote" usada no contêxto q eu tenho + um palmo doque ela.

10 de julho de 2006

I might be wrong (VI) ... but I won't change my mind!

Estou aqui no Hospital Pulido Valente, numa maratona de estudo que se prevê só terminar no dia 21, quando for o próximo exame. Resolvi escrever porque já estou aqui desde as 11 da manhã, e provavelmente só irei para casa às 2 da manhã, já de terça feira.Como não escrevo há muito tempo, que melhor maneira senão fazê-lo de um computador público daqui do hospital? Mesmo à trouxe-lamouche (ou lá como se escreve).

Mal me meti no msn, reparei que havia uma lista de endereços de msn no campo onde costumamos inserir o nosso... afinal isto é público, é normal que assim seja. Mas os emails, deus ma pardoe... só nomezinhos de pares de namorados: vitoranabela@hotmail.com; susanapaulo@hotmail.com ... fdx, será que é porque não fui acometido dos calores primaveris que acho isto ridículo? Ai, amorzinho, obrigado por me ires buscar as pantufas! Ai, fofinho, és tão querido por me dares um telemóvel novo! Damn... abaixo as mariquices! Grandás nhonhices! Daqui por uns meses se for preciso estão à procura nos settings do hotmail para fazerem o account disable, aposto!
E já que estamos numa de msn... porque porra é que toda a gente mete away e busy e o caraças a 3? Vêm sempre falar comigo ou se eu falo respondem passados 5 milisegundos! "Ai, porque não quero que me chateiem, mas tu és diferente" - olha, obrigado pela parte que me toca, mas porra, não liguem o msn! "Ai, porque há pessoal muita chato!" - Bloqueiem, ora! "Ah, mas é que eles depois descobrem" - Err... porque é que os adicionaram de todo? E se não podem com eles, porque é que os mantêm na lista? Tenham dó, pá! Há que saber mandar uma pessoa dar uma volta quando é preciso! O que as pessoas fazem para não ter que dizer o que pensam ou o que sentem!
Os estados do msn são uma manifestação virtual da hipocrisia entre relações humanas! Nunca correspondem à verdade! People lie...

Falo-vos agora um bocadinho sobre o campeonato do mundo, só assim de surra. Eu não gosto muito de fazer desabar as minhas nuvens sobre o molhado, mas acho que se impõe um grito de revolta. Será que fui só eu que vi que o Nuninho fez mais em 20 minutos do que o Pauleta durante dois certames internacionais, que ainda por cima podiamos ter ganho? É que... tipo... sou o primeiro a dizer que chegámos onde chegámos pela sorte do Scolari. Mas também sou o primeiro a apontar o meu dedo acusador até ter uma luxação das interfalângicas: não ganhámos esta merda por causa dele! Dá-me um ódio... venham-me cá dizer que não fomos ajudados pelos árbitros e o caraças, mas isso para mim é-me indiferente. Mesmo não sendo ajudados, se tivessemos metido lá 3 ou 4 batatas contra a frança ninguém pensava no árbitro! E quer-me parecer... só assim uma leve sensação... que não é com o Pauleta que íamos conseguir. Não vou perder tempo a chamá-lo de nódoa, nulidade, zero, "-1", tosco, fraquíssimo, "só-marca-golos-ao-Lixãnstáin" - ok, já perdi tempo que chegue e acho que já perceberam onde quero chegar. E para vosso bem, espero que não fosse preciso este meu acervo de predicados...
Bom, felizmente que o menino lá decidiu abandonar a carreira internacional (ainda não estou em mim), mas eu acho que não há desgraça que venha sozinha, e provavelmente talvez tenhamos que gramar com o Hugo Almeida... ou o João Tomás. De bradar aos céus!
E todo este movimento tuga peri-mundial... acabou por me dar azia por diversas situações. Roberto Leal a cantar o hino nacional? Infelizmente rima e é verdade... com o filho dele a tocá-lo na guitarra? É de querer enfiar a cara num balde de água rás e inspirar profundamente... mente limpa!

Um dia destes escreverei mais pormenorizadamente sobre alguns dos notáveis da nossa praça pública. No dia do Santo António (ou terá sido do S.João?) fizeram uma transmissão televisiva deplorável de um espectáculo igualmente deplorável, em que o Betinho lá cantou o hino. Ontem, no Herman Sic (esse bastião da qualidade televisiva portuguesa), apareceram uns cromos que já não via há muito tempo, e que até pensava que eram equívocos de popularidade que já tinham sido esclarecidos com uma laje por cima (é giro ver como a expressão "pôr uma pedra sobre o assunto" se aplicaria tão bem). Infelizmente foi engano meu. Eles vivem, eles sobrevivem, eles metastizam! Não me lembro do nome do gajo, mas é aquele músico (?) que aparece sempre com a mulher gorda, e que tem cabelo assim liso, preto, escadeado, e uma cara de fuínha que até temos medo que nos ganhe ao poker (com 16 ases na manga). Impõe-se uma série de posts sobre esses ícones... mas fica para outro dia.

Até ao meu regresso! :)

30 de junho de 2006

Guerra - Cap I

Embarcou à três meses mas só ontem recebi a primeira carta. Diz que está bem, que a comida é boa, mas faz muito calor. Está bem, e come bem e isso é que importa e que Deus nosso senhor o proteja e guie.
- Ai está bem? Isso é que importa, uma guerra onde se come bem, embora com algum calor – acenando a cabeça o merceiro põe as compras numa cesta. Embrulha bem meia dúzia de ovos em papel manteiga e passa o cordel pelo embrulho com duas postas de bacalhau alto, do bom para grelhar – deve até dar para ir a banhos!
O senhor Augusto por acaso não está a fazer troça da dor duma mãe? É que se for esse o caso deixe que lhe diga que faz muito má figura! Como até um parvo vê, agarro-me ao que de bom tenho.
- Dona Maria Teresa, por acaso eu troçaria com a dor duma mãe que vai ao cais das colunas ver o único filho, arrancado das carteiras da escola industrial – e bom aluno se dizia ser -, partir para o ultramar sem regresso certo? Mas olhe, agarre-se bem, não vá correntesa a baixo.
O cesto foi arrancado ao balcão e restolhado pelas sacas de cereais que se dispunham até à saida, tão veloz que deixou uma nuvem de pó por assentar. Augusto vem à porta compor as sacas no seu passo calmo e decidido, sempre com uma vassoura na mão, caso o pó volte ou algum pilantra lhe esteja a galar as résteas de cebolas e os caracóis que estão à porta.

