14 de março de 2006

Dia...


O tilintar do espanta espíritos que sobre mim dança, ao vento, evoca os tempos distantes quando vinha da secundária à hora de almoço.
Depois da neve, da chuva e do frio, eis que um calor de verão assombra este dia. Cheira a erva seca maresiada e em plano de fundo ouvem-se os pássaros cantar ao som de uma ou outra ambulância que ao longe passa, profanando o silêncio que me trouxe à escrita.
Há uma calma que paira em tons de azul e de repente tudo parece perfeito, relembrando que entre a tralha quotidiana ainda existem momentos assim!

6 de março de 2006

Hey you!



É com dificuldade que tento emergir da lassidão que me persegue. O meu cérebro arrasta-se à luz das sombras e passa por tudo menos pelas letras que se diluem no exsudado conjuntival destes olhos sonolentos. E penso! Quantos os olhos que algures se lavam, esgotados, entreabertos, vislumbrando apenas o foco de luz que os fere à sua passagem... limbo pestanejado que inglório procura depor o dia?
Ouço “Vissi d’arte” da Tosca de Puccini (“vissi d’arte, vissi d’amore, non feci mai male ad anima viva!”). Talvez porque a noite o permite e a restrição moral do estado semi-consciente já adormece em mim, encontro nesta solidão a voz que, escrava da arte e do amor, comigo implora por piedade divina (“Nell’ora del dolre perche, perche, Signore, perche me ne rimuneri cosi?”). As horas passam a cada olhar desmesurado e arrítmico. O peso do estudo, a aridez das páginas onde ainda sinto o cheiro queimado e quente da máquina que as pariu, secam qualquer sentimento em mim. Passo de ser humano a máquina e roboticamente vivo alucinada... iludida! Bem sei que os conhecimentos são imperativos para as leges artis, contudo há toda uma vida interior que nunca o chega a ser se não abrirmos a janela e deixarmos entrar o ar.
Por vezes parece que estou enclausurada num cubo preto, opaco, onde os conhecimentos que outrora floresciam na minha mente são sugados pelo fundo negro e “tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível”. Interrogo-me acerca da validade do esforço, se servirá de alguma coisa os anos esgotados entre as aspas de outros que já foram (e são) nossas.
Decerto que valerá mas impõe-se cautela. O tempo aguarda algures mas não espera e a agudez subtil da arte em que sem cair tropeçamos exaspera. Por fim, pode ser tarde para recuperar a alma que se constrói com experiências literárias, musicais (perdão pela falta de imparcialidade), plásticas. Há dias que não vejo a luz do dia e digo isto há anos...
Não quero com este texto talvez sem nexo e insalubre quebrar a motivação e laços empreendedores com a medicina que incondicionalmente amo... Apenas me apeteceu escrever um pouco para relembrar o espírito que por muito que se esforce, o que resta são imagens, pedaços de vida que em nós ficou de forma tão subtil e inusitada que se algum dia pudesse descobrir a fórmula tudo se revelaria mais simples e duradouro.
A música que ouvia deu lugar a outra e tantas outras sucedem e eu ainda aqui tentando encontrar um propósito para estes acetatos que agora engulo para mais tarde crucificar num quadrado de qualquer exame, talvez quem sabe vomitar frente a quem feliz o apanhe. Depois? Depois esquecerei tudo porque nada disto foi descoberto por mim. Tudo foi imposto face à aliciante nota tão importante para a aceitação das nossas escolhas e tão pequena face àquilo que deveria ser o propósito das nossas acções.
E pensar que o futuro da medicina, a nata, coalha nos bordos dos rectângulos das verdades absolutas e inequívocas mas deléveis, como um baralho que se desfaz à mais subtil brisa. O pior é que todos nós fazemos parte desse baralho, tacteando às escuras os desígnios daqueles que nos calçam com botas rotas (“Hey you, out there in the cold getting lonely, getting old can you feel me? (...) Hey you, don’t help them ti bury the light, don’t give in without a fight.”).

3 de março de 2006

Tetris 7 - Jogos de luz e cor


Tenho o meu dedo no botão.

Tenho as mãos frias e húmidas, respiro devagar e superficialmente. O coração bate, rápido e fraco. Engulo em seco enquanto sinto a traqueia apertada pelos braços da glândula tiroideia.
Já não me lembro há quantos anos não tinha insónias. Normalmente quando caio na cama estou tão cansado que me basta fechar os olhos. Mas não hoje. Fiquei a ver a luz dos candeeiros da rua a esvair-se nos cortinados por entre as frinchas dos estores, enquanto mudava de posição vez após vez.

Estou inquieto, mas em mim algo pequeno brilha de satisfação.
A minha mente povoa-se de pensamentos incertos, desconexos, mas todos eles convergem ainda para um lugar, como pequenos riachos que tombam inevitavelmente para o fundo do vale.

*

Lembro-me da minha professora de português do 8º ano a explicar-nos o conceito de tempo psicológico: uma hora custa muito a passar numa sala de aula, mas fica ainda maior se estivermos à espera de uma pessoa de quem gostamos, a contar os minutos. Nunca como agora compreendo tão bem a extensão do tempo psicológico. Podem passar-se meses a tentar que me esqueça de alguma coisa desagradável sem o conseguir, e depois bastam alguns dias que, passando depressa, fazem parecer o passado muito mais distante do que é realmente. Como naquelas naves do Star Trek em que se entra em Warp speed, as estrelas tornam-se linhas rectas e fica tudo para trás em questão de poucos segundos.
É como se esse passado se tornasse a preto e branco, ou amarelado, como as fotografias dos anos 80, na tela da minha memória. Até há pouco tempo olhava as ruas e apenas notava os prédios devolutos com as suas janelas de madeira podre, os sem abrigo a dormir na rua, o cheiro a urina de algumas estações de metro...

