2 de julho de 2008

Colorblind




Percorre o corredor que me leva do balneário até ao rectângulo de jogo. Sobe as escadas e ouve o barulho dos pitons a bater no chão. Ouve também já lá fora a música da liga dos campeões e o coração bate descompassado, seguramente a mais de 200bpm. Invade-o ansiedade dos grandes jogos, mas, como dizem os comentadores desportivos, essa ansiedade desaparece com o apito inicial do jogo.
Junto à linha lateral, vai aquecendo ainda com o colete amarelo berrante vestido. A multidão agita-se, e os flashes das máquinas fotográficas invadem o ar, obedecendo apenas à estocástica. Os cânticos arrepiam a relva. Os músculos retesam-se e sente-se vivo, como uma brasa velha a quem sopram.
Não obstante, vem de uma lesão prolongada. Diz-se nos jornais que passou ao lado de uma grande carreira devido às graves lesões e às más opções de gestão da carreira. Mas tudo o que ele queria era jogar futebol. Tudo o que ele sempre teve foi muito amor para dar à camisola.
Assim, o espectáculo começa com um silvo agudo que ecoa contra as cabeças dos espectadores, mas ele está no lugar a que já se tinha acostumado - o banco. Sente-se preparado para jogar, embora um pouco inseguro. "Estou pronto. Estou pronto. Estou pronto. Estou bem. Só preciso que me tirem de mim mesmo.".
Outrora, ele sabia bem o que havia de fazer à bola, e adivinhava a posição dos colegas de equipa de olhos fechados. Estes, por sua vez, sabiam exactamente o que esperar dele, e portanto tudo corria ordeiramente. Umas vezes melhor, outras vezes pior, claro. Que diabo, nem tudo pode correr sempre bem - a inspiração não é sempre a mesma, os relvados por vezes não ajudam, e até o árbitro pode ser malandro. Não obstante, a audiência entoa ainda várias canções com o seu nome.
O jogo não começou de feição para a sua equipa. Dois golos de rajada dos adversários provocam o desalento entre os jogadores. Para piorar, o jogador mais esclarecido lesionou-se e não pode regressar ao relvado.
Sente um baque no peito. "Será a minha chance? Não, claro que não. Vai meter mais um avançado e abrir o jogo. Ou então... talvez pôr um médio defensivo e jogar para não ser humilhado. Não me vai pôr a mim, de certeza".
Mas o treinador decide-se mesmo por ele. "Será uma jogada de moralização? Sou o mais velho, se calhar precisam de um líder para tranquilizar a equipa. Não compreendo ... ".
Recebe o braço do treinador por cima dos seus ombros. Vê a placa ser levantada com o seu número.
"Joga o que sabes" - diz-lhe o mister.
"Mas mister! Para onde vou jogar? O que quer que eu faça?" - entra em campo sem obter resposta, empurrado pelo 4º árbitro.
No emaranhado de jogadores e dos duros confrontos físicos, lá lhe passam a bola de vez em quando e a multidão faz frissom. Outras vezes, as suas opções parecem criticadas por todos, que parecem não o compreender.
"Não sei o que faça. Será que é para defender? Será que é para atacar?".
Desce no campo e começa a recuperar bolas. Os sócios não parecem contentes. Vai mais para a frente, tira dois adversários do caminho e passa a bola ao extremo, bem colocado. O treinador joga as mãos à cabeça, furioso. Num pontapé de canto da equipa contrária intercepta a bola com o peito e sai a jogar, e ouve os gritos da multidão. Continua com a bola, atravessa o campo todo, passa o guarda-redes contrário e marca golo. A assistência passa-se da cabeça, os comentadores ficam roucos. O jogador está feliz, conseguiu reduzir a desvantagem. É preciso continuar a correr atrás do prejuízo.
Logo a seguir, a equipa contrária marca mais dois golos, e toda a gente olha para ele com cara de poucos amigos. "Mas o que fiz eu? Era eu o defesa a pô-los em jogo? Tentei cortar a bola... não sei o que faça...". A poucos minutos do intervalo vê o seu número na placa de substituições.
Joga as mãos à cabeça e sente uma superfície aborrachada contra as gotas de suor da testa. "Que luvas são estas? Não me explicam nada...".
Para a história fica apenas o resultado.
*
A expressão "amigos coloridos" sempre me deixou algo desconfortável. Na verdade posso mesmo dizê-lo: odeio a expressão. Soa-me a hipocrisia, não sei explicar bem porquê. E o problema das cores é que são muitas, variam muito de intensidade, e deixam espaços entre elas onde podem entrar outras cores. Há sempre espaço para o vermelho vivo, mas também para o azul escuro....e nas pontas da paleta, há sempre o branco luminoso de um lado, e o preto do outro. O preto-necessidade-de-suporte-avançado-de-vida; o preto-ficar-a-soro. Quem não percebe, tivesse percebido.
E o pior de tudo é que um dos amigos coloridos, na tentativa de chegar ao branco luminoso (que nunca chega), arrasta o outro para perto do preto. Aí, uma das partes da paleta fica toda borrada - de medo, também. Também nestas coisas não há democracia. Aliás, se há coisa que é definida é a posição de cada um relativamente ao outro. Esta história faz-me lembrar os líquenes.
Odeio coisas-porque-sim. Que existem para passar o tempo ou para preencher não se sabe bem o quê. E portanto, naturalmente, odeio relações que não têm sentido, em si. Se ambos gostarem do outro, então não são amigos coloridos. Ou namoram, ou casam, ou juntam-se, ou, de outro modo, são amigos. Para quê as cores?
Tenho para mim que há sempre alguém que se lixa nesse tipo de "simbioses". Na verdade, nem sei porque é que pus aspas na palavra. Afinal é mesmo uma simbiose. Por definição, esse tipo de relações bióticas reserva para cada um dos intervenientes um papel diferente. É claro que as espécies podem viver separadamente, e na relação há sempre uma que tira um proveito revestido de maior dependência que a outra. Um deles fica porque gosta do outro a sério e tem dificuldades em se ver com outro qualquer. O outro... bem, o outro recebe interesse, companhia e afecto, em troca da sua tolerância. A pouca democracia prende-se com o facto de um deles estar satisfeito com a vida e com a perpetuação desse tipo de situações, enquanto o outro vive numa tensão, sem saber o que fazer à bola: se a chuta para canto e joga na defensiva, ou se pega no jogo, arrisca o peito às balas, e tenta virar a "contenda" a seu favor, que é, no fundo, aquilo que julga ser melhor - pelo menos, idealmente - para ambos.
O que queria sublinhar era o facto de estas simbioses serem feitas, por definição, a partir de duas espécies diferentes. Ou seja, não podem acasalar, procriar, etc. Acho que não me engano muito se disser que a bela e o monstro talvez não tenham sido feitos um para o outro.
Mas podem ser amigos.