Andaste a chatear mais uma mãe que deu o filho ao prego? Augusto, Augusto...
- Olha lá, não devias estar ali em Santa Apolónia a pedir esmola aos que chegam, já que os que partem ou vão sem esperança ou sem dinheiro? És cego, és cego mas é para o que te cheira!
O Dr de S.José disse que eu era invisual, cego é uma parte da tripa! – e vá de se sentar numa saca de cevada por encetar que estava por ali á mão. Eu também ia ás sortes se Deus nosso senhor me tivesse destinado a ver.
- Assim destinou-te a pedinte na estação de Santa Aplónia. Mas pelos vistos já podes comandar batalhões, foste promovido a invisual! Isso até faz uma bela rima com General, General invisual! Não parece muito longe da realidade – por breves instantes pousou a vassoura mas logo a energia de mercieiro o tomou – vamos mas é a levantar dai o traseiro que isso não é uma espreguiçadeira.
Bem se aqui está, com a brisa do Tejo e mesmo defronte para a estação. Mas tens razão, chega de cobra, vou mas é ganhar a vida, a ver se chega para a bucha. Augusto atirou um papo seco para o colo do ex-cego agora invisual e começou a varrer energicamente, como se tivesse de varrer a esmola. Varria com tanto empenho que nem notou o reboliço que se formara à frente da estação, onde militares e polícias corriam em todas as direcções, vasculhando todos os cantos e todos os carros. Quando a nuvem de pó assentou, Augusto vislumbrou agentes a virem em sua direcção, que mais pareciam atiçados tal era o passo. Que venham, tudo o que leio alimenta a caldeira, tudo o que não leio não sei.
Boas tardes, precisamos de entrar na merceiria, com licença! – a educação não costuma faltar aos agentes da polícia agora aos do exército não constava que fosse item prioritário na sua formação.
- Precisam de alguma coisa? Em que os posso ajudar? – perguntou Augusto pousando a vassoura não vá o diabo tecê-las e a fiel amiga ainda se virava contra ele. Não obteve resposta.
Bom dia sr Augusto – saudou o habitual agente Palha, Zé Palha para quem entrava no seu círculo de amigos – andam à procura dum mancebo que fugiu, acho que ainda por cima é comuna ou como é que se chamam esses diabos. Chegaram de Santarém para embarcarem para a Guiné e o sacana escapoliu-se, evaporou-se melhor dizendo! - esticando o dedo como se tivesse a leccionar a mais preciosa matéria do alto dum estrado.
- Compreendo, não quer ir a banhos? Se calhar não gosta da praia, ou é mau de boca, muito embora a comida no Ultramar seja boa.
Como sabe disso? Já lá esteve?
- Não, não, chegou-me aos ouvidos, acho que é o que os nossos soldados mais escrevem nas cartas para casa, que está calor por lá mas come-se bem. Se calhar devia mudar o negócio para essas paragens, até gosto do calor e comer bem também não me custa.
Um homem alto de bivaque saiu da merceiria. Aparentava uns robustos 30 anos e tinha traços sizudos e fechados. Abeirou-se dos dois homens que pacatamente trocavam palavras à porta da loja e avisou Augusto que se visse algum mancebo fugido, ou se soubesse de alguma coisa para avisar as autoridades competentes sob pena de ser acusado de ocultamento e colaboração com um desertor. Sim senhor saiu da boca de Augusto em coro com o agente Palha, que não ficou indiferente ao peso de tais palavras. Meio embaraçado saiu despedindo-se com um aceno de cabeça e com um já sabe, se vir qualquer coisa de suspeito... Augusto respondeu-lhe com um vá descansado. Pegou na vassoura e voltou para dentro que aquilo ali fora era um mar agitado demais para a sua barca.
Estes tipos são mesmo intragáveis, pobre rapaz, espero que já esteja bem longe daqui são e salvo. A trabalheira a que eles se dão por causa dum pobre rapaz que só quer que o deixem na escola e jogar à malha. Vou mas é por as pipas à porta que o comboio do Cartaxo deve vir a horas e depois fico sem vinho. Galgou dois degraus e abriu a porta das traseiras, reparando que havia pó no ar. Começou a desarredar as pipas e a deitá-las pois vá lá um homem carregá-las doutra maneira que não seja rebolando. Estas aqui estão vazias, gastei-as primeiro para agora não ter trabalho a desarredá-las, o método vence sempre. Nem sempre. Mas que inércia tem esta pipa vazia, que ar tão pesado é este, bolas! Tenho a certeza que a gastei, deixa-me a lá virar. O peso da pipa ultrapassou o ângulo limite que a faria estar em equilíbrio e rebolou como não devia, contra a parede, fazendo soltar um som abafado.
- Bolas, isto quando corre mal, corre mesmo mal, irra! Só me faltava uma pipa rachada, e o comboio aí a vir! A força que teria de dispender para tentar erguer a pipa parecia-lhe sobre humana, mas que raio de enguiço será este agora, é a paga por zoar das mães orfãs de filhos. Ladeou a pipa e reparou numa mancha de vinho na face que tinha ficado para cima, que estranho, mas o vinho sai pelo topo? Mas isto não é vinho, e ao abrir a pipa viu que o peso desta afinal não era devido a um ar mais pesado.