De repente vejo um pequeno clarão de cor no cinzento invernal. Lentamente, começo a persegui-lo, vislumbro-lhe os contornos, a massa de que é feito, os comprimentos de onda que irradia...
Entretanto vejo que as cores sobressaem do cenário, intensas, cruas. Vejo a passarada de fim de tarde a pulular nas pinheiras, o sol enorme e amarelo (parece de verão!) a esconder-se por detrás do estádio do sporting, e um ventinho a tirar-me o cabelo, já comprido demais, da frente dos olhos. Respiro satisfeito. Não sei muito bem com quê, mas que importa?
O meu sumo de laranja é realmente laranja forte, doce, nem me provoca a azia costumeira. E nem me deixo enervar pela estupidez dos empregados que mo trazem num copo de base hexagonal, que nem encaixa no pires de bica. Até me rio e me lembro que se calhar quando eram miúdos não brincaram com aqueles jogos de enfiar peças poliédricas nos sítios com a forma adequada... ou então tentavam introduzir um cilindro num buraco de forma triangular. Se não desse... uma martelada resolvia o problema. Um pouco como cada um de nós tenta jogar ao tetris nas nossas vidas.

Bebo o meu café, e, no fim, tenho no pires um bocadinho de chocolate de sonho para adoçar a boca. Chocolate que se derrete na língua contra o céu da boca, em mil bolhinhas, que quase consigo ouvir o barulho delas a rebentar, como água oxigenada derramada numa ferida.
Vou destruindo os grãos de açúcar na mesa, com a ajuda das moedas do troco do café; fecho os olhos, sinto a circulação a dar-me a volta à cara, à cabeça... espreguiço-me languidamente como se não tivesse mais nada para fazer, com a doce despreocupação de alguém para quem nada mais importa do que estar ali, quieto, sem dizer nada.
Sinto a aura à minha frente a brilhar como se não houvesse amanhã.

*

Reparei, no Colombo, numa coisa que me fez pensar. Os antigos acreditavam que as estrelas eram furos num enorme cobertor negro, que nos deixavam entrever a luz que estava para além. No caminho para uma casa de banho vi um enorme lençol preto estendido numa parede, com muitas luzinhas tipo árvore de natal, brancas, a fazer de estrelas. Gosto mais da visão dos nossos antepassados; acho que era mais optimista...

*

Vejo o clarão à minha frente, mais intenso, a deslocar-se mais depressa. Não sei já bem se era noite ou dia, mas corri para a alcançar. Vai demasiado depressa, e caem do céu obstáculos à minha frente, nascem barreiras do chão. Os animais correm em sentido contrário como se de um incêndio se tratasse. A minha visão fica mais aguçada, fruto da adrenalina; sinto-me um verdadeiro felino predador, vejo as coisas com mais pormenor ao perto, mais desfocadas ao longe.
Chego à margem de um desfiladeiro profundo e vejo o clarão do outro lado...
Procuro uma ponte do tipo da do Indiana Jones e o templo perdido, mas não existe. Meço a distância, mas logo percebo que é ligeiramente maior que o meu melhor salto de sempre. Olho para baixo e não vejo o fundo. E o outro lado está mais elevado...
Tento gritar, mas é inútil. Os nossos ouvidos percebem frequências diferentes, falamos diferentes línguas... e o ruído é demasiado alto para me ouvir a mim mesmo. Mesmo assim, enquanto virava costas, jurei ouvir um breve riso de satisfação.
Mas não sinto amargura. Quando vejo uma torneira a pingar corro a fechá-la; quando está um tacho ao lume com água a deitar por fora, baixo o lume. Há sempre algo a fazer... mesmo que custe.
Olho uma última vez para o outro lado: por entre um ambiente vermelho fosco, já só vejo nuvens de vapor a sair do chão.
*

Tenho o meu dedo no botão. Carrego? Para quê? E se não souber a resposta? É um botão vermelho para destruir o mundo? Ou é o botão para a próxima paragem da camioneta?

*

Enquanto volto para casa, de novo o cinzento: vejo os prédios devolutos e em risco de desabamento; noto os sem abrigo a pedir esmola no metro; gente feia a cuspir para o chão; os cães a derrubarem contentores do lixo para procurar comida; o cheiro a suor dos autocarros. O mesmo ventinho bate-me na cara, mas o cabelo já não está comprido demais. Vou triste, mas com o alento de saber que há luz e cor para além do enorme lençol da escuridão. Mais do que uma questão de esperança, é uma questão de tempo até que as alcance de vez. Não é caso para amargura!
*

Depois da aura, dói-me a cabeça; ela lateja em ritmo descompassado com a minha pulsação, como se tivesse outro coração autónomo no lugar do cérebro. A noite é curta para quem dorme, mas também para quem escreve: já é de dia...
Tenho o meu dedo no botão. Vou desligar.

21 de fevereiro de 2006

I might be wrong VI - "Integer out of range"

Nos belos tempos do spectrum, nos quais eu só sabia dizer hello, bye, pencil, window... apareciam estas frases no
monitor de vez em quando: "Integer out of range" ... bolas, o que queria aquilo dizer? Depois lá me ia bater outra vez no target renegade ou no chuckie egg e não me preocupava mais com isso.

Entretanto entrei na faculdade de ciências, e comecei a ter que estudar análise matemática e programação por livros em inglês. Nesse contexto lá percebi o que queria dizer o range e o integer. Integer referia-se a número inteiro, eventualmente pertencente ao conjunto dos números naturais (inteiros, maiores do que zero, ou seja, o 1, ou 2, por exemplo). Range é um intervalo, neste caso o intervalo de números que o computador conseguia atingir, ou então o
intervalo programado em determinada instrução. E o número inteiro estaria fora desse tal intervalo estipulado ... de maneira que o computador se queixava, e lá vinha tudo abaixo.

Sempre gostei muito desta frase, porque oferece lugar a trocadilhos, comparações, imagens. Integer faz lembrar íntegro, de uno, mas também de correcto, honesto, capaz de viver de acordo com os seus valores e as suas crenças. Out of range... se o range for o conjunto dos valores possíveis, ou dos valores existentes, é sinal que a nossa pessoa íntegra está fora do conjunto, ou seja, é uma inadaptada social. Por ser demasiado grande, demasiado valiosa para esse conjunto que é o universo de valores permitidos. Out of range também faz lembrar out of reach, ou seja, inatingível. Será o nosso íntegro um ser inatingível? Ou, por outro lado, será antes inatingível tal nível de integridade?