23 de maio de 2008

Perturbação Humorística #6 - Porque esta vale a pena

Premissa: Uma flash-mob de 100 pessoas persegue incautos cidadãos pelas ruas de uma cidade japonesa.

Gritos de guerra traduzidos:
Tipo #1 - Aqui vem o Tsunami!
Tipo #2 - Aqui vem o Tsunami!
Tipo #3 - Foi este gajo!!
Tipo #4 - (nada)
Tipo #5 - Cuidado, abaixem-se!


Perturbação Humorística #6 - Porque esta vale a pena

Premissa: Uma flash-mob de 100 pessoas persegue incautos cidadãos

13 de maio de 2008

Campistas-Ciclistas II - 2


Dia 1. Ao contrário de há 7 anos, em que a travessia do Tejo foi feita do Cais do Sodré, desta vez apanhámos o barco em Belém. Esta é a razão pela qual se vê a Ponte 25 de Abril. Que bonito: passar por debaixo da ponte 25 de Abril no 26 de Abril!

"Já não gosto da ponte. Antes, quando olhava para ela, fazia-me lembrar férias, praia, sol... entretanto a sensação invocada mudou completamente. E também atravessar o rio de barco já não é tão giro como me parecia antes. O barco a atracar, a bater nos enormes pneus de tractor ou de camião pendurado na parede da doca... o homem a lançar as cordas para a margem... já me pareceu bem mais pitoresco.".




Perto de Setúbal. Pequena paragem para descansar, após uma subida mais puxada. O que vale é que a seguir a esta curva vem uma descida excelente... deu para atingir os 67 km/h de velocidade. Parece pouco, mas quando se vai numa bicicleta, com um suporte com bagagem atrás, com o pneu de trás completamente lisinho, sem relevo, e com travões sub-óptimos, com possíveis carros atrás, a ter que fazer as curvas fora de mão para ser mais seguro... a sensação que me dá é que a qualquer momento a bicicleta se vai desintegrar, ou então vou apanhar um gato na estrada, ou um buraco, ou uma poça de óleo, e... acabou-se.
Foi de tal maneira que, ao ver a meio da descida a placa com o desvio à direita para o Outão, travei, e só parei uns 200 metros à frente. Nem me atrevi a virar.
Tirei esta foto desta maneira, não porque estivesse muito cansado, mas porque há 7 anos tirámos uma igualzinha, neste mesmo sítio; creio que quem aparecia era o Chico. Continuo a procurar as fotos, mas esconderam-se bem...

26 de abril de 2008

Campistas-Ciclistas II


Amanhã às dez, em algés. Combinámos assim mas não foi para rimar. Em frente à entrada do túnel da estação dos comboios.

Há sete anos, fizemos a mesma coisa. Fomos descendo. E descer é uma palavra engraçada de usar neste contexto, porque quem lê pensa que são só descidas, já que vamos para sul. Meus amigos, garanto-vos que não são só descidas. Assim de repente lembro-me de uma subida até Santiago do Cacém, que depois de bastantes km, ninguém acredita o que custa, a não ser os que fizeram.
Ia eu a contar: há sete anos fomos para sul, sempre de bicicleta, a parar em parques de campismo. Dois dias antes tinha-nos dado na cabeça ir para longe de bicicleta. E estávamos à noite, no meu antigo renault 9 - e eu nem tinha a carta na altura - com um mapa aberto em cima do volante, a traçar metas completamente irrealistas, como verificariamos mais tarde.

"E um dia vamos até à Rússia!" - diziamos.

Foi tudo em cima do joelho. Portanto, não é de admirar que cada um de nós levasse 30 quilos às costas, em mochilas de campismo.

Podia-vos contar tantas coisas... podia falar de como chegámos a Setúbal, logo no primeiro dia, totalmente rotos, e não nos queriam deixar ficar no parque de campismo - que agora já não existe - porque não tinhamos carta de campista. Isto depois de uns 70 km.

Também podia falar da insolação que o Chico (o outro da dupla CC) apanhou nesse dia, e das latas de Nívea que tivemos de comprar. Ou das marcas com que ficou no peito e nos ombros, por causa das alças da mochila serem demasiado finas.