6 de junho de 2006

O recorte do contraste


Quando Lázaro entrou naquele hospital, não conhecia ninguém. Apenas tinha falado com o responsável dos recursos humanos sobre a sua transferência; tinha querido alugar uma casa por um preço mais razoável, mas para isso fora obrigado a mudar também de local de trabalho, razão bem compreendida e aceite pelos seus patrões.
Tentando conhecer os cantos à casa, percorreu os corredores do local onde iria trabalhar nos próximos tempos. Nada de muito diferente de qualquer outro hospital, de resto. Corredores com gente apressada, gente à espera, gente a gemer, gente a dormir em macas, garrafas de soro por todo o lado. As paredes amareladas, nuas, estéreis, com um silêncio de estética apenas interrompido por uma ou outra racha no estuque antigo, delimitavam um espaço que, embora considerável, era manifestamente pequeno para conter o sofrimento de uma parte tão grande da população.
Lázaro defendia a opinião de que estas paredes eram inimigas dos doentes, e não estavam lá para os ajudar a curar mais depressa, mas sim para evitar que a dor contaminasse o exterior, onde as pessoas deambulavam e levavam as suas vidas de forma insuspeita. Não tinha grandes estudos, mas, como qualquer outra pessoa, sentia-se influenciado pelas formas e pelas cores; sabia que sem muito esforço e com pouco dinheiro seria possível transformar estes locais em sítios mais acolhedores, mais familiares, de forma a que quem estivesse doente se sentisse menos abandonado e mais centrado na sua própria recuperação.
É claro que pouco estava nas suas mãos, mas...
*
Passadas algumas semanas, Lázaro conhecia as caras das pessoas com quem trabalhava diariamente. No entanto, poucas eram aquelas que lhe davam os bons dias. Não obstante, continuava a desempenhar a sua função de forma dedicada. Fazia recados aos médicos... varria e encerava o chão das enfermarias, despejava constantemente os vários contentores dos mais diversos lixos hospitalares, supria as necessidades e os stocks. Acreditava que esta sua forma de trabalhar era a maneira mais eficaz de tornar os serviços eficientes, e mesmo num sítio feio como aquele as coisas poderiam tornar-se muito piores se não houvesse material ou se as salas estivessem sujas.
Certa vez, enquanto limpava o vidro da janela de uma enfermaria, reparou numa mulher jovem, muito bonita, de bata branca, pasta preta na mão e estetoscópio aos ombros. Nunca a tinha visto por ali antes, e ela estava agora a falar com uma senhora numa cama, que ele sabia estar internada há meses. Conseguia ouvir parte da conversa, mas não prestou atenção às palavras. Apenas notou que o tom de voz daquela médica era muito diferente do dos outros médicos: mais atencioso, mas um atencioso verdadeiro, sem parecer aquele atencioso profissional, mecânico, cínico, viscoso e em voz alta que já conhecia tão bem. E sorria... com um sorriso tão bonito que arrancava também um sorriso à doente. Não um sorriso subserviente, medroso, como os doentes que têm medo de irritar os médicos e pensam que talvez sendo simpáticos lhes conseguem mais atenção.
De facto, Lázaro percebia isto muito bem, porque falava várias vezes com os doentes, e estes também sorriam daquela maneira, talvez por saberem que ele era apenas um auxiliar, que estava ali a falar com eles porque lhe deu na gana, e que não tinham de ser simpáticos e subservientes da mesma maneira...

Aproximou-se, de pano e Ajax na mão, e sorriu para elas. Com elas. Já conhecia a doente desde que tinha começado a trabalhar, por isso a conversa estabeleceu-se com espontaneidade. Ficou a saber pela bata que a jovem médica se chamava Lurdes, um Lurdes escrito a letra desenrascada com um marcador azul, grosso. E a Lurdes era tão afável que rapidamente a conversa os tomou aos dois, enquanto a doente adormecia calmamente na sua cama. Já estavam ali há 10 minutos, mas para Lázaro os ponteiro do relógio colocado estrategicamente à porta da enfermaria não tinham saído do mesmo sítio. Mais ninguém tinha ficado doente no mundo, não havia medições de pressão arterial a ocorrer, nenhum enfermeiro estava a escrever os relatórios de turno... até que a Lurdes, que morava em Massamá com os pais, que tinha um Mercedes Classe A, que tinha feito o curso em Lisboa, e que tinha a bata com os botões desfasadamente enfiados nas casas da bata, disse que tinha que ir almoçar. Lázaro ainda pensou em convidá-la, mas as palavras não lhe sairam da boca em tempo útil.

Desde esse dia, ia trabalhar ainda com mais vontade. Levantava-se rapidamente da cama e a viagem de 20 minutos até ao hospital parecia uma eternidade. E no corredor, mais cinco minutos menos cinco minutos da mesma hora, lá vinha o bom dia e o belo sorriso do costume. A boca sorria. Os dentes ficavam mais brancos naquele momento, as pálpebras abraçavam os olhos dela de uma forma diferente quando sorria. E o cabelo sempre impecavelmente despenteado de uma forma perfeita, apenas preso atrás com um gancho. Lázaro imaginava a Dra Lurdes a prender à pressa o cabelo, despreocupadamente, antes de sair de casa para conduzir o seu belo, prático - e caro - automóvel. Ele revivia mentalmente, vezes sem conta, a conversa que tinham tido, sem se lembrar da maior parte dela, pois não tinha conseguido deixar de olhar para os seus olhos claros e o seu sorriso irresistível.
*
As visitas às enfermarias continuaram, e Lázaro conciliava os seus afazeres e os seus turnos com essas visitas. Constatou que a simplicidade do tom de voz da Lurdes não mudava, e que era uma coisa inata. Os doentes perguntavam-lhe por ela muitas vezes. Sorriam com gosto quando se falava nela, com expressão de agradecimento sereno e sincero.