*

Estou farto de ver padrões nas relações entre as pessoas. Não é difícil descobri-los. As situações repetem-se incontáveis vezes e é muito acessível às pessoas atentas prever os desfechos. Excepto quando somos nós os envolvidos nas situações. Aí a coisa complica. O racionalismo vai ao ar e já não somos capazes de prever o que nos vai acontecer. Será que ela estava a olhar para mim? Será que aquele meu colega que me convida para o poker às quintas-feiras vai tentar apanhar a promoção em vez de mim? Porque é que a senhora da mercearia coça sempre o nariz quando me vê?

Ainda bem que as coisas são assim, senão já teria perdido ainda mais o interesse em conhecer pessoas novas do que perdi. Se fosse logo tudo trigo limpo nem entrávamos no jogo!
Porém, apesar dos apesares, despite todos os encantos da sedução, although os limites e imposições sociais terem o seu peso, impõem-se, a meu ver, algumas regras de conduta. Para preservar a honestidade, a integridade, o respeito! É cada vez mais raro encontrar numa relação entre duas pessoas a noção de verdade e igualdade. Cada um tem uma trincheira profunda onde esconde as suas munições, os seus víveres, os seus interesses em relação ao outro.
Cada vez mais acho digna de admiração uma pessoa que, sem ser vulgar, com subtileza, com classe, consegue levar a cabo uma relação com outra mostrando-lhe o que pensa dela, o que sente por ela, e o que espera dela; mesmo com uma colherinha de sedução, outra de enleio amoroso, outra de meias palavras, que é capaz de conduzir o outro a entender o seu ponto de vista, a sua torre de observação, e, porque não dizê-lo, os seus desejos!
Olha para mim, diz com os olhos que gostas de mim! Mostra com as mãos que me detestas como teu colega! Se vou ao teu lado no autocarro e te estou a irritar com o meu tamborilar de dedos no encosto do banco da frente, porque é que não me dizes? Se não queres ir jantar comigo porque tens outro em vista, porque é que me dizes que tens coisas para fazer e que "hoje não dá"?

Bah!

Vejo claramente tanta gente a brincar com os seus interlocutores, a induzi-los em erro, a chamá-los com o dedo e depois puxarem-lhes o tapete por debaixo dos pés! O que hoje é verdade amanhã pode ser mentira... e o que nunca foi verdade pode ser repetido tantas vezes que até engolimos como um mandamento (pedra e tudo) ou um axioma euclidiano.
Voltando aos padrões... mesmo com olhos bem abertos, no meio de uma multidão não conseguimos ter uma noção de globalidade. Somos o nosso próprio referencial, que ainda por cima tem movimento (o que é bom, porque se formos um alvo fica mais complicado de sermos atingidos), e portanto não somos capazes de aplicar toda a sabedoria adquirida pela observação desses padrões às nossas próprias situações.Por muito que saibamos, por muito experientes que sejamos, quando é connosco a porca torce o rabo.

Por exemplo: vemos ao nosso lado no café uma miúda gira a namorar com um gajo de casaco castanho, mala de pele a tiracolo com fivela de latão, e o Mundo de Sofia, de capa já meio gasta, debaixo do braço; passados uns temos vemo-la a namorar com um gajo que parece saído dos morangos com açúcar, e não nos admiramos nada! A gaja fartou-se da conversa pseudo-cultural do bacano e quis divertir-se com as futilidades do beto! Ou seja, dizemos mal dos dois gajos, e também dela, claro. E por dentro sentimo-nos bem por sermos tão perspicazes.
Mas se isso acontecer connosco e estivermos no lugar do pseudo, já não conseguimos perceber porque é que isso aconteceu! Nós, tão cultos e tão interessantes, dotados de tamanha densidade psicológica, trocados por um nuno afonso, um bernardo, um francisco (desculpa lá chico, mas é verdade, tens nome de beto) alimentado a nitrofuranos? Deus ma pardoe!

*

Os padrões e a integridade estão enraizados e alimentam-se da lógica e da coerência. As explicações que avançamos para as relações entre as (outras) pessoas estão sempre apoiadas na lógica e nesses padrões. E a lógica é como uma lâmina afiada, não dá hipótese. É cortante, eficaz, imbatível, e está lá sempre, visível, para quem a quiser usar. A verdade é que quando somos nós os envolvidos, esquecemo-nos dela.
Porque é que eu ando há tanto tempo a tentar falar com aquela pessoa por causa de uma coisa que me prometeu emprestar, e ela parece que está sempre indisponível? Deve ser destas redes de telemóveis, uma pessoa paga um dinheirão e depois não funciona como deve ser! Porque é que eu me ando há 500 anos a fazer a uma pessoa e ela até gosta da minha companhia e vem sempre ter comigo e passear, e querido pa cá e lindo pa lá mas depois nunca se descose? Ai, de certeza que essa pessoa está confusa e precisa de tempo para pensar, ou então é tímida! O que é que aqueles pardalitos estão a fazer um em cima do outro a piar imenso e a esvoaçar e bué penas para tudo quanto é sítio? Ai, de certeza que estão à bulha por causa de um grão de milho!
Meus amigos, não se esqueçam da nossa menos amiga lógica. Tudo tem uma explicação, mesmo que seja aquela que não queremos que seja a correcta. Mesmo que não tenhamos todas as peças do puzzle, não devemos desistir da ideia que, pelo menos no campo das relações entre as pessoas, tudo tem nexo. É daí que surgem os padrões que vemos nos outros, inexoravelmente.