Ou então, podia falar da forma como chegámos já ao fim da tarde do 2º dia à Praia da Galé, já sem água, sem comida nenhuma há uma data de tempo, e quando estavamos a montar a tenda o Chico me disse "vou ao wc", e eu respondi "ok", e foi a única coisa que dissemos um ao outro em 3 horas, tal não era o cansaço.

Ou podia referir a forma como, no meio do nada, algures entre Porto-Covo e a Zambujeira, descobrimos um café com uns velhotes alentejanos que não acreditavam que vínhamos de Lisboa com aquelas malas. Íamos com t-shirts presas com corda de sisal à cabeça, de maneira que nos chamaram de Arafat's. E quiseram pagar-nos minis... mas só bebemos um sumol cada um.

E à chegada à Zambujeira, foi a minha vez de quebrar fisicamente. Sentados num muro cá em cima, lá em baixo a praia, devo ter comido umas 6 sandes de queijo em 10 minutos, e depois ficámos ali a descansar indefinidamente...

Depois, nessa noite de autêntico verão, comemos ali sentados na rua um frango assado, que deve ter sido o melhor que comi na vida.


Podia por fim contar-vos como chegámos a Lagos e nos disseram que afinal não podiamos meter as bicicletas no comboio e voltar para Lisboa, ao contrário do que nos tinham garantido na CP do Barreiro. E de como, nessa noite, as pessoas se afastavam de nós na rua com medo de sermos assaltantes.


Para que vos estou a contar tudo isto?

Tentem imaginar, 30 kg às costas, sem suporte nas bicicletas para levar malas. Uma páscoa como nunca vi, com tanto sol que já me custava andar na rua, quanto mais pedalar debaixo dele. 350 km - sim, porque as bicicletas não andam nas autoestradas. Estradas em mau estado, não como agora, que foram arranjadas...

Duas mudas de roupa, a contar com a que tinhamos no corpo. Sem colchões para dormir, era mesmo ali, corpinho contra as pedras bicudas. A comer Atum Ok (sim, a marca é mesmo esta: Atum Ok) com feijão frade e a beber litros de água (excepção para o frango e para os sumóis).

Chegámos a Lagos e eu tinha as duas t-shirts com buracos, rasgões... todos nós eramos pó, nódoas, arranhões, não sentiamos nada, e o que sentiamos doía-nos.

Não havia telemóveis. Havia uns gigantes, mas não tínhamos.
É só para que o pessoal perceba que não tem a noção das distâncias só por ter ido e vindo do algarve umas 500 vezes de carro. Não dá para ter noção. E é para terem também a percepção de que por mais que me chamem maluquinho, não vão entender nem a essência da coisa, nem a dificuldade que é.

Se custa tanto, porque é que vão outra vez? Podem perguntar isso.

Vamos porque... e é difícil de explicar isto, mas vou tentar... é uma enorme sensação de liberdade estar longe de casa, no meio do nada, só com a força do nosso próprio corpo. Sem depender de ajudas de carros de apoio, ajudas de telemóvel, ficar em pensões, comer refeiçõezinhas em restaurantes, e todos esses confortos.

Enquanto pedalamos pensamos em tudo. Temos muito mais tempo para reflectir sobre as nossas vidas, lembrarmo-nos de coisas que nunca lembrariamos no meio da cidade, nas nossas vidinhas normais. Talvez as pessoas que já fizeram os Caminhos de Santiago de Compostela possam ter uma compreensão desta parte. Mas... meus amigos, multipliquem por 3 o esforço. Sem querer tirar o mérito.

Naquela altura a viagem foi muito importante para nós dois, de tal maneira que ano após ano tentámos combinar repetir, sem êxito, devido à dificuldade de encontrar calendários compatíveis. Este ano surgiu a chance, embora tivessemos de fazer opções complicadas para podermos ter condições para ir.

Naquele ano tive de tomar decisões de mudança de vida radicais, e tenho a certeza que a viagem me ajudou a amadurecer ideias. E hoje estou certo de que tomei as melhores decisões.

Este ano também será de mudanças. Acabo o curso, tenho de estudar para um exame muito complicado em Novembro, e também há decisões a tomar. Conto com esta aventura para que me ajude, de novo, a tomar os caminhos certos, mas também para me reencontrar com quem eu era há 7 anos. Não há nada que eu conheça de mais poderoso do que uma viagem deste tipo, no esforço máximo, no sacrifício físico máximo, para retomar uma visão global de todas as coisas.
Uma nota para os dois totós que quiseram ir para Dakar de bicicleta. Tenho lido o blog deles, e se já tinha alguma desconfiança quando vi a reportagem da RTP na partida deles, agora ainda estou mais renitente.

Não quero de maneira nenhuma fazer-me superior, mas... há 7 anos, eu andava de bicicleta todos os dias, fazia 30 km diariamente. Jogava futebol 3 vezes por semana. Encontrava-me num pico de forma que nunca mais voltei a ter, e que, sinceramente, não via em mais ninguém à minha volta. Era um desportista autêntico, e quem me conhece pode assinar por baixo.

Fiz esta viagem, com 30 quilos às costas, é certo, mas ia mesmo em forma. Com uma bicicleta BTT, mas uma boa bicicleta BTT, bastante leve. Fui até Lagos, fiz 350 km, mais coisa menos coisa. E... meus amigos... nunca nada me custou tanto fisicamente. Custou-me pa caraças.

Antes de ter esta bicicleta, tive outras, do Continente e do Jumbo, baratinhas, que estoirei completamente nas minhas voltas diárias - e não foi a fazer downhill... foi só estrada. Rebentei a roda pedaleira, os pedais, o eixo da roda pedaleira, as jantes, os travões, até um quadro consegui partir.