Uma vez, Lázaro chegou a casa e decidiu põr-se ao trabalho. Comprou uma bata na melhor loja da cidade, lavou-a com um detergente perfumado, amaciou-a de forma a que o toque ficasse perfeito, e depois bordou, com linha, no topo do bolso, o nome dela, ladeado por duas florzinhas, que embora muito simples, deram um enorme trabalho. Ele pensava que as coisas mais simples davam mais trabalho a fazer, e que eram elas que transportavam a verdadeira essência das mensagens que se queriam transmitir. Dos afectos... dos carinhos. Pensava também que a maior parte das pessoas não pensava assim, e que nem se lembrava de pintar as paredes dos hospitais com cores vivas, que nem lhes passava pela cabeça instalar candeeiros com quebra-luz que pudessem dar um ambiente mais descontraído aos corredores dos hospitais... e as flores? Coisas tão simples como vasos com flores...

Mas estava na mão dele premiar uma pessoa que ele achava que, de tão diferente, não pertencia ao hospital. Na tasca, onde ia beber uns canecos com os amigos, eles já se referiam a ela como a Branca de Neve, em tom de chacota. Lázaro não se deixava desmoralizar, e tentava explicar-lhes vezes sem conta como ela era ímpar e rara. Sempre com a mesma inflamação, sempre com o dobro da convicção que tinha antes. "Tu estás é caidinho e nem consegues ver que ela é toda riquinha e não é para ti, pá! Quando ela quiser ir para Cancun, vais ser tu a levá-la, Lázaro?" - gargalhada geral. "Vocês estão é bêbados!" - Êêêêêêêê! em jeito de atiçamento - "Ela já te deu boleia no carro dela? Se calhar está na altura de a convidares para ir de 23, não?" - Nova gargalhada geral.
Lázaro, calado, bebe mais um gole da sua caneca.
*
Vários dias depois, deixou-lhe a bata próximo do cacifo onde ela costumava guardar as suas coisas, e ficou à espreita, do outro lado da janela. Queria ver se sorria, se gostava. E de facto abriu um sorriso radiante quando, depois de desdobrar a bata, viu o bordado, pequenino, do tamanho de uma unha de polegar. Ficou a examiná-lo por momentos, como que a pensar que aquilo tinha sido feito com auxílio de uma agulha minúscula e uma lupa, de tal maneira que os pontos eram imperceptíveis. Escondido, Lázaro também sorria. Sabia que sempre tinha tido jeito para artes, e se isso fizesse alguém feliz, tanto melhor. Entretanto, Lurdes afagava o nariz no tecido da bata, apreciando a maciez e o perfume daquele branco que era mais branco do que todas as batas que já tinha visto. Acabou por se decidir a vesti-la.

Lázaro saiu do seu esconderijo e foi aos seus afazeres, sem ser notado. Assobiou mais do que o normal durante toda a manhã, enquanto carregava pacotes de compressas e ligaduras para os vários serviços, facto que não deixou de ser notado por doentes e staff hospitalar.
Mais tarde, ao passar por um corredor, reparou que a Lurdes falava baixinho com várias outras médicas, e todas se riam aos sussurros, sentindo com os dedos o toque da bata. Apressou o passo, muito envergonhado com a situação, e nem olhou para elas, acabando por bater com o carrinho carregado de compressas numa maca que estava estacionada junto a uma das paredes amareladas. Lázaro começou rapidamente a repôr o estrago, e a única pessoa que o ajudou foi a Dra Lurdes.
Enquanto apanhavam as compressas, a Lurdes falou com ele."Lázaro, gostei muito da bata e do bordado... mas queria-te pedir que não me desses mais presentes, está bem?".
Lázaro apenas conseguiu balbuciar um desculpe, um está bem, um peço desculpa Dra, de olhos presos nas instruções de utilização das embalagens de compressas. Estas palavras arranhavam-lhe a garganta, parecia que não tinha voz, como quando se quer gritar nos pesadelos. Por fim, aclarou a voz e disse, mais decididamente: "Esteja descansada Dra Lurdes. Eu compreendo bem, mas ainda bem que gostou". Afastou-se, rapidamente, como quem ainda tem muito para fazer, embora tivesse terminado as tarefas há muito.

*
Desde esse dia, os bons dias e boas tardes diminuiram até cessar, e quando calhava cruzarem os olhares, desviavam-nos rapidamente, ambos embaraçados. Lázaro não era feio, mas não tinha traços tão belos como homem como Lurdes tinha como mulher. Tinham a mesma idade e eram ambos boas pessoas, mas as semelhanças entre ambos ficavam-se por aí.
Passados vários meses, e pelo menos até ao último dia do contrato do Lázaro, a Dra Lurdes não vestiu outra bata.

24 de maio de 2006

Cantiga d'Amigo, escárnio e maldizer


Ai ondas do rio Trancão
Haveis visto a minha paixão?
Haveis sabido da minha perdição?
Ai Deus i u é...?

Achei-a era ainda criança
Também me pareceu mansa
Não deitei as garras de fora
Para quê tanta demora?
Não pensei que fosse embora!

Ai lodo do rio Liz
Sabeis da minha perdiz?
Sabeis da minha actriz?
Ai Deus i u é...?

Achei-a no meio do mato
Pareceu-lhe que não estava apto
E enquanto não ato nem desato
Fez de mim miau-sapato
Por pouco não lhe bato!

Ai águas revoltas das Fontainhas
Sabeis novas da minha rainha?
Ela come a babugem das tainhas!
Ai Deus i u é...?

Fui dar uma granda vôlta
Para achar as pontas soltas
Andei sempre de meias rotas
Ainda assim conheci umas garotas
E outras tantas marotas!