Cada vez que me sinto comido por parvo numa ratoeira fácil de prever, até mordo a bochecha por dentro! Sinto-me burro por não ter visto antes, por não ter percebido que aquela luz no fundo do túnel era capaz de ser um comboio! Na altura não estávamos atentos, ou não estávamos preparados para usar da lógica. O que me irrita não é o não estar apto na altura, mas sim a facilidade com que desisto da trave mestra que é a ideia de... lógica. Não é por acaso! Não é coincidência! Pára lá de culpar Deus! As coisas têm uma razão de ser, só porque não a vemos não podemos ir logo a correr ver o tarot ou uma treta qualquer dessas!
Mas quando percebo a lógica (depois de o comboio me ter passado por cima), até fico aliviado. Aliviado por saber que mais uma vez se confirma: tudo tem uma explicação.

Para a próxima não vou desistir tão cedo de a procurar!

7 de fevereiro de 2006

"É só um café" - disse ela

Era ante-véspera de exame, ainda me faltava metade das páginas para ler (ou seja, meio pinhal de leiria em fotocópias - cada época de exames naquela faculdade é mais destrutiva do que um verão quente de incêndios...). Ia para casa depois de muitas horas a queimar pestanas, até que recebo uma mensagem no telemóvel: "anda tomar café!". Fui à net e respondi que não podia ser, que tinha que descansar. "É só um café!" - disse ela ao telemóvel.E pensei: bom, um café até dá para descontrair ...
Bem, lá entrámos no tal café/bar - montes de fumo no ar, bandas techno a tocar ao vivo buntzz buntzz buntzz gajos de óculos, cabelo amarelo e sweats cor de laranja a abanar a cabeça e a fazer gestos estranhos com os braços. Sentei-me lá nuns sofás de vime com uma mesa de vidro com os amigos à frente, e quando dei por mim já estava com uma bohemia 1800 e troca o passo à frente - "ah. é só para provares, não ia beber sozinha não é??". E eu: ah, assim tá bem!
Mais tarde, quiseram provar as novas abadias, e quando voltei da primeira viagem ao wc (sabiam que quer dizer water closet? 95% das pessoas a quem pergunto isto não sabem, mas usam wc para dizer casa de banho; as pessoas normais eu até percebo, mas os donos dos bares não saberem acho que é uma beca mau) já tinha uma garrafa à minha frente. "Ah não sabiamos se querias e então mandámos vir!".
Pronto, já que está aqui não se vai estragar!

Passaram mais uns momentos e quando dei por mim já havia espelhos em cima da mesa com riscos de coca e pessoal com umas palhinhas no nariz. Depois disso, só me lembro de acordar algemado à cabeceira de latão de uma cama, nu e com umas marcas de chicote nas costas. Mas acordei bem disposto e por isso ajeitei os livros para levar para estudar, eram 9 da manhã e fui às compras ao pingo doce.
Fui lá comprar umas cenas para me isolar numa sala de estudo, um pacote de bolachas e um chocolate.Quando ia pagar apareceu uma velhinha com um pacote de esparguete e disse "Ai eu sou muito velhinha filho deixa-me pagar, vá lá!" e eu olhei para ela e deixei, afinal eu ia pagar só duas coisas, mas pronto, está bem, fica sempre bem aceder a um pedido. Reconheci-a, e era a dona aqui de um armazém de comida para animais nas traseiras da minha casa, em que pagavam 500 paus ao pessoal para descarregar camiões aqui há uns anos. Tinha a cara bem velhinha, mas o cabelo era loiro platinado, parecia feito daquelas madeixas que estão nos pacotes de tinta para tingir o cabelo, nos supermercados!
Depois ela foi a correr e buscou 2 carrinhos de compras cheios de cerveja e garrafas de VAT69 e vinho do Dão e outras coisas. Olhei melhor e dos bolsos dela saiam volumes de maços de tabaco argentino e venezuelano.
A velha quis-me passar à frente, e tinha ali material avaliado em várias centenas de euros. De certeza que ia fazer contrabando. Não sei para onde, visto que cá as cenas são todas muito caras em relação a todos os países e planetas do sistema solar, mas de certeza que era isso!
Lá fui estudar meio cozido ainda da noitada. Era só um café era!

Mesmo assim lá tirei 16 no tal exame, o que até não foi mau porque eu só li o pinhal de leiria uma vez.

31 de janeiro de 2006

Tetris 6 - In Limbo ou Rumo ao esquecimento


Está um dia anormalmente frio, mesmo para o pico do inverno. Santelmo percorre a rua despejada de gente, num domingo anormalmente desolado, e repara que as gotas grossas de chuva se transformaram em pequenas partículas brancas, como se as rápidas rectas oblíquas de água se tornassem um corropio curvo, lento, de milhares de floquinhos de neve em câmara lenta. Como na tv.
Santelmo nunca tinha visto nevar ao vivo. Não acontecia tal coisa em Lisboa há meio século; embora já a caminho dos 60, era novo demais na altura para se lembrar do evento. Ou então, já é suficientemente velho para se ter esquecido. Está mesmo muito frio, tanto que já ultrapassou o ponto da percepção. As suas mãos, não as sente; o mesmo acontece com a sua face. Talvez pelo romantismo da neve, tal temperatura passou a ser por ele sentida como agradável.

Enquanto sobe lentamente as escadas do seu prédio, ouve os seus vizinhos através das portas fechadas, em grande
algazarra pelo inédito. Fecha a porta e aproxima-se do aquecedor, enquanto pendura a gabardina numa cadeira e tira o gorro da cabeça. Ambas as peças estão cobertas de cristais brancos que se dissolvem rapidamente na água em estado físico mais familiar.
Na televisão, muitos canais informam sobre aquilo que quase toda a gente no país já sabia. Lá fora, as redes móveis entopem-se, com toda a gente a querer contar a toda a gente o que todos já tinham saudado com alegria. "Que pena que não é natal" - terão pensado e dito alguns.

Santelmo veste agora o seu robe, cujo padrão é em tudo semelhante ao dos estofos dos bancos do metropolitano: riscas azuis escuras e quadradinhos vermelhos, berrantes, que agridem a vista. Mas ele vive sozinho, e para além de si próprio só o carteiro ou o homem da luz terão tido a hipótese de desviar a vista de tão desconcertante visão. Decide agora desligar o telemóvel, mesmo tendo meia dúzia de chamadas não atendidas e outras tantas mensagens não lidas. Puxa o aquecedor para mais perto de si, arruma o livro de astronomia que estava em cima do sofá, e que já tinha lido e relido incontáveis vezes. Quase tantas como os dias que tinham decorrido desde que ficou de mal com o mundo.