E o que vejo são dois totós - desculpem lá mas eles têm cara de totós - com bicicletas dessas, a irem para o Dakar. E vejo em fotos, eles sempre a sorrir. Eles no deserto, de chinelos em cima da bicicleta. Eles, com a pele até bonitinha, sempre a sorrir! Eles a sair de Lisboa, com camisas e de calças, a pedalar em bicicletas que aquilo não tem ponta por onde se lhes pegue. E queixam-se de terem partido raios da bicicleta. Jovens, eu andei milhares de km e nunca parti um raio. Ah! E supostamente eles estavam super fora de forma e nunca tinham andado assim muito de bicicleta.
Quando fui a Lagos - e reparem, a distância não é comparável, fiquei todo FODIDO da pele. Caiu-me duas vezes em 6 dias. E eu não estive em África! Gostava de ter encontrado as fotos - sim, eu tirei fotos há 7 anos atrás, e não foram digitais - para poder provar umas coisas. Vou tornar a andar à procura delas.

Andar de bicicleta de chinelos não é uma opção. E calças? E as camisolas de malha com que eles aparecem, todos bonitos, nas fotos? Onde é que eles levam a tralha toda?

E mais... eu até consigo fazer 50 km de plano numa boa, mesmo em baixo de forma. No dia a seguir ando a coxear, com as pernas a parecerem troncos, mas consigo. Agora imaginar o dia a seguir, e depois, e depois e depois... indefinidamente até chegar ao destino... e aparecer a sorrir para a fotografia do blog? Jovens, a gente ao fim do dia nem falava um com o outro de tão descompensados que estávamos!
Queriam ir com 1000 euros até Dakar. Achei a ideia muito engraçada, mas... eu há 7 anos para ir até Lagos, exclusivamente pelos meus próprios recursos, gastei mais de 100 euros, e fui muito poupadinho. Fiquei em parques de campismo e comia enlatados (que levei, alguns deles! = mais peso às costas). Mas eles têm ajudas, ficam na casa de pessoal e tal, mas ... planearam ficar em pensões e jantar assim. 1000 euros? 1000 euros quase que não dá para sobreviver em casa dois meses, quanto mais ir para o Dakar de bicicleta. Nem à nossa maneira, quanto mais à deles!

Há aqui demasiadas coisas que não batem certo. E portanto, eu não acredito.

Mas, abro aqui uma dúvida razoável: se realmente for verdade e lhes estiver a custar pa caraças... dou a mão à palmatória. Só que aquele blog... parece que estão a passar férias num interrail.

Um dos maiores riscos que corremos é quando os camiões nos ultrapassam. Mas se vierem contra nós, eles é que vão capotar! Rijos!


Voltando à nossa viagem que começa amanhã: para vocês pode não significar nada, ou significar muito menos do que para nós. É verdade que existem riscos, mas eles estão minimizados. E o que pode acontecer é não chegarmos a Lagos. Estamos completamente em baixo de forma, estragadinhos pelo tabaco e pelo trabalho e estudo... e se agora parece mais fácil, estar a pensar nas dificuldades enquanto escrevo este texto... a verdade é que amanhã... vai custar pa caraças!

Quando voltar, talvez tenha algo para contar. Até ao meu regresso!

16 de abril de 2008

I might be Wrong IX - Não voltarei a ser... fiel



1 - MAC

Na fachada da maternidade, em vez de estar escrito Maternidade, podia estar escrito Hospício, hospital psiquiátrico, ou algo do género. Aquele traçado antigo não ficaria nada mal num filme como o "Voando sobre um ninho de cucos".Quando se entra lá dentro, as coisas não melhoram. Para começar, deram-me um cartão de estagiário, que ainda não sei para que serve, já que existem - supostamente - zonas interditas.
Depois de ter lá estado duas semanas a estagiar (e já estou a ser simpático com o verbo), estava eu às 8 e meia da manhã a abrir o cacifo com a chave que me deram, e que abro todos os dias, com o cartão na mão. Tencionava vestir a bata e preparar-me para mais umas horas de completa perda de tempo, quando um gigante de bata, com um ar algo oligofrénico, que vinha a passar no corredor, estaca e me dá dois "toquezinhos" com os dedos no ombro. "Não podes estar aqui!". Apeteceu-me dar-lhe uma chapada, mas tive a inconsciente lucidez de virar a mão para cima e mostrar o cartão, enquanto olhava para ele tentando não transparecer muita ira. "Ah... desculpe, Dr.".
Não. Eu havia de estar ali para quê? De certeza que havia partido o pescoço a alguém dali e roubado a chave de um cacifo, e agora ia furtar alguma coisa. Precisamente ali. Às 8 e meia da manhã. Ou não, eu estava ali para roubar bebés, com certeza. De dentro de cacifos.

O pessoal de lá é completamente doido e ilógico. Constroem portas de vidro - umas transparentes, outras translúcidas, mas que só impedem o acesso a determinadas áreas. Ainda por cima, algumas delas abrem-se se as empurrarmos um bocadinho de nada.Uma dessas áreas é o 2º piso, onde põem os cacifos dos estagiários. Agora sim, sinto-me muito mais seguro a deixar as minhas coisas no cacifo. Em vez de ter o meu dinheiro na conta do banco vou deixá-lo ali. Ah, mas espera. Existem dois outros caminhos pelo meio da maternidade, e que curiosamente até começam perto das salas de espera para consultas, ou seja, acessíveis ao público! Só falta porem uma pessoa em cada entrada da maternidade a distribuir flyers com um croqui a explicar como fazer para ir lá dar.