Ai ardente areia de Carcavêlos
Tu que andas sempre a vê-las
Sabeis da minha gaja?
Ai Deus i u é...?

Quando voltei um granda malandro
Logo a ouvi chamando
E enquanto a ia papando
Mandei-a para o camandro
Mandei-a para o camandro!!

Ai vagas do rio Jamor
Tendes novas do meu amor?
Serei só um sedutor?
Ai Deus, i eu é?
Ai Deus ... i eu é.
:)

23 de maio de 2006

Para o infinito e mais além...

Quando somos pequenos, tudo o que é grande ou muito é assim por volta dos mil. Um prédio tem para ai uns mil metros de altura, um barco pesa de certeza mil quilos e acho que a minha avó tem quase mil anos embora ela insista que não. Entramos para a escola e apresentam-nos o conjunto N. Heina pá, tanto número! Os nossos débeis paradigmas são abalados quando nos apercebemos que existe o número mil e um. E também existe o dois mil, o dez mil, o noventa mil. Nesta altura estabelecemos o nosso tecto nos milhões. Tudo o que é muito é porque deve ser da ordem dos milhões. É por esta altura que descobrimos que os dinossauros viveram há milhões de anos atrás! O conjunto N0 é absolutamente redundante para nós pois para que serve o zero? Já sabiamos há muito tempo que tudo começa no zero.

Depois avançamos na nossa vida, e a complexidade aumenta duma maneira que as nossas escalas já não servem, assim como se o nosso saber fosse um insecto em crescimento e as escalas fossem o esqueleto de quitina que tem de ser renovado. Abraçamos o conjunto Q. Como todos os alicerces quando são mexidos fazem abanar as estruturas, a complexidade perde-se na escala, e o nosso saber perde-se na imensidão do esqueleto de quitina. É aqui que ficamos a saber que em média um automobilista pode ter 3,2 acidentes por ano, que podemos comprar meio quilo de laranjas e que há temperaturas negativas. Aqui sim, paramos ao esbarrar de frente com o sólido exoesqueleto. Eu já sabia que o fim era dificil de saber onde era, mas o princípio também não se sabe? O infinito, aquilo que ainda não queremos pensar que exista, pois revela a falta de existência.

Eis o conjunto R. Ainda meio atordoados com a possibilidade de termos 3,2 acidentes por ano, ainda com o pensamento de porque raio não baixam as escalas de temperatura, tomem lá esta: o infinito! Mas, então não há inicio, não há fim? Aqui começamos a pensar em estradas, no céu, no mar e pensamos, há mais que isto? O problema aqui é que ninguém nos situa. Não faz sentido dizermos a distância daqui ao Porto em milimetros, nem o comprimento dum lápis em quilómetros. Como não nos conseguem explicar isso (ou não conseguimos compreender) apresentam-nos a recta real!

A recta real, diz a professora pegando no giz e desenhando uma linha no quadro. Não tem princípio nem fim, com o zero aqui no meio, páli numeros positivos, do outro lado os negativos. Primeira pergunta: onde está essa recta, passa onde? Já sabemos que ali ao fundo é o infinito, bemo como lá na outra ponta, o mais e o menos infinito. Ficamos descansados pois o nosso conhecimento está balizado! Finalmente a nossa escala já parece ser pequena para o nosso conhecimento, já não pode crescer mais, afinal é do infinito que estamos a falar!

As escalas são traiçoeiras, sempre dispostas a pregar rasteiras ao conhecimento e à capacidade de entendimento dita humana. Com o nosso campo definido, chegamos ao ponto onde alguém nos diz: quantos números estão entre um e dois? Mas que raio de pergunta, toda a gente sabe que estão, ora... bem... pois, não sei. Ai não sabe? Então eu digo-lhe: infinitos números! Caos, é a única coisa que me lembro dessa altura. Infinitos números estão entre um e dois? Eu sabia que eram muitos mas infinitos? Infinito é o número de números que existe. Mas pera lá, se existem infinitos números ao todo, e se existem infinitos números entre um e dois, como pode ser possível? Um infinito é maior que o outro? Mas se o infinito é tudo, desde o mais ao menos, como é que há infinitos no meio do infinito? Há infinitos maiores e outros mais pequenos? Não pode ser! Como é que duas coisas que não começam e não acabam podem ser maiores ou menores? A realidade parece ter ultrapassado em grande escala o conhecimento, o que nos dá maiores motivos de alegria. Há muito desconhecido por ai, temos de o por a descoberto, temos de continuar a pensar e a retirar das trevas o conhecimento ai retido pelas escalas! Se não quisermos, também não faz mal, é só uma questão de escolha de escalas, como a nossa vida!

12 de maio de 2006

A minha pedra preciosa

Quando acordei naquela manhã com umas dores abdominais difusas insuportáveis, percebi logo que aquele ia ser um dia especial, daqueles marcantes, que mudam o rumo da vida de uma pessoa. No hospital deram-me injecções para aguentar a dor, e disseram-me para beber muita água em casa. Disseram-me também que o problema era num uretero, e que provavelmente ia dar à luz num dos próximos dias. Aconselharam-me a ter cuidado quando fosse à casa de banho, não fosse o rebento cair também na sanita, juntamente com as águas.

Satisfeito, fui para casa. Sim, satisfeito, porque apesar de não ter útero, tenho uretero (e logo dois!) e se o nome não é muito diferente, a função também não deverá variar muito. E eu sempre quis ter um filho. Mal cheguei a casa, fui logo pesquisar na internet. Como se teria formado o meu menino? Que nome lhe daria? Naquela altura tive a certeza de que carinho não lhe faltaria. Disseram-me no hospital que aquele era o primeiro de vários que um dia poderiam nascer também, visto que se viam em formação na ecografia. Ou seja, o meu filhote irá ter maninhos!