Com o volume da televisão mais baixo, Santelmo dá voltas à casa, que apesar de pequena é grande demais para ele sozinho. Descobre então que pelas frinchas das portas e janelas começa a entrar água e neve, e decide defender o seu forte com trapos e toalhas, calafetando todas as frestas. Olha à volta e sente-se agora mais seguro, mas impelido pelo balanço e pela situação, tranca também a porta de casa e a porta da sala. Com a calma de quem já nada teme, opta por encerrar as mesmas portas com tábuas de madeira. "Ninguém entra, e ninguém há de sair" - pensa para si.

Bebe agora um chá de menta requentado, de há três dias. Apaga o fogão com um sopro rápido e vai deitar-se no sofá com uma mantinha azul-petróleo a cobrir-lhe as juntas, com o livro de novo aberto por cima da barriga. Encontra-se na exígua sala de estar, que com a porta fechada ainda parece mais pequena do que é - um minúsculo cubículo forrado a papel de parede dos anos 80.
Santelmo está farto da atmosfera oxidativa do planeta Terra. Sente que a sua imensidão está cada vez mais contraída num pequeno ponto do espaço, de densidade infinita. Sente-se claustrofóbico, inadaptado num corpo celeste com tantas potencialidades e ainda mais limitações...
Viu há dias que tinham descoberto um novo planeta na via láctea, a 20000 anos-luz da Terra, mas muito semelhante ao planeta azul. Desde então tem sonhado todas as noites com uma emigração para esse tal planeta, 5 vezes maior do que o nosso. Mas a noite nunca tinha sido suficientemente grande para completar a viagem.
"Sou capaz de lá chegar" - murmura, convicto, enquanto sonha, ainda acordado, e vai fechando lentamente os olhos, embalado pela silenciosa atmosfera adocicada de hidrocarbonetos.

*
Lá fora a neve continua a acariciar as janelas; as crianças continuam a aproveitar o insólito e fazem bonecos de neve, embora desiludidas por estes não se parecerem com os dos desenhos animados. Na televisão, quase sem som, passam agora anúncios de toques polifónicos de sapos a arrotar, sapos DJ's e outros que tais... mas Santelmo já voa, embora com os pulmões cheios de fluido gasoso mais denso que o ar, no começo da sua viagem à descoberta do novo planeta.

Dizem que o tal planeta tem uma temperatura média de -200 ºC, mas ele não se preocupa, pois lá há de haver aquecedores. E ele sempre gostou das sensações frias... de quando punha os pés na banheira e sentia as primeiras gotas geladas do chuveiro nos pés, ou quando entrava na cama para se deitar e sentia o seu corpo mole contra os lençóis glaciais... ou quando saía do metro e sentia as correntes de ar das estações modernas.
A uma velocidade muito superior à da luz, vai sentido na pele o sabor do vácuo, enquanto canta uma música que se lembra de ter ouvido em casa dos netos.

The realm of soft delusions, floating on the leaves
On a distant shoreline, she waves her arms to me
As all the thought police, are closing in for sleep
The dilly dally, of my bright lit stay
The steam of my misfortunes
Has given me the power to be afraid

And in my mind I'm everyone
And in my mind
Without a care in this whole world
Without a care in this life
It's what you take that makes things right...

Santelmo nada velozmente no leite da galáxia, desviando-se de meteoros, crivando-se de poeira cósmica. A temperatura está próxima do zero absoluto, e a sua pele engelhada adquire a cor da neve que deixou para trás... vê milhões de estrelas bem de perto, e salta-as depressa como se fossem fogueiras dos santos populares.

O planeta a que se destina demora 10 anos a dar uma volta completa ao seu sol. Para Santelmo, isto dará uma nova perspectiva do tempo. Um ano valerá por dez... como será bom ter a sua vida prolongada desta forma! Um novo lugar onde não haverá lugar para expectativas goradas, intrujices... onde não se perde tempo com reflexões inúteis e há todo o tempo do mundo (como designará Santelmo este mundo?) para sentir. Um planeta sem fome, sem guerra, sem egoísmo, inveja, ganância... sem que ninguém obrigue ninguém a sobressair ou a desaparecer...
Um novo ambiente, sem amores mal vividos, incompreendidos ou não correspondidos. Um sítio totalmente novinho por estrear onde estará sempre pronto para abraçar cada sensação e sentimento com o fulgor que lhe é devido. O cheiro dos pinheiros... será que há pinheiros lá? O doce de um chocolate Regina ou de outra marca qualquer...
Neste novo planeta de Santelmo, os avós terão cara sempre jovem até morrerem, e quando morrerem (sempre de velhice e de morte natural) será feita uma festa que durará 3 dias! Toda a gente terá cabelo como o das crianças. Não há nada mais macio que o cabelo das crianças.

Mas Santelmo fica apreensivo. Haverá gente no novo planeta? Ou ficarei só comigo mesmo? Será que fui o único a ter esta ideia?
"A viagem está próxima do fim, Santelmo! Não devias desacelerar?".

Desesperado, Santelmo não consegue deixar de acelerar o seu voo. Começa a entrar na atmosfera do novo planeta, e a gravidade, 5 vezes maior do que a da Terra, impele-o cada vez mais depressa para a sua superfície. A sua pele passa de branca gelada para vermelha rubra, e de novo branca-brasa.
"Vou ficar sozinho? Ninguém viajou também? De que vale um planeta perfeito se é só para mim?" - pensa Santelmo, envolto numa bola de fogo, resignado com o seu equívoco. Vê a superfície do planeta cada vez mais perto, branca gelada a -200ºC, enquanto o seu robe se volatiliza com o atrito da atmosfera butânica, muito mais densa do que a da Terra...
vê as montanhas geladas,
os icebergs,
os pequenos cristais de neve no chão,
a escuridão absoluta.
*


Muitos dias depois, um grupo de bombeiros arromba a porta da casa de Santelmo. O ar está irrespirável, por isso avançam, de lenços na cara, sem ligar as luzes, até ao sofá onde se encontra um enorme monte de cinzas que esvoaçam brandamente pela deslocação do ar quente do aquecedor. Por cima, está aberto na primeira página um livro, semi-coberto de neve fina, em cuja capa se lê "O meu primeiro livro de astronomia".