Para cúmulo, no primeiro piso estão as puérperas - e, portanto, os bebés. Podia entrar pela porta principal, dizer bom dia à segurança, elogiar-lhe o penteado, subir dois lanços de escada, virar à direita, entrar nos quartinhos sem as mamãs me verem, pegar num saquinho, roubar dois ou três putos, ir-me embora, passar para o outro lado do piso, ir desejar boa sorte às grávidas que ainda não pariram, voltar pelo mesmo caminho, perguntar à segurança se já lhe tinha dito que tinha um belo penteado, embalar os putos dentro do saco para pararem de chorar - ao que a segurança diria algo como: "tadinhos, devem estar com fome" - despedir-me e ir-me embora. E depois no dia a seguir vinha uma reportagem nos 4 canais sobre andarem malucos a roubar bebés na maternidade. A sério, sem medos. Não há portas magnéticas que vos impeçam! Go for it! O que é que pode correr mal?
Oh pá! Tomara eu não engravidar, com tantos estrogénios ali dentro! É as grávidas, é as enfermeiras, é as médicas. O ar lá dentro é amarelado!Em resumo: barra-se as portas aos estagiários, que estão lá para aprender e ser úteis no que lhes deixarem; mas se for para gamar bebés, acho que lá ninguém nos leva a mal. Se eu quisesse miúdos naturalizava-me francês, inscrevia-me numa associação humanitária e ia ao Chade! Ou então armava-me em Angelina Jolie ou em Madonna. Sempre viajava ao Vietname, Malawi, etc. Nunca iria acordar cedo e deslocar-me à maternidade.

A primeira vez que não percebi como funcionavam as portas, fui falar com as secretárias. "Então mas não lhe deram o cartão magnético?", "Não". "Ah, então não sei", "Mas eu sou estagiário, sou aluno do 6º ano...". "Não lhe posso abrir a porta. Mas olhe, vá ali pela escada e vire nas consultas e onde está um elevador torne a subir essas escadas até cá cima, e depois passa pelo meio do refeitório, e já vai dar aos cacifos".
Depois pensei: bom, vou passar pelo refeitório 10 vezes por dia, vindo das consultas de ginecologia, do bloco operatório, etc. Acho que deviam dar um prémio pela política de prevenção da contaminação naquela maternidade. O refeitório é, de facto, a pedra angular para os alunos da maternidade. Abundam os coffee brakes.

Adorava jogar paintball naquele edifício. É só passagens e passagenzinhas, com montes de obstáculos, pouca luz, elevadores. Ando ali perdido de bata e parece que estou a jogar ao Doom. Para ter acesso a determinada zona tenho que apanhar o cartão x, y, e k, carregar no botão h para abrir a porta, etc. É de gritos.Para ir ao bloco operatório é preciso ir vestido de forma própria. Pelos hospitais onde já passei, contíguo ao bloco existem balneários com muito vestuário de bloco operatório. Mas claro que ali tinha que ser diferente. "Olhe, desculpe, onde está a roupa?", "Não há. Vesti as últimas calças.", "E onde posso arranjar?", "Tem que ir às caves", Lá fui.
Nas caves há pouca luz, o estuque das paredes está todo rachado, ou então caído no chão. Há pó por todo o lado, algumas portas estão trancadas, outras não. Ouve-se o barulho de gotinhas a cair no chão - puoik... puoik... de resto, o silêncio domina. Ouvem-se os meus passos, crrsh, crrsh, no meio do entulho do chão. De rouparia, nem vê-la. De resto, ficaria muito surpreendido. Podiam-me aparecer ali zombies do Resident Evil (a sério, parece mesmo tirado do jogo) e caçadeiras no chão para apanhar e desatar ali aos tiros, que não só era mais divertido, como também era mais previsível do que descobrir ali a roupa do bloco operatório.Como não apareceu nenhum zombie para me limpar o cebo, resolvi vir-me embora.
Um bocado mais tarde, aconteceu-me o que não me acontecia desde os 14 anos: tive um ataque de asma. Parabéns, maternidade. Fumo pa caraças, ando exposto às intempéries, acampo, ando de bicicleta na primavera, estive em quase todos os hospitais de lisboa, e nunca mais tinha tido asma. Mas vocês conseguiram!

*

2 - Status

Ando chateado. Não é que na generalidade as coisas corram mal, porque não correm.Quando andava no 3º ou no 4º ano, diziam "Ah e tal, andas em medicina, deves ser um crânio, vais ter uma profissão muito bonita, mui nobre, depois a ver se me arranjas umas receitas e umas consultas", ao que eu respondia que não é bem assim, que algumas das mais gigantescas pedras com olhos que conheço andam em medicina, e espero que nunca precises da minha ajuda porque é bom sinal, essas coisas circunstanciais que se grasnam nessas ocasiões.Agora, quando me chamam Dr... há alturas em que preferia que me chamassem filho da puta. A sério que preferia. Era mais humano, menos hipócrita. "O... doooutor... ainda precisa do processo da cama 50?", "Oh ... doutoooor... saia-me da frente que tenho que ir fazer a higiene ao doente da cama 50", "A culpa também é do ... doutoooor... de isto da saúde em portugal andar assim!". Acabou-se a beleza. Agora sou um cabrãozão como os outros todos, vou ser muito rico e comer à conta dos doentes. Deviam-me meter numa saca de serapilheira com pulseiras com correntes nas mãos e pés e jogar-me ao tejo. "Não gosto de médicos" - é o que dizem agora.