Poucos dias depois, enquanto mijava para um alguidar (não fosse eu perder o menino juntamente com a água do banho), finalmente pari. Eureka! Mas não flutuava, o que dizia muito do seu peso. Três quilos e setecentas! That's my boy! A avaliar pelo seu aspecto verde escuro, homogéneo, parecia uma safira pronta a polir.Decidi chamar-lhe Pedro. Pedro Rocha. Sempre achei que deveriamos olhar para a cara do recém-nascido antes de lhe darmos o nome, porque muitos nomes influenciam o carácter da pessoa. E este tinha mesmo cara de Rocha. Parecia aquele do Duarte e Companhia.

Claro que comecei logo a fazer planos para o futuro do Pedro. Ele tinha necessidades especiais; não poderia andar na escola como os outros meninos. Ele não é violento, mas como é muito rijo e com arestas poderia magoá-los nas correrias próprias da infância. E sabemos como as crianças podem ser cruéis umas com as outras quando detectam alguma diferença. Não que ele seja muito diferente dos outros, mas é preciso uma pessoa como eu, madura, adulta e equilibrada, para perceber que no fundo vão todos dar ao mesmo. Só que eu gosto mesmo muito do Pedro e quero o melhor para ele.

Ainda me lembro de como foi concebido com amor! Com muito chocolatinho, muito sal na comidinha, pouca águinha (afinal, não queria que ele se constipasse enquanto crescia devagarinho na minha barriga), muita carninha da melhor, vermelhinha e tudo! Pois claro que o Pedro tinha de sair especial. Os meus pais não acharam muita piada por ter um filho tão novo, e por ter engravidado sem mãe. Afinal, uma criança precisa da influência dos dois pais! Mas eu convenci-os quando disse que apesar de ter nascido com muita dor, era muito desejado com certeza. É o produto do meu amor pela boa vida.

Um dia, quando for mais velho, vou levá-lo a passear a sítios bonitos, para que possa ver os tios da Peneda Gerês, os sobrinhos das Penhas Douradas, um primo afastado que nasceu numa pedreira mas teve muita sorte e até está bem na vida - deu origem ao CCB - e as fragas da serra da estrela podem ser suas amigas quando despertar para o sexo oposto.
Quando souber ler, vou poder mostrar-lhe um novo amiguinho imaginário, que o Obelix traz sempre às costas. "Vês, Pedrinho? É o Menir!". Os miúdos precisam destas referências culturais para poderem crescer em harmonia.
Também passarei com ele pela coluna de pedra em que bati com o carro há poucos dias, para que aprenda os perigos de permanecer à beira da estrada.

Depois, quando for adulto, auguro-lhe um futuro excelente. Se o Cutileiro for vivo, e se entretanto tiver havido outra revolução, talvez possa meter uma cunha para que transforme o meu filho numa bela estátua, assim numa estação de metro ou no topo de um grande jardim lisboeta, para que toda a gente o possa ver! Ou então talvez os Duques de Bragança possam encomendar um conjunto de jóias da coroa inteirinho. Três quilos e setecentas devem dar para fazer um brilharete.

26 de abril de 2006

Hino à Paixão

Está muito sol hoje, e este cheiro a pólen de malmequer embrulhado em mil zumbidos de abelhas está a fazer-me lembrar de ti.Transpiro por todos os poros, para depois uma brisa me refrescar o molhado da t-shirt branquinha e me arrancar um par de espirros. Sim, porque em mim eles vêm sempre aos dois de cada vez, como tu sabes...

Vejo lá fora, pela janela, os miúdos da escola comendo bolicaos na sua hora de almoço, a rirem ainda mais alto do que o barulho dos carros que passam, apressados. Correm uns atrás dos outros, com as mochilas maiores que eles, com a energia que nunca mais terão, embora não o saibam. O céu está estupidamente azul e ainda estamos em Abril!
Entro em casa a tempo do jornal da tarde. A uns milhares de km, há 20 anos, rebentou um qualquer reactor 4 de uma central nuclear, e as notícias não falam de outra coisa. E a greve da PJ, e o Cavaco. Não quero. Volto a sair de casa e não digo para onde vou, porque também não sei. Dirijo-me a pé para o que resta do meu antigo campo de flores, 0,5 % do que já existiu. Há malmequeres, margaridas, madressilvas... e de novo o cheiro embebedante da primavera. Acho que é possível ficar-se louco só com este aroma, ao pensar nas recordações que traz, e no que significa na língua da natureza.

Tenho saudades tuas... e tenho saudades de sentir saudades de ti. Do teu sorriso rasgado, enorme, que só me mostraste algumas vezes. Da tua gargalhadinha que só pude ainda imaginar, mas que de certeza que é encantadora.

*

Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes os Zéfiros brincar por entre flores? Vês como ali beijando-se os Amores, incitam nossos ósculos ardentes! Ei-las de planta em planta as inocentes, as vagas borboletas de mil cores! Naquele arbusto o rouxinol suspira; ora nas folhas a abelhinha pára, ora nos ares sussurrando gira: que alegre campo! Que manhã tão clara!