8 de janeiro de 2006

I might be wrong - parte V - Presidenciais e outras que tais...

"Fico contente porque o PSD me apoia, mas se notarem bem estão aqui imensas pessoas de muitos outros partidos que me apoiam. Em suma, a gente simples está comigo" - disse Cavaco Silva, pouco antes de pedir uma poncha madeirense "muito fraquinha, por favor", e de dizer à sua esposa "está fraquinha mas é melhor não provares, mariazinha". Fico sem saber se esta é uma demonstração de preocupação para com a saúde da sua companheira, ou se é mais uma das inúmeras manifestações de machismo, provincianismo e fraqueza de espírito. Mulher que és, álcool não beberás, terá dito a tal gente simples do tempo em que se despejavam os alguidares de água suja pela janela fora, e em que os ratos transmitiam a peste por entre as imundícies e excrementos medievais.

Bom, pelos vistos a poncha estava boa, a avaliar pelos mnhá-mnhás e lamber de beiços escancarados com que o antigo primeiro ministro nos brindou.

Já Mário Soares, nosso antigo presidente, mostrou ser perfeitamente possível manter com 80 anos a ginástica mental, memória, e bagagem de expressões estilísticas fundamentais para um tão grande empreendimento como é uma campanha presidencial, ao corrigir rapidamente quem o confrontou na rua com uma alegada afirmação de Ribeiro e Castro: "Não foi o líder do PP que disse isso, foi o presidente do CDS. É feio... não é bonito...". E terá aproveitado para enviar mais picardias à comunicação social, que nitidamente está do lado do principal candidato da direita.

Tinha proposto a mim mesmo não ligar às presidenciais, nem tão pouco ao resto do panorama político português. Já percebi que das mentes mais letradas e bem-falantes (não esfreguem já as mãos de contentes! não estou a referir-me aos candidatos) saem as piores ideologias. Não sei se por preguiça mental, se por enquistação de valores vigentes nos respectivos meios sócio-económico-culturais. Posso evitar o debate com pessoas que considero nem estar à minha altura do ponto de vista da instrução, do intelecto, ou até da experiência adquirida; mas também já vi que as pessoas gostam muito mais de caras, candidatos, cores, porta-estandartes... do que propriamente falar em ideias, factos, políticas práticas. O que me deixa mesmo muito pouca gente com quem falar sobre política de forma o menos tendenciosa possível.

"Ai, dizes mal do cavaco, é porque não és bom chefe de família! Não vês que o pai dele o obrigou a trabalhar numa horta até ele querer tirar o seu curso? Ele cresceu a pulso! É um excelente, excelente economista!" - dirá o merceeiro da esquina, autoridade reconhecida no campo das políticas macroeconómicas e geoestratégicas, que sabe fazer (com lucro à casa) contas de somar à mão e à registadora. "Mas deixa lá isso rapaz, viste o golo do Simão? Não se muda de partido, não se muda de clube, não se muda de marca de cerveja, hein?". Palmadinha nas costas, gaiato!

"O Soares? Ele trata por tu todos os presidentes da UE e arredores! Ele priva com todos os poderosos do mundo e tratá prestígio e diálogo a portugal! Ele é que fez a revolução! Não votar nele é querer que a direita se instale de novo no país! Vamos ser fascistas de novo! Se tivesses vivido antes do 25 de Abril percebias! Puto de merda..." - dirá um qualquer pseudointelectual bairro-altista, enquanto brinda com shots de absinto pela falecida Ilse Losa, trazendo na outra mão o inevitável Mundo de Sofia.

Nesta selva só podemos contar connosco próprios. Eu conto com o que me lembro de ambos, com o que está provado e é de domínio público, com o que entra pelos olhos dentro.

Do cavaco, lembro-me bem da atitude pouco dialogante que o governo dele teve. Lembro-me bem de como foi usado o dinheiro dos subsídios comunitários, e como se vê não foi na saúde, justiça, ensino...As pessoas não se lembram do buzinão da ponte, mas eu lembro-me muito bem. Tal como também me lembro da porrada que os manifestantes levaram n vezes quando o Dias Loureiro era ministro da administração interna, chefe da polícia, whatever. Rapou o bigode, mas não me engana. E a pandilha é toda a mesma da altura. Também me lembro dos Belezas, e da merda que fizeram em todo o sítio por onde passaram, e cá continuam a comer à conta.Também me lembro que, nos mesmos 10 anos, um país como a República da Irlanda, com menos subsídios, subiu as suas taxas de alfabetismo para uma das mais altas da europa; o seu ensino superior, o seu nível de vida, subiu e ombreia com outras potências da UE. Nós ganhámos autoestradas, parabéns. Posso ir ao algarve, a trás-os-montes, tudo isso em menos de 3,4,5 horas. Mas claro que isso é se tiver dinheiro para a gasolina, e se não me espetar a meio do caminho, porque com estes amigos automobilistas com que me cruzo, muito cívicos, muito evoluídos, muito educados, a probabilidade é um assunto delicado. Já para não falar do caso das reservas de ouro, confiadas a um yuppie qualquer de quem alguém dizia bem, para as jogar na bolsa. Irrita-me que toda a gente diga que o gajo é óptimo economista quando só fez merda com o dinheiro que havia na altura!
Uma coisa eu vi bem, ninguém me disse: quando o PSD voltou ao poder, os pedintes e os sem-abrigo aumentaram muito no centro da capital. Fui só eu que notei? Muito mais a cravarem uma moedinha não sei para o quê. Muito mais gente a dormir na rua à noite. E o cavaco é do tipo "deixem trabalhar quem quer trabalhar, se trabalhares terás o reconhecimento devido". Uma merda! Foi no tempo dele que apareceram os Isaltinos, Macários Correias e afins... verdadeiras nódoas no nosso pano à beira-mar plantado!