Voltando à MAC: acreditam que vou ao tal refeitório beber café, chego à registadora para o pré-pagamento, digo bom dia, simpático e sorridente, e ficam a olhar para mim com cara de asnas (sim, também são mulhereS) à espera que eu faça o meu pedido? À primeira ou segunda vez deixei escapar. Mas a partir daí digo bom dia e fico calado a olhar, na expectativa. Passados vários segundos de processamento, lá vem o "Diga, faxavor.", "Então já não disse? Bom dia!". Ou então: "Diga você primeiro", "Digo o quê?", "Bom dia".

A ver se na segunda semana já não começaram a dizer bom dia.

Também vejo que entre colegas as coisas estão muito diferentes. Muito mais individualismo, pouca ou nenhuma preocupação entre supostos amigos. Algumas vezes até parece que se sentem como se os tivessem jogado para um poço, e mandado um pau para se degladiarem até à morte. In the end, there can only be one. É uma pena, entristece-me. Vejo muitas pessoas a perderem a perspectiva global das coisas e do que é realmente importante. Ou então talvez seja eu que me estou a armar aqui em velho sábio, não sei. Pelo menos é o que sinto.
*

3 - Mulheres

Depois de muito ter teorizado - e praticado, em boa verdade... - sobre mulheres, considero muito importante, mesmo muito importante, ter passado pela MAC para provar determinados pontos de vista e enriquecer a minha vivência. Já vi, vivi em primeira mão e ouvi em segunda mão, muitas coisas. E agora, nas consultas de obstetrícia já vi várias coisas interessantes. Vi mulheres a instalarem DIU's e calarem-se bem caladinhas para os maridos, que querem ter filhos. Vi outras a quererem fazer laqueação de trompas, porque os maridos pensaram em fazer vasectomias, e elas tinham medo de engravidar "por fora" e depois não poderem atribuir os filhos ao corno. Vi mulheres que descobriram que tinham DST's pelas análises, e chorarem quando se lhes dizia que tinham que trazer também os maridos para fazerem tratamento, "Mas eu não quero que ele saiba...".

Mas o melhor mesmo... foi quando a Dra, minha assistente, me disse uma frase marcante: "João, prepara-te. Tu vais ser sempre enganado". Não que eu não o soubesse já. Aliás, respondi-lhe sem pestanejar um "Eu sei". Mas ouvi-lo da boca de uma mulher!, jovem!, ginecologista!, é um outro nível de clarividência.

Tenho para mim que o maior mito, a maior mentira da humanidade, a maior vitória das mulheres, foi convencer os homens de que são mais inteligentes e têm o poder nas mãos. "Nem sabes a sorte que tens", dizem as mães aos filhos. Começa logo de tenra idade. Essa ideia vai-se inquinando, incrustando na cabeça dos rapazinhos, e fica para sempre.
Não pedia uma mãe como a de um colega meu, que sempre o avisou "Filho, olha que elas são todas umas putas". Mas quando me dizem naquelas conversas da treta que os homens são uns cabrões, ocorre-me imediatamente concordar, e acrescentar que as mulheres são umas cabras. Sim, porque eu gosto de partilhar a fama e as luzes da ribalta. Só acho que deviam ter vergonha na cara de se andarem a vitimizar por aí. Pensem lá bem se não andaram ou andam na podridão completa, e continuam a achar que só por serem mulheres podem acusar os homens. Vá lá, admitam. Vocês sabem que eu sei. Eu estava lá. Vocês sabem do que é que eu estou a falar.

Ocorreu-me, neste contexto, aquela estratégia clássica do homem que está com uma mulher pela primeira vez (ou não) e não o consegue "pôr em pé", e diz: "Não entendo, é a primeira vez que me acontece, desculpa". É sempre um bom escudo, protege-se o ego masculino desta forma.
Mas as mulheres têm uma estratégia semelhante para quando estão com homens pela primeira vez, e em circunstâncias pouco "lícitas" - "Que loucura, nunca me tinha acontecido isto". Desta maneira, protegem a sua honra feminina e reafirmam a sua não promiscuidade, ao mesmo tempo que fazem sentir ao homem que é tão especial que não resistiram.
Toda a gente fala na verdade e na sinceridade, mas cada vez mais acho que isso é tudo uma grande treta. O fair-play é uma treta. E para quem quiser vir comentar "ah, eu sou diferente", pergunte-se a si mesmo se vale a pena.
*

4 - Resoluções

Quando ando um bocado chateado comigo mesmo, dá-me na cabeça de ter ideias para mudar coisas. E em tempos difíceis que se avizinham, com os relatórios do mestrado, o enclausuramento do estudo para o exame de acesso à especialidade, o próprio exame... creio que é mesmo uma altura indicada para tal.

Resolução A - Consulta de cessação tabágica

Não vale a pena enganar-me. Está na altura de parar de fumar. Devo ser das pessoas mais estúpidas nesse capítulo do fumar, por todas as razões. Descobri que lá na MAC a assistente de um colega meu faz essas consultas, e vou lá amanhã. Vamos ver no que é que dá. Esperem notícias em breve. Não se preocupem, se não conseguir eu conto. Mentir para quê?

Resolução B - Evasão de estímulos nocivos

Todos nós temos pessoas que nos picam o miolo de vez em quando. Pessoas que descobriram que não gostam tanto de nós como um dia nos disseram, mas mesmo assim de vez em quando lhes dá na cabeça para nos contactarem, como que para testarem a influência que têm em nós. Não sei se é por uma questão de alimentar o ego, ou se é porque se sentem em determinada altura sozinhas, ou têm esgares de recordações. Às vezes não fazem por mal, não têm consciência.Essas pessoas são como abcessos cerebrais, ali escondidinhos por detrás das nossas defesas, e que aparentemente esperam a altura certa em que estamos mais vulneráveis para extravasarem e nos provocarem uma recaída generalizada.Parece que essas pessoas não percebem que, se algum dia gostaram de nós, se nos respeitam, devem deixar-nos num canto, sossegados.Eu sou adepto do tempo e da distância. Eventualmente esses abcessos curam ou ficam fibrosados, e mais tarde as cicatrizes ficam bem rijinhas. E até pode ser que tornemos a ser amigos delas.