*

Tinha tantos planos para ti, para nós! Saíamos daqui, iamos fazer o expresso do oriente... passávamos por Veneza, Grécia... Egipto... Singapura... Índia, Japão... e depois faziamos tudo outra vez! Tantos sítios que eu nunca vi! Tantas pessoas que nunca conheci... sei que já os viste e já os conheceste a quase todos, tantas vezes como às estrelas do céu ou aos grãos de areia do Kalahari mas... para mim serias sempre original, origem e fim. Tantos lugares... mas nem isso seria importante, porque sei que és capaz de fazer desaparecer o mundo se preciso for. E se não for preciso também. Mas agora é! Se ao menos voltasses para mim, ou me viesses visitar mais uma vez! Prometo que desta vez te tratarei como dádiva, e não como direito. Perdoa-me por te confundir tantas vezes com outras, mas é só a minha tentativa de te procurar nelas! É sonhar assim tão alto? É querer demais? Dizem-me que nos dias que correm não devo esperar, mas... o ar não me sabe ao mesmo sem ti. Quero aquela sensação de poder morrer afogado naquele momento e nem notar. Porque "é mesmo isto! Agora é que é!". Faz-me sentir o reactor 4 outra vez...
*

O ledo passarinho, que gorjeia, d’alma exprimindo a cândida ternura; o rio transparente, que murmura, e por entre pedrinhas serpenteia; o Sol, que o céu diáfano passeia, a Lua, que lhe deve a formosura, o sorriso da Aurora, alegre e pura, a rosa, que entre os Zéfiros ondeia; a serena, amorosa Primavera, o doce autor das glórias que consigo, a Deusa das paixões e de Citera; quanto digo, meu bem, quanto não digo; tudo em tua presença degenera, nada se pode comparar contigo.

*

Julguei ver-te a dobrar uma esquina, num fim de túnel, ao fundo da rua, num beco que parecia sem saída... tantas vezes! E de todas as vezes desapareceste, como num truque de câmara de cinema. Num frame estavas lá, no outro já não. E tão real, ia jurar que... tu bem sabes como as minhas rugas, na pele e no cérebro, desapareciam nas tuas visitas. Conheces-me bem... eras visita frequente na minha Casa. Porque não vens ter comigo como dantes? Não era preciso eu fazer nada... era inevitável, era a ordem natural das coisas, como a queda dos objectos de cima para baixo. Era sem querer. Era sem pedir. Era sem qualquer tipo de medo. Instalavas-te e ficavas, para durares ou para ires embora logo a seguir, mas sempre com a promessa de voltar. Como queria ter-te aproveitado melhor, sabendo de antemão que não durarias para sempre!

Sinto falta de me prenderes a respiração por entre os teus dedos. De ficar rouco de tanto rir contigo, com dores na face de não parar de sorrir. De ficar com suores frios e mãos nervosas. De não saber o que te dizer! Quero as massagens perfumadas que me fazias na nuca, quero o conforto que me davas aos pés, quero a forma como me fazias esquecer as dores! Ainda o sabes fazer, não é verdade?

É fim do dia e torno a entrar em casa, para as notícias. Já não cheira a malmequeres, voltou o vento e as abelhas foram para as colmeias. Está frio, entro nas escadas.
Zangaste-te comigo? Não vais fugir para sempre de mim, pois não? Não precisas de vir agora! Promete-me apenas... promete-me que voltas um dia, porque a primavera não é a mesma sem ti...

17 de abril de 2006

Invitation

Não sei bem que horas serão... mas não tenho sono. Depois de uma semana cheia de atribulações e com um assalto à mistura (em plena madrugada do dia 14) durante o qual foram furtados 3 telemóveis, uns ténis Nike, 2 perfumes dos monhés, 3 relógios e 2 canetas do grande S.L.B., já para não falar da nota de 10 euros que eu tinha achado nesse dia, nada poderá parecer mais calmo do que este momento em que escrevo (no intervalo da Frida).
Apesar da descontração aparente, estou nervosa porque no meio disto tudo ainda tive que tentar preparar-me para uma participação num recital para guitarra portuguesa e viola dedilhada na biblioteca do Palácio Nacional da Ajua. Embora vá com toda a certeza cometer "gafes" (faz parte da minha estúpida natureza... ai... os nervos), não poderia deixar de vos convidar para este momento... mesmo que a minha participação seja uma merda... o local é bonito lol
Assim sendo, quem quiser ir lá ouvir um pouco de música, fica aqui o convite... http://www.em-conservatorio-nacional.rcts.pt/agenda.html (procurem no dia 18 de Abril). Se por acaso algum de vós for, não fazeis caso da minha azelhice!
Boas noites.. que a Frida está a começar! (stp ainda não li uma linha de medicina lolollol... tou lixada!!!!!)

5 de abril de 2006

Apresentemos as nossas desculpas!

Estou aqui sem fazer nada, não queres ir à esplanada num sítio qualquer beber café? Ai, não posso! Tenho que ir buscar a bilha do gás! Ah, pronto, o dever primeiro, claro! Assim 'tá bem!

Tenho andado a ler um livro que me foi emprestado, sobre inteligência emocional. Embora muitas das coisas que lá estão escritas não sejam propriamente surpreendentes, o ambiente que é criado serve de suporte motivacional para que tenha mais atenção em relação a alguns mecanismos emocionais que as pessoas utilizam no dia-a-dia. No mesmo livro, a autora (é uma "ela", o que também não constitui surpresa...) sublinha a importância das reacções motivadas pelo instinto, a forma inata de analisar pessoas instantaneamente, a primazia das emoções sobre os raciocínios como geradoras de comportamentos e atitudes que se querem o mais adequados possível a cada colisão social , seja ela conflituosa ou apenas circunstancial!

Em muitos casos sabemos que as emoções são exteriorizadas, verbalmente, é certo, mas as interpretações levam a enganos e a confusões de consequências desastrosas.

Sem querer estar a interromper o assunto, não podia deixar isto em claro: está aqui a dar no Portugal no Coração, na RTP1, o Júlio Isidro com mais uma das pérolas da televisão nacional: aqueles cromos da harmónica (gaita de beiços, para os leigos) que foram não sei quantas vezes seguidas campeões do mundo, e que são uma família de um pai, não sei quantos filhos e netos e acho que até o cão sabe tocar aquela bodega! Campeonato do mundo de gaita de beiços. Que lindo, hã? Também devemos ser campeões da bisca de 3 e de quem come mais bolas de berlim. Deus ma pardoe. Que harmonia... desde que me lembro de existir que eles aparecem na TV!