Quanto ao Soares... os seus mandatos foram sempre marcados pela sua truculência e arrogância (essa ele ainda mantém - dizem que os vícios de feitio ficam refinados com a velhice). Lembro-me bem dele a andar em cima de uma tartaruga daquelas das Galápagos. Também me lembro da bela famíliazinha dele: a sua esposa, Barrosã, como presidente da Cruz vermelha (muito misericordiosa, não haja dúvida), e do seu filho que se despenhou com um avião carregado de marfim (carregado demais, talvez tenha mandado fora os pára-quedas e metade da gasolina das asas para caberem mais uns dentinhos de elefante) no meio de áfrica, quando o tinham avisado que os ventos estavam muito fortes para descolar...
Sei também que se dava muito bem com a Unita, tem uma bela colecção de G3 das nossas antigas, e adora diamantes. Deve ter adorado quando descobriram o Savimbi, gordo que nem um macho, no meio da savana angolana, cheio de moscas. Nem os leões lhe pegaram.
Tendo em conta que o nosso amigo bochechas só fez merda nos anos em que foi 1º ministro com a imprensa e com os meios de comunicação social - fecho de jornais, tentativa de fazer de alguns deles meios de propaganda do PS, não aumentar durante 5 anos consecutivos os empregados das empresas nacionalizadas, entre as quais os jornais - do que estava à espera? Gambas? De apoio na campanha? Ainda bem que há algumas pessoas que têm alguma memória no meio disto tudo. Também os comunistas não irão engolir o sapo desta vez, votando nele para o Cavaco não ganhar. Sozinho e abandonado por toda a gente, velho, cansado, com falhas de memória, raciocínio lento, irascível, arrogante como nunca, devia era encostar às boxes.

Não é preciso ser-se culto nem estar muito atento para tirar o perfil da nossa classe política. Acordem, pelo amor de deus! Gente simples? O que é gente simples? Será que queremos um economista como presidente? É a mesma coisa que comprar um regador para secar o cabelo!E um avôzinho vaidoso, baboso e arrogante? Que teve um ranço do caraças antes do 25 de Abril, esteve preso com mordomias, e estava em frança durante a revolução (frança acho eu, não me lembro bem, mas cá é que não era!) e apareceu aí para cavalgar o movimento!

Uma nota final para os outdoors escolhidos por ambos os candidatos: que fotos tão feias, tão mal escolhidas. Que frases tão lugar-comum!... Presidente de todos os portugueses? Sempre presente nos momentos difíceis? Isto pode ter uma relação de causa-efeito! Será que não era Soares o culpado dos momentos difíceis? E a cena do Cavaco aparecer com a esfera armilar por detrás da cabeça... (bem, a PT pode usar o hino nos reclames da tv - qualquer dia fazem papel higiénico verde, bolinha amarela, vermelho, tracinhos... verder, bolinha amarela, vermelho, tracinhos...).

Esta foi a última vez que falei de política em 2006, e, indirectamente, me lamentei pelo facto de os políticos contarem com os votos da gente simples. Gente sem memória. Gente que tem uma hortinha e só teme que lhe vão lá roubar as couves-lombardas. Ou gente que mal tem dinheiro para pôr a sopa na mesa, mas que deseja ardentemente um BMW à porta de casa "como aqueles das revistas, tão bonitos!" e faz das tripas coração para comprar um telemóvel topo de gama para os filhos. E depois eles são assaltados, gamam-lhes o telemóvel, e a culpa é dos pretos que não trabalham e só gamam, deviam ir lá para a terra deles.

Não tenham dúvidas, caros leitores. É esta gente simples que vai eleger o Cavaco para presidente.

Boa sorte.

P(ost) S(criptum) - Não falei dos outros todos. É que tenho vida própria e nunca mais sairia daqui.

28 de dezembro de 2005

CAROS AMIGOS... E COLEGAS!

Numa das minhas navegações pela net encontrei este artigo http://resistir.info/portugal/ppp_saude.html#asterisco que na minha opinião está interessante!
Fala um pouco sobre as PPP (parcerias público-privadas) que andam tanto em moda:)

Boas leituras ;)

24 de dezembro de 2005

I might be wrong - parte IV - especial de Natal - Arroz de marisco

Este ano o espírito natalício chegou mais tarde do que é costume. Escrevo-vos na véspera de natal, faltam poucas horas para a meia noite, e a minha pequena casa já se encheu de família a fazer doces atrás de doces; está um cheiro a fritos que parece uma roulote de farturas dentro de uma fábrica de donuts. Estão todos a brincar uns com os outros, vai aqui uma barulheira danada, os cães correm a roubar nozes da cesta, tudo isto envolto numa fumarada propícia a um encontro de sebastianistas...
Chegou realmente mais tarde... não me sentia nada natalício, mas ao ver a minha casa desta maneira, uma pessoa transfigura-se. O frio está na rua, a família em casa e os doces na mesa. Algumas prendas debaixo da árvore... está tudo no seu devido lugar. Vamos sentir-nos mais quentinhos com a comida e com os copos, e até podemos ver algumas pessoas sorrir nesta altura do ano. É uma oportunidade para esquecermos as nossas diferenças, as nossas quezílias, e sermos um pouco mais tolerantes.
Não me interpretem mal, caros leitores. O Natal não deve ser tudo isto. O Natal pode ser isto. Se as pessoas quiserem, mas mais que isso, se sentirem e forem espontâneas.

Quem lê este blog já está habituado aos textos do Acre, e por isso não necessita de esclarecimentos adicionais: sabe com certeza que não estou aqui para fazer uma declaração de boas festas ao jeito joséssocrático. E portanto já estão avisados que mais frase menos frase vem aí chumbo grosso!

Mas... o meu coração amanteigado (diga-se, aterosclerosado com tanto frito e gordura) obriga-me a deixar votos de que passem umas boas festas, tal como eu vou passar de certeza. Nem todos têm a nossa sorte, por isso devemos dar graças ao que temos e ao nosso modo de vida.