Resolução C - Campistas-ciclistas, parte 2

Dia 26, se o clima o permitir, vou reeditar aquilo que fiz há uns anos. Vou de bicicleta para bem longe daqui durante uns dias. A forma já não é a mesma de há 7 anos atrás, mas mesmo assim acho que sou capaz. Como até lá não vai haver mais posts, prometo fotos da aventura.

Adeuzinho e até ao meu regresso!

25 de março de 2008

Há sempre lógica escondida num adeus

As perguntas mais inquietantes são aquelas que persistem, por mais elementares que sejam as respostas.


Abrandaram diante da casa enorme, a mais imponente daquele bairro. Ela já tinha passado ali perto sozinha várias vezes nos últimos dias. A sondar o movimento e a aura. A ganhar coragem. Hoje finalmente tinha chegado a altura da incursão.

O automóvel azul escuro, novinho em folha, acabou por se deter mesmo em frente à porta da casa. Era uma casa de traçado antigo, muito bem conservada; a fachada disparava para a rua várias janelas com portadas de madeira branca, dispostas por dois pisos, e protegidas por cortinas translúcidas. As paredes eram de pedra negra, e do telhado vermelho emergia uma enorme clarabóia panorâmica, de onde se podia sair para um minúsculo pátio. De resto, a casa era envolvida por um relvado bem cuidado, rodeado por uma cerca branca, que de tão baixinha que era, mais convidava a entrar do que a ficar do lado de fora.

As pessoas que passavam na rua - mesmo aquelas que ali viviam há anos e já conheciam bem a casa - paravam sempre a admirá-la. «Que bela casa!» - repetia alguém todos os dias. Afigurava-se-lhes, realmente, como a mais imponente do bairro, apesar de apenas conhecida pelo exterior. Dos donos, pouco ou nada sabiam.
- Tem cuidado. Não te demores, faz só o que tens a fazer e vem-te embora.

- Sim. Vou num pé e venho noutro.

- Olha que é mais fácil assim.

Olha para ela nos olhos, beija-a e vê-a a sair do carro. Afasta-se devagar, e vira ao fundo na esquina.

Ela respira aquele ar gelado do princípio da tarde. O sol branco, brilhante demais, bate nos resquícios de neve que ainda derretem no chão. De olhos quase fechados, aproxima-se a passos curtos e silenciosos da porta da casa, com uma caixa de cartão debaixo do braço esquerdo. Desfaz a neve com os pequenos sapatos, e a neve retribui molhando-lhe a ponta dos pés. Estaca diante da porta e sustém a respiração; o coração rebenta-lhe nas artérias do pescoço, a garganta palpita-lhe e os olhos enevoam-se com o nervosismo. Lança a mão direita à maçaneta gelada – é o último momento para voltar atrás. Mas não o faz.

Como imaginara, não estava trancada.

Entra decidida com a caixa na mão, e logo os passos ecoam na casa vazia, desviando pequenos montes de serradura e lascas de madeira dispersos pelo soalho. A casa cheira a madeira envernizada. O rés-do-chão não tem mobília, e conta apenas com a luz natural que vem de fora e penetra nas cortinas de tom creme-translúcido, que abanam devagaríssimo, quase imperceptivelmente, empoladas do ar que sopra pelos dois dedos de nesga de janelas esquecidas de fechar; essa luz difracta então em todas as direcções, e os raios, de ângulos amplificados, dançam caleidoscopicamente pelas paredes, tacteando as imperfeições do estuque, procurando indícios de passagens secretas.
Ouve-se música – sem dúvida proveniente do primeiro piso - a tocar bem alto; porém, perde força na viagem, e chega-lhe suave aos ouvidos…

«… when I was young, it seemed that life was so wonderful,
A miracle, oh it was beautiful, magical…»

… e na enorme sala, que constitui o rés-do-chão inteiro da casa, apenas impede a vista o desfilar de pequenos pilares de madeira que sustentam o tecto. A meio da sala, desmaiada ao fundo, uma escadaria clássica de madeira – carunchosa, porventura rangente – apresenta o caminho para o piso de cima. Por cima da balaustrada carcomida, alguns pingos de cera denunciam a ausência de luz eléctrica na casa; um bule fumegante, uma caneca e um açucareiro parecem esperar alguém…

«… teach me how to be sensible,
logical, responsible, practical…
and they showed me a world where I could be so dependable,
Clinical, intellectual, cynical…»

… e, por breves momentos, deixa-se atingir pelas sensações que aquela casa, apesar de decrépita, ainda lhe causa. Pousa então a caixa no chão, e, quando se vai a levantar, sente uma presença qualquer atrás de si. Olha por cima do ombro, ainda de cócoras, e vê um grande cão de pêlo dourado, que olha para ela, estático, à espera. Quando os olhares se cruzam, o cão aproxima-se de rabo a dar a dar e lambe-lhe o nariz. Abraça-o, afagando-lhe a cabeça e cantando-lhe as palavras da música à orelha…

«… at night, when all the worlds asleep,
The questions run so deep
For such a simple man…»

… até que o cão se solta dos seus braços, sobe as escadas e a deixa sozinha.