Bem, continuando: sabe-se perfeitamente que as pessoas dizem A quando querem dizer B, particularmente quando são confrontadas com situações em que as emoções lhes saem do âmago, aparecem por baixo da pele, e elas sabem que será de algum modo ridículo, constrangedor, embaraçoso, penoso, seja o que for, se elas forem manifestadas na íntegra e sem areia. Então o A seria algo como: hoje não... tenho dores de cabeça, desculpa, amo-te querido!; o B será algo como: Pá, tou um bocado farta de ti!; ou então: Com essa barba hás de ter muita sorte...; ou ainda pior: Tou páquí a dizer que me dói a cabeça mas devia doer era a ti...

Mesmo assim, se as emoções são importantes para dirigir os nossos comportamentos, é igualmente importante estar alerta para podermos interpretá-los da forma mais adequada e elaborarmos a melhor resposta. Aqui entram qualidades como a experiência, a atenção, a inteligência, e, porque não dizê-lo, o conhecimento sobre nós próprios e sobre situações que envolvem terceiros. Sim, porque se é verdade que não devemos fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós, também não é mentira que nas costas dos outros vemos nós muitas vezes as nossas...

Vamos ao cinema à noite? Ah e tal, não deve dar, tenho que ir lavar o carro a campo-de-ourique! Ok, tudo bem! De que interessa retorquir que estão a chover calhaus, as estradas estão inundadas, há uma praga de gafanhotos que se espetam contra os vidros e faróis e pára-choques, nascem vulcões Etna por baixo dos pneus dos carros e que cospem cinza e piroclastos, e toda a cidade está em obras com lama e em pinturas de prédios e está tudo encharcado de tinta?Convém perceber a mensagem, mesmo que venha codificada, transformada, ou mesmo antagónica, em certos casos.
No outro dia estive até às tantas a ver um filme com o Nicholas Cage e o Malkovich em que eles vão num avião cheio de presos perigosos, sabem? E há uma cena em que uns bacanos comunicam por carta, aparentemente inofensiva, mas que se pusessem por cima uma cópia da "Última ceia", com os apóstolos e Jesus com os olhos furados, via-se pelos olhos as letras e elas formavam palavras e era assim que a mensagem passava. Perceberam? Isto é parecido.
Há desculpas muito boas que resultam sempre, como: Tenho varicela! Não posso sair de casa! Até dá para justificar faltas no ensino superior, porque é uma doença infecto-contagiosa! Mas tudo tem um lado mau: convém que só se use uma vez, senão pode-se ser apanhado numa mentira. E que a pessoa não conheça a nossa mãe! E já agora convém não ir passear nesses dias para o Colombo ou para o parque das nações... Estás aqui! Atão a varicela? Ah, vê lá tu que não era! Foi um rash que apareceu por causa de uma lata de atum que comi!

Outra desculpa muito boa é: Não vai dar! Tenho um casamento! Desculpa!Também aqui existe uma desvantagem, porque não se pode (ou não se deve, porque eu conheço quem o tenha feito) usar se o evento a que nos queremos cortar é outro casamento.

Mas nem sempre dá para elaborar uma desculpa boa. E o nosso cérebro é uma caixinha de surpresas que, no pânico de querer fazer malabarismo com 500 ovos sem deixar cair nenhum (ou seja, cortarmo-nos, não fazer a pessoa sentir-se mal, e ainda por cima não ser apanhado numa mentira) às vezes inventa razões fantásticas. Err... não posso! Tenho que ir tirar as natas ao leite! Tenho que ir desligar o esquentador! Tenho que ir fazer um defrag ao disco rígido! Ahmm... epá, não dá, desculpa, tenho uns anos da minha prima do Cacém! Atão mas... isso não foi em Fevereiro? Não, essa é a outra! Ah... assim 'tá bem! Não queres ir jogar à bola connosco? Anda lá, falta-nos um! Epá, só se me arranjarem uma t-shirt porque eu tou todo suado! 'Tá bem, a gente arranja, anda lá! Err... mas é que... Mas é que o quê? Não queres vir? Não, não é isso, é que fiquei de ficar em casa porque vem cá o homem da luz ver o contador! Ah... assim 'tá bem!

Em suma: aconselho-nos a sermos tendencialmente verdadeiros nas nossas respostas, porque isso evita males maiores; ao mesmo tempo, devemos estar mais atentos ao que nos é dito - conteúdo e forma - e sermos mais tolerantes e condescententes. Desta forma percebemos imediatamente a essência da mensagem e escusamos de estar a tentar encostar a pessoa à parede, apanhá-la na mentira, porque isso é inútil. Não devemos esperar algo como "não me apetece" como resposta. É muito raro isso acontecer, e pressupõe uma relação muito aprofundada. Nesse caso, ou deixa de ser necessária a "mentirinha piedosa", ou então ela adquire a dimensão de "mentirona à cabrão". Entre pessoas que se dão pouco, ou alguma coisa, o normal é ser-se enganado! Espera-se que assim seja.
Por mais que se advogue a sinceridade como elemento essencial nas relações, a verdade é que ela se transmite de muitas formas, acessória e simultaneamente à mensagem verbal. Basta estar com alguma atenção!

Por último, deixo-vos com uma curiosidade: há pessoas com lesões cerebrais bem localizadas que deixam de ter a percepção destes códigos sociais, e perdem a habilidade de dissimular. Simplesmente dizem sem quaisquer complexos a verdade. Essas pessoas são consideradas como tendo algum grau de incapacidade, o que de certa forma um tanto perversa que me está mesmo agora a ocorrer, mostra o que pensamos sobre quem é incapaz de mentir, e, por outro, o medo que temos de, muitas vezes, sermos confrontados com a verdade.
Ás vezes é pior a emenda que o soneto!