*

Ser, estar, parecer, permanecer, ficar e continuar. São estes os verbos copulativos que aprendi na escola. Como copulativos que são (interessante como na altura fazemos piadas sobre sexo com tudo e mais alguma coisa, mas somos tão burrinhos que nem sabemos o que significa cópula), servem para ligar, ou seja, não podem (normalmente) ser utilizados sozinhos.

Para mim o Natal é um substantivo próprio copulativo. Serve para unir as pessoas que se sintam bem com isso; a quem apeteça dar carinho e atenção, mesmo àqueles que não nos tratam por vezes tão bem como gostaríamos. Não é uma obrigatoriedade de sermos cínicos com toda a gente. Se assim for, mais vale ir passar a noite a jogar no casino, ou a beber ginjinha num qualquer miradouro sobre o Tejo (já o fizeram? quando o fizerem, venham partilhar comigo a vossa experiência...). É por isso que não consigo compreender as pessoas que vão comprar prendas nesta altura sentindo-se obrigadas, mandam montes de sms para os telemóveis de toda a gente, e depois vêm com a conversa de que o natal é consumismo e hipocrisia. Se é isso tudo, então mandem-se ao rio, meus caros! Quem vos obriga? Não vejo ninguém em tronco nú, cabeça rapada à gilette, pulseiras e cara de egípcio, atrás de vós prontos a chicotear-vos caso não estacionem o carro no El Corte Inglés!

Não tenho graveto, não tenho paciência, não tenho tempo. Não vejo o natal como uma altura especialmente agradável para se darem prendas. Não as dou no Natal e ponto final. E quem me levar a mal, é porque não percebe a minha maneira de ser e de gostar das pessoas. É porque as respeito que não lhes dou prendas. É uma forma de lhes dizer: gosto de ti, não só no natal, por isso nem me sinto obrigado a dar-te o que quer que seja, porque gosto da tua companhia e é assim que te presenteio, como tu a mim. A não ser que seja algo que cai do céu e que é tão, mas tão apropriado que é impossível não oferecer. Como isso raramente acontece... e porque haveria de acontecer no natal? Laplace não se aplica nos casos de probabilidades extremamente raras!

Aqui há uns anos, quando perguntaram ao Herman José o que é que ele achava das críticas que lhe faziam sobre a alegada descida da qualidade dos seus programas e sketches... ele respondeu de uma forma que me pareceu brilhante na altura: "As pessoas quando comem arroz com marisco também têm
de comer o arroz, não comem só as gambas..."; esta frase ficou-me gravada na memória desde então. Se há coisas nas quais concordo que se aplique tal conceito, há outras em que cada vez mais me convenço de que não é assim. Aliás, julgo que não é preciso falar na carreira que o Herman tem feito desde a Herman Enciclopédia para o desacreditar.
Será que é sempre preciso um termo de comparação para a valorização das coisas, das situações e das pessoas? Será que é preciso morder uma vesícula biliar para podermos dizer de nossa justiça que um Chocaccino (do Cup&cino, que, de resto, subscrevo com veemência), é doce? Acho que não...

Tenho que o dizer: não suporto aquelas pessoas que me mandam mensagens de natal e boas entradas, e que eu sei que não me ligaram durante o ano que passou e nem me vão ligar no ano que aí vem. Fico a sentir-me esquisito, e optei por não responder, e nem mandar a ninguém. E é curioso que as pessoas que não me mandaram mensagem foram precisamente aquelas de quem mais gosto (com poucas excepções). Isto significa que as vi há pelo menos uma semana atrás, ou falei com elas frequentemente, e portanto não se justifica! Há uma excepção, e acho que essa pessoa sabe quem é, que tem desculpa. Preferia que, se só me contactam no natal, nem no natal me contactassem. Muitas delas ocupam lugar de destaque nas minhas memórias, gravadas a letras de ouro; gosto de me lembrar delas assim, não preciso que me enviem mensagens. E há aqueles números que já apaguei do tlm, e que já nem sei de quem são... e se assim é, é porque me irritei com elas porque nunca se mostram interessadas em cultivar a amizade que eu um dia tentei cultivar.
Eu tenho destas coisas, sinto-as muito vivamente. De nenhum fruto queiras só metade, já dizia o Saramago. Se me queres como amigo, não me deixes desamparado, fala comigo tal como eu falo contigo. Se estou sentido é porque te recusaste a beber café comigo por um motivo estúpido e falso; se estou irritado, é porque gosto da tua companhia e não te vejo interessado(a) tal como eu em manter o contacto. Tens que falar comigo mais vezes. Não me mandes "FW's" para o email, não me mandes sms da net onde se podem mandar 5 iguais para pessoas diferentes ao mesmo tempo! Não percas tempo... o teu e o meu. Não percebes que é só uma maneira indirecta de me desvalorizar? Quem me dera que algumas pessoas lessem isto e percebessem o que quero dizer. A minha vontade é que essas pessoas percebessem que as estou a mandar à merda precisamente porque gosto delas; é a minha maneira de deixar, de todo, de contactar com elas, de lhes dar oportunidade de ouvir: "ok, gosto do que eras para mim, gosto do que podias ter sido, mas esta forma distante de relacionamento não me agrada, por isso prefiro pensar que emigraste para a Nova Zelândia e nunca mais vou falar contigo porque não podes, e não porque não te apetece". Querem melhor manifestação de respeito pelos sentimentos humanos?

Temos tão pouco tempo para as pessoas de quem gostamos e com quem gostamos de estar! Tempo real, tempo mental, o que quiserem... porquê gastar tempo e dinheiro? O natal não é para as pessoas se sentirem mal ou culpadas. Tenho muita sorte, estou rodeado pelos que gosto mais e que gostam mais de mim. Não quero que me desejem um bom ano. Quero que o passem comigo.
Por isso, amigo Herman... fica lá tu com o arroz, que eu como as gambas. E tal como ele... parece que muita gente não se importará com o negócio.

Vejo-vos por aí...
Acre, vosso amigo verdadeiro.