Então, faz que se levanta, mas olha novamente para a caixa, percorrida no topo por uma fita castanha que apenas finge que a encerra, tantas as vezes que já foi descolada e recolocada no mesmo sítio. Põe-se de joelhos, e as suas mãos abrem-na de novo; lança o olhar vago sobre o conteúdo; remexe-o uma última vez, lentamente, acariciando cada objecto, cada fotografia, como se quisesse sublinhá-los com os dedos na memória…

«… I know it sounds absurd,but please tell me who I am… »

… mas, num assomo de determinação, fecha de novo a caixa e levanta-se rapidamente em direcção à porta de casa. Repara então em duas pequenas caixas que não tinha visto, também elas de cartão, também elas fechadas por fica adesiva castanha, escondidas por um dos pilares de madeira,. Numa das faces de cada caixa, estavam escritas as suas iniciais. «Nem foi capaz de escrever o meu nome…» - pensou.

Pegou nas caixas sem intenção de as abrir. Mas os passos abrandaram-se-lhe, e os olhos enevoaram-se-lhe de novo. O coração começou a bater novamente mais depressa à medida que se aproximava da porta de casa para sair.

Voltou para trás.

Largou as caixas no mesmo sítio, subiu lentamente as escadas, de pernas a tremer, e chegou a um corredor. Estava mais escuro do que no rés-do-chão, mas conseguiu vislumbrar numa das paredes uma fileira de retratos de mulheres. À medida que ia percorrendo o longo corredor, os retratos emoldurados iam ficando mais amarelados, os penteados mais antigos, e os vestidos démodé.
Chegou então perto da porta do fundo, de onde emanava a música, agora mais acústica e calma, ouvindo com atenção e de riso nervoso a estalar-lhe na boca pelo ridículo da situação…

«…wave goodbye, wave goodbye…
You know I don't want to cry again
I'll never see your face again
I don't want to cry again…»

… e quase tropeçou num monte de molduras rachadas, encostadas à parede da direita. O coração baqueou e cortou-se-lhe a respiração. Ficou muito quieta a segurar nas molduras para que não caíssem, com tanta força que as farpas lhe penetraram por baixo das unhas até ao sabugo. Gemeu para dentro de dor.

«… wave goodbye, wave goodbye…»

Reparou melhor nas molduras imperfeitas. «O importante é não desistir e começar de novo se for preciso, não era o que dizias sempre?» - relembrou.
Aproximou-se e encostou o ouvido à porta, de respiração sustida. Para além da música, conseguia ouvir o ssrrRRT ssrrRRT de madeira a ser lixada. Ficou ali de ouvido preso e olhos fechados durante longos instantes, imaginando-o do outro lado, no seu atelier, a trabalhar. E cantava em uníssono, em voz muito baixinha, a música que só agora conhecia e a contagiava…

«… wave goodbye, wave goodbye…»

… até que sentiu um leve encostar de pêlo de cão de encontro às suas pernas. Tentou segurá-lo e dizer-lhe baixinho que estivesse quieto, mas já foi tarde: começou a raspar com as patas na porta. Queria entrar.

Conseguiu então acalmá-lo. Mas a música do outro lado da porta e o lixar da madeira calaram-se. Uma onda de calor e frio invadiu-lhe a cara e percorreu-lhe as costas até atingir os pés ainda molhados. Durante poucos segundos debateu-se com pensamentos confusos. O que fazer? Largou o cão, que ficou a olhar para ela, confundido. Queria que a porta se abrisse, mas não sabia se queria. Sentiu-se fraca e desamparada. Tudo aquilo lhe parecia sem sentido; toda aquela situação era um absurdo.

Quando estava disposta a abrir a porta, ouviu o barulho de um carro lá em baixo a esmagar a neve com os pneus e a parar.
Punho no ar, ar no peito, peito nas mãos.
Quando ia jogar a mão à maçaneta, sente no bolso do casaco o vibrar do telemóvel. O cão recomeçara a raspar a porta com as patas.

Vira costas, finta as molduras rachadas, e enquanto corre lança um último olhar à fila de retratos que tanto odiava. E do lado esquerdo do retrato mais recente ainda viu que estava um prego espetado na parede. Desceu as escadas rapidamente, deu um encontrão na bandeja do bule - que já não fumegava - por cima da balaustrada, e caiu tudo no chão. Pegou nas caixas encostadas ao pilar e saiu de casa. Esmagou com passos apressados o resto da neve do caminho de pedra que rasgava o relvado, e entrou no carro, ofegante.

- Vamos embora para o outro lado. Está muito frio.

*

E lá em cima, no primeiro piso, adivinha-se o rosto dele a espreitar o carro que virava a esquina, por entre uma cortina translúcida que abana imperceptivelmente ao sabor da sua respiração rítmica e profunda. Tornou a ligar a música.

«… take a look at my girlfriend
She's the only one I got
Not much of a girlfriend
Never seem to get a lot…»

«Bela música… do belo ano de 79» - pensou.

Abriu a porta ao cão e deu-lhe um safanão carinhoso na bochecha.
Voltou a lixar a moldura, quase pronta, enquanto pensava no rio, braço de mar que nunca tinha sentido tão largo como agora, a passar por debaixo de uma ponte que durante algum tempo imaginou feita de duas pessoas de mãos dadas.
«Porque é que eu não lhe disse? Provavelmente não acreditaria».

17 de março de 2008

Perturbação Humoristica #4

Tokyo Hotel cancelam concerto em Lisboa; fãs gritam e desmaiam








Raramente me ri tanto.